27 de maio de 2017

Capítulo 46 - O princípio da sabedoria

Os dias que Eragon passava em Ellesméra aconteciam sem novidades: o tempo parecia não passar na cidade dos pinheiros. As estações não envelheciam ninguém, mesmo que as tardes e as noites se alongassem, apenas marcavam a floresta com sombras suntuosas. As flores de todos os meses vicejavam por causa do influxo da magia dos elfos, sempre fomentada pelos encantos que percorriam o ar.
Eragon acabou se apaixonando pela beleza e tranquilidade de Ellesméra, pelas construções graciosas que brotavam das árvores, pelas canções pungentes que ecoavam no crepúsculo, pelas obras de arte escondidas dentro das moradias misteriosas e pela introspecção dos próprios elfos, à qual misturavam acessos de uma alegria ruidosa.
Os animais selvagens de Du Weldenvarden não temiam os caçadores. Constantemente, Eragon olhava dos seus aposentos e via um elfo a acariciar um veado ou uma raposa cinzenta, ou murmurar para um urso tímido que rolava pela beira de uma clareira, relutando em se expor. Alguns animais eram mistos. Eles apareciam durante a noite, moviam-se e grunhiam nos arbustos e fugiam quando Eragon ousava se aproximar. Uma vez ele avistou uma criatura que parecia uma cobra peluda e noutra vez encontrou uma mulher com um manto branco cujo corpo se agitava até desaparecer e revelar uma loba.
Eragon e Saphira continuaram a explorar Ellesméra sempre que podiam. Saíam sozinhos ou com Orik, já que Arya não mais os acompanhava, nem Eragon falava com a elfa desde que ela quebrou sua fairth. Ele a via furtivamente, ao passar por entre as árvores, mas sempre que se aproximava — com o intuito de pedir desculpas — ela se afastava, deixava-o sozinho em meio aos velhos pinheiros. Afinal Eragon percebeu que teria de tomar a iniciativa se é que teria um dia alguma chance de restabelecer seu relacionamento com ela. Então, numa noite, ele fez um buquê com as flores da trilha ao lado de sua árvore e foi embaraçado ate a Mansão Tialdarí, onde pediu para um elfo no saguão lhe indicar os aposentos de Arya.
A porta de tela estava aberta quando ele alcançou os tais aposentos. Ninguém respondeu quando o rapaz bateu na porta. Ele acabou entrando, atento para qualquer aproximação enquanto olhava em volta da espaçosa sala de estar coberta de vinhas, que ela abria para um pequeno quarto num dos lados e para uma sala de estudos no outro. Duas fairths decoravam as paredes: o retrato de um elfo sério e orgulhoso de cabelo grisalho o qual Eragon supôs ser o rei Evandar, e o de outro elfo mais jovem, que não reconheceu.
Eragon vagou pelo apartamento, olhando tudo sem tocar em nada, saboreava o vislumbre acerca da vida de Arya, absorvia o que podia em relação aos seus hobbies e interesses. Ao lado da cama, viu uma esfera de vidro com uma flor preservada da ipomeia negra incrustada em seu interior em sua estante, havia prateleiras de pergaminhos com títulos como: Osílon: Relatório da Colheita e Sinais de Atividade Vistos da Torre de Observação de Gil’ead, no peitoril de uma janela ogival, havia três árvores em miniatura no formato de glifos da língua antiga cujos significados eram paz, força e sabedoria, e, perto delas, um pedaço de papel com um poema inacabado, cheio de palavras riscadas e outros rabiscos. Nele se lia:

Sob a lua, a lua branca e cintilante,
Há uma poça, uma poça plana e prateada,
Entre as moitas e as moráceas,
E pinheiros com seus núcleos enegrecidos.

Cai uma pedra, uma pedra viva,
Racha a lua, a lua branca e cintilante,
Entre as moitas e as moráceas,
E pinheiros com seus núcleos enegrecidos.

Fragmentos de luz, espadas de luz,
Agitam-se sobre a poça
A lagoa tranquila, o charco parado,
O lago ali abandonado.

Na noite, na noite escura e pesada,
Flutuavam sombras, desordenadas sombras.
Onde outrora...

Eragon foi até a mesinha perto da entrada, largou seu buquê sobre ela e se virou para partir. Congelou assim que viu Arya em pé no vão da porta. Parecia assustada com sua presença, mas depois escondeu suas emoções por trás de uma expressão indiferente.
