27 de maio de 2017

Capítulo 48 - O presente dos dragões

Os dias que se seguiram até o Agaetí Blödhren foram os melhores e os piores para Eragon. Suas costas incomodavam-no mais do que nunca, minavam a sua saúde e resistência e destruíam a sua paz de espírito, ele vivia num medo constante de desencadear uma crise. Contudo, por outro lado, ele e Saphira nunca estiveram tão próximos. Viviam tanto nas mentes do outro como em suas próprias. E a todo instante Arya aparecia para visitar a casa da árvore a fim de caminhar por Ellesméra com Eragon e Saphira. No entanto, nunca vinha sozinha, trazia sempre Orik ou Maud, a menina-gata.
Em seus passeios, Arya apresentou Eragon e Saphira aos elfos mais distintos: grandes guerreiros, poetas e artistas. Ela os levou para concertos sob as copas dos pinheiros. E lhes mostrou várias maravilhas ocultas de Ellesméra.
Eragon aproveitava cada oportunidade para conversar com ela. Contou-lhe sobre a sua criação no vale Palancar, sobre Roran, Garrow e sua tia Marian, histórias de Sloan, Ethlbert e dos outros aldeões, e sobre o seu amor pelas montanhas que cercavam Carvahall e os lençóis luminosos e flamejantes que adornavam o céu invernal durante a noite. Falou da vez em que uma raposa caiu num dos tonéis do curtume de Gedric e de ser pescada com uma rede. Contou-lhe da alegria que sentia quando plantava uma muda, cuidava dela e afastava ervas daninhas, além de ficar observando os brotos verdes e tenros crescendo sob seus cuidados — uma alegria que sabia que ela, mais do que todas as outras pessoas, seria capaz de apreciar.
Por sua vez, Eragon compreendeu algumas questões íntimas referentes à vida da elfa. Ele ouviu lembranças da sua infância, amigos e família e de suas experiências entre os Varden, das quais falou com a maior liberdade, descrevendo ataques e batalhas de que ela participou, pactos que ajudou a negociar, suas disputas com os anões e os eventos graves que ela testemunhou durante o seu mandato como embaixadora.
Pela ligação entre ela e Saphira, uma certa paz entrou no coração de Eragon, mas era um equilíbrio precário que o ato mais insignificante poderia quebrar. O próprio tempo era um inimigo, pois Arya estava destinada a deixar Du Weldenvarden depois do Agaetí Blödhren. Por isso, Eragon estimava os momentos em que estava ao seu lado e temia a celebração que estava por vir.
A cidade inteira estava em verdadeira turbulência uma vez que os elfos se preparavam para o Agaetí Blödhren. Eragon nunca os vira tão entusiasmados antes. Decoraram a floresta com tiras de pano coloridas e lanternas, especialmente em torno da Menoa, enquanto a própria árvore estava enfeitada com uma lanterna na ponta de cada galho, onde se dependuravam como se fossem lágrimas brilhantes. Até mesmo as plantas, como Eragon notou, haviam assumido uma aparência festiva com uma nova coleção de flores frescas e radiantes. Ele frequentemente ouvia os elfos cantando para elas tarde da noite.
A cada dia, centenas de elfos chegavam a Ellesméra vindos de suas cidades espalhadas pela floresta, nenhum deles ousaria perder a cerimônia secular que celebrava o pacto com os dragões. Eragon imaginou que muitos deles também haviam vindo para conhecer Saphira. É como se eu não fizesse nada a não ser repetir o cumprimento deles, pensou ele. Os elfos que estavam ausentes por causa de suas responsabilidades fariam suas próprias festividades simultaneamente e participariam das cerimônias em Ellesméra valendo-se da cristalomancia, através de espelhos encantados que mostravam a imagem dos que estavam observando, para que ninguém se sentisse espionado.


