27 de maio de 2017

Capítulo 51 - Teirm

Naquela área, o litoral era composto de morros baixos, inclinados e verdejantes, com relva exuberante e eventuais arbustos espinhosos, salgueiros e choupos. A terra macia e enlameada cedia sob os seus pés e dificultava o caminhar. A sua direita havia o mar resplandecente. A esquerda dava para ver o contorno púrpura da Espinha. As fileiras de montanhas cobertas de neve estavam guarnecidas pelas nuvens e pela cerração.
Enquanto os companheiros de Roran se dirigiam para além das propriedades que rodeavam Teirm — algumas fazendas e alguns verdadeiros latifúndios —, faziam um grande esforço para passarem despercebidos. Quando encontraram a estrada que ligava Narda a Teirm, eles a atravessaram rapidamente e continuaram seguindo para o leste, na direção das montanhas, por mais alguns quilômetros antes de virarem para o sul novamente. Uma vez convictos de que haviam circundado a cidade, tomaram novamente a direção do oceano até encontrarem a estrada meridional.
Durante o tempo que passou no Javali Vermelho, ocorreu a Roran que os oficiais de Narda deduziriam que o assassino dos dois guardas estava entre os homens que partiram nas chatas de Clóvis. Sendo assim, mensageiros teriam avisado os soldados de Teirm para ficarem de olho em qualquer um cujas descrições batessem com as dos aldeões em questão. E se os Ra’zac haviam visitado Narda, então os soldados também sabiam que não estavam procurando apenas um punhado de assassinos, mas sim Roran Martelo Forte e os refugiados de Carvahall. Teirm poderá ser uma enorme armadilha. Contudo eles não podiam evitar a cidade, os aldeões precisavam de suprimentos e transporte.
Roran havia decidido que a melhor precaução a tomar contra a captura era não mandar para Teirm ninguém que havia sido visto em Narda, exceto Gertrude e ele — Gertrude porque só ela sabia quais eram os ingredientes para os remédios e Roran porque, embora estivesse mais penso a ser reconhecido, não confiava em mais ninguém para fazer o necessário. Ele sabia que possuía a coragem quando os outros hesitavam, como na vez em que matou os guardas. O resto do grupo foi escolhido para minimizar suspeitas. Loring era velho, mas era um bom guerreiro e excelente mentiroso. Birgit havia se mostrado forte e sagaz, e seu filho, Nolfavrell, já havia matado um homem em combate, apesar de sua tenra idade. Com sorte, não pareceriam nada mais do que uma família grande viajando. Quer dizer, se Mandel não jogar o plano por água abaixo, pensou Roran.
Também foi ideia de Roran entrar em Teirm pelo sul, e com isso fazer parecer mais improvável que eles tivessem vindo de Narda.
A noite estava se aproximando quando Teirm apareceu no horizonte, branca e fantasmagórica no crepúsculo. Roran parou para analisá-la. A cidade murada estava isolada na beira de uma ampla baía, fechada e inexpugnável. Algumas tochas brilhavam entre os merlões das ameias, os arqueiros patrulhavam seus circuitos intermináveis. Além das muralhas se erguia uma cidadela, e mais no topo ainda um farol facetado, que movia seu feixe de luz enevoado pelas águas escuras.
— É tão grande — disse Nolfavrell.
Loring virou a cabeça sem tirar os olhos de Teirm.
— Sim, e como.
Um navio amarrado em um dos quebra-mares de pedra chamou a atenção de Roran. A embarcação tinha três mastros, era maior do que qualquer uma que ele vira em Narda, tinha um castelo de proa alto, duas carreiras de toletes e doze poderosas balistas montadas em cada bordo do convés para lançar dardos. A magnífica embarcação parecia tão adequada ao comércio quanto à guerra. E o que era mais importante, Roran achava que ela poderia, poderia, abrigar toda o vilarejo.
— É daquilo que precisamos — disse ele, apontando. Birgit emitiu um grunhido amargo.
— Teríamos que nos vender como escravos para conseguirmos viajar naquele monstro.
Clóvis avisara que o portão de ferro de Teirm fechava ao cair do sol, por isso aceleraram o passo para evitar ter de passar a noite na zona rural. À medida que se aproximavam dos muros claros, a estrada foi ficando congestionada, havia dois fluxos acelerados de pessoas: uns entravam e outros saíam apressados de Teirm.
Roran não previrá tanto tráfego, mas logo percebeu que isso poderia proteger seu grupo de uma atenção indesejada. Acenando para Mandel, Roran disse:
— Fique um pouco para trás e siga uma outra pessoa quando atravessar o portão, para que os guardas não achem que você está conosco. Esperaremos por você do outro lado. Se eles perguntarem, você veio até aqui buscar um emprego como marinheiro.
— Sim, senhor.
Enquanto Mandel ficava para trás, Roran curvou um dos ombros, fingiu mancar, e começou a ensaiar a história que Loring havia forjado para explicar sua presença em Teirm. Ele saiu da estrada e abaixou a cabeça, quando um sujeito passou conduzindo uma parelha de bois pesados, grato pelas sombras que ocultaram suas feições.
