27 de maio de 2017

Capítulo 47 - Ovo quebrado e ninho disperso

— Concentre-se, Eragon — ordenou Oromis, embora não indelicadamente. Eragon piscou e esfregou os olhos numa tentativa de focalizar os glifos que decoravam o pergaminho espiralado diante dele.
— Desculpe, mestre. — O cansaço o travava como se houvessem pesos de chumbo amarrados às suas pernas. Olhou para os glifos curvos e pontudos meio de soslaio, ergueu sua pena de ganso e começou a copiá-los novamente.
Pela janela atrás de Oromis, a plataforma verde que ficava no topo dos rochedos de Tel’naeír estava listrada de sombras projetadas pelo sol poente. Mais além, nuvens leves e suaves pareciam faixas esticadas no céu.
A mão de Eragon tremeu de forma intensa e abrupta quando uma dor muito forte se espalhou por sua perna, fazendo-o quebrar o bico da pena e espalhar tinta por todo o papel, estragando-o. Do outro lado da mesa, Oromis também começou a sentir algo parecido, ele apertava seu braço direito.
Saphira!, gritou Eragon. Ele a alcançou com sua mente e, para o seu espanto, foi desviado por barreiras impenetráveis que ela erguera em torno de si própria. Ele mal podia senti-la. Era como se estivesse tentando agarrar uma esfera de granito polido lambuzada com óleo. Ela não parava de escapulir dele.
Ele olhou para Oromis.
— Algo aconteceu a eles, não?
— Não sei. Glaedr retorna, mas se recusa a falar comigo. — Logo depois de pegar sua espada Naegling, que estava na parede, Oromis saiu a passos largos para fora e ficou em pé na beira dos rochedos, com a cabeça levantada, como se estivesse esperando pelo aparecimento do dragão dourado.
Eragon se juntou ao seu mestre, pensando em tudo — no provável e no improvável — que poderia ter ocorrido com Saphira. Os dois dragões haviam partido ao meio-dia e voaram para o norte, rumo a um lugar chamado Pedra dos Ovos Quebrados, onde os dragões selvagens colocavam os seus ovos há muitas eras. Era uma viagem tranquila. Não podiam ser Urgals, os elfos não permitem que entrem em Du Weldenvarden, lembrou.
Até que finalmente Glaedr apareceu no alto, como se fosse uma mancha no meio das nuvens escuras. Enquanto descia para pousar, Eragon viu um ferimento na parte de trás da pata dianteira direita do dragão, uma lágrima do tamanho da mão de Eragon descia pelas suas escamas. Um sangue escarlate penetrava pelos entalhes no meio das escamas que o cercavam.
No instante em que Glaedr tocou no chão, Oromis saiu correndo em sua direção e só parou quando o dragão rosnou. Pulando com a sua pata ferida, Glaedr se arrastou até a beira da floresta, onde se curvou sob os galhos esticados, de costas para Eragon, e começou a lamber seu ferimento no intuito de limpá-lo.
Oromis se aproximou e se agachou com facilidade perto de Glaedr, mantendo distância com calma e paciência. Era óbvio que ele iria esperar o quanto precisasse. Eragon ia se inquietando enquanto os minutos se passavam. Finalmente, mudo, Glaedr permitiu que Oromis se aproximasse e examinasse a sua perna. A magia ardia da gedwëy ignasia de Oromis enquanto ele colocava sua mão por cima da fenda nas escamas do dragão.
— Como ele está? — perguntou Eragon assim que Oromis se afastou.
— Parece um ferimento terrível, mas não passa de um arranhão para alguém tão grande quanto Glaedr.
— E quanto a Saphira? Ainda não consigo contatá-la.
— Você deve ir até onde ela está — disse Oromis. — Ela está ferida, de muitas maneiras. Glaedr falou pouco sobre o que transcorreu, e estou fazendo muitas conjeturas, por isso você faria bem em se apressar.
Eragon olhou em volta em busca de algum meio de transporte e deu um gemido angustiado ao constatar que não havia nenhum.
— Como posso alcançá-la? É muito longe para correr, não há trilha e eu não posso...
— Tenha calma, Eragon. Qual era o nome do cavalo que o trouxe de Sílthrim até aqui?
Eragon levou um instante para se lembrar.
— Folkvír.
