27 de maio de 2017

Capítulo 5 - Os caçadores caçados

A sujeira se acumulava sob as botas de Roran à medida que ele descia rumo ao vale, frio e pálido nas primeiras horas da manhã nublada. Baldor o seguia de perto, ambos carregando arcos. Nenhum dos dois falava enquanto estudavam os arredores em busca de sinais do veado.
— Ali — disse Baldor em voz baixa, apontando para um grupo de pegadas em direção a um arbusto espinhoso na margem do Anora. Roran acenou com a cabeça e seguiu rumo ao rastro. Parecia ter sido feito há um dia, por isso ele arriscou falar:
— Será que você poderia me dar um conselho, Baldor? Você parece entender bem as pessoas.
— Claro. O que é?
Durante um bom tempo, o ruído abafado de seus passos foi o único som.
— Sloan quer casar Katrina com outra pessoa, e não comigo. A cada dia que passa, aumentam as chances de ele conseguir arranjar um casamento do seu agrado.
— O que Katrina acha disso? Roran encolheu os ombros.
— Ele é pai dela. Ela não poderá continuar a desafiar suas vontades enquanto ninguém de quem ela realmente goste vier reivindicá-la para si.
— Quer dizer, você.
— Sim.
— E foi por isso que você acordou tão cedo. — Isso não era uma pergunta.
De fato, Roran ficara muito preocupado para conseguir dormir. Passou a noite inteira pensando em Katrina, tentando encontrar uma solução para sua situação desagradável.
— Não posso suportar perdê-la. Mas não creio que Sloan nos dará sua bênção, em parte por causa da minha posição e tudo o mais.
— Não creio que ele o faria — concordou Baldor, que espiou Roran de soslaio. — Por que você quer os meus conselhos então?
Uma gargalhada alta escapou de Roran.
— Como posso convencer Sloan do contrário? Como posso resolver esse dilema sem dar início a uma vendeta? — Ele jogou suas mãos para cima. — O que devo fazer?
— Você não tem ideias?
— Tenho, mas não do tipo que julgo agradáveis. Ocorreu-me que eu e Katrina poderíamos simplesmente anunciar que estávamos noivos, não que não estejamos, e aguentar as consequências. Isso forçaria Sloan a aceitar o nosso noivado.
Baldor franziu tanto a testa que esta ficou enrugada. E disse cuidadosamente:
— Talvez, mas isso também acabaria criando uma maré de sentimentos negativos por toda Carvahall. Poucos aprovariam sua atitude. Também não seria inteligente da sua parte forçar Katrina a escolher entre você e a família, ela poderia ressentir-se de você por causa disso nos anos vindouros.
— Eu sei, mas que alternativa eu tenho?
— Antes de você dar um passo tão drástico, recomendo que tente transformar Sloan num aliado. Há uma chance de você sair vitorioso, afinal de contas, se ficar claro para ele que ninguém mais irá querer se casar com uma Katrina furiosa. Especialmente se você estiver por perto para botar chifres no marido. — Roran fez uma careta e continuou olhando para o chão. Baldor deu uma gargalhada. — Se você falhar, bem, então... poderá prosseguir com confiança, sabendo que já esgotou de fato todas as outras alternativas. E as pessoas estarão menos propensas a cuspir em você por ter quebrado a tradição e mais inclinadas a dizer que a teimosia de Sloan se virou contra ele próprio.
— Nenhum desses caminhos é fácil.
— Você já sabia disso, para começo de conversa. — Baldor tornou-se serio novamente. — Não tenha dúvidas de que palavras ásperas serão ditas se você desafiar Sloan, mas as coisas acabarão se acomodando no fim das contas... talvez não de um jeito confortável, mas pelo menos de um modo suportável. Além de Sloan, as únicas pessoas que você ofenderá realmente são puritanos como Quimby. Agora, como Quimby pode fermentar uma bebida tão saudável e ainda ser tão turrão e amargo, está além do meu alcance.
Roran acenou com a cabeça, compreendendo. Rancores poderiam durar anos em Carvahall.
— Fico feliz por termos conversado. Foi... — Ele hesitou, pensando em todas as conversas que ele e Eragon costumavam ter. Os dois foram, como Eragon dissera uma vez, irmãos em tudo menos no sangue. Tinha sido profundamente confortante saber que existia alguém que iria ouvi-lo, não importasse o momento ou as circunstâncias. E saber que tal pessoa iria sempre ajudá-lo, não importava o custo. A ausência deste vínculo deixara Roran se sentindo vazio.
