22 de maio de 2017

Capítulo 48 - Voo pelo vale

De manhã, Saphira levantou voo com Eragon e Arya. Eragon queria ficar longe de Murtagh por um tempo. Ele tremia ajustando suas roupas, deixando-as mais apertadas. Parecia que ia nevar. Saphira ascendeu preguiçosamente em uma corrente e perguntou:
Em que você está pensando?
Eragon contemplava as montanhas Beor, que se elevavam muito acima deles, embora Saphira estivesse voando bem alto.
Ontem, aquilo foi assassinato. Não tenho outra palavra para isso.
Saphira virou para a esquerda.
Foi um ato impetuoso e de mau julgamento, mas Murtagh tentou fazer o certo. Os homens que compram e vendem outros humanos merecem todo tipo de infortúnio que cair sobre eles. Se não estivéssemos comprometidos em ajudar Arya, eu caçaria todos aqueles traficantes de escravos e os faria em pedaços!
Certo, disse Eragon pesaroso. Mas Torkenbrand estava indefeso. Não podia se proteger ou fugir. Um instante a mais e ele, provavelmente, teria se rendido. Murtagh não deu a ele essa chance. Se Torkenbrand estivesse, pelo menos, em condição de lutar, não teria sido tão ruim.
Eragon, mesmo se Torkenbrand tivesse lutado, o resultado teria sido o mesmo. Você sabe tão bem quanto eu que poucos podem se igualar a você e a Murtagh no manejo da espada. Torkenbrand teria morrido de qualquer maneira, embora você ache que teria sido mais justo ou honroso em um duelo, mesmo que eles não estivessem em iguais condições.
Eu não sei o que é certo! Admitiu Eragon agoniado. Não há resposta que faça sentido.
Às vezes, disse Saphira docemente, não existem respostas. Aprenda o que pode sobre Murtagh com isso. Depois, perdoe-o. Se não puder perdoar, pelo menos esqueça, pois ele não desejava fazer mal, mesmo que o ato tenha sido imprudente. A sua cabeça continua no lugar, não é?
Franzindo o rosto, Eragon ajeitou-se na sela. Sacudiu o corpo, como um cavalo tentando se livrar de uma mosca, e verificou a posição de Murtagh por cima do ombro de Saphira. Uma mancha colorida, atrás, na rota que percorreram, chamou a atenção dele.
Os Urgals estavam acampados perto do leito de um riacho que eles haviam atravessado no final do dia anterior. As batidas do coração de Eragon aceleraram. Como os Urgals, mesmo estando a pé, conseguiram se aproximar tanto deles? Saphira também viu os monstros e fechou as asas, deixando-as perto do seu corpo, e iniciou um mergulho de nariz, cortando o ar.
Acho que eles não nos viram, disse ela.
Eragon esperava que não tivessem visto. Olhou com os olhos semicerrados, contra o vento forte, quando ela aumentou o ângulo do mergulho. O líder deve estar impondo a eles um passo rápido demais, disse ele.
É... Talvez todos eles morram de cansaço.
Quando eles pousaram, Murtagh perguntou rispidamente:
— O que houve agora?
— Os Urgals estão nos alcançando — disse Eragon. Ele apontou para o acampamento.
— Quanto ainda temos que percorrer? — perguntou Murtagh colocando suas mãos contra o céu, contando as horas até o pôr-do-sol.
— Normalmente?... Acho que uns cinco dias. Na velocidade em que estamos viajando, só uns três. Mas se não chegarmos lá amanhã, os Urgals provavelmente nos alcançarão, e Arya certamente morrerá.
— Ela pode aguentar mais um dia.
— Não podemos contar com isso — contrapôs Eragon. — O único modo de chegarmos aos Varden a tempo é não pararmos para nada, muito menos para dormir. É a nossa única chance.
Murtagh riu amargamente.
— Como espera fazer isso? Já estamos há dias sem dormir direito. A não ser que os Cavaleiros sejam feitos de um material diferente de nós, pobres mortais, você deve estar tão cansado quanto eu. Percorremos uma distância impressionante, e os cavalos, caso você não tenha notado, estão a ponto de cair no chão. Outro dia nesse ritmo poderá ser fatal para todos nós.