— Então convoque-o usando as suas habilidades mágicas. Chame-o pelo nome e diga qual é a sua necessidade na mais poderosa das linguagens, que ele virá em seu auxílio.
Deixando a magia encher a sua voz, Eragon gritou por Folkvír, seu pedido ecoou pelas montanhas arborizadas na direção de Ellesméra, com toda a urgência que ele podia transmitir. Oromis acenou com a cabeça, satisfeito.
— Excelente.
Doze minutos depois, Folkvír emergiu das sombras entre as árvores, como se fosse um fantasma prateado, jogava sua crina de um lado para o outro e resfolegava de entusiasmo. As laterais das selas do garanhão se erguiam no ar, tamanha a velocidade de sua jornada.
Jogando uma perna por sobre o pequeno cavalo elfo, Eragon disse:
— Retornarei assim que puder.
— Faça o que tiver que fazer — disse Oromis.
Então Eragon tocou as costelas de Folkvír com seus calcanhares e gritou:
— Corra, Folkvír! Corra! — O cavalo deu um salto para frente e seguiu aos pulos por Du Weldenvarden, costurava o seu caminho com incrível destreza entre os pinheiros retorcidos. Eragon o guiou na direção de Saphira com imagens da mente dele.
Por falta de uma trilha no meio da vegetação rasteira, um cavalo como Fogo na Neve teria levado de três a quatro horas para alcançar a Pedra dos Ovos Quebrados. Folkvír conseguiu fazer o percurso em pouco mais de uma hora.
Na base da montanha de basalto — que se elevava do terreno da floresta como um pilar sarapintado de verde a uns bons trinta metros acima das árvores — Eragon murmurou:
— Alto — depois deslizou até o chão. Olhou para o cume distante da Pedra dos Ovos Quebrados. Saphira estava lá em cima.
O rapaz contornou a montanha, buscava um meio de chegar ao cume, mas foi em vão, pois aquela formação erodida era inexpugnável. Não possuía fissuras, fendas ou outras falhas perto o suficiente do chão que ele pudesse usar para escalar suas laterais.
Isso pode doer, pensou.
— Fique aqui — disse para Folkvír. O cavalo olhou para ele com um olhar inteligente. — Vá pastar se quiser, mas fique aqui, tudo bem? — Folkvír relinchou e, com seu focinho aveludado, cutucou o braço de Eragon. — Isso, garoto. Você se saiu bem.
Fixando o olhar na crista do monólito, Eragon juntou suas forças e depois disse na língua antiga:
— Para cima!
Ele percebeu depois que, se não estivesse acostumado a voar com Saphira, tal experiência poderia ter se mostrado perturbadora o bastante para fazê-lo perder o controle do encanto e cair para a morte. O chão estava bem abaixo dos seus pés e os troncos das árvores iam ficando menores ao flutuar na direção do lado inferior do dossel e do céu noturno e transitório mais além. Os galhos finos como dedos que queriam tocar seu rosto e seus ombros enquanto o jovem subia rumo ao céu aberto. Era diferente do que acontecia em um dos mergulhos de Saphira, aqui ele retinha a sensação de peso, como se ainda estivesse sobre a argila lá embaixo.
Erguendo-se sobre a beirada da Pedra dos Ovos Quebrados, Eragon avançou, relaxando um pouco seu controle da magia, e pousou num trecho de musgo. Curvou-se devido à exaustão e esperou para ver se o esforço faria suas costas doerem. Então, suspirou de alívio quando isso não ocorreu.
O topo do monólito era composto de torres recortadas separadas por sulcos vastos e profundos onde nada a não ser umas poucas flores silvestres cresciam. Cavernas escuras pontilhavam as torres, algumas naturais, e outras cavadas no basalto com garras tão grossas quanto as pernas de Eragon. O piso tinha uma camada espessa de ossos repletos de líquens, remanescentes de antigas presas de dragões. Os pássaros agora estavam aninhados onde os dragões ficavam antigamente — falcões e águias, nos ninhos, prontos para atacar caso ele ameaçasse seus ovos.
Eragon seguiu seu caminho pela paisagem proibida, cuidou para não torcer o tornozelo nas lascas de pedra soltas ou não se aproximar muito das fendas ocasionais que dividiam a coluna. Se caísse em uma delas, acabaria tombando no vazio. Por várias vezes ele teve que escalar altos espinhaços, e por duas outras vezes teve que se erguer usando a magia.
