27 de maio de 2017

Capítulo 45 - O Martelo cai

A lua flutuava alto entre as estrelas quando Roran saiu da tenda que dividia com Baldor, montada na beira do acampamento, e substituiu Albriech na vigília.
— Nada a relatar — sussurrou Albriech e depois escapuliu. Roran amarrou o cordão no seu arco e enfiou três flechas com penas de ganso na argila, logo à frente, depois se enrolou com um cobertor e se agachou contra a face rochosa à esquerda. Sua posição lhe dava uma boa visão para baixo e além dos contrafortes sombrios.
Como era de hábito, Roran dividiu a paisagem em quadrantes, examinava cada um durante um minuto inteiro, sempre alerta para um movimento ou sinal luminoso que pudesse indicar a aproximação de inimigos. Sua mente logo começou a vagar, passava de assunto em assunto com a irracionalidade dos sonhos, distraindo-o de sua tarefa. Ele mordeu a parte interna da bochecha para se concentrar. Permanecer acordado era difícil num clima como aquele...
Roran estava feliz porque tivera a sorte de escapar das duas vigílias que precediam o amanhecer, elas não davam oportunidade de recuperar o sono perdido e você se sentia cansado durante o resto do dia. Uma rajada de vento passou por ele, fez cócegas em sua orelha e fez a pele da nuca arrepiar-se com uma percepção do mal. Aquele toque intrusivo apavorou Roran, removeu tudo menos a convicção de que ele e o resto dos aldeões estavam em perigo mortal. O rapaz tremia como se estivesse com calafrio, seu coração batia forte e ele tinha de lutar para resistir à tentação de levantar acampamento e fugir.
O que há de errado comigo? Tinha de se esforçar sobremaneira até para encaixar uma flecha no arco.
Ao leste, uma sombra se destacou no horizonte. Era visível apenas como um vazio no meio das estrelas, e se movia feito um véu rasgado pelo céu, até que cobriu a lua, onde permaneceu, pairando. Iluminado por trás, Roran pôde ver as asas translúcidas de uma das montarias dos Ra’zac. A criatura negra abriu o seu bico e soltou um grito longo e lancinante. Roran fez uma careta de dor por conta da intensidade e da frequência do berro. Foi como uma punhalada nos seus tímpanos, que fez seu sangue gelar, e substituiu a esperança e a alegria pelo desespero. O grito acordou a floresta inteira. Pássaros e feras por quilômetros a fio explodiram num coro de pânico, incluindo, para o sobressalto de Roran, o que restou dos rebanhos.
Cambaleando de árvore em árvore, Roran voltou para o acampamento, sussurrando para todos que encontrava:
— Os Ra’zac estão aqui. Fiquem quietos e calados. — Ele viu os outros sentinelas movendo-se entre os assustados aldeões, espalhando a mesma mensagem.
Fisk saiu de sua tenda com uma lança na mão e bradou:
— Estamos sob ataque? O que desencadeou esses malditos... — Roran se atracou com o carpinteiro para silenciá-lo, dando um berro abafado quando ele caiu sobre seu ombro direito, trazendo de volta a dor do seu antigo ferimento.
— Ra’zac — suspirou Roran para Fisk.
Fisk ficou calmo e perguntou num tom de voz baixo:
— O que eu devo fazer?
— Ajude-me a acalmar os animais.
Juntos atravessaram o acampamento até a campina adjacente onde os bodes, as ovelhas, os burros e os cavalos estavam acomodados. Os fazendeiros que eram donos da maior parte do rebanho dormiam perto do seu patrimônio e já estavam acordados e trabalhando para acalmar os bichos. Roran agradeceu a sua paranoia de ter insistido em manter os animais espalhados na campina, onde as árvores e os arbustos ajudavam a camuflá-los dos olhares inimigos.
Enquanto tentava tranquilizar um grupo de ovelhas, Roran levantou os olhos na direção da sombra negra terrível que ainda ocultava a lua, como se fosse um morcego gigante. Para o seu horror, ela começou a se mover na direção do esconderijo deles. Se aquela criatura gritar novamente, estaremos condenados.