Uma semana antes do Agaetí Blödhren, quando Eragon e Saphira estavam prestes a voltar dos rochedos de Tel’naeír para os seus aposentos, Oromis disse:
— Vocês dois devem pensar como contribuir para a Celebração de Juramento ao Sangue. A não ser que suas criações requeiram magia para serem feitas ou funcionarem, sugiro que evitem usar necromancia. Ninguém respeitará o seu trabalho se for o produto de um feitiço e não das suas próprias mãos. Também sugiro que cada um de vocês apresente algo diferente. É o costume.
No ar, Eragon perguntou para Saphira: Você tem alguma ideia?
Tenho uma. Mas, se você não se importa, gostaria de ver se funciona antes de lhe falar.
Ele capturou parte de uma imagem antes dela ocultar-lhe. Era uma pedra lisa de arestas vivas que sobressaía do chão da floresta.
Ele sorriu.
Você não me dará uma ideia?
Fogo. Muito fogo.
De volta à casa da árvore, Eragon catalogou suas habilidades e pensou: Sei mais sobre lavoura e cultivo do que qualquer um, mas não sei como fazer para tirar alguma vantagem disso. Nem posso esperar usar a magia para competir com os elfos ou igualar seus feitos valendo-me das habilidades com as quais estou familiarizado. Seu talento supera o dos melhores artífices do Império.
Mas você possui uma qualidade que mais ninguém possui, disse Saphira.
Hã?
Sua identidade. Sua história, feitos e situação. Use-as para moldar a sua criação, e você produzirá algo único. Seja lá o que for fazer, baseie no que lhe é mais importante. Só então terá profundidade e significado, e só dessa maneira repercutirá nas outras pessoas.
Ele a olhou com surpresa. Jamais havia percebido que você entendia tanto de arte.
Eu não, disse ela. Você se esquece de que passei uma tarde vendo Oromis pintando seus pergaminhos enquanto você voava com Glaedr. Oromis discutiu bastante o assunto.
Ah, sim. Eu havia esquecido.
Depois que Saphira saiu para resolver seu projeto, Eragon ficou andando na beirada do portal, refletia sobre o que ela havia dito. O que é importante para mim?, perguntou-se. Saphira, Arya, é claro, e ser um bom Cavaleiro, mas o que posso dizer sobre aqueles temas que não são tão óbvios assim? Aprecio a beleza na natureza porém, mais uma vez, os elfos já expressaram tudo o que é possível em relação a esse tópico. A própria Ellesméra é um monumento a sua devoção. Ele pensou e escrutinou a si próprio para determinar o que o atingia mais fundo. O que o agitava com paixão suficiente — de amor ou de ódio — a ponto de deixá-lo ansioso para partilhar com os outros?
Três coisas se apresentavam para ele: o ferimento que sofreu nas mãos de Durza, seu medo de um dia enfrentar Galbatorix e os épicos dos elfos que tanto o fascinavam.
Uma torrente de entusiasmo se acendeu dentro de Eragon quando uma história combinando esses elementos tomou forma em sua mente. Lépido e fagueiro, ele subiu as escadas curvas — dois degraus de cada vez — até a sala de estudos, onde se sentou à escrivaninha, mergulhou a pena na tinta e a segurou tremendo sobre uma folha de papel em branco.
O bico da pena fazia um ruído estridente já na primeira penada.

No reino perto do mar,
Nas montanhas cobertas de azul...

Aparentemente, as palavras fluíam de sua pena por iniciativa própria. Ele se sentia como se não estivesse inventando sua história, era apenas o instrumento dela. Pelo fato de nunca ter escrito antes, Eragon estava fascinado pela emoção da descoberta que acompanha novas aventuras — especialmente jamais imaginar que poderia gostar de ser um bardo.
Ele trabalhava num verdadeiro frenesi, sem comer ou beber, com as mangas de sua túnica enroladas até acima dos cotovelos, para protegê-la da tinta que esvoaçava de sua pena devido à ferocidade do seu escrever. Era tão intensa a sua concentração que ele não ouvia nada a não ser o ritmo do seu poema, não via nada a não ser o papel vazio e não pensava em nada a não ser nas frases gravadas a fogo atrás dos seus olhos.
Uma hora e meia depois, deixou a pena cair de sua mão rígida, afastou a cadeira da mesa e se levantou. Havia catorze páginas à sua frente. Era o máximo que ele já havia escrito de uma vez só. Eragon sabia que o seu poema não poderia se equiparar aos dos grandes autores elfos e anões, mas esperava que fosse sincero o suficiente para que os elfos não rissem do seu esforço.
Ele recitou o poema quando Saphira retornou. Depois de ouvir, ela disse: Ah, Eragon, você mudou muito desde que deixamos o vale Palancar. Até você não reconheceria o garoto inexperiente que partiu para se vingar, creio. Aquele Eragon jamais poderia ter escrito uma linha inspirado no estilo dos elfos. Gostaria muito de ver quem você se tornará daqui a cinquenta ou cem anos.
Ele sorriu. Se eu viver tanto assim.