Eragon deu de ombros.
— Então, assim seja. Não temos outra escolha.
Murtagh contemplou as montanhas.
— Eu poderia partir e deixar você ir voando na frente com Saphira... Isso forçaria os Urgals a dividirem seu grupo e lhe daria mais chances de chegar aos Varden.
— Isso seria suicídio — disse Eragon cruzando os braços. — De algum modo, aqueles Urgals andam mais rápido a pé do que nós a cavalo. Passariam por cima de você como fariam com um veado. O único modo de evitá-los é achar abrigo com os Varden. — Apesar de suas palavras, ele não tinha certeza se queria que Murtagh ficasse. Gosto dele, confessou Eragon a si mesmo. Mas não tenho mais tanta certeza de que isso seja bom.
— Eu fugirei depois — disse Murtagh abruptamente. — Quando chegarmos aos Varden, posso desaparecer por um vale lateral e seguir para Surda, onde poderei me esconder sem chamar muita atenção.
— Então, você vai ficar?
— Dormindo ou não, vou acompanhá-lo até os Varden — prometeu Murtagh.
Com determinação renovada, esforçaram-se para se distanciar dos Urgals, embora seus perseguidores continuassem a aproximar-se de modo desagradável. À noite, os monstros estavam um terço mais perto do que estavam de manhã. Conforme a fadiga corroía as forças dele e de Murtagh, eles dormiam, se revezando, em cima dos cavalos. E quem ficava acordado, levava os cavalos na direção certa.
Eragon confiou cegamente nas lembranças de Arya para guiá-los. Devido à natureza estranha da mente dela, às vezes ele errava a rota, ao custo de um precioso tempo. Gradualmente, seguiram rumo ao sopé do braço leste das montanhas, à procura do vale que os levaria até os Varden. A meia-noite chegou e passou sem dar nenhum sinal dele.
Quando o sol voltou, ficaram satisfeitos ao ver que os Urgals tinham fica do bem atrás.
— Este é o último dia — disse Eragon dando um grande bocejo. — Se não estivermos bem próximos dos Varden até o meio-dia, voarei na frente com Arya. Aí, estará livre para ir aonde quiser, mas terá de levar Fogo na Neve junto. Não poderei voltar para pegá-lo.
— Talvez isso não seja necessário, ainda podemos chegar lá a tempo — disse Murtagh. Ele esfregou o cabo de sua espada.
Eragon deu de ombros.
— Podemos. — Ele foi até Arya e colocou a mão em sua fronte. Estava úmida e perigosamente quente. Seus olhos mexiam-se de modo inquieto embaixo das pálpebras, como se estivesse tendo um pesadelo. Eragon colocou um pano úmido em sua testa, desejando poder fazer mais.
No fim da manhã, depois que circundaram uma montanha particularmente extensa, Eragon viu um vale estreito, espremido no lado oposto ao deles. Era tão restrito que poderia passar despercebido facilmente.
O rio Dente-de-Urso, que Arya havia mencionado, fluía dele e fazia a volta negligentemente sobre a terra. Sorriu aliviado, era para onde eles deviam ir.
Ao olhar para trás, Eragon ficou alarmado quando viu que a distância entre eles e os Urgals havia diminuído para um pouco menos de cinco quilômetros. Apontou o vale para Murtagh.
— Se pudermos entrar ali sem sermos vistos, talvez possamos confundi-los.
Murtagh estava cético.
— Vale a pena tentar, mas eles nos seguiram com facilidade até agora.
Ao se aproximarem do vale, passaram embaixo dos galhos embaraçados da floresta das montanhas Beor. As árvores eram altas, com cascas rachadas e quase negras, com folhas foscas da mesma cor e raízes nodosas que brotavam do solo como joelhos expostos. Pinhas e sementes enchiam a terra, cada uma do tamanho da cabeça de um cavalo. Esquilos de pele escura rangiam os dentes nas copas das árvores, e olhos brilhavam nos buracos que havia nos troncos. Barbas esverdeadas de acônitos embaralhados pendiam dos galhos retorcidos.