Na hora em que os Ra’zac começaram a voejar, a maior parte dos animais já havia se acalmado, exceto um burro, que insistia em ficar zurrando. Sem hesitar, Roran se apoiou num dos joelhos, encaixou a flecha no arco e atirou no meio das costelas do asno. Sua mira foi perfeita e o animal caiu sem fazer som algum.
Porém era tarde demais, os zurros haviam alertado os Ra’zac. O monstro virou a cabeça na direção da clareira e desceu rumo a ela com as garras estendidas e era precedido por um fedor insuportável. Agora chegou a hora de vermos se podemos assassinar um pesadelo, pensou Roran. Fisk, que estava agachado ao seu lado na grama, ergueu sua lança, preparando-se para lançá-la assim que as aberrações chegassem.
Assim que Roran puxou seu arco — numa tentativa de começar e terminar a batalha com uma seta bem colocada — ele foi distraído por uma comoção na floresta.
Um grande número de gamos irrompeu da vegetação rasteira e fugiu em debandada pela campina, ignorando aldeões e animais domésticos em seu desejo frenético de escapar dos Ra’zac. Durante quase um minuto, os veados saltaram sobre Roran, esmagando a argila com seus cascos afiados, e refletindo o luar em seus olhos com bordas esbranquiçadas. Os animais passaram tão perto que deu para ouvir os ofegos suaves de sua respiração forçada.
A turba de veados deve ter ocultado os aldeões porque, depois de um último giro pela campina, o monstro alado virou para o sul e planou para bem longe, Espinha abaixo, misturando-se com a noite.
Roran e seus companheiros permaneceram congelados, como se fossem coelhos acuados, temiam que a partida dos Ra’zac pudesse ser um artifício para forçá-los a sair ou que o irmão gêmeo da criatura pudesse estar logo atrás. Eles ficaram esperando durante horas, tensos e ansiosos, mal se moviam exceto para colocarem cordas nos arcos.
Quando a lua estava prestes a se pôr, o grito apavorante dos Ra’zac ecoou bem ao longe... até desaparecer.


Tivemos sorte, concluiu Roran assim que acordou na manhã seguinte. E não vamos poder contar com a sorte para nos salvar na próxima vez.
Depois da aparição dos Ra’zac, nenhum dos aldeões reclamou de viajar na barcaça. Pelo contrário, todos estavam ansiosos para partir, e muitos deles perguntaram para Roran se era possível velejar naquele dia ao invés de no seguinte.
— Gostaria que pudéssemos — disse ele —, mas ainda há muito a ser feito.
Sem tomar o café da manhã, ele, Horst e um grupo de outros homens caminharam até Narda. Roran sabia que ao acompanhá-los corria o risco de ser reconhecido, mas a missão deles era muito importante para que a negligenciasse. Além do mais, ele estava confiante de que sua aparência atual era tão diferente do retrato no pôster do Império, que ninguém iria comparar um com o outro.
Não tiveram dificuldade alguma para conseguir entrar, já que outro grupo de soldados guardava o portão principal, e depois foram para as docas e deram as duzentas coroas para Clóvis, que estava ocupado inspecionando um bando de homens, enquanto estes preparavam as barcaças para ganhar o mar.
— Obrigado, Martelo Forte — agradeceu e amarrou o saco de moedas ao seu cinto. — Não há nada como o ouro amarelo para iluminar o dia de um homem. — Ele os levou para uma mesa de trabalho e desenrolou um mapa das águas que cercavam Narda, estava cheio de anotações sobre a força de várias correntes, tinha a localização das rochas, dos bancos de areia e de outros obstáculos, e tinha medições de profundidade. Enquanto traçava uma linha com o dedo, de Narda até uma pequena angra bem ao sul, Clóvis disse: — É aqui que vamos encontrar o seu rebanho. As marés são suaves nesta época do ano, mas ainda assim não queremos enfrentá-las, não tenha dúvida disso, por isso vamos seguir nosso caminho logo depois da maré alta.
— Maré alta? — perguntou Roran. — Não seria mais fácil esperar a maré baixa e deixar que ela nos leve para fora daqui?
Clóvis bateu de leve no nariz, piscando o olho.
— Sim, seria, e foi assim que comecei muitas viagens. O que não quero, porém, é ficar içado à praia, embarcando os seus animais, quando a maré se lançar de volta, empurrando-nos mais para dentro do continente. Não haverá perigo nenhum se fizermos as coisas assim, mas teremos que ser muito hábeis para não ficarmos encalhados quando as águas recuarem. Supondo que consigamos, o mar fará o trabalho para nós, hein?