Os dois se encararam em silêncio.
Ele ergueu o buquê, meio que o oferecendo à elfa.
— Não sei como fazer uma flor para você, como Fäolin fez, mas estas são flores naturais e as melhores que pude encontrar.
— Não posso aceitá-las, Eragon.
— Elas não são... elas não são esse tipo de presente. — Ele fez uma pausa. — Não é desculpa, mas não percebi de antemão que minha fairth iria deixá-la numa situação tão difícil. Lamento muito por isso e rogo pelo seu perdão... Só estava tentando fazer uma fairth, não queria causar um problema. Entendo a importância dos meus estudos, Arya, e você não precisa temer que eu vá descuidar deles para andar atrás de você. — Ele oscilou e se recostou contra a parede, tonto demais para continuar em pé sem apoio algum. — Isso é tudo.
Ela o observou atentamente por um longo instante, até que estendeu lentamente o braço e pegou o buquê, o qual segurou perto do nariz. Seus olhos não largaram os dele.
— São flores naturais — admitiu ela. Seu olhar se voltou para os pés do rapaz e depois se ergueu novamente. — Você esteve doente?
— Não. Foram as minhas costas.
— Eu ouvi, mas não achava...
Ele desencostou-se da parede.
— Tenho de ir.
— Espere. — Arya hesitou, mas depois o guiou até a janela ogival, onde ele se sentou no banco acolchoado da parede em curva. Depois de retirar dois cálices de um guarda-louça, Arya esmigalhou folhas secas de urtiga em seu interior, depois encheu as taças com água e, disse “Ferva”, fazia chá.
Ela deu uma taça para Eragon, ele a segurou com ambas as mãos para receber o calor. O Cavaleiro olhou pela janela para o chão que ficava a uns seis metros abaixo, para os elfos que andavam pelos jardins reais, conversando e cantando, e para os vaga-lumes que flutuavam pelo ar sombrio.
— Gostaria... — disse Eragon. — Gostaria que pudesse ser sempre assim. É tão perfeito e tranquilo.
Arya mexeu o chá.
— Como está Saphira?
— Na mesma. E você?
— Tenho me preparado para voltar aos Varden.
Um alarme soou em seu interior.
— Quando?
— Depois da Celebração de Juramento ao Sangue. Já fiquei tempo A mais por aqui, mas estava relutando para partir e Islanzadí queria que ficasse. Além do mais... nunca participei de uma Celebração de Juramento ao Sangue, que é o mais importante dos nossos ritos. — Ela o contemplou por sobre a borda de seu cálice. — Não há nada que Oromis possa fazer por você?
Eragon forçou um encolher de ombros como se estivesse enfastiado.
— Ele tentou tudo o que sabe.
Ambos deram goles em suas taças e ficaram vendo os grupos e casais passeando pelas trilhas do jardim.
— Seus estudos vão bem, pelo menos? — perguntou ela.
— Vão indo. — Na calmaria que se seguiu, Eragon pegou o pedaço de papel que estava entre as árvores e examinou suas estrofes, como se as estivesse lendo pela primeira vez. — Você sempre escreve poesia?
Arya estendeu a mão para pegar o papel e, quando ele lhe deu, enrolou-o e colocou-o dentro de um tubo para as palavras não ficarem à mostra.
— De acordo com a tradição, todos que participam da Celebração de Juramento ao Sangue devem levar um poema, uma canção, ou qualquer outra obra de arte que produziram para partilhar com aqueles que estão reunidos. Eu mal comecei a trabalhar na minha.
— Acho que está boa.
— Se você conhecesse poesia...
— Eu já conheço.
Arya hesitou, depois abaixou a cabeça e disse:
— Perdoe-me. Você não é mais a pessoa que eu encontrei pela primeira vez em Gil’ead.
— Não. Eu... — Ele parou e girou a taça entre suas mãos enquanto buscava as palavras certas. — Arya... você partirá em breve. Para mim será uma pena se esta for a última vez que nos encontramos antes de sua viagem. Será que não poderíamos passear ocasionalmente, como fazíamos, para que você mostre a mim e a Saphira um pouco mais de Ellesméra?
— Isso não seria sábio — disse ela num tom de voz suave, porém firme.
Ele levantou os olhos em sua direção.