Baldor não o pressionou para terminar a frase, em vez disso parou para beber do seu odre. Roran continuou a falar durante mais alguns metros, até que parou quando um aroma invadiu os seus pensamentos. Era um odor forte de carne torrada e pinho queimado. Quem estaria aqui além de nós? Inspirando profundamente, ele girou o corpo, tentando determinar a origem do fogo. Uma leve rajada de vento passou por ele, vinda da estrada mais ao longe, ela carregava uma nuvem quente de fumaça. O aroma de comida era intenso o suficiente para que ficasse com água na boca.
Ele acenou para chamar Baldor, que correu para o seu lado.
— Está sentindo este cheiro?
Baldor balançou a cabeça positivamente. Juntos, os dois voltaram para a estrada e seguiram rumo ao sul. A cerca de trinta metros, ela fazia uma curva em volta de uma capoeira cheia de choupos-do-canadá e sumia de vista. Enquanto ambos se aproximavam da curva, vozes que se erguiam e diminuíam de intensidade os alcançaram, amortecidas pelo espesso nevoeiro matinal que cobria o vale.
Nas imediações do matagal, Roran foi diminuindo o passo até parar. Era uma tolice surpreender as pessoas quando elas também podiam estar caçando. Contudo, algo o incomodava. Talvez fosse o número de vozes, o grupo parecia ser maior do que qualquer família no vale. Sem pensar, saiu da estrada e se enfiou atrás da vegetação rasteira que demarcava o matagal.
— O que você está fazendo? — sussurrou Baldor.
Roran colocou um dedo em seus lábios e depois começou a move-se furtivamente, em paralelo à estrada, dando passos os mais silenciosos possíveis. Assim que deram a volta, ele congelou.
No gramado ao lado da estrada havia um acampamento de soldados. Trinta capacetes refletiam a luz da manhã e seus donos devoravam aves e ensopados que haviam sido preparados em várias fogueiras. Os homens estavam salpicados de lama e manchados por conta de tantas viagens, mas o símbolo de Galbatorix ainda era visível em suas túnicas vermelhas, uma chama em espiral delineada em dourado. Por baixo das túnicas, eles usavam brigandinas de couro — pesadas com quadrados de aço rebitados —, camisas de cota de malha de ferro e, ainda, vestimentas acolchoadas — os gambesons. A maior parte dos soldados carregava espada de folha larga, todavia meia dúzia deles eram arqueiros e outros seis carregavam estranhas alabardas. E agachados no meio estavam dois vultos negros curvados, os quais Roran reconheceu das inúmeras descrições feitas pelos habitantes do vilarejo após seu retorno de Therinsford: os estranhos que haviam destruído a sua fazenda. Seu sangue congelou. Eles são servidores do Império! Ele começou a andar para a frente, com os dedos já pegando uma flecha, quando Baldor agarrou seu colete e o arrastou para o chão.
— Não. Você vai nos matar.
Roran o encarou e depois rosnou.
— São... os degenerados... — Ele parou e notou que suas mãos estavam tremendo. — Eles voltaram!
— Roran — sussurrou Baldor atentamente —, você não pode fazer nada. Veja, eles trabalham para o rei. Mesmo que você consiga escapar, acabará sendo um fora-da-lei em toda parte e trará a desgraça para Carvahall.
— O que eles querem? O que eles podem querer? O rei. Por que Galbatorix permitiu a tortura do meu pai?
— Se eles não conseguiram o que queriam com Garrow, e Eragon fugiu com Brom, então vão querer você. — Baldor fez uma pausa, para que suas palavras fossem digeridas. — Temos de voltar e avisar a todos. E depois você terá que se esconder. Os estranhos são os únicos que têm cavalos. Podemos chegar lá antes se corrermos.
Roran fitava por entre a mata os soldados absortos. Seu coração batia ferozmente por vingança, clamava por atacar e lutar, para ver aqueles dois agentes do infortúnio cravejados de flechas e condenados por seu tribunal particular. Não importava que ele morresse contanto que pudesse acabar com sua dor e sua tristeza num só instante. Tudo que ele tinha a fazer era sair de onde estava escondido. O resto se resolveria automaticamente.
Apenas um pequeno passo.