— Tosco porém verdadeiro — foi o que Oromis disse quando Eragon leu o poema para ele.
— Então você gostou?
— E um belo retrato do seu estado mental no presente e uma leitura insinuante, mas não é uma obra-prima. Você esperava que fosse?
— Suponho que não.
— No entanto, estou surpreso por você ter dado voz a isso nesta língua. Não existe barreira para se escrever ficção na língua antiga. A dificuldade brota quando alguém tenta falá-la, pois isso exige que se conte verdades, coisa que a magia não permite.
— Posso dizer este texto — respondeu Eragon — porque acredito que seja verdade.
— E isso dá à sua escrita muito mais poder... Estou impressionado Eragon-finiarel. Seu poema será uma valiosa contribuição para a Celebração de Juramento ao Sangue. — Levantando um dedo, Oromis enfiou a mão dentro do seu manto e deu-lhe um pergaminho amarrado com um laço apertado para o rapaz. — Gravados nesse papel estão nove encantos defensivos que quero que coloque em volta de você e do anão Orik. Como você descobriu em Sílthrim, nossas festividades são vigorosas e não destinam-se àqueles cujas constituições sejam mais fracas do que as nossas. Desprotegidos, vocês correm o risco de se perder na teia da nossa magia. Já vi isso acontecer. Mesmo com essas precauções, vocês devem tomar cuidado para que não sejam influenciados por fantasias trazidas pelo vento. Fique em guarda, pois durante esse tempo, nós elfos estamos aptos a enlouquecer... maravilhosa e gloriosamente loucos, mas loucos do mesmo jeito.


Na noite do Agaetí Blödhren — que estava prevista para durar três dias — Eragon, Saphira e Orik acompanharam Arya até a Menoa, onde uma multidão de elfos estava reunida, seus cabelos negros e prateados tremeluziam à luz dos lampiões. Islanzadí estava em uma raiz elevada na base do tronco, tão alta, pálida e formosa quanto uma bétula. Blagden estava empoleirado no ombro esquerdo da rainha, enquanto Maud, a menina-gata, ficava atrás dela, à espreita. Glaedr estava lá, assim como Oromis, vestido de vermelho e preto, e outros elfos que Eragon reconheceu, como Lifaen e Narí e, para o seu desgosto, Vanir. Mais acima, as estrelas brilhavam no céu aveludado.
— Espere aqui — disse Arya. Ela se enfiou no meio da multidão e voltou trazendo Rhunön. A ferreira pestanejava como uma coruja em seu hábitat. Eragon a cumprimentou e ela acenou a cabeça para ele e Saphira.
— Olá, Escamas Brilhantes e Matador de Espectros. — Depois disso ela avistou Orik e se dirigiu a ele na língua dos anões, ao que Orik reagiu com entusiasmo, obviamente feliz por poder conversar com alguém à maneira de sua terra natal.
— O que ela disse? — perguntou Eragon, curvando-se.
— Ela me convidou para ir até sua casa a fim de ver seu trabalho e conversar sobre a arte. — A admiração se espalhou pelo rosto de Orik. — Eragon, ela aprendeu a trabalhar com o próprio Fûthark, um dos lendários grimstborithn do Dûrgrimst Ingeitum! O que eu não daria para tê-lo conhecido.
Juntos eles esperaram até a badalada de meia-noite, quando Islanzadí ergueu seu braço esquerdo nu para que pudesse apontá-lo para a lua nova fosse uma lança de mármore. Uma esfera branca e suave se formou sobre a palma de sua mão a partir da luz emitida por lanternas que salpicavam a Menoa. Então Islanzadí andou ao longo da raiz do enorme colocou a esfera num espaço vazio na casca, onde ela permaneceu, pulsando.
Eragon se voltou para Arya.
— Já começou?
— Começou! — riu ela. — E terminará quando a aura se consumir.
Os elfos se dividiram em acampamentos informais espalhados pela floresta e pela clareira em volta da Menoa. Aparentemente do nada, eles produziram banquetes fantásticos, vistos em sua aparência sobrenatural, eram fruto do trabalho tanto de feiticeiros quanto de cozinheiros.
Então, os elfos começaram a cantar com suas vozes claras e aflautadas. Cantaram muitas canções, contudo cada uma compunha outra melodia maior que tecia um encanto sobre a noite de sonho, intensificava os sentidos, removia inibições e lustrava os festejos com uma magia extremamente alegre. Seus versos falavam de feitos heróicos e buscas em barcos ou cavalos a terras esquecidas e a tristeza da beleza perdida. A música pulsante envolveu Eragon, que sentiu uma profunda despreocupação em si, o desejo de se livrar de sua vida e sair dançando pelas clareiras nas matas elfas para todo o sempre. Ao seu lado, Saphira cantava a melodia com os lábios fechados, seus olhos vítreos estavam semicerrados.
Eragon nunca mais conseguiria se recordar adequadamente do que transcorreu depois. Era como numa febre em que se perde e recupera a consciência alternadamente. Ele conseguia se lembrar de certos episódios com uma clareza vivida — lampejos brilhantes e pungentes cheios de uma alegria ruidosa — mas estava além de suas forças repassar a ordem em que estes ocorreram. Ele havia perdido a noção de dia e noite pois, independente da hora, a escuridão parecia impregnar a floresta. Da mesma forma não podia dizer se havia dormido ou precisado dormir durante a celebração...