Roran acenou positivamente. Ele confiava na experiência de Clóvis.
— E de quantos homens você precisará para preencher a tripulação?
— Bem, consegui reunir sete sujeitos, todos eles marinheiros de verdade, bons e fortes, que concordam em participar dessa jornada, por mais estranha que ela pareça. Pode acreditar, a maior parte dos rapazes estava acabando de tomar suas últimas canecas de cervejas quando os encontrei na noite passada, bebendo o soldo de sua última viagem, mas estarão sóbrios como solteironas pela manhã, isso posso lhe prometer. Visto que que só consegui encontrar sete homens, gostaria de mais quatro.
— Quatro você já tem — afirmou Roran. — Meus homens não entendem muito de navegação, mas são fisicamente capazes e estão dispostos a aprender.
Clóvis resmungou.
— Eu costumo empregar um reforço de novos homens a cada viagem que faço, de qualquer maneira. Contanto que eles obedeçam ordens, vão acabar servindo, caso contrário, vou pregar malaguetas em suas cabeças, guarde minhas palavras. Quanto aos guardas, gostaria de ter nove, três por barco. E é melhor que eles não sejam tão verdes quanto os seus marinheiros, ou não sairei das docas, nem por todo o uísque do mundo.
Roran se permitiu dar um sorriso meio fechado.
— Todos os homens que viajam comigo já provaram o seu valor em muitas batalhas ao meu lado.
— E todos responderão a você, hein, jovem Martelo Forte? — disse Clóvis. Ele coçou o queixo, enquanto olhava para Gedric, Delwin e os outros que eram novos em Narda. — Quantos estão com vocês?
— O bastante.
— O bastante, é o que você diz. Posso imaginar. — Ele fez um aceno com a mão. — Não ligue para mim, minha língua fala mais alto do que o bom senso, ou pelo menos era o que o meu pai costumava me dizer. Meu imediato, Torson, está no fornecedor agora, supervisionando a compra de mantimentos e equipamentos. Acredito que vocês tenham comida para o seu rebanho.
— Entre outras coisas.
— Então é melhor ir buscá-las. Podemos acomodá-las nos porões assim que os mastros estiverem erguidos.
Durante o resto da manhã e da tarde, Roran e os aldeões que estavam ao seu lado trabalharam para transportar os suprimentos — que os filhos de Loring haviam obtido — do armazém onde estavam estocados até os galpões das chatas.
Enquanto Roran se arrastava pela prancha até o Edeline e baixava sua saca de farinha para o marujo que aguardava no porão, Clóvis fez uma observação:
— Grande parte disso não serve para alimentar um rebanho, Martelo Forte.
— Não — disse Roran. — Mas é necessário. — Ele ficou feliz por Clóvis ter percebido que não devia prolongar o interrogatório.
Depois que o último item havia sido estocado, Clóvis fez um gesto para Roran.
— Vocês podem ir. Eu e os rapazes lidaremos com o resto. Só se lembrem de estar nas docas três horas depois do amanhecer com todos os homens que me prometeu, ou perderemos a maré.
— Estaremos lá.
De volta ao contraforte, Roran ajudou Elain e os outros a se prepararem para a partida. Não demorou muito tempo, eles já estavam acostumados a levantar acampamento toda manhã. Depois, escolheu doze homens para acompanhá-lo até Narda no dia seguinte. Todos eram bons lutadores, mas ele pediu para que os melhores, como Horst e Delwin, ficassem com o resto dos aldeões no caso dos soldados os encontrarem ou os Ra’zac retornarem.
Assim que a noite caiu, os dois grupos partiram. Roran se agachou perto de uma pedra grande e arredondada e viu Horst liderando a coluna de gente que descia pelo contraforte na direção da angra onde todos deveriam esperar pelas barcaças.
Orval veio por trás dele e cruzou os braços.
— Você acha que eles estarão seguros, Martelo Forte? — Sua ansiedade estava na voz como uma corda de arco esticada. Embora também estivesse preocupado, Roran afirmou:
— Sim. Aposto um barril de cidra que eles ainda estarão dormindo quando desembarcarmos amanhã. Você poderá ter o prazer de acordar Nolla. Que tal? — Orval sorriu à menção de sua esposa e acenou positivamente, parecendo tranquilo.