As evidências da habitação dos dragões eram visíveis em toda parte, das marcas profundas de garras no basalto, atoleiros de rochas fundidas, até uma certa quantidade de escamas descoradas largadas nos cantos, junto com outros detritos. O jovem chegou até a pisar num objeto afiado, o qual, depois que se agachou para ver, provou ser um fragmento de um ovo de dragão verde.
Na face leste do monólito estava a torre mais alta, no centro dela, tal como um poço escuro virado de lado, estava a maior caverna. Foi ali que Eragon finalmente conseguiu enxergar Saphira, encolhida no canto, de costas para a entrada. Tremia em todo o seu corpo. As muralhas da caverna traziam marcas de queimaduras recentes, e as pilhas de ossos quebradiços estavam espalhados como se ali tivesse havido uma briga.
— Saphira — disse Eragon, gritando, já que a mente do dragão estava fechada.
Sua cabeça deu uma guinada e ela o encarou como se o Cavaleiro fosse um estranho. Suas pupilas tornaram-se finas fendas negras enquanto seus olhos se acostumavam com a luz que vinha do sol atrás dele. Ela rosnou uma vez, como se fosse um cachorro feroz, e depois se virou. No que o fez, Saphira levantou a asa esquerda e expôs um corte longo e profundo na parte superior da coxa. O coração dele parou com aquela visão.
Eragon sabia que ela não o deixaria se aproximar, por isso fez o mesmo que Oromis havia feito com Glaedr: ajoelhou no meio dos ossos moídos e esperou. Esperou sem dizer nenhuma palavra ou se mover até que suas pernas estivessem dormentes e suas mãos endurecessem por causa do frio. Contudo ele não se ressentiu do desconforto. Pagou o preço confiante, pois aquilo podia ser a salvação de Saphira.
Depois de um tempo ela disse: Fui uma tola.
Todos somos tolos de vez em quando.
Isso não torna as coisas mais fáceis quando é a sua vez de fazer papel de bobo.
Suponho que não.
Eu sempre soube o que fazer. Quando Garrow morreu, sabia de ir atrás dos Ra’zac era a coisa certa. Quando Brom morreu, sabia que tínhamos de ir para Gil’ead e, por assim dizer, para os Varden. E quando Ajihad morreu, sabia que você devia se comprometer com Nasuada. O caminho sempre esteve claro para mim. Exceto agora. No que diz respeito a esse problema em particular, estou perdida.
O que é, Saphira?
Em vez de responder, ela mudou de assunto e disse: Você sabe por que esta aqui é chamada de Pedra dos Ovos Quebrados?
Não.
Porque durante a guerra entre os dragões e os elfos, estes últimos nos localizaram aqui e nos mataram enquanto dormíamos. Destruíram nossos ninhos e quebraram nossos ovos com sua magia. Naquele dia, choveu sangue na floresta lá embaixo. Nenhum dragão vivia aqui desde então.
Eragon permaneceu em silêncio. Não era por isso que ele estava ali. O jovem esperaria até que ela pudesse dar atenção à situação presente.
Diga alguma coisa!, exigiu Saphira.
Você vai me deixar tratar da sua perna?
Pode ir embora sozinho.
Então vou ficar aqui sentado e mudo como uma estátua até virar poeira, pois aprendi com você a ter a paciência de um dragão.
Quando vieram, suas palavras foram hesitantes, amargas e ainda zombavam de si própria: Envergonho-me em admitir. Quando viemos para cá pela primeira vez e vimos Glaedr, fiquei muito feliz por ver que outro membro da minha raça havia sobrevivido além de Shruikan. Eu nem mesmo havia visto outro dragão antes, exceto nas lembranças de Brom. E pensei... achava que Glaedr ficaria tão feliz com a minha existência quanto eu com a dele.
Mas ele ficou.
Você não entende. Achava que ele seria o parceiro que eu jamais esperava ter e que juntos poderíamos reconstruir nossa raça. Ela bufou e uma rajada de chama escapou pelas suas narinas. Eu estava enganada. Ele não me quer.
Eragon escolheu com cuidado sua resposta para evitar ofendê-la e lhe dar um pequeno alívio. Isso é porque ele sabe que você está destinada para um outro alguém: um dos dois ovos que restam. Também não seria apropriado que ele se juntasse a você quando na verdade é o seu mentor.