Lembrava-se de ter girado em círculos enquanto segurava as mãos de uma donzela elfa com lábios de cereja, o gosto do mel na língua dele e o cheiro de zimbro no ar...


Lembrava-se de elfos empoleirados nos galhos estendidos da Menoa, como se fossem um bando de estorninhos. Dedilhavam harpas douradas e gritavam enigmas para Glaedr lá embaixo e, de vez em quando apontavam um dedo para o céu, onde depois apareciam rajadas de brasas coloridas em várias formas, antes de desaparecerem...


Lembrava-se de estar sentado num pequeno vale isolado, escorado em Saphira, e de ver a mesma donzela dançar em frente a uma plateia arrebatada enquanto cantava:


Longe, longe, você voará para longe,
Sobre os picos e vales
Para os mundos distantes.
Longe, longe, você voará para longe,
E jamais voltará para mim.

Longe! Longe você ficará de mim,
E eu jamais o verei novamente.
Longe! Longe você ficará de mim,
Embora eu vá esperá-lo para sempre.

Lembrava-se de inúmeros poemas, alguns pesarosos, outros jubilosos — a maioria ostentava ambos os sentimentos. Ele ouviu e gostou do poema inteiro de Arya, assim como do de Islanzadí, que era mais longo, mas possuía o mesmo mérito. Todos os elfos se reuniram para ouvir estes dois trabalhos...


Lembrava-se das maravilhas que os elfos haviam preparado para a celebração, muitas julgaria impossíveis anteriormente, mesmo com o auxílio da magia. Quebra-cabeças e brinquedos, artes e armas, e itens cujas funções lhe fugiam. Um elfo havia enfeitiçado uma bola de vidro de modo que, de segundos em segundos, uma flor diferente brotava do seu centro.
Outro elfo passou décadas viajando por Du Weldenvarden, memorizou os sons dos elementos, e os mais bonitos que ele agora tocava eram os provenientes das gargantas de centenas de lírios brancos.
Rhunön contribuiu com um escudo inquebrável, um par de luvas tecido com fios de aço que permitia a quem as vestisse manipular chumbo derretido e outros itens sem se queimar, e uma escultura delicada que mostrava uma cambaxirra voando, entalhada a partir de um bloco maciço de metal e pintada com tanto esmero que o pássaro parecia vivo.
Uma pirâmide de madeira em quebra-cabeça, tinha vinte centímetros de altura e foi construída usando 58 peças encaixadas e foi a oferenda de Orik, para o deleite dos elfos, que insistiam em desmontar e montar a pirâmide tantas vezes quanto ele permitiu. Eles o chamaram de “Mestre Barba Longa” e disseram:
— Dedos inteligentes significam uma mente inteligente...
Ele se lembrou de Oromis puxando-o para o lado, para longe da música, e dele perguntando para o elfo:
— O que há de errado?
— Você precisa clarear a sua mente. — Oromis o conduziu até um tronco caído e o fez se sentar. — Fique aqui por alguns minutos. Você se sentirá melhor.
— Estou bem. Não preciso descansar — protestou Eragon.
— Você não está em posição de decidir neste instante. Fique aqui até que possa listar os encantos de mudança, grandes e pequenos, e depois poderá se juntar a nós novamente. Prometa-me isso...