— Será que o preço da minha indiscrição é a nossa amizade? Não evitar o que sinto por você, mas preferiria que Durza me ferisse novamente a permitir que minha insensatez destruísse o companheirismo que existia entre nós. Eu a estimo demais.
Arya ergueu a sua taça e tomou o seu último gole de chá antes de responder.
— Nossa amizade perdurará, Eragon. Mas para passar o tempo juntos... — Seus lábios se curvaram num esboço de sorriso. — Talvez seja possível. No entanto, teremos de esperar para ver o que o futuro reserva, pois agora estou ocupada e não posso prometer nada.
Ele sabia que suas palavras eram o máximo que ele provavelmente conseguiria como conciliação, e estava grato por elas.
— E claro, Arya Svit-kona — disse ele, curvando a cabeça.
Os dois trocaram mais alguns gracejos, mas estava claro que Arya chegara ao limite para aquele dia. Por isso, Eragon voltou para Saphira, renovado pela reconciliação. Agora está na mão do destino decidir quais serão as consequências, pensou enquanto se acomodava para ler o último pergaminho de Oromis.


Ao enfiar a mão na algibeira em seu cinto, Eragon retirou um recipiente de pedra-sabão que continha nalgask — cera de abelha misturada com óleo de avelã — e passou-o sobre os lábios para se proteger do vento frio.
Fechou a bolsa, depois abraçou o pescoço de Saphira e enterrou seu rosto no dobramento do seu cotovelo para reduzir o incômodo causado pelo clarão das nuvens mais abaixo. Dominava a sua audição o bater incansável das asas de Saphira, mais alto e rápido do que o de Glaedr, a quem ela seguia.
Voaram para sudoeste do amanhecer até o começo da tarde, pararam eventualmente para entusiasmadas contendas entre Saphira e Glaedr, durante as quais Eragon teve de amarrar seus braços à sela para que não caísse durante as acrobacias. Depois ele se livrava desatando os nós com os dentes.
A viagem terminou num agrupamento de quatro montanhas mais altas que a floresta, as primeiras que Eragon havia visto em Du Weldenvarden. Estavam cobertas de neve e expostas ao vento, trespassavam o véu das nuvens e expunham os picos cheios de fendas geladas ao sol incidente, que naquela altitude não aquecia.
Elas parecem tão pequenas em comparação com as montanhas Beor, disse Saphira.
Pelo hábito durante suas semanas de meditação, Eragon expandiu a mente em todas as direções, tocava as consciências à sua volta, em busca de qualquer um que tivesse a intenção de feri-lo. Sentiu o calor emanado por uma marmota em sua toca, os corvos, os pica-paus e os falcões, os inúmeros esquilos correndo entre as árvores e, descendo um pouco mais a montanha, sentiu as serpentes ondulando em meio aos arbustos busca dos ratos que seriam suas presas, assim como hordas de insetos onipresentes.
Quando Glaedr desceu até o cume da primeira montanha, Saphira teve de esperar até ele dobrar suas asas enormes a fim de que houvesse espaço para ela pousar. O campo de seixos rolados e dispersos na base do penhasco no qual eles pousaram era de um amarelo brilhante devido a uma camada de líquens duros e crenulados. Acima deles, se assomava um despenhadeiro totalmente negro. Ele agia como suporte e represa já que uma cornija de gelo azul vergava e rachava sob o vento, soltava lascas que se estilhaçavam no granito logo abaixo.
Este pico é conhecido como Fionula, disse Glaedr. E seus irmãos são Ethmndir, Merogoven e Grimínsmal. Cada um deles tem sua própria história, que contarei no voo de volta. Por enquanto, devo me voltar ao objetivo deste passeio, isto é, o vinculo forjado entre dragões, elfos e, mais tarde, humanos. Ambos sabem algo sobre isso — e eu tenho feito alusões relativas a todas as suas implicações para Saphira — mas chegou a hora de aprender o significado solene e profundo da sua parceria, para que vocês a preservem quando Oromis e eu não estivermos mais aqui.
— Mestre? — perguntou Eragon, enrolando-se no seu manto para permanecer com o corpo quente.
Sim, Eragon.
—Por que Oromis não está aqui conosco?
Porque, entoou Glaedr, é meu dever, como sempre foi o dever de um dragão mais velho nos séculos passados, garantir que a mais nova geração de Cavaleiros entenda a verdadeira importância do posto que assumiram. E porque Oromis não está tão bem quanto parece.