Com um soluço abafado, cerrou o punho e abaixou a cabeça. Não posso deixar Katrina. Ele continuou rígido — olhos fechados e apertados — e depois, com uma lentidão agonizante, recuou.
— Vamos para casa então.
Sem esperar pela reação de Baldor, Roran escapou por entre as árvores o mais rápido que podia. Assim que perdeu de vista o acampamento, ele irrompeu pela estrada e correu pela trilha de lama, canalizando para a velocidade toda a sua frustração, raiva e até o medo.
Baldor deslocava-se atrás dele com dificuldade, aproximando-se nos trechos mais abertos. Roran diminuiu a velocidade, passou a andar depressa e esperou que ele emparelhasse antes de começar a falar.
— Vá espalhar as notícias. Vou falar com Horst. — Baldor acenou positivamente e os dois se apressaram.
Três quilômetros depois, pararam para beber e descansar um pouco. Quando a respiração normalizou, os dois continuaram a andar pelos morros baixos que antecediam Carvahall. O terreno ondulado desacelerava a marcha consideravelmente, mas mesmo assim o vilarejo logo ficou à vista. Roran dirigiu-se imediatamente para a ferraria e deixou Baldor seguir para o centro da cidade. Enquanto passava pelas casas, Roran imaginava desenfreadamente esquemas para fugir ou matar os estranhos sem atrair para si a ira do Império.
Ele irrompeu na ferraria e pegou Horst batendo um pino na lateral da carroça de Quimby e cantando:

... ei, ôô!
E um badalar do sino,
um tinido sem cessar,
Soou no ferro velho.
No esperto ferro velho.
Sobre os ossos da terra,
com o estrondo de um martelar,
Assim eu conquistei o esperto ferro velho!

Horst parou seu malho no ar quando viu Roran.
— Qual é o problema, garoto? Baldor se machucou?
Roran negou com a cabeça e se inclinou para a frente, ofegante. Em frases curtas, relatou tudo que haviam visto e suas possíveis implicações, a mais importante era que estava claro que os estranhos eram agentes do Império.
Horst coçou a barba.
— Você tem que deixar Carvahall. Pegue alguma comida lá em casa, depois suba na minha égua... Ivor a está usando para puxar toras... e em seguida vá para o contraforte. Assim que soubermos o que os soldados querem, enviarei Albriech ou Baldor com notícias.
— O que você dirá se eles perguntarem por mim?
— Que você está caçando e não sabemos quando retornará. Isso é até verdade, e duvido que eles se arrisquem a andar estupidamente em meio às árvores por medo de perdê-lo. Isso supondo que seja realmente você que eles estejam procurando.
Roran acenou com a cabeça, depois se virou e correu para a casa de Horst. Lá dentro, pegou os arreios da égua e algumas sacolas que estavam penduradas na parede, nabos, beterrabas, carne-seca e um pedaço de pão foram rapidamente embalados e envoltos por cobertores, apanhou uma panela de latão e partiu depressa, parando apenas tempo suficiente para explicar a situação para Elain.
As provisões não passavam de um embrulho feito de qualquer jeito em seus braços, enquanto ele seguia lentamente para o leste de Carvahall, em direção à fazenda de Ivor. O próprio Ivor estava atrás da quinta, batendo de leve na égua com uma vara de salgueiro enquanto ela se esforçava para arrancar do chão as raízes ramadas de um olmo.
— Vamos, agora! — gritou o fazendeiro. — Força! — O cavalo estremecia por causa do esforço enquanto seu freio espumava, até que, numa última tentativa, inclinou a tora para o lado de modo que suas raízes se estenderam para o céu como se fossem dedos deformados. Ivor fez o animal parar de se esforçar com um puxão nas rédeas e o afagou carinhosamente. — Muito bem... Lá vamos nós.
Roran o chamou de longe e, quando estavam próximos, apontou para o cavalo.
— Preciso dela emprestada. — E deu os seus motivos. Ivor praguejou e começou a soltar a égua, murmurando:
— Sempre que eu consigo fazer uma parte do serviço... justamente nessa hora vem a interrupção. Nunca antes. — Ele cruzou os braços e fechou a cara enquanto Roran colocava a sela, atento ao seu trabalho. Quando ficou pronto, Roran pulou sobre o cavalo, com o arco na mão.
— Lamento pelo inconveniente, mas não pude evitar.
— Bem, não se preocupe. Apenas tome cuidado para não ser capturado.
