22 de maio de 2017

Capítulo 50 - Caçando respostas

— Por aqui — disparou o homem calvo. Ele deu um passo atrás, mantendo a adaga pressionada embaixo do queixo de Murtagh, depois se virou para a direita, desaparecendo por um portal arqueado. Os guerreiros o seguiram com cautela, suas atenções estavam concentradas em Eragon e Saphira. Os cavalos foram levados para um túnel diferente.
Chocado com todos aqueles eventos, Eragon foi atrás de Murtagh. Ele olhou de relance para Saphira para confirmar se Arya ainda estava presa a seu dorso.
Ela precisa tomar o antídoto! Pensou ele freneticamente, sabendo que o veneno Skilna Bragh ainda realizava seu propósito fatal no corpo dela.
Entrou depressa pelo portal arqueado, passando para um corredor estreito atrás do homem calvo.
Os guerreiros mantiveram suas armas apontadas para ele. Passaram depressa por uma escultura de um animal peculiar com penas longas. O corredor fazia uma curva acentuada para a esquerda, depois, para a direita. Uma porta abriu-se, e eles entraram em uma sala vazia que tinha espaço bastante para Saphira movimentar-se com tranquilidade. Ouviu-se um baque seco quando a porta foi fechada, depois houve o barulho alto de um trinco fechando-se do lado de fora.
Eragon examinou lentamente o ambiente que o cercava, apertando com força o cabo de Zar’roc. As paredes, o piso e o teto eram feitos de mármore branco polido, que refletia uma imagem fantasmagórica de todos os presentes, como um espelho de leite talhado. Havia um lampião estranho pendurado em cada canto.
— Há uma pessoa ferida... — Ele começou, mas um gesto abrupto do homem calvo o interrompeu.
— Não fale! Isso deve esperar até que você tenha sido testado. — Ele empurrou Murtagh em direção a um dos guerreiros, que encostou uma espada no pescoço do rapaz. O homem calvo entrelaçou as mãos suavemente. — Retire as suas armas e jogue-as para mim. — Um anão soltou a espada de Murtagh, e a arma caiu no chão produzindo um baque metálico.
Detestando a ideia de se separar de Zar’roc, Eragon soltou a bainha e a colocou, junto com a espada, no chão. Ele pôs seu arco e suas flechas ao lado da espada e empurrou a pilha em direção aos guerreiros.
— Agora, afaste-se do seu dragão e aproxime-se de mim lentamente — ordenou o homem calvo.
Confuso, Eragon andou para a frente. Quando eles estavam a um metro de distância, o homem disse:
— Pare aí! Agora, abaixe as defesas em volta da sua mente e permita que eu inspecione seus pensamentos e suas lembranças. Se tentar esconder alguma coisa de mim, pegarei o que quero usando a força... O que poderá enlouquecê-lo. Se você não permitir, seu amigo será morto.
— Por quê? — perguntou Eragon horrorizado.
— Para ter certeza de que você não está a serviço de Galbatorix e para saber por que centenas de Urgals estão batendo na nossa porta — resmungou o homem calvo. Os olhos dele, que eram muito próximos um do outro, deslocavam-se de ponto a ponto com uma velocidade incrível. — Ninguém pode entrar em Farthen Dûr sem ser testado.
— Não há tempo! Precisamos de um curandeiro! — protestou Eragon.
— Silêncio! — rugiu o homem, apertando o manto com seus dedos finos. — Até que você seja examinado, suas palavras serão inúteis!
— Mas ela está morrendo! — retrucou Eragon zangado, apontando para Arya. Eles estavam em uma posição perigosa, mas ele não deixaria que nada fosse feito até que Arya fosse tratada.
— Isso terá de esperar! Ninguém sairá daqui até que tenhamos descoberto a verdade por trás disso tudo! A não ser que você queira...
O anão que salvou Eragon no lago deu um pulo para a frente.