As rochas crepitavam com estrondos abafados enquanto Glaedr se enroscava, aninhando-se em meio às pedras que se acumulavam e postando sua cabeça majestosa longitudinalmente em relação a Eragon e Saphira. Ele os examinou com um olho dourado tão grande quanto um escudo arredondado e duas vezes mais brilhante. Uma grande quantidade de fumaça escura saía de suas narinas e era espalhada pelo vento. Partes do que eu estou prestes a revelar eram de conhecimento público entre os elfos, Cavaleiros e humanos instruídos, mas grande parte disso só era sabida pelo líder dos Cavaleiros, por um mero punhado de elfos, pelo potentado de humanos da época e, claro, pelos dragões.
Ouçam agora, meus animais recém-nascidos. Quando a paz foi estabelecida entre dragões e elfos no fim da nossa guerra, os Cavaleiros foram criados para garantir que tal conflito jamais brotasse novamente entre nossas duas raças. A rainha Tarmunora dos elfos e o dragão que foi selecionado para nos representar, cujo nome — ele fez uma pausa e passou uma série de dados para impressionar Eragon: os dentes eram longos, brancos e escavados, tive lutas ganhas e perdidas, incontáveis Shrrg e Nagra devorados, teve setecentos e vinte ovos de ascendência e dezenove descendentes que cresceram até atingir a maturidade — não pode ser expresso em nenhuma língua, decidiram que um acordo não seria o suficiente. Papéis assinados não querem dizer nada para um dragão. Nosso sangue corre quente e grosso e, passado tempo suficiente, era inevitável que enfrentássemos os elfos novamente, como fizemos com os anões ao longo dos milênios. Mas, ao contrário dos anões, nem nós nem os elfos poderiam aguentar uma outra guerra. Ambos éramos muito poderosos e teríamos destruído uns aos outros. A única maneira de evitar isso e forjar um acordo significativo era ligar nossas duas raças através da magia.
Eragon estremecia e, para dar uma relaxada, Glaedr disse:
Saphira, se você for esperta, irá aquecer uma daquelas rochas com o fogo do seu estômago para que o seu Cavaleiro não acabe congelando.
Na mesma hora, Saphira arqueou o pescoço e um jato de chama azul emanou por entre suas presas serrilhadas e espirrou nas pedras do penhasco, escurecendo os líquens, que soltavam um cheiro amargo enquanto queimavam. O ar foi ficando tão quente que Eragon foi forçado a se virar. Ele sentia os insetos por baixo das pedras como se estivessem torrando no inferno. Depois de um minuto, Saphira fechou sua mandíbula, deixou um círculo de pedras com um metro e meio de diâmetro brilhando num tom vermelho-cereja.
Obrigado, disse Eragon. Agachou-se ao lado das pedras chamuscadas e esquentou suas mãos.
Lembre-se, Saphira, de usar sua língua para orientar o fogo, preveniu Glaedr. Agora... levou nove anos para que os mágicos mais sábios entre os elfos inventassem o encanto necessário. Quando o fizeram, eles e os dragões se reuniram em Ilirea. Os elfos forneceram a estrutura do encanto, os dragões a força, e juntos fundiram as almas das duas raças. A junção nos mudou. Nós dragões ganhamos o uso da linguagem e outras pompas da civilização, enquanto os elfos partilharam da nossa longevidade já que, antes daquele momento, suas vidas eram tão curtas quanto as dos humanos. No final das contas os elfos foram os mais afetados. Nossa magia, a magia dos dragões — que permeia cada fibra do nosso ser —, foi transmitida para os elfos e, a tempo, lhes deu suas muito alardeadas força e graça. Os humanos não chegaram a ser tão influenciados já que vocês foram acrescentados ao encanto depois de sua conclusão, e ele não teve tanto tempo para agir sobre a sua raça como sobre a dos elfos. Contudo — e nesse instante o olho de Glaedr brilhou — ele já havia suavizaddo a sua raça, se formos considerar os bárbaros toscos que primeiro desembarcaram na Alagaësia, embora vocês tenham começado a regredir depois da Queda.
— Os anões chegaram a fazer parte desse encanto? — perguntou Eragon.