Tomara que eu esteja certo. Roran permaneceu sobre a pedra, agachado como uma gárgula, açoitado pelos ventos, até a linha escura de aldeões sumir da sua vista.
Eles acordaram uma hora antes de o sol nascer, o céu já havia começado a se iluminar com um verde pálido e o ar úmido da noite deixou seus dedos dormentes. Roran molhou o rosto com água e depois se equipou com seu arco e aljava, seu martelo sempre presente, um dos escudos de Fisk e uma das lanças de Horst. Os outros fizeram a mesma coisa, com o acréscimo de espadas obtidas durante os confrontos em Carvahall.
Corriam o mais rápido que ousavam pelas montanhas acidentadas. Os treze homens logo chegaram à estrada para Narda e, em seguida, ao portão principal da cidade. Para o desânimo de Roran, os mesmos dois soldados do primeiro dia estavam de guarda na entrada. Como antes, ambos baixaram suas machadinhas para bloquear a passagem.
— Há mais alguns de vocês desta vez — observou o homem de cabelo branco. — E também não são os mesmos. Exceto por você. — Ele se concentrou em Roran. — Suponho que você espere que eu acredite que a lança e o escudo sejam para trabalhar com cerâmica também.
— Não. Fomos contratados por Clóvis para proteger suas barcaças de ataques no caminho até Teirm.
— Vocês? Mercenários? — Os soldados caíram na gargalhada. — Você disse que eram comerciantes.
— Isso paga melhor.
O sujeito de cabelo branco franziu a testa.
— Você está mentindo. Eu já tentei ser aventureiro uma vez. Passei mais noites esfomeado do que o contrário. Afinal, qual é o tamanho da sua companhia de comerciantes? Sete ontem e doze hoje... treze contando com você. Parece muito grande para ser uma expedição de um bando de donos de loja. — Seus olhos se apertaram enquanto ele escrutinava o rosto de Roran. — Você me parece familiar. Qual seria o seu nome, hã?
— Martelo Forte.
— Por acaso não seria Roran, seria...
Roran deu uma estocada com uma de suas lanças, atingindo o soldado de cabelo branco na garganta. O sangue escarlate jorrou. Largando a lança, Roran sacou seu martelo e o girou no ar enquanto bloqueava a machadinha do segundo com seu escudo. Girando seu martelo para cima, Roran esmagou o elmo do sujeito.
Ele ficou arfando entre os dois cadáveres. Agora já matei dez. Orval e os outros homens encararam Roran chocados. Incapaz de suportar seus olhares, Roran lhes deu as costas e gesticulou na direção do aqueduto que passava sob a estrada.
— Escondam os corpos antes que alguém veja — ordenou ele, brusca e severamente. Enquanto se apressavam para obedecer, examinou o parapeito no topo da muralha em busca de sentinelas. Felizmente, não havia ninguém ali ou na rua que cruzava o portão. Ele se curvou e apanhou sua lança solta no chão, limpou a lâmina num tufo de capim.
— Pronto — disse Mandel, enquanto escalava o fosso. Apesar de sua barba, o jovem parecia pálido.
Roran acenou com a cabeça e, endurecendo, encarou seu bando.
— Ouçam. Vamos andar até as docas num ritmo rápido porém comedido. Não podemos correr. Quando o alarme soar, já que alguém deve ter ouvido os sons da luta, mostrem-se surpresos e interessados mas não assustados. O que quer que façam, não deem às pessoas motivos para suspeitar de nós. As vidas de suas famílias e amigos dependem disso. Se formos atacados, seu único dever é garantir que as barcaças sejam lançadas. Nada mais importa. Estou sendo claro?
— Sim, Martelo Forte — responderam.
— Então me sigam.
Enquanto caminhava a passos largos por Narda, Roran estava tão tenso que temia explodir em mil pedaços. O que eu fiz de mim mesmo?, perguntava. Ele olhava de homens para mulheres, de crianças para homens, de homens para cães, se esforçava por identificar inimigos em potencial.
Tudo à sua volta parecia irradiar um brilho artificial e ostentar uma grande riqueza de detalhes, parecia que ele conseguia enxergar as costuras nas roupas das pessoas.