Ou talvez ele não me ache atraente o bastante.
Saphira, nenhum dragão é feio, e você é a mais formosa dos dragões.
Eu sou uma tola, insistiu ela. Mas levantou a asa esquerda e a manteve no ar como permissão para que ele fosse até lá cuidar do seu ferimento.
Eragon chegou com dificuldade até onde Saphira estava e examinou a ferida inchada, feliz por Oromis ter-lhe dado tantos pergaminhos sobre anatomia para ler. A pancada — dada por garra ou dente, ele não tinha certeza — havia rasgado o músculo quadríceps sob a pele de Saphira, mas não o suficiente para expor o osso. Fechar o corte superficialmente, como Eragon havia feito tantas vezes, não seria o bastante. O músculo teria que ser costurado.
O feitiço que Eragon usou era longo e complexo, e mesmo ele não entendia todas as suas partes, pois o havia memorizado a partir de um texto remoto com poucas explicações, além dos ensinamentos, caso não houvesse ossos quebrados e os órgãos internos estivessem inteiros, “este encanto irá curar qualquer doença de origem violenta, exceto a morte”. Assim que o proferiu, Eragon ficou observando, fascinado, o músculo de Saphira se retorcer abaixo de suas mãos — veias, nervos e fibras se entrelaçavam — e ficar inteiro mais uma vez. O ferimento era tão grande que, em seu estado enfraquecido, ele não ousava curá-lo apenas com a energia do seu corpo, por isso se valeu da força de Saphira também.
Está coçando, disse Saphira quando ele terminou.
Eragon suspirou e encostou-se no basalto rígido, olhava para o pôr-do-sol através dos seus cílios. Temo que você precisará me carregar para longe desta rocha. Estou cansado demais para me mover.
Com um murmúrio seco, ela se virou e colocou a cabeça nos ossos que estavam ao lado do jovem. Tenho lhe tratado mal desde que chegamos a Ellesméra. Ignorei o seu conselho quando devia ter escutado. Você me avisou sobre Glaedr mas eu estava muito orgulhosa para ver a verdade nas suas palavras... Falhei como sua parceira, traí o que significa ser um dragão e manchei a honra dos Cavaleiros.
Não, nunca, retrucou ele veementemente. Saphira, você não falhou com o seu dever. Pode ter cometido um erro, mas foi um erro natural, que qualquer um na sua posição poderia ter cometido.
Isso justifica o meu comportamento com você.
Eragon tentou encará-la, mas ela evitou o seu olhar até que ele a tocasse no pescoço e dissesse: Saphira, membros de uma mesma família perdoam um ao outro, mesmo que nem sempre entendam suas atitudes... Você é tão minha família quanto Roran... mais até. Nada que você faça irá mudar isso. Nada. Como ela não respondeu, ele foi por trás de sua mandíbula e fez cócegas no pedaço de pele dura abaixo de um dos seus ouvidos. Você está me ouvindo, hã? Nada!
Ela tossiu baixo, deleitando-se de um jeito relutante, depois arqueou o pescoço e levantou a cabeça para escapar daqueles dedos irrequietos. Como poderei encarar Glaedr novamente? Ele estava muito enfurecido... A pedra inteira tremeu com a força de sua raiva.
Pelo menos você se conteve quando ele a atacou.
Foi ao contrário.
Pego de surpresa, Eragon ergueu as sobrancelhas.
Bem, de qualquer maneira, a única coisa afazer é pedir desculpas.
Desculpas!
Sim. Vá lhe dizer que lamenta muito, que isso não irá acontecer novamente e que quer continuar seu treinamento com ele. Estou certo de que Glaedr será compreensivo se você lhe der a chance.
Muito bem, disse ela num tom de voz baixo.
Você se sentirá melhor assim que o fizer. Ele sorriu. Sei por experiência própria.
Ela resmungou e andou até a beira da caverna, onde se agachou e vasculhou a floresta que balançava lá embaixo. Temos de ir já. Logo ficará escuro. Rangendo os dentes, ele fez força para se erguer — cada movimento lhe exigia um grande esforço — e subiu nas costas da parceira, levando o dobro do tempo normal. Eragon?... Obrigada por ter vindo. Sei o risco que você correu por causa das suas costas.
Ele bateu em seu ombro. Somos um novamente?
Somos um.

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