— Você está cego, Egraz Carn? Não está vendo que há uma elfa no dragão? Não podemos deixá-la aqui se estiver em perigo. Ajihad e o rei cortarão nossas cabeças se a deixarmos morrer!
O homem apertou os olhos com raiva. Depois de um instante, relaxou e disse baixinho:
— Claro, Orik, não poderíamos deixar isso acontecer. — Ele estalou os dedos e apontou para Arya. — Removam-na do dragão. — Dois guerreiros humanos embainharam suas espadas e, hesitantes, aproximaramse de Saphira, que os observava atentamente. — Depressa! Depressa!
Os homens soltaram Arya da sela e colocaram-na no chão. Um dos homens examinou o rosto dela e disse de repente:
— É a portadora dos ovos de dragão, Arya!
— O quê? — exclamou o homem calvo. Orik, o anão, arregalou os olhos com a surpresa. O homem calvo fixou seu olhar frio em Eragon e disse sem rodeios: — Você tem muito o que explicar.
Eragon devolveu aquele olhar intenso com toda a determinação que lhe era possível.
— Ela foi envenenada com Skilna Bragh enquanto estava presa. Só o néctar de Túnivor pode salvá-la agora.
A expressão no rosto do homem calvo ficou inescrutável. Ele estava em pé, imóvel, exceto por seus lábios, que se contorciam ocasionalmente.
— Muito bem. Levem-na aos curandeiros e digam o que ela precisa. Vigiem-na até que a cerimônia esteja encerrada. Depois, terei novas ordens para vocês. — Os guerreiros concordaram com a cabeça sumariamente e levaram Arya para fora da sala. Eragon os observou saindo, desejando poder acompanhá-la.
As atenções dele voltaram de repente para o homem calvo quando ele disse:
— Chega disso. Já perdemos tempo demais. Prepare-se para ser examinado.
Eragon não queria que aquele homem careca e ameaçador entrasse na mente dele, expondo todos os seus pensamentos e sentimentos, mas ele sabia que seria inútil resistir. O clima estava tenso. O olhar de Murtagh ardia em sua testa. Finalmente, ele inclinou a cabeça.
— Estou pronto.
— Ótimo, então...
Ele foi interrompido quando Orik disse de repente:
— É melhor que você não o machuque, Egraz Carn, pois o rei não vai gostar disso.
O homem olhou para o anão de modo irritado, e, depois, encarou Eragon com um pequeno sorriso no rosto.
— Só se ele resistir. — Ele abaixou a cabeça e cantou várias palavras inaudíveis.
Eragon suspirou, devido à dor e à surpresa, quando uma sonda mental abria caminho em sua mente. Os olhos dele viraram-se para cima em suas órbitas, e Eragon começou a levantar barreiras em volta de sua mente. O ataque era incrivelmente poderoso.
Não faça isso! Gritou Saphira. Seus pensamentos juntaram-se aos dele, deixando-o mais forte. Você está colocando Murtagh em risco! Eragon hesitou, rangeu os dentes e forçou a si mesmo a baixar suas proteções, expondo-se à sonda voraz. Decepção emanou do homem calvo. O ataque dele se intensificou. A força que vinha da mente dele parecia ser deteriorada e imperfeita, havia algo profundamente errado naquilo tudo.
Ele quer que eu lute com ele! Gritou Eragon quando uma nova onda de dor o atingiu. Um segundo depois, a dor passou, somente para ser substituída por outra onda idêntica. Saphira fez o melhor que pôde para ajudar, mas nem ela foi capaz de bloqueá-la por completo.
Dê o que ele quer, disse ela rapidamente, mas proteja todo o resto. Ajudarei você. A força dele não se compara à minha, já estou ocultando nossa conversa dele.
Então, por que ainda dói?
A dor vem de você.
Eragon apertou os olhos quando a sonda penetrou mais fundo, procurando informações. Parecia um prego que estava sendo enfiado em seu crânio. O homem calvo achou as memórias da infância dele e começou a revistá-las.