A floresta fez Eragon se sentir intranquilo, os pelos em sua nuca ficaram eriçados. Havia algo hostil no ar, como se as árvores percebessem a intrusão deles.
Elas são muito velhas, disse Saphira tocando um tronco com o nariz.
São mesmo, concordou Eragon. Mas não são muito amigáveis.
A floresta ficava mais densa conforme avançavam. A falta de espaço fez Saphira levantar voo com Arya. Sem uma trilha clara para seguir, a mata cerrada diminuiu o passo de Eragon e Murtagh. O rio Dente-de-Urso fazia a volta perto deles, enchendo o ar com o som de água borbulhando. Um pico próximo escurecia o sol, lançando-os em um crepúsculo prematuro.
Na entrada do vale, Eragon percebeu que, embora parecesse uma fenda estreita entre os picos, ele era tão largo quanto muitos vales da Espinha. Era somente o tamanho descomunal das montanhas sombreadas repletas de sulcos que fazia o vale parecer tão limitado. Cachoeiras pontilhavam suas laterais. O céu estava reduzido a uma faixa estreita lá no alto, escondido por nuvens cinzentas. Do solo úmido subia uma neblina espessa que esfriava o ar, tornando a respiração visível. Morangos silvestres espalhavam-se em cima de um tapete de musgos e samambaias, lutando pela escassa luz solar. Brotando de pilhas de madeiras que apodreciam, havia vários cogumelos amarelos.
Tudo estava em silêncio, os sons eram abafados pelo ar pesado. Saphira pousou perto deles em uma clareira, o barulho das asas foi estranhamente encoberto. Olhou o ambiente ao fazer um rápido movimento com a cabeça.
Acabei de passar por um bando de pássaros que eram pretos e verdes, com marcas vermelhas nas asas. Nunca vi pássaros como aqueles antes.
Tudo nestas montanhas é estranho, retrucou Eragon. Você se importa se eu montar em você um pouco? Quero ficar de olho nos Urgals.
É claro.
Ele virou-se para Murtagh.
— Os Varden estão escondidos no final deste vale. Se corrermos, poderemos chegar lá antes do anoitecer.
Murtagh bufou, com as mãos apoiadas nos quadris.
Como vou sair daqui? Não vejo nenhum vale se juntando a este, e os Urgals vão nos confinar em breve. Preciso de uma rota de fuga.
— Não se preocupe com isso — disse Eragon impaciente. — Este é um vale comprido. É claro que deve haver uma saída mais à frente. — Ele tirou Arya de Saphira e colocou a mulher em cima de Fogo na Neve. — Tome conta de Arya. Vou voar com Saphira. Vou encontrá-los mais à frente. — Ele pulou para cima do dorso de Saphira e prendeu a si mesmo na sela.
— Tenha cuidado — advertiu Murtagh, a testa dele se enrugou, depois fez um som para os cavalos partirem e voltou para a floresta.
Enquanto Saphira pulava em direção ao céu, Eragon disse:
Você acha que poderia voar até um daqueles picos? Talvez possamos ver nosso destino, como também uma passagem para Murtagh. Não quero ouvi-lo reclamando durante nossa travessia do vale.
Podemos tentar, concordou Saphira. Mas vai ficar muito mais frio.
Estou usando roupas quentes.
Então, segure-se!
De repente, Saphira lançou-se para o alto, jogando-o para trás na sela. As asas dela batiam com força, impulsionando o peso deles para cima. O vale encolheu-se, virando uma fina linha verde abaixo deles. O rio Dente-de-Urso brilhava como prata trançada onde a luz refletia.
Subiram até a camada das nuvens, uma umidade gelada saturava o ar. Um cobertor cinzento e disforme os envolvia, limitando a visão à distância de um braço. Eragon torcia para que não batessem em nada no meio da escuridão. Ele esticou uma de suas mãos, de forma experimental, mexendo-a no ar. A água se condensou nela e correu pelo seu braço, ensopando sua manga.