Não e é por isso que nunca houve um Cavaleiro anão. Eles não ligam para dragões nem nós para eles, e julgam repelente a ideia de nos unirmos. Talvez seja uma sorte o fato de eles não terem entrado no nosso pacto, pois acabaram escapando do declínio de humanos e elfos.
Declínio, mestre?, indagou Saphira. Eragon teria jurado se tratar de um tom de voz provocante.
Sim, declínio. Se uma ou outra de nossas três raças sofrer, sofremos todos. Ao matar dragões, Galbatorix prejudicou tanto a sua própria raça quanto a dos elfos. Vocês dois não viram isso, pois são novos em Ellesméra, mas os elfos estão à míngua, seu poder não é mais o mesmo de tempos atrás. E os humanos perderam muito de sua cultura e foram consumidos pelo caos e pela corrupção. Só ao corrigir o equilíbrio entre nossas três raças é que a ordem poderá voltar ao mundo.
O velho dragão esmigalhou as rochas com suas garras, transformando-as em pedregulhos para que pudesse ficar mais confortável.
O mecanismo que permite a um dragão recém-nascido se ligar ao seu Cavaleiro fazia parte do encanto que a rainha Tarmunora supervisionou. Quando um dragão decide dar um ovo aos Cavaleiros, certas palavras são ditas por sobre o próprio ovo — que irei lhes ensinar mais tarde — para evitar que o dragão em seu interior saia de dentro até que esteja em contato com a pessoa a qual decidiu se ligar. Como os dragões podem ficar dentro dos seus ovos indefinidamente, o tempo não é um motivo de preocupação nem o bebê pode ser ferido. Você mesmo é um exemplo disso, Saphira.
O vinculo que se forma entre um Cavaleiro e um dragão é uma ampliação do vínculo que já existe entre nossas raças. O humano ou elfo se torna mais forte e enquanto parte das feições mais violentas dos dragões são temperadas com uma perspectiva mais racional... Vejo que tem uma reflexão mordendo a sua língua, Eragon. O que é?
— É só... — Ele hesitou. — Tenho dificuldade para imaginar você ou Saphira mais violentos. Não — acrescentou, ansioso — que isso seja uma coisa ruim.
O chão tremeu como se estivesse havendo uma avalanche assim que Glaedr começou a rir, revirando seus olhos fixos e enormes por trás de sua testa cheia de calosidades. Se tivesse ao menos encontrado um dragão sem vínculos, você não diria isso. Um dragão sozinho não responde a nada nem a ninguém, pega o que ele quer e não nutre pensamentos gentis por nada a não ser por seus amigos e parentes. Ferozes e orgulhosos eram os dragões selvagens, chegavam a ser arrogantes... As fêmeas eram tão terríveis que se ligar a uma delas era tido como um grande feito entre os Cavaleiros de Dragões.
A falta desse vínculo é o que faz da parceria de Galbatorix com Shruikan, seu segundo dragão, uma união tão deturpada. Shruikan não escolheu Galbatorix como parceiro, ele foi envolvido por certas magias negras para servir a loucura do tirano. Galbatorix construiu uma imitação depravada da relação que você, Eragon, e você, Saphira, possuem e que ele perdeu quando os Urgals assassinaram o seu dragão original. Glaedr hesitou e olhou no meio dos dois. Seu olho era tudo o que se movia. Aquilo que liga vocês excede qualquer conexão simples entre as mentes. Suas próprias almas, suas identidades — chamem do que quiserem —, foram unidas. Seu olhar se voltou para Eragon. Você acha que a alma de uma pessoa é desvinculada do seu corpo?
— Não sei — disse o rapaz. — Uma vez Saphira me tirou de dentro do meu corpo para que eu visse o mundo pelos seus olhos... Parecia que eu não estava mais conectado ao meu corpo. E se os espíritos que um feiticeiro invoca existem de fato, então talvez a nossa consciência seja independente da carne também.
Estendendo a ponta afiadíssima de sua garra dianteira, Glaedr virou uma pedra e deixou à mostra um roedor escondido em seu ninho. Ele abocanhou o bicho com um ataque de sua língua vermelha. Eragon estremeceu ao sentir a vida do animal se extinguindo.
Quando a carne é destruída, o mesmo acontece com a alma, afirmou Glaedr.
— Mas um animal não é uma pessoa — protestou Eragon.
