27 de maio de 2017

Capítulo 50 - Terra à vista

Roran estava de pé no tombadilho do Javali Vermelho, tinha os braços cruzados na altura do peito e mantinha os pés separados para equilibrar-se no barco. O vento salgado deixava o seu cabelo ouriçado, puxava a sua barba espessa e fazia cócegas nos pelos dos seus antebraços expostos.
Ao seu lado, Clóvis manobrava a cana do leme. O marinheiro bronzeado apontou na direção da costa, para uma pedra coberta de gaivotas, cuja silhueta aparecia no topo de uma colma que se estendia para dentro do oceano.
— Teirm está do outro lado daquele pico.
Roran, com os olhos semicerrados, encarou o sol da tarde, cujo reflexo se estendia pelo oceano numa faixa luminosa e ofuscante.
— Vamos parar aqui, por enquanto.
— Você não quer entrar logo na cidade?
— Não podemos ir todos nós de uma vez só. Chame Torson e Flint e faça com que eles conduzam as barcaças para aquela praia. Parece ser um bom lugar para acampar.
Clóvis fez uma careta.
— Arrgh. Estava esperando que fosse ter uma boa refeição quente hoje à noite. — Roran entendeu. A comida fresca de Narda já havia sido devorada há muito tempo, agora tinham apenas carne de porco salgada, arenque salgado, repolho salgado, bolachas que os aldeões haviam feito com a farinha comprada, vegetais conservados em salmoura e a carne fresca só quando os aldeões resolviam matar um dos poucos animais que restavam ou conseguiam caçar quando desembarcavam.
A voz áspera de Clóvis ecoou por sobre a água ao berrar para os capitães das outras duas chatas. Quando se aproximaram, ordenou que os dois seguissem para a praia, para seu gritante desprazer. Eles e os outros marujos estavam certos de que alcançariam Teirm naquele dia e que desperdiçariam o seu pagamento com os prazeres da cidade.
Depois que as chatas chegaram à praia, Roran andou entre os aldeões e os ajudou a montar tendas aqui e acolá, descarregaram equipamento e pegaram água num rio próximo, ele ofereceu sua ajuda até que dos estivessem acomodados. Deteve-se para dar a Morn e a Tara uma palavra de estímulo, pois os dois pareciam estar desesperados, mas recebeu uma resposta comedida. O dono da taverna e sua esposa estavam mantendo uma certa distância dele desde que deixaram o vale Palancar. No todo, os aldeões estavam em melhores condições do que quando chegaram a Narda, devido ao tanto que puderam descansar nas barcaças, mas a preocupação constante e a exposição a condições severas evitaram que eles pudessem se recuperar tão bem quanto Roran esperava.
— Martelo Forte, você vai cear conosco, na nossa tenda, hoje à noite? — perguntou Thane, vindo na direção de Roran.
Roran declinou do convite da forma mais elegante possível, virou-se e se viu cara a cara com Felda, cujo marido, Byrd, havia sido assassinado por Sloan. Ela se curvou, numa rápida reverência, e depois disse:
— Posso falar com você, Roran Garrowson?
Ele lhe sorriu.
— Sempre, Felda. Você sabe disso.
— Obrigada. — Com uma expressão furtiva, ela tateou a barra do seu xale e se voltou na direção de sua tenda. — Gostaria de lhe pedir um favor. Tem a ver com Mandel — Roran acenou com a cabeça, ele havia escolhido seu filho mais velho para acompanhá-lo na fatídica ida a Narda, na qual matou os dois guardas. Mandel havia se portado de maneira admirável, assim como o fez nas semanas em que tripulou o Edeline e aprendeu o que podia sobre como pilotar as chatas. — Ele se afeiçoou aos marinheiros da nossa barcaça e começou a jogar dados com aqueles homens sem lei. Não por dinheiro, pois não temos nenhum, mas por pequenas coisas. Coisas das quais precisamos.
— Você pediu para ele parar?
Felda começou a enroscar os fios da barra do xale.
— Temo que, desde que seu pai morreu, ele não me respeite mais, como antes. Meu filho se tornou um homem arredio e teimoso.
Todos nós ficamos arredios, pensou Roran.
— E o que você quer que eu faça em relação a isso? — perguntou ele, delicadamente.
— Você já agiu de forma generosa com Mandel. Ele o admira. Se você conversar com ele, vai escutá-lo.
Roran considerou o pedido, depois disse:
— Muito bem, farei o que puder. — Felda se curvou, aliviada. — Diga-me, aliás, o que ele perdeu nos dados?
— Comida, principalmente. — Felda hesitou e depois acrescentou. — Mas sei que ele colocou em risco o bracelete da minha avó, em troca de um coelho que aqueles homens haviam capturado.
Roran franziu a testa.
— Acalme seu coração, Felda. Vou resolver o assunto assim que puder.
— Obrigada. — Felda fez outra reverência, depois sumiu no meio das tendas improvisadas, deixou Roran refletindo sobre o que ela havia acabado de dizer.
Ele ficou coçando a barba distraidamente enquanto andava. O problema com Mandel e os marinheiros tinha duas faces, Roran havia notado que, desde que os barcos partiram de Narda, um dos homens de Torson, Frewin, havia ficado mais íntimo de Odele, uma jovem amiga de Katrina. Eles podem vir a causar problemas quando nos separarmos de Clóvis.
Tomando cuidado para não atrair atenção indevida, Roran atravessou o acampamento, reuniu os aldeões nos quais ele mais confiava e os fez acompanharem-no até a tenda de Horst, onde disse:
— Os cinco sobre os quais concordamos partirão agora, antes que fique muito tarde. Horst irá ficar no meu lugar enquanto eu estiver distante. Lembrem-se de que sua tarefa mais importante é a de garantir que Clóvis não se vá com as barcaças ou as danifique de alguma maneira. Elas podem vir a ser o nosso único meio de alcançar Surda.
— Além disso, tomem cuidado para que não sejamos descobertos — comentou Orval.
— Exatamente. Se nenhum de nós tiver retornado ao cair da noite de depois de amanhã, aceitem que fomos capturados. Peguem as barcaças. Sigam para Surda, mas não parem em Kuasta para comprar mantimentos, pois o Império provavelmente estará por lá esperando. Vocês terão que encontrar comida em outro lugar.
Enquanto seus companheiros se preparavam, Roran foi até a cabine de Clóvis no Javali Vermelho.
— Só vão vocês cinco? — exigiu saber Clóvis depois que Roran explicou o seu plano.
— Isso mesmo. — Roran fitou Clóvis com seu olhar firme até o sujeito ficar inquieto. — E quando eu voltar, espero que você, estas barcaças e todos os seus homens ainda estejam aqui.
— Você ousa questionar a minha honra depois de tudo o que fiz para manter o nosso acordo?
— Não estou questionando nada, só estou lhe dizendo o que espero. Há muita coisa em jogo. Se você nos trair agora, condenará todo o nosso vilarejo à morte.
— Eu sei disso — murmurou Clóvis, evitando os seus olhos.
— Minha gente irá se defender durante a minha ausência. Enquanto houver ar em seus pulmões, eles não se renderão, não se enganarão nem serão abandonados. E se o infortúnio lhes sobreviesse, eu os vingaria mesmo se tivesse que andar mil léguas e enfrentar o próprio Galbatorix. Preste atenção nas minhas palavras, mestre Clóvis, pois falo a verdade.
— Não gostamos tanto do Império quanto você parece acreditar — protestou Clóvis. — Eu não lhes faria um favor maior do que ao meu vizinho.
Roran sorriu num deleite inflexível.
— Os homens farão tudo para proteger suas famílias e seus lares.
Enquanto Roran levantava o trinco da porta, Clóvis perguntou:
— E o que você fará assim que chegarem a Surda?
— Nós iremos...
— Nós não: você. O que você fará? Eu o observei, Roran. Eu o ouvi. E você me parece ser um bom sujeito, mesmo que eu não goste do jeito com o qual lida comigo. Mas não consegue entrar na minha cabeça que você vá largar o seu martelo e pegar na enxada novamente, só porque chegou a Surda.
Roran apertou o trinco até suas articulações ficarem esbranquiçadas.
— Quando eu tiver deixado o vilarejo inteiro em Surda — disse com uma voz tão vazia quanto um deserto enegrecido — daí poderei sair para caçar.
— Ah. Vai sair atrás daquela sua namorada ruiva? Ouvi essa conversa circulando por aí, mas eu não...
A porta bateu atrás de Roran depois que ele saiu da cabine. Ele deixou sua raiva arder por um instante — aproveitando a liberdade da emoção — antes de começar a reprimir seus sentimentos rebeldes. Ele seguiu até a tenda de Felda, onde Mandel estava jogando uma adaga numa tora.
Felda tem razão, alguém tem que botar algum juízo nesse garoto.
— Você está perdendo o seu tempo — disse Roran. Mandel se virou, surpreso.
— Por que você está dizendo isso?
— Numa luta de verdade, você está mais propenso a perder o olho do que a ferir o seu inimigo. Se não souber a distância exata entre você e o alvo... — Roran encolheu os ombros. — Você pode até mesmo arremessar pedras.
Ele observou meio desinteressado enquanto o homem mais jovem falava cheio de orgulho.
— Gunnar me falou de um homem que conheceu em Cithrí que podia acertar um corvo em pleno voo oito em cada dez vezes com sua faca.
— E numa das duas outras vezes você é morto. Normalmente é uma péssima ideia jogar a sua arma durante uma batalha. — Roran fez um sinal com a mão, para se prevenir contra as objeções de Mandel. — Pegue o seu equipamento e me encontre na montanha perto do riacho daqui a quinze minutos. Decidi que você deve ir conosco até Teirm.
— Sim, senhor! — Com um sorriso entusiasmado, Mandel se enfiou dentro da tenda e começou a arrumar suas coisas.
Enquanto Roran saía, deu de cara com Felda, que carregava sua filha mais nova apoiada num dos quadris. Felda lançou o olhar para Roran e em seguida para a movimentação de Mandel dentro da tenda, e seu rosto se contraiu.
— Mantenha-o em segurança, Martelo Forte. — Ela pôs a sua filha no chão e depois saiu apressada para ajudar Mandel a juntar os itens de que iria precisar.
Roran foi o primeiro a chegar ao morro. Ele se acocorou numa pedra branca, grande e arredondada pela erosão e ficou olhando para o mar enquanto se preparava para a tarefa que tinha pela frente. Quando Loring, Gertrude, Birgit e Nolfavrell, filho de Birgit, chegaram, Roran pulou da pedra e disse:
— Temos de esperar por Mandel, ele se juntará a nós.
— Para quê? — perguntou Loring. Birgit também franziu a testa.
— Pensava que tínhamos concordado que ninguém deveria nos acompanhar. Principalmente Mandel, já que ele foi visto em Narda. Já é bastante perigoso ter você e Gertrude por perto, e Mandel só aumentará as chances de que alguém venha a nos reconhecer.
— Vou correr o risco. — Roran fitou cada um deles de volta. — Ele precisa vir. — No fim das contas, todos o ouviram e, com Mandel, os seis seguiram para o sul, rumo a Teirm.

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