Alcançaram as docas sem incidentes, então Clóvis afirmou:
— Você chegou cedo, Martelo Forte. Gosto disso num homem. Isso nos dará a oportunidade de organizar as coisas antes de seguirmos em frente.
— Podemos partir agora? — perguntou Roran.
— Você devia saber. Temos de esperar até a maré encher, então partiremos. — Clóvis hesitou, deu sua primeira boa olhada nos treze sujeitos, e disse: — Ora, qual é o problema, Martelo Forte? Vocês parecem que viram o fantasma do velho Galbatorix com os próprios olhos.
— Nada que algumas horas no mar não sarem — afirmou Roran. No seu estado era impossível sorrir, mas tentou assumir uma expressão mais calma com o intuito de tranquilizar o capitão.
Com um assobio, Clóvis convocou dois marinheiros nos botes. Ambos eram tão bronzeados que a pele tinha a cor de avelãs.
— Este aqui é Torson, meu imediato — indicou Clóvis, apontando para o homem à sua direita. O ombro de Torson estava decorado com a tatuagem em espiral de um dragão voador. — Ele será o capitão do Merrybell. E este safado aqui é Flint, que ficará no comando do Edeline. Enquanto vocês estiverem a bordo, a palavra desses homens é a lei, assim como a minha no Javali Vermelho. Vocês responderão a eles e a mim, não ao Martelo Forte... Bem, deem-me um sim apropriado, sim caso tenham me escutado.
— Sim, sim — responderam os homens.
— Agora, quais de vocês serão meus ajudantes e quais serão meus soldados? Não dá para distingui-los por nada nesse mundo.
Ignorando os avisos de Clóvis de que ele era o seu comandante, não Roran, os aldeões o olharam para ver se deviam obedecer. Ele acenou positivamente e o grupo se dividiu em duas facções, que Clóvis posteriormente separou em grupos ainda menores enquanto designava um certo número de aldeões para cada chata.
Durante a meia hora seguinte, Roran trabalhou ao lado dos marujos a fim de terminar os preparativos para a partida do Javali Vermelho, tinha ouvidos alertas a qualquer indício de alarme. Seremos capturados ou mortos se ficarmos mais tempo aqui, pensou ele, checando a altura da água que batia nos píeres. Ele limpou o suor que jorrava de sua fronte. Roran começou a trabalhar quando, de repente, Clóvis agarrou seu antebraço.
Antes que pudesse se conter, Roran puxou seu martelo pela metade para fora do cinto. O ar espesso travou sua garganta.
Clóvis ergueu a sobrancelha ao ver sua reação.
— Tenho observado você, Martelo Forte, e ficaria interessado em saber como você fez para merecer tanta confiança dos seus homens. Já servi com mais capitães do que consigo me lembrar, e nenhum deles impunha um nível de obediência como você faz sem erguer a voz.
Roran não conseguiu se segurar e acabou dando uma gargalhada.
— Vou lhe contar como fiz: eu os salvei da escravidão e de serem devorados.
As sobrancelhas de Clóvis se ergueram até quase o topo de sua testa.
— Sério? Essa é uma história que eu gostaria de ouvir.
— Acho que não.
Depois de um minuto, Clóvis disse:
— Não, talvez não goste mesmo. — Ele se voltou para o mar. — Ora, vamos acabar nos atrasando. Creio que podemos partir. Ah, e aqui está a minha pequena Galina, pontual como sempre.
O homem corpulento saltou sobre a prancha e, de lá, sobre as docas, onde ele abraçou uma garota de cabelos escuros de uns treze anos e uma mulher que parecia sua mãe. Clóvis afagou os cabelos da menina e disse:
— Comporte-se bem enquanto eu estiver longe, certo, Galina?
— Sim, pai.
Enquanto via Clóvis se despedindo de sua família, Roran pensou nos dois soldados mortos perto do portão. Eles também deviam ter famílias. Deviam ter mulheres e filhos que os amavam e um lar para onde retornavam todo dia... Sentiu o gosto de fel e voltou seus pensamentos novamente para o pier evitando ficar nauseado.
Nas chatas, os homens pareciam ansiosos. Temia que pudessem perder a calma, por isso Roran tentou chamar a atenção para si andando pelo convés, alongando-se e fazendo o possível para parecer relaxado.