O borrão de uma massa cinzenta passou pela cabeça dele, Eragon viu uma pomba de relance, suas asas batiam freneticamente. Havia uma faixa branca em volta da perna dela. Saphira jogou-se para cima do pássaro, sua língua chicoteava, suas mandíbulas estavam abertas ao máximo. A pomba soltou um assovio alto quando os dentes afiados de Saphira produziram um estalo, ao fechar a boca de repente, a um fio de cabelo de distância das penas do rabo dela. Depois, a pomba disparou para longe e desapareceu na neblina, o barulho de suas asas batendo freneticamente foi ficando cada vez mais fraco.
Quando conseguiram subir acima das nuvens, as escamas de Saphira estavam cobertas por milhares de pingos de água que refletiam pequenos arco-íris e que brilhavam com o azul de suas escamas.
Eragon sacudiu-se, para tirar a água do corpo, e tremeu. Ele não podia mais ver o chão, só colinas de nuvens que serpenteavam entre as montanhas. As árvores nas encostas deram lugar a densas geleiras, azuis e brancas sob o sol. O brilho da neve forçou Eragon a fechar os olhos. Tentou abri-los depois de um instante, mas a luz ofuscou sua vista. Irritado, ficou olhando fixamente para seu cotovelo.
Como você consegue suportar isso? Perguntou a Saphira.
Meus olhos são mais fortes do que os seus, respondeu ela.
Estava frio demais. A água no cabelo de Eragon congelou, dando a ele um capacete brilhante. A camisa e a calça pareciam cascas em volta de seus membros. As escamas de Saphira ficaram escorregadias por causa do gelo, cristais gelados adornavam suas asas. Nunca tinham voado tão alto, mesmo assim os picos das montanhas ainda estavam quilômetros acima deles.
O bater de asas de Saphira foi diminuindo gradativamente, e sua respiração ficou pesada. Eragon ofegava e arfava, parecia que não havia ar suficiente. Lutando contra o pânico, ele agarrou as pontas dos espinhos do pescoço de Saphira em busca de apoio.
Precisamos... sair daqui, disse ele. Pontos vermelhos dançavam na frente de seus olhos. Eu não consigo... respirar.
Saphira parecia que não o ouvia, então ele repetiu a mensagem, desta vez mais alto. Novamente, não houve resposta. Ela não pode me ouvir, pensou. Ele se agitou, tendo dificuldade para pensar, depois bateu no lado do corpo dela e gritou:
— Vamos descer!
O esforço o deixou tonto. A visão dele foi desaparecendo lentamente até tudo ficar escuro.
Recuperou a consciência assim que surgiram embaixo das nuvens. Sua cabeça latejava. O que aconteceu?, perguntou ele, ajeitando-se na sela e olhando confuso ao redor.
Você desmaiou, respondeu Saphira.
Ele tentou passar os dedos nos cabelos, mas parou quando sentiu os pedaços de gelo.
É, eu sei, mas por que você não me respondeu?
Meu cérebro ficou confuso... As suas palavras não faziam sentido.. Quando você perdeu a consciência, notei que havia algo errado e desci. Não tive que descer muito para perceber o que havia acontecido..
Ainda bem que você não desmaiou, disse Eragon com uma risada nervosa. Saphira apenas sacudiu a cauda. Ele olhou com melancolia para onde os picos das montanhas, naquele momento, estavam escondidos pelas nuvens. Foi uma pena não termos alcançado um daqueles cumes... Bem, agora já sabemos: só podemos sair voando deste vale pelo caminho que viemos. Por que ficamos sem ar? Como temos muito ar aqui embaixo, mas não temos o suficiente lá em cima?
Eu não sei, mas nunca mais ousarei voar tão perto do sol. Devemos nas lembrar dessa experiência. Esse conhecimento pode nas ser útil se tivermos de lutar com outro Cavaleiro...
Espero que isso nunca aconteça, disse Eragon. Vamos voar mais baixo agora. Já tivemos aventuras demais para um dia.
Flutuaram nas suaves correntes de ar, passando de uma montanha para outra, até que Eragon viu o grupo de Urgals que havia chegado à entrada do vale. O que dá a eles tamanha velocidade? E como conseguem suportar esse ritmo?
Agora que estão mais próximos, disse Saphira, posso ver que esses Urgals são maiores do que as que encontramos antes. Um homem alto mal chega à altura das ombros deles. Não sei de que terra eles vêm marchando, mas deve ser um lugar terrível para produzir tais monstros.