Depois das suas meditações, você realmente acredita que qualquer um de nos seja muito diferente de um rato como esse? Que somos dotados de uma qualidade miraculosa que outras criaturas não possuem e que de algum modo preserva os nossos seres depois da morte?
— Não — murmurou o Cavaleiro.
Eu achava que não. Pelo fato de estarmos tão intimamente ligados, quando um dragão ou um Cavaleiro se ferem, eles devem endurecer seus corações e cortar a conexão que há entre ambos para proteger o outro de um sofrimento desnecessário, até mesmo da insanidade. E como a alma não pode ser separada da carne, você deve resistir à tentação de tentar atrair a alma do parceiro para dentro do seu corpo e de alojá-la ali já que isso resultará na morte dos dois. Mesmo se isso fosse possível, seria abominável ter múltiplas consciências em um só corpo.
Como deve ser terrível, disse Eragon, morrer sozinho, separado até mesmo da pessoa que é mais próxima a você.
Todo mundo morre sozinho, Eragon. Seja você um rei num campo de batalha ou um humilde camponês deitado na cama junto com sua família, ninguém pode acompanhá-lo quando você morre... Agora, vou fazer com que vocês pratiquem a separação das suas consciências. Começando por...


Eragon olhou para a bandeja de jantar na antessala da casa da árvore. Ele catalogou o seu conteúdo: pão com manteiga de avelã, grãos, feijões, uma tigela de verduras, dois ovos cozidos — que, de acordo com as crenças dos elfos, não eram fertilizados — e um jarro de água fresca e primaveril. Ele sabia que cada prato era preparado com o máximo de cuidado, que os elfos esbanjavam toda a sua habilidade culinária nas suas refeições, e que nem mesmo Islanzadí comia melhor do que ele. Ele não aguentava a visão daquela bandeja.
Quero carne, resmungou, e bateu o pé enquanto voltava para o quarto. Saphira olhou para o parceiro da plataforma em que estava. Eu até aceitaria comer peixe ou ave, qualquer coisa diferente desse festival interminável de vegetais. Eles não enchem a minha barriga. Não sou um cavalo, por que tenho que ser alimentado como se fosse um?
Saphira desdobrou as pernas, andou até a beira da janela de onde se tinha uma bela visão de Ellesméra, e disse: Eu precisei comer nesses últimos dias. Você gostaria de se juntar a mim? Pode cozinhar quanta carne quiser e os elfos jamais saberão.
Adoraria, disse ele, cada vez mais radiante. Preciso pegar a sela?
Não iremos longe.
Eragon foi buscar seu suprimento de sal, ervas e outros temperos que estavam na sua bagagem e depois, tomando cuidado para não se esticar demais, subiu no vão entre os espinhos de Saphira.
Lançando-se do chão, Saphira deixou que uma corrente de ar ente a levasse para bem acima da cidade, e depois ela planou, deslizava para baixo e para o lado enquanto seguia o leito sinuoso de um rio que atravessava Du Weldenvarden até um lago que ficava a alguns quilômetros dali. Aterrissou e ficou bem curvada no chão a fim de que Eragon não tivesse dificuldade para desmontar. Ela disse:
Há coelhos no gramado perto da beira do lago. Veja se consegue pegá-los Enquanto isso, vou caçar veados.
Espera aí, você não quer compartilhar a sua própria presa?
Não mesmo, respondeu ela irritada. Só precisarei se esses ratos enormes o deixarem frustrado.
Ele sorriu enquanto ela decolava, depois fitou as moitas entrelaçadas e as chirivias que cercavam o lago e saiu para procurar o seu jantar.
Menos de um minuto depois, Eragon pegou um par de coelhos mortos na toca. Levou nada além de um instante para localizar os coelhos com a mente e assassiná-los com uma das dez palavras mortais. O que ele havia aprendido com Oromis eliminou o desafio e a emoção da caçada. Eu nem tive que tocaiar, pensou, lembrando-se dos anos em que passou aprimorando suas habilidades de rastreamento. Ele fez uma careta de amargo deleite. Posso finalmente caçar o que quiser e agora parece sem graça. Pelo menos, quando eu caçava com um pedregulho ao lado de Brom, havia um desafio, mas isso... é carnificina.
O aviso da ferreira Rhunön lhe voltou naquele exato instante: “Quando você pode ter tudo o que quer pronunciando umas poucas palavras, a meta não importa mais, só a jornada para atingi-la.”