Lembrava-se de criaturas obscuras e estranhas pairando, vinham das profundezas da floresta. A maioria eram animais que haviam sido alterados pelos feitiços acumulados em Du Weldenvarden e estavam agora sendo atraídos para o Agaetí Blödhren como um homem faminto é atraído pela comida. Eles pareciam se nutrir da presença da magia dos elfos. A maioria ousava se revelar como pares de olhos cintilantes nas cercanias da luz das lanternas. Um animal que se expôs foi a loba — na forma de uma mulher com manto branco — que Eragon havia encontrado antes. Ela estava à espreita, atrás de uma cornácea, tinha os dentes como adagas, expostos num sorriso largo de quem se divertia, seus olhos amarelos corriam de um ponto a outro.
Mas, nem todas as criaturas eram animais. Algumas poucas eram elfos que haviam alterado suas formas originais por funcionalidade ou em busca de um ideal de beleza diferente. Um elfo coberto de pele malhada pulou por cima de Eragon e continuou a dar cambalhotas, ficava de quatro com frequência em vez de ficar de pé. Sua cabeça era estreita e alongada, tinha orelhas parecidas com as de um gato, seus braços ficaram pendurados ate os joelhos e suas mãos de dedos longos eram polpudas nas palmas.
Depois, duas mulheres elfas idênticas se apresentaram para Saphira. Elas se moviam com uma graça lânguida e, quando tocaram os lábios com as mãos fazendo o cumprimento tradicional, Eragon viu que seus dedos estavam unidos por uma teia translúcida. “Nós chegamos do fundo,” sussurraram. Quando falaram, três fileiras de guelras pulsaram cada lado de seus pescoços delgados, expondo a pele rosa que havia por baixo. Suas peles brilhavam como se fossem oleosas. Seus cabelos lisos caíam abaixo de seus ombros estreitos.
Ele encontrou um elfo coberto por escamas sobrepostas como as de um dragão, tinha uma crista óssea sobre a cabeça e uma fileira de espinhos descia pelas suas costas, duas chamas pálidas tremeluziam constantemente nas profundezas de suas narinas resplandecentes.
E ele encontrou outros que não eram tão reconhecíveis: elfos cujos contornos oscilavam como se vistos através da água, elfos que, quando não se moviam, eram indistinguíveis das árvores, elfos altos com olhos totalmente negros, mesmo onde deviam ser brancos, que possuíam uma beleza incômoda que atemorizava Eragon e, quando tinham a chance de tocar em algo, o atravessavam como se fossem sombras.
O exemplo máximo desse fenômeno era a Menoa, que outrora foi a elfa Linnëa. A árvore parecia excitar-se com a vida manifestada na atividade que transcorria na clareira. Seus galhos se mexiam, embora nenhuma brisa os tocasse, os rangidos do seu tronco às vezes podiam ser ouvidos para combinar com o fluxo da música, e um ar de suave benevolência emanava da árvore e caía sobre aqueles que estavam na vizinhança...


E lembrava-se de duas crises nas suas costas: ele gritou e gemeu nas sombras, enquanto os elfos enlouquecidos continuavam seus festejos à sua volta e só Saphira vinha para protegê-lo...


No terceiro dia do Agaetí Blödhren, e como Eragon soube mais tarde, ele recitou seus versos para os elfos. Levantou-se e disse:
— Não sou ferreiro, nem possuo habilidades de escultor, tecelão, ceramista, pintor ou de qualquer tipo de arte. Nem posso equiparar os meus feitos encantados aos seus. Com isso, tudo o que me resta são as minhas próprias experiências, tentei contá-las pela lente de uma história, embora não seja nenhum bardo. — Então, à maneira de Brom, quando recitava suas baladas em Carvahall, Eragon entoou:

No reino perto do mar,
Nas montanhas cobertas de azul,
No último dia de um inverno frígido
Nasceu um homem com uma única tarefa:
Matar o inimigo em Durza,
No reino das sombras.

Criado pelos sábios e gentis
Sob carvalhos tão velhos quanto o tempo,
Ele corria com gamos e enfrentava ursos,
E com os mais velhos se aprimorava,

Para matar o inimigo em Durza
No reino das sombras.