Eragon olhou atentamente o chão lá embaixo, ele não conseguia enxergar com tantos detalhes como ela.
Se eles mantiverem esse passo, alcançarão Murtagh antes de acharmos as Varden.
Não perca as esperanças. A floresta pode dificultar o progresso deles... Seria possível detê-los com magia?
Eragon balançou a cabeça.
Detê-los... Não... São muitos. Ele pensou na fina camada de neblina que havia no vale e sorriu. Mas, talvez, eu possa atrasá-los um pouco.
Ele fechou os olhos, escolheu as palavras que precisava, olhou fixamente para a névoa e proferiu:
Gath un reisa du rakr!
Houve uma comoção embaixo. Lá de cima, parecia que o chão estava fluindo, como um grande rio preguiçoso. Uma pesada faixa de neblina formou-se na frente dos Urgals e foi ficando mais densa, erguendo uma parede intimidante, escura como uma nuvem de tempestade. Os Urgals hesitaram perante ela, mas depois continuaram a avançar, como um aríete demolidor que não podia ser detido. A barreira agitava-se em volta deles, tirando do alcance da vista as primeiras fileiras.
O consumo da força de Eragon foi repentino e grandioso, fazendo seu coração ficar leve como o de um passarinho à beira da morte. Ele arfava, seus olhos giravam. Lutou para se livrar da pressão que a magia imprimia, tentando abrir mais a brecha por onde a vida dele fluía. Com um rosnado selvagem, ele livrou-se da força da magia, desfazendo o contato. Gavinhas de magia se debatiam em sua mente como cobras decapitadas e, relutantes, se retraíram, agarrando-se aos resquícios das forças do rapaz. A muralha de neblina dissipou-se e a névoa foi caindo lentamente no chão como uma torre de lama que desabava. Os Urgals não foram atrasados nem um pouco.
Eragon ficou caído, fraco e ofegante, em cima de Saphira. Foi só naquele momento que ele se lembrou de Brom dizendo: A magia é afetada pela distância, como uma flecha ou uma lança. Se tentar levantar ou mover algo que esteja a mais de um quilômetro de distância, isso exigirá mais energia do que se estivesse perto.
Não vou me esquecer disso de novo, pensou ele com raiva.
Você nunca devia ter se esquecido disso, acrescentou Saphira enfaticamente. Primeiro, a terra em Gil’ead e agora isso. Você não prestou atenção a nada que Brom lhe ensinou? Se continuar assim, vai acabar se matando.
Eu prestei atenção, insistiu ele esfregando o queixo. Mas faz muito tempo, e não tive a oportunidade de refletir sobre isso. Eu nunca usei magia à distância, então como poderia saber que era tão difícil?
Ela rosnou.
Agora, só falta você querer ressuscitar os mortos. Não se esqueça do que Brom disse sobre isso também.
Não esquecerei, disse impaciente. Saphira mergulhou em direção ao chão, procurando Murtagh e os cavalos. Eragon poderia tê-la ajudado, mas mal tinha energia para se manter sentado.
Saphira pousou em um pequeno campo de repente, e Eragon ficou intrigado ao ver os cavalos parados e Murtagh ajoelhado, examinando a terra. Quando Eragon não desmontou, Murtagh foi depressa até ele e perguntou:
— Qual é o problema? — Ele parecia estar zangado, preocupado e cansado ao mesmo tempo.
— Eu cometi um erro — disse Eragon com sinceridade. — Os Urgals entraram no vale. Tentei confundi-los, mas esqueci uma das regras da magia, o que me custou muito caro.
Fechando o rosto, Murtagh gesticulou com o polegar por cima do ombro.
— Achei alguns rastros de lobos, mas as pegadas têm a largura das minhas mãos juntas e quase três centímetros de profundidade. Há animais aqui que podem ser perigosos até para você, Saphira. — Ele virou-se para ela. — Sei que você não pode entrar na floresta, mas será que poderia ficar voando em círculos em cima de mim e dos cavalos? Isso pode manter essas feras afastadas. Caso contrário, não vai sobrar o bastante de mim para encher um dedal.