O portão assomava à frente, lavado num vago tom laranja, por causa das tochas laterais da entrada. Mais abaixo havia dois soldados com as chamas entrelaçadas de Galbatorix costuradas na parte da frente de suas túnicas vermelhas. Nenhum dos homens armados chegou ao menos a reparar em Roran e seus companheiros enquanto eles passaram arrastando os pés por baixo do portão de ferro e pelo pequeno túnel que vinha logo depois.
Roran ajeitou os ombros e sentiu parte da sua tensão diminuir. Ele e os outros se reuniram no canto de uma casa, onde Loring murmurou:
— Até agora, tudo bem.
Quando Mandel se juntou novamente a eles, o grupo saiu para encontrar uma estalagem barata onde pudessem alugar um quarto.
Enquanto caminhavam, Roran estudou o desenho da cidade e de suas casas fortificadas — mais altas progressivamente quanto mais ao centro da cidadela — e as ruas gradeadas. Aquelas que iam do norte para o sul se projetavam da cidadela como se fossem raios de luz, enquanto as que iam do leste para o oeste se curvavam transversalmente e formavam um desenho de teia de aranha, criavam inúmeros nichos para barreiras e guarnições de com soldados.
Se Carvahall tivesse sido construída assim, pensou ele, ninguém poderia nos derrotar além do próprio rei.
Ao anoitecer eles já haviam conseguido se acomodar no Castanheiro Verde, uma taverna absolutamente repulsiva com uma cerveja péssima e camas infestadas de pulgas. Sua única vantagem era o preço baixo. Foram dormir sem jantar para economizar seu precioso dinheiro e se amontoaram para evitar que suas bolsas fossem roubadas por um dos outros hospedes da taverna.


No dia seguinte, Roran e seus companheiros deixaram o Castanheiro Verde antes do amanhecer para conseguir provisões e transporte. Gertrude disse:
— Ouvi histórias sobre uma herbolária notória chamada Angela, que vive aqui e supostamente trabalha com as curas mais fantásticas, usando até um toque de magia. Eu gostaria de ir vê-la, pois se alguém tem o que preciso, seria ela.
— Você não deve ir sozinha — disse Roran. Ele olhou para Mandel. — Acompanhe Gertrude, ajude-a com suas compras e faça o melhor possível para protegê-la caso sejam atacados. Se ficarem nervosos em alguns momentos, não façam nada que possa causar alarme, a não ser que vocês queiram denunciar seus amigos e sua família.
Mandel tocou no seu topete e acenou com a cabeça demonstrando obediência. Ele e Gertrude partiram traçando um ângulo reto ao descer por uma rua transversal, enquanto Roran e o resto retomavam a sua busca.
Roran tinha a paciência de um caçador, mas até mesmo ele começou a ficar inquieto quando a manhã e a tarde haviam se passado e o grupo ainda não havia encontrado um barco para levá-los a Surda.
Descobriu que o navio com três mastros, o Asa de Dragão, era recém construído e estava prestes a partir em sua viagem inaugural, eles não tinham a menor chance de alugá-lo da Companhia de Navegação Blackmoor, a não ser que pudessem pagar um quarto cheio com o ouro vermelho dos anões, e, na verdade, faltava dinheiro aos aldeões para pagar até mesmo a pior das embarcações. Nem as chatas de Clóvis resolveriam os seus problemas, pois ainda ficariam sem alimento durante a viagem.
— Seria difícil — disse Birgit — muito difícil, roubar mantimentos deste lugar, ainda mais com todos esses soldados, as casas muito próximas umas das outras e as sentinelas no portão. Se tentássemos transportar tudo isso para fora de Teirm, iriam nos interrogar.
Roran acenou positivamente. Era verdade.
Roran havia sugerido a Horst que, se os aldeões fossem forçados a fugir de Teirm apenas com suas provisões restantes, poderiam fazer um ataque repentino em busca de comida. No entanto, ele sabia que tal ato significaria que seus homens haviam se tornado tão monstruosos quanto seus inimigos. Não tinha estômago para isso. Uma coisa era enfrentar e matar aqueles que serviam a Galbatorix — ou até mesmo roubar as barcaças de Clóvis, já que o dono das embarcações tinha outras maneiras de se manter — e era outra coisa totalmente diferente pegar os mantimentos de fazendeiros inocentes que lutavam para sobreviver tanto quanto os aldeões do vale Palancar. Seria assassinato.
Os fatos pesavam sobre Roran como pedras. Sua aventura sempre fora na melhor das hipóteses, parcial, sustentava-se em partes iguais de medo, desespero, otimismo e improvisação. Agora ele conduzira os aldeões para o covil dos seus inimigos e os atrelara à sua própria pobreza. Eu poderia escapar sozinho e continuar minha busca por Katrina, mas que vitória eu teria se deixasse meu vilarejo ser escravizada pelo Império? Seja qual for nosso destino em Teirm, me manterei firme com aqueles que confiaram em mim o suficiente para abandonar suas casas, por acreditarem em minhas palavras.
