22 de maio de 2017

Capítulo 47 - Um conflito de desejos

Quando a manhã chegou, a bochecha de Eragon estava irritada por ter sido friccionada contra o pescoço de Fogo na Neve, e ele estava dolorido devido à sua luta com Murtagh. Eles dormiram alternadamente nas selas durante toda a noite. Isso permitiu que se distanciassem da tropa dos Urgals, mas nenhum dos dois podia determinar a vantagem que tinham obtido. Os cavalos estavam exaustos a ponto de quererem parar, mas, ainda assim, mantiveram um passo implacável. Entretanto, se isso era o bastante para escapar, dependia de quão os monstros estavam sossegados... E se os cavalos de Murtagh e Eragon conseguiriam sobreviver.
As montanhas Beor lançavam grandes sombras sobre a terra, roubando o calor do sol. Ao norte, estava o deserto Hadarac, uma fina faixa branca tão brilhante quanto a neve ao meio-dia.
Eu preciso comer, disse Saphira. Já se passaram dias desde a última vez que cacei. A fome está moendo minhas entranhas. Se eu começar agora, poderei pegar alguns daqueles veados para fazer uma boquinha.
Eragon riu por causa do exagero dela.
Se você precisa ir, vá. Mas deixe Arya aqui.
Serei rápida.
Ele desamarrou a elfa da barriga do dragão e a transferiu para a sela de Fogo na Neve. Saphira voou para longe, desaparecendo em direção às montanhas. Eragon correu ao lado dos cavalos, perto o bastante de Fogo na Neve para evitar que Arya caísse. Nem ele nem Murtagh quebraram o silêncio. A briga de ontem não parecia tão importante por causa dos Urgals, mas os hematomas continuavam presentes. Saphira conseguiu caçar em uma hora e notificou Eragon sobre seu sucesso. Eragon ficou feliz porque ela voltaria logo. Sua ausência o deixava nervoso.
Pararam em um lago para deixar os cavalos beberem. Eragon puxou uma folha de grama preguiçosamente, girando-a enquanto olhava fixamente para a elfa. Foi despertado abruptamente do seu devaneio pelo som característico de uma espada sendo desembainhada. Instintivamente, pegou Zar’roc e virou-se, em busca do inimigo. Lá estava apenas Murtagh, com sua longa espada a postos. Apontou para uma colina à frente deles, onde um homem alto, vestindo um manto marrom, estava montado em um cavalo avermelhado, com uma clava na mão. Atrás dele havia um grupo de vinte homens em suas montarias.
Ninguém se movia.
— Será que são os Varden? — perguntou Murtagh.
Eragon, sorrateiramente, preparou seu arco.
— Segundo Arya, eles ainda estão a muitos quilômetros de distância. Esta pode ser uma das patrulhas deles.
— Pressupondo que não sejam bandidos. — Murtagh pulou para cima de Tornac e preparou seu próprio arco.
— Vamos tentar deixá-los para trás? — perguntou Eragon jogando um cobertor em cima de Arya. Os homens poderiam tê-la visto, mas Eragon esperava poder esconder o fato de que ela era uma elfa.
— Não adiantaria nada — disse Murtagh, balançando a cabeça. — Tornac e Fogo na Neve são valentes cavalos de batalha, mas estão cansados e não são bons velocistas. Olhe os cavalos que aqueles homens têm, foram feitos para correr. Eles nos alcançariam em menos de dois quilômetros. Além disso, podem ter algo importante a dizer. É melhor você pedir a Saphira para voltar correndo.
Eragon já estava fazendo isso. Ele explicou a situação e avisou:
Não se mostre a não ser que seja necessário. Não estamos no Império, mas ainda não quero que ninguém saiba sobre você.
Não se incomode com isso, respondeu ela. Lembre, a magia pode protegê-lo quando a velocidade e a sorte falham.
Ele sentiu que ela levantou voo e que vinha depressa em direção a eles, voando perto do chão. O bando os observava da colina.
Nervosamente, Eragon agarrou Zar’roc. O punho envolto por cordões estava firme embaixo de sua luva. Ele disse em um tom de voz baixo:
— Se eles nos ameaçarem, posso assustá-los com magia. Se isso não adiantar, temos Saphira. Gostaria de saber como reagiriam perante um Cavaleiro, muitas histórias foram contadas sobre o poder deles... Pode ser o bastante para evitarmos uma luta.
— Não conte com isso — disse Murtagh secamente. — Se houver uma luta, teremos de matar vários deles para convencê-los de que não valemos o risco. — Seu rosto exibia uma expressão controlada e impassível.
O homem no cavalo avermelhado fez um sinal com sua clava, mandando seu grupo, a meio-galope, em direção a eles. Os homens balançavam lanças acima da cabeça, gritando entusiasmados conforme se aproximavam. Bainhas de espadas surradas pendiam de suas cintas. As suas armas eram enferrujadas e manchadas. Quatro deles apontaram flechas para Eragon e Murtagh.