Ensinado a espionar o ladrão de preto
Quando agarra os fracos e fortes,
A bloquear seus golpes e enfrentar o demônio
Com trapos, rochas, plantas e ossos,

E matar o inimigo em Durza
No reino das sombras.

Rápidos como o pensamento,
os anos se passaram,
Até o homem atingir a maioridade,
Seu corpo ardendo com uma fúria febril
Enquanto a impaciência da juventude queimava suas veias.

Então ele encontrou uma donzela formosa,
Que era alta, forte e sábia,
Cuja fronte era enfeitada pela Luz de Gëda,
Que brilham sobre seu vestido rastejante.

Em seus olhos de um azul de meia-noite,
Naquelas poças enigmáticas,
Apareceu para ele um futuro brilhante,
Juntos, onde não teriam

Que temer o inimigo em Durza
No reino das sombras.

Daí Eragon falou sobre como o homem viajou até o reino de Durza, encontrou e enfrentou seu inimigo, apesar do medo gélido em seu coração.
Contudo, acabou triunfando, o homem impediu o golpe fatal, gora que havia derrotado o seu inimigo, não temia a condenação do mortais. Ele não precisou matar seu adversário em Durza. Então o homem embainhou sua espada, voltou para casa e se casou com seu amor numa noite de verão. Ao seu lado, passou seus muitos dias feliz até sua barba ficar longa e branca. Mas:

Na escuridão antes do amanhecer
No quarto onde dormia o homem,
O inimigo se arrastou e se assomou
Agora que seu poderoso rival estava tão fraco.

Do seu travesseiro, o homem
Levantou a cabeça e fitou
A face fria e vazia do Fim,
O rei da noite eterna.

Uma calma aceitação encheu
O coração velho do homem,
Pois há muito ele perdera o medo do abraço da Morte
O último abraço que um homem conhecerá

Suave como a brisa da manhã
Curvou-se o inimigo e do homem
Seu espírito ardente e pulsante tomou,
E dai em paz eles ficaram

Para todo o sempre em Durza,
No reino das sombras.