Ele não precisa disso, tire-o daí, resmungou Eragon zangado.
Não posso, a não ser que coloque você em perigo, disse Saphira. Posso esconder coisas dele, mas tenho de fazer isso antes que ele as alcance. Pense rápido e me diga o que quer manter escondido!
Eragon tentou concentrar-se apesar da dor. Percorreu suas memórias, começando de quando achou o ovo de Saphira. Escondeu partes de suas conversas com Brom, incluindo todas as palavras da língua antiga que havia aprendido. Em suas viagens pelo vale Palancar, Yazuac, Daret e Teirm quase não mexeu em nada. Mas pediu para Saphira esconder tudo de que ele se lembrava sobre Angela, a vidente, e sobre Solembum.
Pulou o roubo que fizeram em Teirm para a morte de Brom, para sua prisão em Gil’ead e para as revelações de Murtagh sobre sua verdadeira identidade.
Eragon também queria esconder aquilo, mas Saphira hesitou.
Os Varden têm o direito de saber a quem darão abrigo, especialmente se for o filho de um Renegado!
Esconda logo isso, disse ele nervoso, lutando contra outra onda de agonia. Não serei eu quem vai desmascará-lo, pelo menos, não para esse homem.
Isso será descoberto assim que Murtagh for examinado, alertou Saphira com severidade.
Apenas esconda.
Com as informações importantes escondidas, não havia mais nada para Eragon fazer do que esperar o homem calvo terminar sua inspeção.
Era como ficar sentado, sem se mexer, enquanto as suas unhas eram arrancadas com alicates enferrujados. O seu corpo inteiro ficou rígido, suas mandíbulas estavam fechadas com força. Calor irradiava de sua pele, e um fio de suor corria em seu pescoço. Sentiu cada segundo passar dolorosamente enquanto os longos minutos se arrastavam.
O homem calvo abriu caminho entre as lembranças dele lentamente, como se fosse uma videira espinhosa rompendo barreiras em busca da luz do sol. Prestou muita atenção a coisas que Eragon achava irrelevantes, como a mãe dele, Selena, e parecia que se demorava de propósito, como se quisesse aumentar seu sofrimento. Passou um longo tempo examinando as memórias de Eragon sobre os Ra’zac e, em seguida o Espectro. Só depois que suas aventuras foram analisadas exaustivamente é que o homem calvo começou a retirar-se da mente de Eragon.
A sonda saiu parecendo uma farpa que era extraída. Eragon tremeu, cambaleou e caiu no chão.
Braços fortes ampararam-no no último segundo, deitando-o no chão de mármore frio. Ele ouviu Orik exclamar atrás dele:
— Você foi longe demais! Ele não estava forte o bastante para isso!
— Ele viverá. É o que basta — respondeu o homem calvo de forma breve.
Ouviu-se um resmungo zangado.
— O que você descobriu?
Silêncio.
— Então, ele é confiável ou não?
As palavras saíram de forma relutante.
— Ele... Não é nosso inimigo. — Ouviram-se suspiros de alívio em toda a sala.
Os olhos de Eragon abriram-se, trêmulos. Ele cuidadosamente tentou ficar em pé.
— Devagar, agora — disse Orik, passando um braço forte em volta dele, ajudando-o a ficar de pé.
Eragon cambaleou, olhando fixamente para o homem calvo. Um rosnado baixo ecoou na garganta de Saphira.
O homem calvo ignorou-os. Ele voltou-se para Murtagh, que ainda estava detido sob a lâmina da espada.
— Agora, é a sua vez.
Murtagh retesou o corpo e balançou a cabeça. A espada cortou levemente o seu pescoço. O sangue escorreu pela sua pele.
— Não.
— Você não será protegido aqui se recusar.
— Eragon foi declarado confiável, então não pode ameaçar matá-lo para me influenciar. Já que não pode fazer isso, nada que você disser ou fizer me convencerá a abrir minha mente.