— Você nunca perde o senso de humor, não é Murtagh? — perguntou Eragon e um sorriso rápido apareceu no rosto dele. Seus músculos tremiam, tornando a concentração difícil.
— Só na forca. — Murtagh esfregou os olhos. — Não acredito que os mesmos Urgals estejam nos seguindo o tempo todo. Eles precisariam ter asas para nos alcançar.
— Saphira disse que são maiores do que todos os que já vimos — comentou Eragon.
Murtagh xingou, apertando com força o cabo de sua espada.
— Está explicado! Saphira, você está certa, pois esses são os Kull, a elite dos Urgals. Eu devia ter percebido que aquele líder importante devia estar no comando deles. Eles não andam a cavalo porque os animais não aguentam o peso. Nenhum tem menos de dois metros e meio de altura, e eles podem correr durante dias sem dormir e, ainda assim, estarão prontos para a batalha. Podem ser precisos cinco homens para matar um deles. Os Kull nunca saem de suas cavernas, exceto para guerrear, então devem estar esperando um grande massacre se saíram em um número tão grande.
— E podemos ficar à frente?
— Quem sabe? — respondeu Murtagh. — Eles são fortes, determinados e numerosos. É possível que tenhamos de enfrentá-los. Se isso acontecer, espero que as sentinelas dos Varden estejam a postos para nos ajudar. Apesar de suas habilidades e de Saphira, não somos páreos para os Kull.
Eragon se moveu para a frente e para trás, hesitante.
— Será que pode me dar um pedaço de pão? Preciso comer.
Murtagh trouxe rapidamente um pedaço para ele. O pão estava velho e duro, mas Eragon o comeu satisfeito. Murtagh examinou as paredes do vale, havia preocupação em seus olhos. Eragon sabia que ele estava procurando uma saída.
— Haverá uma mais à frente.
— Claro — respondeu Murtagh com um otimismo forçado, depois deu um tapa na coxa. — Precisamos partir.
— Como está Arya? — perguntou Eragon.
Murtagh deu de ombros.
— A febre aumentou. Ela está se agitando e se virando. O que poderíamos esperar? As forças dela estão se esgotando. Você devia ir voando com ela até os arden antes que o veneno cause mais estragos.
— Não vou deixar você para trás — insistiu Eragon ganhando força a cada mordida. — Ainda mais com os Urgals tão perto.
Murtagh deu de ombros novamente.
— Seja como você quiser. Mas estou avisando, ela não viverá se você ficar comigo.
— Não fale isso — insistiu Eragon colocando-se ereto na sela de Saphira. — Ajude-me a salvá-la. Ainda somos capazes de fazer isso. Considere como uma vida por uma vida, um reparo pela morte de Torkenbrand.
A expressão no rosto de Murtagh se fechou.
— Eu não tenho essa dívida. Você... — Ele parou quando o toque de uma trombeta ecoou pela floresta escura. — Tenho mais coisas a dizer para você depois — disse brevemente andando a passos largos em direção aos cavalos. Pegou as rédeas e saiu, lançando um olhar zangado para Eragon.
Eragon fechou os olhos quando Saphira decolou. Desejava estar deitado em uma cama macia e esquecer os problemas. Saphira, disse ele finalmente, cobrindo as orelhas com as mãos para aquecê-las, e se nós levarmos Arya para os Varden? Assim que ela estiver a salvo, podemos voltar para ajudar Murtagh a sair daqui.
Os Varden não deixariam, disse Saphira. Pelo que consta a eles, você poderia estar voltando aos Urgals para dar a localização do esconderijo. Não chegaremos sob as melhores circunstâncias para ganhar a confiança deles. Vão querer saber por que trouxemos um pelotão de monstros até os seus portões.
Teremos de contar a verdade e esperar que eles acreditem, disse Eragon.
E o que faremos se os Kull atacarem Murtagh?
Vamos lutar, é claro! Não permitirei que ele e Arya sejam capturados ou mortos, disse Eragon indignado.
Houve um toque de sarcasmo nas palavras dela:
Quanta nobreza. Oh, nós derrubaríamos vários Urgals, você usando sua magia e sua espada, enquanto minhas armas seriam meus dentes e garras, mas seria inútil no fim. Eles são muito numerosos... Não podemos derrotá-los, podemos apenas ser derrotados.