Para aliviar sua fome, pararam numa padaria e compraram uma bisnaga de pão de centeio que havia acabado de sair do forno junto com um potinho de mel para nela passar. Enquanto pagava, Loring mencionou para o ajudante do padeiro que eles estavam atrás de barcos, equipamento e comida.
Bastou um tapa no ombro para Roran se virar. Um sujeito com cabelo negro e áspero, e uma barriga grande e dura disse:
— Perdoem-me por ficar escutando sua discussão com o jovem mestre, mas se vocês estão atrás de navios, e querem pagar um preço justo, então imagino que gostariam de participar do leilão.
— Que leilão é esse? — perguntou Roran.
— Ah, é uma história triste, muito, mas muito comum nos dias de hoje. Um dos nossos comerciantes, Jeod — Jeod Perna-de-pau, como é chamado à boca miúda —, é um dos sujeitos mais azarados que eu conheço. Em menos de um ano, ele perdeu quatro dos seus navios e, quando tentou enviar suas mercadorias por terra, a caravana caiu numa emboscada e foi destruída por alguns ladrões foragidos. Seus investidores o forçaram a declarar falência e agora venderão suas propriedades para recuperar as perdas. Não sei sobre comida, mas vocês com certeza encontrarão tudo o mais que estão querendo comprar no leilão.
Um leve suspiro de esperança se acendeu no peito de Roran.
— E quando o leilão será realizado?
— Ora, ele está afixado em todos os quadros de avisos espalhados pela cidade. Depois de amanhã, com certeza.
Isso explicava por que eles não sabiam do leilão, os aldeões evitaram os quadros de avisos, a fim de não correrem o risco de alguém reconhecer Roran.
— Muito obrigado — disse ele para o sujeito. — Você pode ter nos poupado de muitos problemas.
— O prazer foi meu.
Ao saírem da padaria, Roran e seus companheiros se amontoaram na beira da calçada. Ele disse:
— Vocês acham que devíamos ir lá?
— E só o que podemos fazer — murmurou Loring.
— Birgit?
— Vocês não precisavam me perguntar, é óbvio. Não podemos esperar até depois de amanhã, contudo.
— Não. Acho que podíamos tentar nos encontrar com esse Jeod e ver se poderíamos fazer um acordo com ele antes do leilão começar. Estamos combinados?
Todos concordaram. Seguiram até a casa de Jeod, depois de receber dicas de um transeunte. A casa — melhor dizendo, mansão — estava erguida na zona oeste de Teirm, perto da cidadela, era vizinha de vários outros prédios opulentos adornados com belos arabescos, portões de ferro, estátuas e fontes. Roran mal podia compreender tamanha riqueza, ficara perplexo em constatar como as vidas destas pessoas eram diferentes da sua. Roran bateu na porta da frente da mansão de Jeod, situada ao lado de uma loja fechada. Pouco depois, a porta foi aberta por um mordomo roliço que ostentava dentes excessivamente brilhantes. Ele olhou para os quatro estranhos da entrada, com ar de desaprovação, para depois exibir os dentes e perguntar:
— Como posso ajudá-los, senhores e senhora?
— Gostaríamos de falar com Jeod, caso ele possa nos receber.
— Vocês marcaram um encontro?
Roran achava que o mordomo sabia perfeitamente bem que não.
— Nossa estada em Teirm é breve demais para que possamos marcar um encontro apropriado.
— Ah, bem, então lamento dizer que o seu tempo teria sido melhor gasto em outra parte. Meu mestre tem muitos assuntos para resolver. Ele não pode dar atenção a tudo quanto é grupo de vagabundos esfarrapados que bate em sua porta, pedindo roupas e comidas — disse o mordomo. Ele mostrou mais alguns dos seus dentes vítreos e começou a fechar a porta.
— Espere! — gritou Roran. — Não estamos querendo roupas, temos uma proposta comercial para Jeod.
O mordomo levantou uma das sobrancelhas.
— É isso mesmo?
— Sim, claro. Por favor, peça-o para nos ouvir. Já percorremos mais léguas do que você jamais irá conhecer e é imperativo que vejamos Jeod hoje.
— Posso saber qual é a natureza da proposta?
— É confidencial.
— Muito bem, senhor. Levarei sua oferta, mas já aviso que Jeod está ocupado no momento e duvido que ele queira ser interrompido. Como devo anunciá-lo, senhor?
— Você pode me chamar de Martelo Forte. — A boca do mordomo se contraiu, como se ele tivesse achado o nome engraçado, e depois ele passou para trás da porta e a fechou.
— Se sua cabeça fosse um pouco maior, não poderíamos enfiá-la numa privada — murmurou Loring com o canto da boca. Nolfavrell deu uma gargalhada.
Birgit disse:
— Vamos esperar que o servo não imite o mestre.
Um minuto depois, a porta abriu novamente e o mordomo anunciou, com uma expressão um tanto irritada:
— Jeod concordou em encontrá-los na sala de leitura. — Ele andou para o lado e gesticulou, com um dos braços, para que eles seguissem em frente. — Por aqui. — Depois que adentraram o recinto pela suntuosa passagem, o mordomo passou por eles, seguiu por um corredor de madeira polida e abriu uma de muitas portas, indicando para que entrassem.

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