Olhando e sorrindo com desprezo, o homem calvo levantou o que teria sido uma sobrancelha, se ele tivesse alguma.
— E a sua própria vida? Ainda tenho isso para ameaçar.
— Isso não lhe adiantaria nada — disse Murtagh com frieza e com tanta convicção que era impossível duvidar de suas palavras.
O homem calvo explodiu com raiva:
— Você não tem escolha! — Ele deu um passo à frente e colocou a palma de sua mão na testa de Murtagh, apertando-a para mantê-lo no lugar. Murtagh retesou o corpo ainda mais, a expressão do seu rosto ficou dura como ferro, os punhos cerrados, os músculos do pescoço salientes. Ele obviamente estava combatendo o ataque com toda a sua força. O homem calvo mostrou os dentes com fúria e frustração por causa daquela resistência, os dedos dele apertavam Murtagh de modo inclemente.
O rosto de Eragon expressava dor, sentindo compaixão, pois conhecia a batalha que eles travavam.
Você não pode ajudá-lo?, perguntou a Saphira.
Não, disse ela suavemente. Ele não permite que ninguém entre em sua mente.
Orik olhava de cara feia enquanto observava os combatentes.
— Ilf carnz orodum — resmungou ele. Em seguida, deu um pulo para a frente e gritou: — Basta! — Agarrou o braço do homem calvo e puxou-o para longe de Murtagh com uma força desproporcional ao seu tamanho.
O homem calvo cambaleou para trás, depois se virou para Orik furioso.
— Como você ousa? — gritou ele. — Você questionou a minha liderança ao abrir os portões sem permissão e, agora, isso! Você só demonstrou insolência e falta de lealdade. Acha que o seu rei vai protegê-lo agora?
Orik ficou irritado.
— Você os teria deixado morrer! Se eu tivesse esperado mais um pouco, os Urgals teriam matado todos eles. — Ele apontou para Murtagh, cuja respiração estava sendo feita em grandes suspiros. — Não temos o direito de torturá-lo para obter informações! Ajihad nunca sancionaria isso. Ainda mais depois de você ter examinado o Cavaleiro e ter descoberto que ele não representa uma ameaça. E eles nos trouxeram Arya.
— Você permitiria que ele entrasse sem ser desafiado? Você é um tolo tão grande ao ponto de pôr todos nós em risco? — exigiu o homem calvo. Os olhos dele estavam animalescos, repletos de raiva. Parecia que estava pronto para fazer o anão em pedaços.
— Ele pode fazer magia?
— Isso eu...
— Ele pode fazer magia? — berrou Orik, a voz grave dele ecoou por toda a sala. De repente, o rosto do homem calvo ficou inexpressivo. Ele entrelaçou as mãos atrás de suas costas.
— Não.
— Então, o que você tem a temer? É impossível conseguir fugir e ele não poderá fazer nenhum mal com todos nós aqui, ainda mais se os seus poderes forem tão grandes quanto você diz serem. Mas não me dê ouvidos, pergunte a Ajihad o que deve ser feito.
O homem calvo olhou o anão fixamente durante alguns instantes, a expressão do seu rosto era indecifrável, depois olhou para o teto e fechou os olhos. Uma rigidez peculiar tomou conta dos ombros enquanto seus lábios se moviam sem produzir som algum. Um franzir de rosto intenso enrugou a pele pálida acima dos olhos, e seus dedos se entrelaçaram com mais força ainda, como se estivessem estrangulando um inimigo invisível. Ficou daquele jeito durante alguns minutos, isolado em uma comunicação silenciosa.
Quando abriu os olhos, ignorou Orik e falou depressa para os guerreiros:
— Saiam, agora! — Enquanto eles saíam pelo portal, dirigiu-se friamente a Eragon. — Como não consegui completar minha investigação, você e... o seu amigo passarão a noite aqui. Ele será morto se tentar sair. — Com essas palavras, virou-se e saiu da sala a passos largos, com a cabeça pálida brilhando sob a luz dos lampiões.