O que então? Reclamou ele. Não vou abandonar Arya e Murtagh ao sabor do destino.
Saphira agitou a cauda, a ponta produziu um assovio alto.
Não estou pedindo que você faça isso. Contudo, se atacarmos primeiro, podemos ganhar alguma vantagem.
Você enlouqueceu? Eles vão... A voz de Eragon sumiu quando ele pensou melhor. Eles não vão poder fazer nada!, concluiu ele surpreso.
Exatamente, disse Saphira. Podemos causar muitos danos a partir de uma altura segura.
Vamos jogar pedras neles! Propôs Eragon. Isso fará que eles se espalhem.
Só se os crânios deles não forem duros o bastante para protegê-los. Saphira virou para a direita e rapidamente desceu até o rio Dente-de-Urso. Ela pegou um pedregulho de tamanho considerável com as suas garras, enquanto Eragon encheu as mãos com várias pedras do tamanho de um punho. Carregada com as pedras, Saphira planou silenciosamente até estarem sobre o exército Urgal. Agora, exclamou ela, soltando o pedregulho. Ouviu-se o barulho abafado de galhos quebrando quando os projéteis desciam pelo topo da floresta. Segundos depois, uivos ecoaram pelo vale.
Eragon sorriu quando ouviu os Urgals deslocando-se desordenadamente em busca de abrigo.
Vamos pegar mais munição, sugeriu inclinando-se em cima de Saphira. Ela rosnou, concordando, e voltou ao leito do rio.
Deu muito trabalho, mas conseguiram prejudicar o avanço dos Urgals, embora fosse impossível detê-los completamente. Os Urgals ganhavam terreno sempre que Saphira ia pegar mais pedras. Apesar disso, os esforços permitiram que Murtagh ficasse à frente dos soldados que avançavam.
O vale ficou mais escuro com o passar das horas. Sem o sol para lhes dar calor, a mordida afiada do frio insinuou-se pelo ar, e a neblina congelou-se nas árvores, cobrindo-as de branco. Os animais noturnos começaram a sair de suas tocas para espiar, a partir de esconderijos sombrios, os estranhos que invadiam seus domínios.
Eragon continuava a examinar as montanhas, procurando uma cachoeira que significaria o final de sua jornada. Ele estava dolorosamente consciente de que cada minuto que passava colocava Arya mais perto da morte.
— Mais rápido, mais rápido — sussurrava para si mesmo, observando Murtagh do alto. Antes de Saphira pegar mais pedras, ele disse:
Vamos descansar e ver como está Arya. O dia está quase terminando, e temo que o tempo de vida que lhe resta esteja reduzido a poucas horas, ou minutos.
A vida de Arya está nas mãos do destino agora. Você fez sua escolha, preferindo ficar com Murtagh. É tarde demais para mudar isso, pare de se martirizar... Você está fazendo minhas escamas pinicarem. O melhor que podemos fazer agora é continuar bombardeando os Urgals.
Eragon sabia que ela estava certa, porém suas palavras não fizeram nada para aplacar sua ansiedade. Recomeçou sua busca pela cachoeira, mas não importava o que estivesse na frente deles, estava oculto por uma imensa cadeia de montanhas.
A verdadeira escuridão começou a encher o vale, acomodando-se em cima das árvores e das montanhas como uma nuvem tingida. Mesmo com sua audição aguçada e com seu faro sensível, Saphira não conseguia mais localizar os Urgals acima da densa floresta. Não havia lua para ajudá-los, levaria horas até que ela se erguesse acima das montanhas.
Saphira fez uma curva longa e suave para a esquerda e planou em volta das montanhas. Eragon, vagamente, percebeu-as passando por eles e olhou com os olhos semicerrados quando avistou uma fina linha branca à frente. Será que é a cachoeira?, pensou.
Ele olhou para o céu, que ainda ostentava a vermelhidão do pôr-do-sol. As silhuetas escuras das montanhas curvavam-se juntas, formando uma bacia que encerrava o vale. O fim do vale não está muito distante! Exclamou, apontando para as montanhas. Você acha que os Varden sabem que estamos chegando? Talvez eles enviem soldados para nos ajudar.