Finalmente, Clóvis voltou ao Javali Vermelho e gritou:
— Soltem os cabos, meus homens. A maré já está alta para nós.
Rapidamente, as pranchas foram recolhidas, as espias desamarradas e as velas içadas nas três chatas. O ar ressoou com as ordens gritadas e os cantos de faina enquanto os marinheiros puxavam os cabos.
Atrás deles, Galina e sua mãe ficaram vendo as chatas partir calmas e silenciosas, cobertas e solenes.
— Estamos com sorte, Martelo Forte — disse Clóvis, batendo em seu ombro. — Temos um pouco de vento para nos empurrar hoje. Pode ser que não tenhamos de remar para chegar na angra antes da maré mudar!
Quando o Javali Vermelho estava no meio da baía de Narda e ainda a uns dez minutos do mar aberto, aquilo que Roran temia ocorreu: o som de sinos e trombetas ribombou vindo das construções de pedra.
— O que foi isso? — perguntou ele.
— Não sei ao certo — disse Clóvis. Ele franziu a testa enquanto olhava para a cidade com as mãos nos quadris. — Pode ser algum incêndio, mas não há sinal de fumaça no ar. Talvez alguns Urgals tenham sido descobertos rondando a área... — Um ar de preocupação brotou em seu rosto. — Vocês por acaso não viram ninguém na estrada hoje de manhã?
Roran balançou a cabeça, sem confiança para falar. Flint encostou e gritou do convés do Edeline.
— Será que não devíamos voltar, senhor? — Roran agarrou a amurada com tanta força que começou a arrancar lascas com as unhas, estava pronto para interceder mas temia parecer muito ansioso.
Desviando seu olhar de Narda, Clóvis berrou de volta:
— Não. Acabaríamos perdendo a maré.
— Sim, sim, senhor! Mas daria um dia de pagamento para descobrir o que provocou tal alarido.
— Eu também — murmurou Clóvis.
Enquanto as casas e os prédios ficavam para trás, Roran se agachou na popa da barcaça, abraçando os joelhos, e se inclinou na direção das cabines. Ele olhou para o céu, tocado por sua intensidade, clareza e cor, e depois para a esteira verde e turva do Javali Vermelho, onde faixas de algas marinhas ondulavam. A oscilação da chata o acalmava como o balançar de um berço. Que dia lindo está fazendo, pensou ele, grato por poder observá-lo.
Depois que escaparam da angra — para o seu alívio —, Roran subiu a escada até o tombadilho atrás das cabines, lá Clóvis estava de pé, tinha a mão na cana do leme e orientava o seu curso. O capitão, então, disse:
— Ah, há algo interessante no primeiro dia de uma viagem, até que você percebe a comida ruim e começa a sentir saudades do lar.
Atento à sua necessidade de aprender o máximo sobre a nau, Roran perguntou a Clóvis sobre vários objetos a bordo, e naquele instante ganhou uma lição entusiasmada sobre chatas, navios e sobre a arte da navegação em geral.
Duas horas depois, Clóvis apontou para uma estreita península à sua frente.
— A angra está na outra ponta. — Roran se ergueu sobre a amurada e estendeu o pescoço, ansioso para confirmar se os aldeões estavam seguros.
Enquanto o Javali Vermelho contornava a ponta rochosa, uma praia branca se revelou na extremidade da angra, lá estavam reunidos os refugiados do vale Palancar. A multidão saudou e acenou assim que as chatas despontaram por detrás das rochas.
Roran relaxou.
Atrás dele, Clóvis proferiu uma praga terrível.
— Eu sabia que algo estava errado no momento em que bati os olhos em você, Martelo Forte. Que rebanho, que nada. Bah! Você me fez de idiota, isso sim.
— Você me entendeu mal — respondeu Roran. — Eu não menti, este é o meu rebanho e eu sou o seu pastor. Não estou no direito de chamá-los de rebanho, se eu quiser?
— Pode chamá-los do que quiser, mas não concordei em levar pessoas para Teirm. Você não me disse qual era a verdadeira natureza da sua carga, e a única razão que me vem à mente é que qualquer aventura na qual você esteja envolvido significa problemas... problemas para você e problemas para mim. Devia jogar vocês todos ao mar e voltar para Narda.