— Obrigado — sussurrou Eragon para Orik.
O anão bufou.
— Vou me certificar de que trarão comida para vocês. — Ele balbuciou algumas palavras entre os dentes e, depois, saiu, balançando a cabeça. A tranca foi fechada mais uma vez pelo lado de fora da porta.
Eragon sentou, sentindo-se estranhamente pensativo devido às emoções daquele dia e à sua marcha forçada. Suas pálpebras estavam pesadas. Saphira ajeitou-se ao lado dele.
Precisamos ter cuidado. Parece que temos tantos inimigos aqui quanto tínhamos no Império. Ele concordou com a cabeça, cansado demais para falar.
Murtagh, cujos olhos estavam vidrados e vazios, encostou-se na parede oposta e foi escorregando até o chão brilhante. Ele apertava a manga contra o corte em seu pescoço para parar o sangramento.
— Você está bem? — perguntou Eragon. Murtagh concordou com a cabeça com movimentos rápidos. — Ele conseguiu tirar alguma coisa de você?
— Não.
— Como conseguiu evitar que ele entrasse? Ele é muito forte.
— Eu... Eu fui treinado. — Havia uma nota amarga em sua voz.
O silêncio envolveu-os. O olhar de Eragon passou para um dos lampiões que estava pendurado em um canto. Os pensamentos dele fluíam até que ele disse de repente:
— Eu não deixei que eles soubessem quem você é.
Murtagh pareceu ficar aliviado. Ele inclinou a cabeça.
— Obrigado por não ter me traído.
— Eles não o reconheceram.
— Não.
— E você ainda afirma ser o filho de Morzan?
— Afirmo — suspirou ele.
Eragon começou a falar, mas parou quando sentiu um líquido quente cair em sua mão. Ele olhou para baixo e ficou surpreso ao ver um pingo de sangue escuro correndo na pele dele. O sangue caiu da asa de Saphira.
Esqueci! Você está ferida! Exclamou levantando-se com esforço. É melhor eu curá-la.
Tome cuidado. É fácil cometer erros quando se está muito cansado.
Eu sei. Saphira abriu uma de suas asas e a abaixou até o chão.
Murtagh observou quando Eragon correu as mãos por cima da fina e quente membrana azul dizendo: “Waíse heill”, sempre que encontrava um buraco feito por uma flecha. Por sorte, todos os ferimentos eram relativamente fáceis de serem curados, até mesmo os no nariz dela.
Tarefa terminada, Eragon deixou-se cair em cima de Saphira, ofegante. Ele podia sentir o grande coração dela batendo no ritmo constante da vida.
— Tomara que tragam comida logo — disse Murtagh.
Eragon deu de ombros. Estava exausto demais para sentir fome. Cruzou os braços, sentindo falta do peso de Zar’roc na cinta.
— Por que você está aqui?
— O quê?
— Se você fosse mesmo o filho de Morzan, Galbatorix não o deixaria perambular pela Alagaësia livremente. Como você conseguiu achar os Ra’zac sozinho? Por que nunca ouvi dizer que os Renegados tiveram filhos? E o que você está fazendo aqui? — O tom da voz dele elevou-se no final, quase virando um grito.
Murtagh passou as mãos no rosto.
— É uma longa história.
— Nós não vamos a lugar nenhum — retrucou Eragon.
— Está tarde demais para conversar.
— Provavelmente, não teremos tempo para fazer isso amanhã.
Murtagh abraçou as suas pernas e apoiou o queixo nos joelhos, balançando-se para a frente e para trás enquanto olhava fixamente para o chão.
— Isso não é uma... — disse e interrompeu a si mesmo. — Eu não quero parar... Então, coloque-se em uma posição confortável. Minha história vai demorar um pouco. — Eragon ajeitou-se ao lado do corpo de Saphira e concordou com a cabeça. Saphira olhava os dois com atenção.