Devia ter prestado mais atenção nela, concluiu Eragon.
Com movimentos experientes, sacou sua velha faca de caçar, tirou a pele e destripou os coelhos, e depois — separando corações, pulmões, rins e fígados — enterrou as vísceras para que o cheiro não atraísse animais predadores. Em seguida, cavou um buraco, encheu-o de madeira e acendeu uma pequena labareda valendo-se de magia, pois esqueceu de trazer sua pedra de sílex. Alimentou o fogo até a lenha ficar em brasa. De uma vara de corniso, tirou a casca e deixou secar a madeira sobre as brasas para queimar a seiva amarga. Depois, espetou as carcaças com a vara e as suspendeu entre dois galhos em forquilha enfiados no solo. Para os órgãos, ele colocou uma pedra chata em cima de uma parte da brasa e a untou com gordura para improvisar uma frigideira.
Saphira o encontrou agachado perto do fogo, lentamente assava a carne. Ela pousou com um veado morto dependurado em sua mandíbula, e os restos de um segundo presos em suas garras. Deitada na grama perfumada, ela se pôs a devorar sua presa, comeu o veado inteiro, incluindo a pele. Ossos se partiam no meio de seus dentes cortantes, como se fossem galhos se quebrando numa tempestade.
Quando os coelhos ficaram prontos, Eragon os sacudiu no ar para que esfriassem um pouco e depois ficou olhando para a carne dourada e cintilante, cujo cheiro lhe era quase que insuportavelmente tentador. Ao abrir a boca para dar a primeira mordida, seus pensamentos sem se voltaram para suas meditações. Ele se lembrou das excursões às das aves, dos esquilos e dos ratos, como pareciam todos cheios de energia e como lutavam vigorosamente pelo direito de existir em face do perigo. E se essa vida é tudo que eles têm...
Tomado pela repugnância, Eragon jogou a carne para longe, tão horrorizado com o fato que, por ter matado dois coelhos, sentia-se como se tivesse assassinado dois seres humanos. Seu estômago se revirou e aquilo tudo quase o fez vomitar.
Saphira interrompeu o seu banquete para observá-lo, preocupada. Respirando longamente, Eragon pressionou os joelhos com os punhos numa tentativa de se controlar e entender por que se sentia tão fortemente afetado. Ele comera carne, peixe e ave ao longo de toda a sua vida. E adorava. Agora, contudo, ele se sentia fisicamente mal só por pensar em jantar os coelhos. O rapaz olhou para Saphira. Não posso fazer isso, disse ele.
As coisas no mundo são assim: todos comem todos. Por que você resiste à ordem natural das coisas?
Eragon refletiu sobre a sua pergunta. Não condenava os que comiam carne — ele sabia que aquele era o único alimento para muitos fazendeiros pobres. Mas não poderia fazer o mesmo a não ser que estivesse passando fome. Por ter estado dentro de um coelho e sentido o que um coelho sente... comer um deles seria a mesma coisa que devorar a si próprio.
Porque podemos melhorar a nós mesmos, respondeu para Saphira. Será que devemos ceder aos nossos impulsos de ferir ou matar qualquer um que nos enfureça, tomar o que quer que desejemos daqueles que são mais fracos e, no geral, desconsiderar os sentimentos dos outros? Somos imperfeitos e devemos nos precaver contra as nossas falhas para que elas não nos destruam. Ele acenou para os coelhos. Como Oromis disse, por que devemos causar um sofrimento desnecessário?
Você abdicaria de todos os seus desejos então?
Negaria todos aqueles que são destrutivos.
Você tem certeza disso?
Sim.
Nesse caso, disse Saphira, avançando em sua direção, agradeço a ótima sobremesa. Num piscar de olhos, engoliu os coelhos e depois limpou a pedra com os órgãos, raspando a lousa com as farpas de sua língua. Eu, pelo menos, não consigo viver só de plantas — isso é comida para presa, não para um dragão. Recuso-me a ficar envergonhada de minha alimentação. Tudo tem o seu lugar no mundo. Até um coelho sabe disso.
Não estou tentando fazer com que você se sinta culpada, disse ele, batendo de leve na perna dela. Essa é uma decisão pessoal. Não forçarei ninguém a pensar da mesma forma que eu.
Muito sábio, disse ela com um toque de sarcasmo.

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