Eragon ficou quieto e, consciente dos olhares que sobre ele pairavam, abaixou a cabeça e logo encontrou o seu lugar. Sentia-se embaraçado por ter revelado tanto de si próprio.
O lorde elfo, Däthedr, disse:
— Você se subestima, Matador de Espectros. Parece que você descobriu um novo talento.
Islanzadí ergueu uma de suas mãos pálidas.
— Seu trabalho será anexado à grande biblioteca na Mansão Tialdarí, Eragon-finiarel, para que todos que quiserem possam apreciá-lo. Embora o seu poema seja uma alegoria, acredito que tenha ajudado a muitos de nos a entender melhor as dificuldades enfrentadas por você, desde que o ovo de Saphira apareceu em sua vida, pelas quais nós somos, de uma maneira nada insignificante, responsáveis. Você devia lê-lo novamente para nós a fim de que possamos pensar mais profundamente em seu conteúdo.
Feliz Eragon inclinou a cabeça e fez o que ela mandou. Depois, foi de Saphira apresentar seu trabalho para os elfos. Voou pela noite e voltou com uma pedra negra, ela tinha o triplo do tamanho de um homem de grande estatura. Aterrissando com as patas traseiras, colocou a pedra no meio do gramado, para que pudesse ser vista por todos. A rocha brilhante havia sido fundida e de algum modo moldada em curvas intrincadas, uma envolvendo a outra, como ondas congeladas. As línguas de rocha esfriadas se retorciam de tal maneira que o olho tinha dificuldade de acompanhar um único risco da base até a ponta, e, em vez disso, passava rapidamente de uma espiral para a seguinte.
Como essa era a primeira vez em que via a escultura, Eragon a contemplou com o mesmo interesse dos elfos. Como você fez isso?
Os olhos de Saphira piscaram de alegria. Lambi a pedra derretida.
Depois ela se agachou e soltou fogo sobre a pedra, banhando-a dentro de um pilar dourado que ascendia na direção das estrelas e se agarrava a elas com dedos luzentes. Quando Saphira fechou sua mandíbula, as extremidades da escultura, que eram finas como papel, brilhavam num tom vermelho vivo, enquanto pequenas chamas bruxuleavam nas cavidades escuras e nas reentrâncias espalhadas pela rocha. Os filete de rocha que fluíam pareciam se mover sob uma luz hipnótica.
Os elfos exclamaram maravilhados, batendo palmas e dançando em volta da obra. Um deles gritou:
— Muito bem forjado, Escamas Brilhantes!
É lindo, disse Eragon.
Saphira tocou em seu braço com o focinho. Obrigado, pequenino.
Então Glaedr trouxe a sua oferenda: uma tora de carvalho vermelho que ele havia entalhado com a ponta de uma de suas garras, deu forma a uma espécie de visão aérea de Ellesméra. E Oromis revelou a sua contribuição: o pergaminho completo que Eragon o vira ilustrando constantemente durante suas lições. Ao longo da metade superior do pergaminho bordejavam colunas de glifos — uma cópia de “A Balada de Vestarí, o Marinheiro” — enquanto que na metade de baixo havia o panorama de uma paisagem fantástica, representado com detalhes, um nível artístico e uma habilidade de tirar o fôlego.
Arya pegou Eragon pela mão e o arrastou pela floresta na direção da Menoa, onde lhe disse:
— Veja como a esfera de luz criada por Islanzadí está enfraquecendo. Nos restam apenas umas poucas horas antes da chegada do amanhecer e temos que voltar para o mundo da fria razão.
Em volta da árvore, uma multidão de elfos estava reunida, seus rostos brilhavam de tanta ansiedade. Com grande dignidade, Islanzadí emergiu de dentro de seu âmago e andou por uma raiz, tão larga quanto uma vereda, até ela formar um ângulo ascendente e voltar a dobrar-se sobre si mesma. Ela ficou em pé sobre a plataforma retorcida, contemplava os pequenos elfos que esperavam.
— Como é de nosso costume, e como foi acordado no final da Guerra dos Dragões pela rainha Tarmunora, o primeiro Eragon, e o dragão que representava sua raça (aquele cujo nome não pode ser pronunciado nesta ou em qualquer outra língua) quando uniram os destinos de elfos e dragões, nos encontramos para honrar nosso juramento ao sangue com canções, danças e o fruto do nosso trabalho. Da última vez que esta celebração ocorreu, há muitos e longos anos atrás, nossa situação era realmente desesperadora. Ela melhorou um pouco como resultado dos nossos esforços, como também por causa do empenho dos anões e dos Varden. embora a Alagaësia ainda paire sob a sombra negra dos Wyrdfell e ainda tenhamos de viver com a vergonha que sentimos por termos falhado com os dragões.
“Dos Cavaleiros de antigamente, só Oromis e Glaedr ainda sobrevivem. Brom e muitos outros foram para o vácuo neste último século. No entanto, uma nova esperança nos foi concedida na forma de Eragon e Saphira, e é certo e apropriado que ambos estejam aqui agora, quando reafirmamos o pacto que existe entre as nossas três raças.”
Ao sinal da rainha, os elfos desobstruíram uma grande área na base da Menoa. Em torno do perímetro, fixaram uma série de lanternas em círculo, montadas sobre estacas entalhadas, enquanto músicos com flautas, harpas e tambores reuniam-se ao longo do sulco de uma raiz longa. Guiado por Arya até a beira do círculo, Eragon se viu sentado entre ela e Oromis, enquanto Saphira e Glaedr estavam agachados, cada um de um lado, como se fossem dois promontórios cravejados de joias.
Para Eragon e Saphira, Oromis disse:
— Observem tudo atentamente, pois isto é de grande importância para a sua herança como Cavaleiros.
Quando todos os elfos estavam acomodados, duas donzelas elfas andaram até o centro do espaço na multidão e ficaram em pé de costas uma para a outra. Eram excessivamente lindas e idênticas em todos os aspectos, exceto pelo seu cabelo: uma tinha cachos tão negros quanto uma poça esquecida, enquanto o da outra cintilava como arame prateado e polido.
— São as Vigilantes, Iduna e Nëya — sussurrou Oromis. Do ombro de Islanzadí, Blagden gritou:
— Wyrda!
Movendo-se concomitantemente, as duas elfas ergueram as mãos até os broches em seus pescoços, desabotoaram-nos, permitindo que seus mantos brancos caíssem. Embora não usassem roupas por baixo, as mulheres estavam cobertas por uma tatuagem iridescente de dragão. A tatuagem começava com a cauda do dragão envolvendo o tornozelo esquerdo de Iduna, subia por sua perna e coxa, chegava ao torso e depois atravessava para as costas de Nëya finalizando com a cabeça do dragão no peito desta. Cada escama do dragão estava pintada de uma cor diferente, as nuanças vibrantes davam à tatuagem a aparência de um arco-íris.
As donzelas entrelaçavam suas mãos e braços para que o dragão parecesse um todo contínuo, ondulando de um corpo para o seguinte sem interrupção. Então, cada uma delas levantou um pé descalço e o trouxe de volta para o chão cheio de gente com um leve baque: bum.
E mais uma vez: bum.
No terceiro bum, os músicos bateram nos seus tambores no mesmo ritmo. Um bum depois, os harpistas puxaram as cordas de seus instrumentos dourados e, no instante seguinte, os elfos com as flautas se juntaram à pulsante melodia.
Lentamente a princípio, mas com uma velocidade cada vez maior, Iduna e Nëya começaram a dançar, marcando o tempo com o bater dos seus pés na lama, e ondulando para que não parecesse que elas é que estavam se movendo e sim o dragão sobre as duas. Ambas ficaram girando sem parar e o dragão voava em círculos intermináveis por suas peles.
Depois, as gêmeas acrescentaram suas vozes à música, dando mais força à batida com seus gritos ferozes. As letras eram versos de um encanto tão complexo que Eragon não conseguiu captar seu significado.
Como o vento que se levanta e precede uma tempestade, os elfos acompanharam o encantamento, cantando em uníssono, comungando o pensamento e a intenção. Eragon não sabia as letras, mas se viu cantando-as junto com os elfos, que passavam rapidamente com uma cadência inexorável — ele ouviu Saphira e Glaedr murmurando também, com uma pulsação tão forte e profunda que vibrava dentro dos seus ossos, fazia sua pele formigar e o ar emitir uma luz trêmula.
Iduna e Nëya giravam cada vez mais rápido até seus pés se tornarem uma mancha empoeirada, seus cabelos ventilarem ao seu redor e brilharem com uma camada de suor. As donzelas aceleraram até uma velocidade inumana e a música chegar ao clímax. Num frenesi de frases entoadas. Até que um raio de luz correu por toda a extensão da tatuagem de dragão, da cabeça ao rabo, e o dragão se mexeu. A princípio, Eragon achou que seus olhos o estavam enganando, até que a criatura piscou, ergueu suas asas e apertou suas garras.
Uma rajada de fogo brotou do estômago do dragão enquanto ele soltava e se livrava da pele das elfas, subindo aos céus, onde ele pairou, batendo as asas. A ponta de sua cauda continuava conectada às gêmeas que estavam embaixo, como se fosse um cordão umbilical cintilante. A fera gigante se esforçava para seguir na direção da lua negra, soltou um rugido indomado de eras passadas e depois se virou para sondar os elfos reunidos.
Enquanto o olhar maligno do dragão caía sobre ele, Eragon sabia que a criatura não era uma mera aparição, mas um ser consciente determinado e sustentado pela magia. O canto abafado de Saphira e Glaedr foi ficando cada vez mais alto até que bloqueou todos os outros sons dos ouvidos de Eragon. Mais acima, o fantasma da raça fazia acrobacias sobre os elfos, roçando neles com uma asa irreal. Acabou parando diante de Eragon, envolvendo-o num turbilhão infinito com o olhar fixo. Guiado por algum instinto, Eragon levantou a mão direita, cuja palma formigava.
Em sua mente, ecoava uma voz de fogo: É o nosso presente para que você possa fazer o que deve.
O dragão dobrou o pescoço e, com seu focinho, tocou o centro da gedwëy ignasia de Eragon. Uma faísca saltou entre eles e Eragon ficou rígido enquanto um calor incandescente fluía pelo seu corpo, consumindo seu interior. Sua visão ardia em tons vermelhos e pretos, e a cicatriz em suas costas queimava como se o estivesse marcando com ferro quente. Em busca de segurança, ele se internou profundamente dentro de si, onde as trevas o envolveram e o rapaz não teve forças para resistir.
Por fim, ele mais uma vez ouviu a voz de fogo dizer: É o nosso presente para você.

3 comentários:

  1. \O/ Ohhhh!
    Muito legal.

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  2. LuaMara dragão Opala17 de junho de 2017 20:35

    esse capítulo é mt top das galáxias em compensação o próximo.... :(

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  3. Nossa!!! Que leitura intensa!
    Amei o presente do Eragon...

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Boa leitura :)