Murtagh hesitou na primeira frase, mas a voz dele ganhou força e confiança conforme ele falava.
— Pelo que sei, sou o único filho dos Treze Servos, ou Renegados, como são chamados. Pode haver outros, pois os Treze tinham habilidade para esconder o que quisessem, mas duvido que isso tenha acontecido devido a razões que explicarei mais tarde.
“Meus pais conheceram-se em um pequeno vilarejo, e eu nunca soube onde. Na época, meu pai viajava a serviço do rei. Morzan demonstrou um pouco de ternura à minha mãe, sem dúvida em um golpe para conquistar a confiança dela, e quando ele partiu, ela o acompanhou. Viajaram juntos durante um tempo. E, como já era de se esperar em situações como essa, ela se apaixonou perdidamente por ele. Morzan ficou feliz em saber disso, não só porque daria a ele inúmeras oportunidades para atormentá-la, mas porque também reconheceu a vantagem de ter uma serva que nunca o trairia.
“Desse modo, quando Morzan voltou para a corte de Galbatorix, minha mãe virou o instrumento no qual ele mais confiava. Ele a usava para levar suas mensagens secretas e lhe ensinou algumas magias rudimentares, o que a ajudou a permanecer desconhecida e, quando necessário, a extrair informações das pessoas. Ele fez o melhor que pôde para protegê-la do resto dos Treze, não porque sentia algo por ela, mas porque poderiam usá-la contra ele se tivessem tal oportunidade... Durante três anos, as coisas foram dessa maneira, até que minha mãe engravidou.”
Murtagh fez uma pausa por um momento, mexendo em um cacho de seu cabelo. Ele continuou em um tom entrecortado:
— Meu pai era, no mínimo, um homem astucioso. Ele sabia que aquela gravidez colocaria ambos em perigo, sem falar no bebê, que sou eu. Então, no alto da noite, ele a tirou secretamente do palácio e a levou para o seu castelo. Assim que chegaram, ele fez encantos poderosos para evitar que qualquer pessoa entrasse na propriedade dele, com exceção de alguns poucos servos escolhidos a dedo.
“Assim, a gravidez ficou mantida em segredo de todos, exceto de Galbatorix, que conhecia os detalhes íntimos da vida de cada um dos Treze: suas tramas, suas lutas e, mais importante, seus pensamentos. Ele gostava de vê-los brigando uns com os outros e frequentemente ajudava um ou outro em prol de seu próprio divertimento. Mas, por algum motivo, ele nunca revelou minha existência.
“Eu nasci quando se completou o tempo da gestação e fui dado a uma ama-de-leite para que minha mãe pudesse voltar para o lado de Morzan. Ela não tinha escolha. Morzan permitia que ela me visitasse a cada dois meses, mas, fora isso, ficávamos separados. Outros três anos se passaram dessa maneira, durante os quais ele me deu a... cicatriz que tenho nas costas.”
Murtagh pensou por um minuto antes de continuar.
— Eu teria sido criado dessa maneira se Morzan não tivesse sido convocado para achar o ovo de Saphira. Assim que ele partiu, minha mãe, que foi deixada para trás, desapareceu. Ninguém sabe aonde ela foi e por quê. O rei tentou caçá-la, mas seus homens não conseguiram encontrar o rastro dela, sem dúvida devido ao treinamento de Morzan.
“Na época do meu nascimento, somente cinco dos Treze ainda estavam vivos. Já na partida de Morzan, esse número estava reduzido a três. Quando ele, finalmente, enfrentou Brom em Gil’ead, era o único que restava. Os Renegados morreram de várias maneiras: suicídio, emboscada, uso excessivo de magia... mas, na maior parte, foi graças ao trabalho dos Varden. Soube que o rei ficou terrivelmente zangado por causa dessas perdas.