Duvido que eles nos prestem assistência até saberem se somos amigos ou inimigos, disse Saphira enquanto dava uma guinada abrupta em direção ao solo. Estou voltando para Murtagh, devemos ficar com ele agora. Como não posso localizar os Urgals, poderiam atacá-lo de surpresa sem que nós percebêssemos.
Eragon soltou Zar’roc em sua bainha, imaginando se estaria forte o bastante para lutar. Saphira pousou à esquerda do rio Dente-de-Urso e agachou-se de modo cauteloso. A cachoeira rugia ao longe. Lá vem ele, disse Saphira. Eragon ficou atento para ver se ouviria o som de cascos batendo no chão. Murtagh saiu correndo da floresta, mandando os cavalos na frente. Ele os viu, mas não diminuiu o passo.
Eragon desceu de Saphira com um pulo, cambaleando um pouco quando tentou acompanhar o passo de Murtagh. Atrás dele, Saphira foi para o rio, para poder segui-los sem que fosse atrasada pelas árvores. Antes que Eragon pudesse dar as notícias, Murtagh disse:
— Eu vi que você jogou pedras com Saphira, quanta pretensão. Os Kull pararam ou deram a volta?
— Eles ainda estão atrás de nós, mas estamos quase chegando ao final do vale. Como está Arya?
— Ela não morreu — disse Murtagh de modo ríspido. A respiração dele acontecia em rajadas curtas. As palavras seguintes foram enganosamente calmas, como as de um homem ocultando uma paixão ardente. — Há um vale ou uma garganta à frente por onde eu possa sair?
Apreensivo, Eragon tentou lembrar se havia visto alguma falha nas montanhas que os cercavam, ele pareceu desligado do dilema de Murtagh durante um tempo.
— Está escuro — respondeu evasivo, abaixando-se para desviar de um galho baixo. — Então, posso não ter visto alguma coisa, mas... Não há.
Murtagh xingou explosivamente e parou de repente, puxando com força as rédeas dos cavalos até que parassem também.
— Você está dizendo que o único lugar aonde eu posso ir é direto para os Varden?
— É, mas continue correndo. Os Urgals estão quase nos alcançando!
— Não! — reagiu Murtagh zangado. Ele cutucou com o dedo o peito de Eragon. — Eu o avisei de que não iria até os Varden, mas você foi em frente e me deixou preso entre a cruz e a espada! Quem viu as imagens da elfa foi você. Por que não me disse que era um beco sem saída?
Eragon irritou-se por causa do ataque e retrucou:
— Eu só sabia aonde tínhamos de ir, e não o que havia no caminho. Não me culpe por você ter optado por nos acompanhar.
Murtagh resmungava furiosamente entre os dentes quando se virou de repente. Tudo que Eragon conseguia ver dele era uma figura imóvel e curvada. Seus próprios ombros estavam tensos, e uma veia latejava no lado de seu pescoço. Ele pôs as mãos na cintura, sua impaciência aumentava.
Por que vocês pararam?, perguntou Saphira alarmada.
Não me distraia, disse Eragon e voltando-se para Murtagh perguntou:
— Qual é o seu problema com os Varden? Que coisa tão terrível é essa que você mantém escondida até agora? Você prefere lutar contra os Kull do que revelá-la? Quantas vezes teremos de passar por isso até você confiar em mim?
Houve um longo silêncio.
Os Urgals! Lembrou Saphira nervosa.
Eu sei, disse Eragon tentando se conter. Mas precisamos resolver isso.
Depressa, depressa.
— Murtagh — disse Eragon em tom sério —, a não ser que você queira morrer, devemos ir aos Varden. Não me deixe entrar nos domínios deles sem saber como reagirão ao ver você. Já é algo perigoso demais sem surpresas desnecessárias.
Finalmente Murtagh se virou para Eragon. A respiração dele estava curta e rápida, como a de um lobo encurralado. Ele fez uma pausa e disse com uma voz agoniada:
— Você tem o direito de saber. Eu... Eu sou o filho de Morzan, o primeiro e o último dos Renegados.

2 comentários:

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Boa leitura :)