O líder girou sua clava no ar e seus homens responderam com gritos enquanto circundavam Eragon e Murtagh de modo selvagem. Os lábios de Eragon contorciam-se. Quase lançou uma explosão de magia no meio deles, mas achou melhor se conter. Ainda não sabemos o que eles querem, lembrou a si mesmo, segurando sua apreensão crescente.
No momento em que Eragon e Murtagh estavam completamente cercados, o líder puxou as rédeas de seu cavalo. Cruzou os braços e olhou para eles de modo crítico. Ele levantou suas sobrancelhas.
— Bem, esses são melhores do que as porcarias que encontramos! Pelo menos, desta vez, são saudáveis. E nem tivemos de atirar neles. Grieg vai ficar satisfeito. — Os homens riram. Ao ouvir essas palavras, uma sensação de agonia encheu o peito de Eragon. Uma suspeita rondava a mente dele. Saphira...
— Vocês dois — disse o líder, dirigindo-se para Eragon e Murtagh. — Seria bom que abaixassem suas armas, pois assim evitarão virar alvos vivos para as flechas dos meus homens. — Os arqueiros sorriam de modo sugestivo, os homens riram de novo.
O único movimento de Murtagh foi girar sua espada.
— Quem são vocês e o que querem? Somos homens livres viajando por esta terra. Vocês não têm o direito de nos deter.
— Oh! Eu tenho todo o direito — disse o homem, com desdém — E quanto ao meu nome, escravos não chamam seus senhores desse modo, a não ser que queiram apanhar.
Eragon xingou baixinho. Traficantes de escravos! Ele lembrou-se claramente das pessoas que viu sendo leiloadas em Dras-Leona. A raiva ferveu dentro dele. Olhou fixamente para os homens que os cercavam, com ódio e desgosto renovados.
As linhas de expressão destacaram-se no rosto do líder.
— Soltem suas espadas e rendam-se! — Os traficantes de escravos ficaram tensos, olhando para eles com olhares frios, quando nem Eragon nem Murtagh baixaram suas armas. A palma da mão de Eragon formigava. Ouviu um ruído vindo por trás, depois, um xingamento alto. Espantado, virou-se.
Um dos traficantes tinha puxado o cobertor de cima de Arya, revelando o rosto dela. Ele olhou boquiaberto e berrou:
— Torkenbrand, esta aqui é da raça dos elfos! — Os homens agitaram-se, surpresos, enquanto o líder deu esporeadas no seu cavalo para chegar até Fogo na Neve. Olhou para baixo, na direção de Arya, e assoviou.
— Bem, quanto ela deve valer? — perguntou alguém.
Torkenbrand ficou em silêncio por um momento, depois abriu as mãos e disse:
— No mínimo? Fortunas em cima de fortunas. O Império pagará uma montanha de ouro por ela!
Os traficantes de escravos gritaram animados e bateram um nas costas do outro. Um rugido encheu a mente de Eragon quando Saphira apareceu, de repente, ao longe. Ataque agora! Gritou ele. Mas deixe que eles fujam se saírem correndo. Ela fechou as asas imediatamente e mergulhou para o chão. Eragon chamou a atenção de Murtagh com um sinal repentino. Murtagh entendeu a dica. Ele bateu violentamente com o cotovelo no rosto do traficante, jogando o homem para fora de seu cavalo, e golpeou Tornac com os calcanhares.
Jogando sua crina para trás, o cavalo deu um pulo para a frente, girou depressa e recuou. Murtagh brandiu sua espada enquanto Tornac voltava à sua posição normal, enfiando os cascos das patas dianteiras nas costas do traficante caído. O homem gritou.
Antes que os outros traficantes de escravos pudessem reagir, Eragon saiu do meio da confusão e ergueu as mãos, invocando palavras da língua antiga. Um globo de fogo azul índigo bateu no chão, no meio da briga, explodindo em milhões de gotas derretidas, e se dissipando como orvalho aquecido pelo sol.
Um segundo depois, Saphira caiu dos céus, pousando ao lado dele. Ela abriu largamente a boca, exibindo suas presas enormes e rugiu alto.
— Pasmem! — gritou Eragon mais alto do que o furor. — Eu sou um Cavaleiro! — Ele ergueu Zar’roc acima da cabeça, a lâmina vermelha brilhava sob a luz do sol, e a apontou para os traficantes. — Fujam se quiserem viver!
Os homens gritavam de modo incoerente e bateram uns nos outros por causa da pressa para fugir.
Na confusão, Torkenbrand foi atingido na testa por um bastão. Ele caiu no chão, abalado. Os homens ignoraram seu líder caído e fugiram correndo, fazendo alarde, lançando olhares temerosos para Saphira.