“Contudo, antes que as notícias das mortes de Morzan e dos outros chegassem até nós, minha mãe voltou. Muitos meses se passaram desde o seu desaparecimento. A saúde dela estava ruim, como se tivesse sofrido de um grande mal, e ela piorou cada vez mais. Depois de duas semanas, ela morreu.”
— E o que aconteceu depois? — perguntou Eragon em seguida.
Murtagh deu de ombros:
— Eu cresci. O rei me levou para o palácio e mandou que me criassem. Fora isso, ele me deixava em paz.
— Então, por que você partiu?
Murtagh deu uma grande risada.
— Fugiu é o termo mais apropriado. No meu último aniversário, quando fiz dezoito anos, o rei me convidou a ir aos aposentos dele para um jantar particular. O recado me surpreendeu, pois eu sempre me distanciei da corte e raramente o encontrava. Nós já havíamos conversado antes, mas sempre sob as atenções dos ouvidos de nobres bisbilhoteiros.
“Eu aceitei o convite, é claro, consciente de que não seria sábio recusá-lo. A refeição foi suntuosa, mas durante o tempo todo os olhos negros dele não saíram de cima de mim. O olhar era desconcertante, parecia procurar algo escondido no meu rosto. Eu não sabia o que fazer e fiz o melhor para conduzir uma conversa educada, mas como ele se recusava a falar, logo poupei meus esforços.
“Quando terminamos a refeição, ele finalmente começou a falar. Como você nunca ouviu a voz dele, fica difícil fazê-lo entender como ela é. As palavras eram hipnotizantes, como uma serpente sussurrando mentiras nos meus ouvidos. É o homem mais convincente e assustador que já ouvi falando. Ele descreveu uma visão, uma fantasia do Império como ele o imaginava. Havia belas cidades construídas por todo o país, repletas de grandes guerreiros, artesãos, músicos e filósofos. Os Urgals, finalmente, erradicados. E o Império se expandiria em todas as direções até alcançar os quatro cantos da Alagaësia. A paz e a prosperidade floresceriam, e mais maravilhosa ainda seria a volta dos Cavaleiros, que governariam com sabedoria os feudos concedidos por Galbatorix.
“Encantado, eu o ouvi falando pelo tempo que deve ter sido várias horas. Quando parou, ansioso perguntei como os Cavaleiros seriam restaurados, pois todos sabiam que não restavam mais ovos de dragão. Galbatorix manteve-se imóvel e ficou olhando fixamente para mim, pensativo. Ele permaneceu em silêncio durante um longo tempo, mas esticou a mão e me disse: ‘Será que você, ó filho do meu amigo, me serviria conforme as minhas ordens para tornar esse paraíso realidade?’ Embora eu conhecesse a história de como ele e meu pai chegaram ao poder, o sonho que ele pintou para mim era muito tentador, sedutor demais para ser ignorado. O ardor por tal missão encheu o meu ser, e eu me comprometi com ele fervorosamente. Obviamente satisfeito, Galbatorix me deu a sua bênção e me dispensou dizendo: ‘Eu o chamarei no momento oportuno.’ Vários meses se passaram até que ele me chamasse. Quando a convocação chegou, senti minha velha emoção aflorar. Ele me encontrou de modo particular, como antes, mas dessa vez ele não foi tão amigável e fascinante. Os Varden tinham acabado de destruir três brigadas no sul, e a ira dele estava à flor da pele. Ele me deu ordens, em um tom de voz tenebroso, para pegar um destacamento de soldados e destruir os lugares, onde se sabia que os rebeldes se escondiam ocasionalmente. Quando perguntei o que devia fazer com os habitantes de lá e como descobrir se eram realmente culpados, ele gritou: ‘Todos eles são traidores! Queime-os na fogueira e enterre suas cinzas com estrume!’ Ele continuou falando alto, xingando os inimigos e descrevendo como flagelaria a terra das pessoas que lhe desejassem mal.