— Farei isso.
Assim que bateu com os calcanhares nos flancos da égua, Roran ouviu Ivor gritar:
— E não se esconda num lugar de difícil acesso.
Roran sorriu e balançou a cabeça, inclinando-se por sobre o pescoço do cavalo. Ele logo alcançou o contraforte da Espinha e subiu até as montanhas que formavam a extremidade norte do vale Palancar. De lá, escalou até um ponto na encosta onde podia observar Carvahall sem ser visto. Depois amarrou seu cavalo a uma estaca e se acomodou para esperar. Roran tremeu ao olhar para os pinheiros escuros. Ele não gostava de ficar assim tão perto da Espinha. Quase ninguém de Carvahall ousava colocar os pés na cordilheira, e aqueles que o faziam geralmente não conseguiam voltar.
Em pouco tempo, Roran viu os soldados marchando pela estrada nem fila dupla, com duas figuras agourentas na frente. Eles foram parados nos limites de Carvahall por um grupo de homens esfarrapados, alguns deles com picaretas na mão. Os dois lados falaram e em seguida simplesmente se encararam, como se fossem cães ferozes esperando para ver quem iria atacar primeiro. Depois de um bom tempo, os homens de Carvahall se moveram para o lado e deixaram os intrusos passarem.
O que vai acontecer agora?, perguntou Roran a si próprio, tremendo nos calcanhares. Era noite e os soldados haviam montado o acampamento num terreno adjacente ao vilarejo. Suas tendas formavam um bloco baixo e cinzento que tremulava sombras misteriosas enquanto sentinelas patrulhavam o perímetro. No centro do bloco, uma enorme fogueira mandava rolos de fumaça para o céu.
Roran fizera seu próprio acampamento e agora estava simplesmente olhando e pensando. Ele sempre supôs que quando os estranhos destruíram sua casa, eles pegaram o que queriam, ou seja, a pedra que Eragon trouxe da Espinha. Eles não devem tê-la encontrado, concluiu. Talvez Eragon tenha conseguido fugir com a pedra... Talvez achasse que devia fugir para protegê-la. Ele franziu a testa. Seria necessário percorrer um longo caminho para explicar por que Eragon fugiu, mas isso ainda parecia estranho para Roran. Seja qual for o motivo, aquela pedra deve ser um tesouro fantástico para o rei mandar tantos homens com o intuito de reavê-la. Não consigo entender o que faz dela algo tão valioso. Talvez seja magia.
Ele respirou profundamente o ar frio, ouvindo o piar de uma coruja. Um movimento rápido chamou a sua atenção. Olhando montanha abaixo, viu um homem se aproximando na floresta. Roran se escondeu atrás de uma pedra arredondada, com o arco puxado. Esperou até se certificar de que era Albriech, e depois assoviou suavemente. Albriech chegou rápido até onde estava a pedra. Trazia nas costas um pacote enorme e o largou no chão com um grunhido.
— Achei que nunca fosse encontrá-lo.
— Fico surpreso por você ter conseguido.
— Não dá para dizer que gostei de ficar vagando pela floresta depois do pôr-do-sol. Fiquei esperando que fosse dar de cara com um urso ou coisa pior. A Espinha não é um lugar adequado para os homens, se você me permite dizer.
Roran olhou novamente para Carvahall.
— E então, por que eles estão aqui?
— Para levar você sob custódia. Estão dispostos a esperar o quanto for necessário até que você volte da “caçada”.
Roran se sentou num baque surdo, com um frio na barriga.
— Eles deram um motivo? Mencionaram a pedra? — Albriech balançou negativamente a cabeça.
— Tudo que eles disseram era que se tratava de um assunto do rei. Passaram o dia inteiro fazendo perguntas sobre você e Eragon... é tudo em que estão interessados. — Ele hesitou. — Eu ficaria por aqui, mas amanhã eles notariam a minha ausência. Trouxe um monte de comida e cobertores, além de algumas pomadas de Gertrude, caso você se machuque. Você deve ficar bem aqui.
Reunindo energia, Roran sorriu.
— Obrigado pela ajuda.
— Qualquer um faria isso — disse Albriech encolhendo os ombros acanhadamente. Ele iniciou a partida, mas subitamente se virou. — A propósito, os dois estranhos... eles são chamados de Ra’zac.

Um comentário:

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Boa leitura :)