— Mas não o fará — disse Roran, numa calma mortal.
— Ah, é? Por que não?
— Porque eu preciso dessas chatas, Clóvis, e farei qualquer coisa para ficar com elas. Qualquer coisa. Honre o seu acordo e você terá uma viagem segura e poderá ver Galina novamente. Se não... — A ameaça soava pior do que era, Roran não tinha a intenção de matar Clóvis, mas, se não houvesse alternativa, o abandonaria em algum lugar ao longo da costa.
O rosto de Clóvis ficou vermelho, mas ele surpreendeu Roran ao dizer:
— Esta certo, Martelo Forte. — Feliz consigo mesmo, Roran voltou sua atenção para a praia.
Atrás dele, ouviu um estalido.
Por instinto, Roran recuou, agachou-se, virou o corpo e cobriu sua cabeça com o escudo. Seu braço vibrava enquanto uma malagueta caía sobre o escudo. Ele baixou sua proteção e olhou para um espantado Clóvis, já recuado sobre o convés.
Roran balançou a cabeça, sem tirar os olhos do seu oponente.
— Você não pode me derrotar, Clóvis. Vou perguntar novamente: Você honrará o nosso acordo? Se não, ficará na praia, tomarei as chatas e forçarei sua tripulação a trabalhar para mim. Não quero arruinar o seu sustento, mas se você me forçar... Vamos. Esta pode ser uma viagem normal e sossegada se você optar por nos ajudar. Lembre-se, você já foi pago.
Erguendo-se com grande dignidade, Clóvis afirmou:
— Se eu concordar, então você me faça a gentileza de explicar por que todo esse plano foi necessário, por que essas pessoas estão aqui e de onde elas vêm. Não importa quanto ouro você me ofereça, não o ajudarei num empreendimento que contrarie meus princípios, de jeito nenhum. Vocês são bandidos? Ou servem àquele maldito rei?
— Este conhecimento o colocará em grande perigo.
— Eu insisto.
— Você já ouviu falar de Carvahall no vale Palancar? — perguntou Roran.
Clóvis acenou com a mão.
— Uma ou duas vezes. E daí?
— Você a está vendo na praia. Os soldados de Galbatorix nos atacaram sem que os provocássemos. Reagimos e, quando nossa posição ficou insustentável, atravessamos a Espinha e continuamos até chegar em Narda. Galbatorix prometeu que todo homem, mulher e criança de Carvahall seria morto ou escravizado. — Roran não fez nenhuma menção aos Ra’zac, ele não queria deixar Clóvis mais apavorado.
O marujo bronzeado ficou pálido.
— Vocês ainda estão sendo perseguidos?
— Sim, mas o Império não sabe onde estamos.
— E foi por sua causa que o alarme soou?
Num tom de voz bem delicado, Roran afirmou:
— Matei dois soldados que me reconheceram. — A revelação deixou Clóvis assustado: seus olhos se arregalaram, ele deu um passo para trás, e os músculos de seus antebraços tremeram quando ele fechou os punhos. — Faça a sua escolha, Clóvis, a costa se aproxima.
Roran percebeu que tinha vencido quando os ombros do capitão se inclinaram e ele parou com as bravatas.
— Ah o diabo que o carregue, Martelo Forte. Não sou amigo do rei, vou levá-los para Teirm. Mas depois não quero ter mais nada com você.
— Você me dá a sua palavra de que não tentará escapar durante a noite e que não irá me enganar de outra maneira qualquer?
— Sim. Eu lhe dou.
A areia e as rochas faziam o fundo do casco do Javali Vermelho ranger, enquanto a chata se dirigia para a praia, seguida pelas outras duas naus. O movimento inexorável e ritmado das águas arremetendo contra o continente soava como a respiração de um monstro gigantesco. Assim que as velas foram enroladas e as pranchas estendidas, Torson e Flint subiram a bordo do Javali Vermelho e abordaram Clóvis, querendo saber o que estava acontecendo.
— Houve uma mudança de planos — afirmou Clóvis.
Roran deixou que ele explicasse a situação — descreveu as razões exatas que levaram os aldeões a deixar o vale Palancar — pulou para a areia e logo saiu atrás de Horst em meio à multidão. Quando avistou o ferreiro, Roran o puxou para o lado e lhe contou sobre as mortes em Narda.