“O tom de voz dele estava muito diferente do nosso primeiro encontro e me fez perceber que ele não tinha a compaixão nem a perspicácia para conquistar a lealdade de seu povo, e que ele governava apenas através da força bruta, incentivado somente por suas paixões. Foi naquele momento que senti a determinação de fugir dele e de Uru’baen para sempre.
“Assim que me afastei da presença dele, eu e meu criado fiel, Tornac, nos preparamos para fugir. Partimos naquela mesma noite, mas de alguma forma Galbatorix antecipou minhas ações, pois havia soldados esperando por nós do lado de fora dos portões. Ah, minha espada ficou manchada de sangue, brilhando sob a luz fraca dos lampiões. Nós derrotamos os homens... Mas durante a batalha Tornac foi morto.
“Sozinho e cheio de pesar, fugi para a casa de um velho amigo, que me ofereceu abrigo. Enquanto eu estava escondido, prestava muita atenção a todos os boatos, tentando prever as ações de Galbatorix para planejar o meu futuro. Durante esse tempo, fiquei sabendo que os Ra’zac tinham sido convocados para capturar ou matar alguém. Lembrando dos planos do rei quanto aos Cavaleiros, decidi achar e seguir os Ra’zac, caso eles descobrissem um dragão. E foi como encontrei você... Não tenho mais segredos.”
Ainda não sabemos se ele está falando a verdade, alertou Saphira.
Eu sei, disse Eragon. Mas por que ele mentiria para nós?
Ele pode ser louco.
Duvido. Eragon correu um dedo por cima das duras escamas de Saphira, olhando a luz que refletia nelas.
— Então, por que você não se une aos Varden? Eles podem desconfiar de você durante um tempo, mas assim que provar a sua lealdade, vão tratá-lo com respeito. E eles não são, de certo modo, seus aliados? Lutam para acabar com o domínio do rei. Não é isso que você quer?
— Será que tenho de explicar tudo nos mínimos detalhes para você? — perguntou Murtagh. — Não quero que Galbatorix saiba onde estou, o que será inevitável se as pessoas começarem a dizer que me uni aos inimigos dele, coisa que nunca fiz. Esses... — ele fez uma pausa, dizendo em seguida com desgosto — rebeldes não querem apenas destronar o rei, querem destruir o Império também... E eu não quero que isso aconteça. Isso geraria confusão e anarquia. O rei não é perfeito, tudo bem, mas o sistema em si é bom. Quanto a ganhar o respeito dos Varden: Ah! Assim que eu for descoberto, eles me tratarão como um criminoso ou pior. Além disso, cairão suspeitas sobre você, pois nós viajamos juntos!
Ele tem razão, disse Saphira. Eragon a ignorou.
— A situação não é tão ruim assim — disse ele tentando parecer otimista. Murtagh resmungou com zombaria e desviou o olhar. — Tenho certeza que eles não serão... — Suas palavras foram interrompidas quando a porta se abriu o suficiente para uma mão passar, e duas tigelas foram arrastadas para dentro da sala. Um pão e um grande pedaço de carne crua apareceram logo depois. E a porta fechou-se novamente.
— Finalmente! — resmungou Murtagh indo na direção da comida. Ele jogou a carne para Saphira, que a aparou no ar e a engoliu inteira. Depois, partiu o pão em dois, deu metade para Eragon, pegou sua tigela e recolheu-se em um canto.
Eles comeram em silêncio. Murtagh garfava sua comida com violência.
— Vou dormir — anunciou ele, colocando sua tigela no chão sem proferir nem mais uma palavra.
— Boa-noite — disse Eragon. Ele deitou-se ao lado de Saphira, colocando os braços embaixo da cabeça. Ela enrolou seu longo pescoço em volta dele, como um gato se enrola com a própria cauda, e deitou a cabeça a seu lado. Uma de suas asas estendeu-se sobre ele como uma tenda azul, envolvendo-o na escuridão.
Boa-noite, pequenino.
Um pequeno sorriso ergueu os lábios de Eragon, mas ele já estava adormecendo.

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