Torkenbrand lutou para ficar de joelhos. O sangue escorria em sua testa, espalhando-se sobre a face como ramificações vermelhas. Murtagh desmontou e dirigiu-se até ele com passos largos, espada em punho.
Torkenbrand ergueu fracamente seu braço, como se fosse repelir um golpe. Murtagh olhou friamente para ele e lançou sua espada em direção ao pescoço de Torkenbrand.
— Não! — gritou Eragon, mas era tarde demais.
O tronco decapitado de Torkenbrand despencou no chão, levantando um monte de poeira. A cabeça dele aterrissou produzindo um baque seco. Eragon correu até Murtagh, a mandíbula dele se agitava furiosamente.
— Você ficou maluco? — gritou Eragon enfurecido. — Por que o matou?
Murtagh limpou sua espada no colete de Torkenbrand. O aço deixou uma mancha escura.
— Não entendo por que ficou tão contrariado...
— Contrariado! — explodiu Eragon. — Estou muito mais do que isso! Não lhe ocorreu que poderíamos deixá-lo aqui e seguir nosso caminho? Não! Em vez disso, você se transformou em um carrasco e arrancou a cabeça dele. O homem estava indefeso!
Murtagh ficou perplexo com a raiva de Eragon.
— Bem, não podíamos deixar que ele ficasse por perto, ele era perigoso. Os outros fugiram... Sem um cavalo, ele não conseguiria chegar longe. Eu não queria que os Urgals o achassem e descobrissem sobre Arya. Então, achei que seria...
— Mas matá-lo? — interrompeu Eragon. Saphira, curiosa, cheirava a cabeça de Torkenbrand. Ela abriu a boca levemente, como se fosse mordê-la, mas pensou duas vezes e foi vagueando para o lado de Eragon.
— Só estou tentando me manter vivo — afirmou Murtagh. — A vida de nenhum estranho é mais importante do que a minha.
— Mas você não pode praticar atos de violência injustificados. Onde está a sua empatia? — protestou Eragon apontando para a cabeça.
— Empatia? Empatia? Que empatia posso ter para com meus inimigos? Devo hesitar quanto a me defender porque isso poderá causar dor a outra pessoa? Se fosse assim, eu já teria morrido há muitos anos! Você deve estar disposto a proteger a si mesmo e as coisas às quais dá valor, não importa a que custo.
Eragon enfiou Zar’roc com toda a força em sua bainha, balançando a cabeça freneticamente.
— Você pode justificar qualquer atrocidade com esse argumento.
— Você acha que gosto disso? — gritou Murtagh. — Minha vida é ameaçada desde o dia que nasci! Todas as horas que passei acordado foram gastas evitando o perigo, de uma forma ou de outra. E o sono nunca vem fácil porque sempre me preocupo se viverei para ver outro amanhecer. Se houve algum momento em que me senti seguro, foi dentro do ventre da minha mãe, embora nem lá estivesse a salvo! Você não entende... Se vivesse com esse medo, teria aprendido a mesma lição que aprendi: não corra riscos. — Ele apontou para o corpo de Torkenbrand. — Ele era um risco que eu eliminei. Recuso a me arrepender e não me atormentarei pelo que está feito e superado.
Eragon projetou seu rosto em direção ao de Murtagh.
— Ainda assim, você não fez o certo. — Ele prendeu Arya em Saphira e montou em Fogo na Neve. — Vamos. — Murtagh contornou com Tornac o corpo de Torkenbrand, caído de frente na terra manchada de sangue.
Cavalgaram a uma velocidade que Eragon achava ser impossível uma semana atrás, os quilômetros desmanchavam-se perante eles como se houvesse asas presas em seus pés. Seguiram rumo ao sul, entre os dois braços abertos das montanhas Beor. Tais braços pareciam pinças prestes a se fecharem. As extremidades deles ficavam a um dia de distância uma da outra. Contudo, a distância parecia ser menor devido ao tamanho das montanhas. Era como se eles estivessem em um vale feito para gigantes.
Quando pararam naquele dia, Eragon e Murtagh jantaram em silêncio, recusando-se a desviar o olhar da comida. Depois de comerem, Eragon disse de forma sucinta:
— Farei o primeiro turno da vigia.
Murtagh concordou com a cabeça e deitou em seus cobertores, de costas para Eragon.
Você quer conversar? Perguntou Saphira.
Agora, não, resmungou Eragon. Preciso de algum tempo para pensar. Estou... Confuso.
Ela retirou-se da mente dele com um toque suave e com um sussurro:
Eu amo você, pequenino.
E eu amo você, disse ele. Ela enrolou-se, formando uma bola ao lado dele, emprestando-lhe seu calor. Ele ficou sentado, imóvel, no escuro, lutando com sua inquietação.

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Boa leitura :)