— Se descobrirem que eu parti com Clóvis, poderão mandar soldados a cavalo atrás de nós. Temos de embarcar todo mundo nas chatas o mais rápido possível.
Horst o encarou durante um longo minuto.
— Você se tornou um homem duro, Roran, mais duro do que eu jamais serei.
— Fui forçado.
— Tenha o cuidado de não esquecer quem você é.


Roran passou as três horas seguintes deslocando e embarcando os pertences dos aldeões no Javali Vermelho até Clóvis demonstrar sua satisfação, Os pacotes tiveram que ser fixados e bem distribuídos para que a barcaça não ficasse desnivelada dentro d’água, o que não era uma tarefa fácil, possuíam tamanhos e densidades irregulares. Depois os animais orçados a subir nas tábuas — foram imobilizados por correntes presas a argolas de ferro no porão de carga.
Em último lugar, vieram as pessoas que, como o resto da carga, tiveram que ser organizadas dentro da chata para impedir que ela emborcasse. Clóvis, Torson e Flint acabaram em pé na proa de suas barcaças, gritando ordens para a massa de aldeões abaixo.
E agora?, pensou Roran enquanto ouvia uma discussão na praia
Abrindo caminho até a origem do distúrbio, ele viu Calitha ajoelhada ao lado do seu padrasto, Wayland, tentando acalmar o velho.
— Não! Eu não vou entrar nessa banheira. Você não pode me forçar — gritava Wayland. Ele se debatia mesmo frágil e batia com os calcanhares para se livrar do abraço de Calitha. Cuspararadas saíam dos seus lábios. — Deixe-me ir, estou dizendo. Deixe-me ir.
Estremecendo com seus golpes, Calitha disse:
— Ele está assim, fora de si, desde a noite passada quando estávamos acampados.
Teria sido melhor para todos os envolvidos se ele tivesse morrido na Espinha, percebendo agora os problemas que causou, pensou Roran. Ele se juntou a Calitha, e conseguiram tranquilizar Wayland de modo que o velho parou de gritar e se debater. Como recompensa para o seu bom comportamento, Calitha lhe deu um pedaço de carne-seca, e o distraiu.
Enquanto Wayland se concentrava em mastigar a carne, ela e Roran conseguiram conduzi-lo para o Edeline, e o acomodaram num canto deserto onde não incomodaria ninguém.
— Mexam os seus traseiros, seus desajeitados — gritou Clóvis. — A maré está prestes a virar. Vamos. Vamos, vamos.
Depois de um último alvoroço, as pranchas foram recolhidas e um bando de vinte homens ficou na praia atrás de cada barcaça. Os três grupos se reuniram atrás das proas e se prepararam para empurrá-las de volta para a água.
Roran liderou o esforço no Javali Vermelho. Cantando em uníssono, ele e seus homens se esforçaram para aguentar o peso da grande chata, a areia cinzenta cedia sob seus pés, as vigas e os cabos rangiam e o cheiro de suor empesteava o ar. Durante algum tempo, parecia que seus esforços eram em vão, até que o Javali Vermelho deu uma guinada e escorregou uns trinta centímetros para ré.
— Novamente! — gritou Roran. De metro em metro, avançaram mar adentro, até a água gelada oscilar próxima às suas cinturas. Uma onda arrebentou sobre Roran e encheu sua boca de água, ele cuspiu vigorosamente, enfastiado com o gosto de sal, era bem mais intenso do que esperava.
Quando a barcaça flutuou, liberada do fundo do mar, Roran nadou ao lado do Javali Vermelho e subiu a bordo por um dos cabos que caía da amurada.
Enquanto isso, os marujos posicionaram longas varas que usavam impelir o Javali Vermelho para as águas mais profundas, da mesma forma que as tripulações do Merrybell e do Edeline.
No momento em que já estavam a uma distância razoável da costa, Clóvis ordenou que largassem as varas e pegassem os remos. Assim, os marinheiros apontaram a proa do Javali Vermelho na direção da entrada, içaram a vela, alinharam-na com o vento brando e, na dianteira do trio de chatas, seguiram para Teirm, rumo à imprevisibilidade do alto-mar.

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