22 de maio de 2017

Capítulo 45 - O deserto Hadarac

Uma vasta extensão de dunas estendia-se até o horizonte como ondas em um oceano. Golpes de vento faziam a areia dourado-avermelhada girar no ar. Árvores irregulares cresciam em pontos espalhados de solo firme, que qualquer fazendeiro declararia ser inapto para plantar. Erguendo-se ao longe, havia uma linha de penhascos de cor púrpura. A desolação impressionante estava isenta de quaisquer animais, com exceção de um pássaro que planava no leve vento ocidental.
— Você tem certeza de que acharemos comida para os cavalos ali? — perguntou Eragon, engolindo as palavras. O ar quente e seco feria sua garganta.
— Está vendo aquilo? — perguntou Murtagh, apontando para os penhascos. — Grama cresce em volta deles. É curta, mas resistente, e os cavalos a acharão satisfatória.
— Espero que você esteja certo — disse Eragon, apertando os olhos em direção ao sol. — Antes de continuarmos, vamos descansar. Meu raciocínio está tão lento quanto uma lesma, e mal posso mover minhas pernas.
Desamarraram a elfa de Saphira, comeram e deitaram na sombra de uma duna para tirar uma soneca. Enquanto Eragon ajeitava-se na areia, Saphira enrolou-se perto dele e esticou suas asas sobre eles.
Este lugar é maravilhoso, disse ela. Eu poderia ficar anos aqui sem notar o tempo passando.
Eragon fechou os olhos. Seria um belo lugar para voar, concordou ele sonolento.
Mas não é só isso. Sinto como se tivesse sido feita para este deserto. Ele tem o espaço de que eu preciso, montanhas onde eu poderia me abrigar e presas camufladas que eu poderia passar dias caçando. E o calor! O frio não me incomoda, mas este calor me faz sentir viva e cheia de energia. Ela ergueu sua cabeça em direção ao céu, esticando-se satisfeita.
— Você gosta daqui tanto assim? — resmungou Eragon.
Gosto.
Então, quando tudo estiver terminado, talvez possamos voltar... — Ele caiu no sono enquanto falava.
Saphira estava contente e murmurava baixinho enquanto ele e Murtagh descansavam. Era a manhã do quarto dia posterior à saída deles de Gil’ead. Já haviam percorrido cerca de cento e setenta quilômetros.
Dormiram apenas durante tempo suficiente para clarear a mente e descansar os cavalos. Nenhum soldado podia ser visto atrás deles, mas isso não os iludiu quanto a diminuírem o ritmo e seus passos. Eles sabiam que o Império continuaria procurando até que estivessem muito além do domínio do rei. Eragon disse:
— Mensageiros devem ter levado a notícia da minha fuga para Galbatorix. Ele já deve ter alertado os Ra’zac, que já devem estar seguindo nossos rastros agora. Vão demorar um tempo para nos alcançar, mesmo voando, mas devemos estar preparados para enfrentá-los a qualquer momento.
E, desta vez, eles vão ver que eu não sou tão fácil de se prender com correntes, disse Saphira.
Murtagh coçou o queixo.
— Espero que não consigam nos seguir além de Bullridge. O Ramr foi um modo muito eficaz de despistar quem nos perseguia, há uma boa chance de nossos rastros não serem encontrados de novo.
— Devemos torcer para isso realmente — disse Eragon, enquanto checava a elfa. A condição dela não havia se modificado. Ela ainda não reagia às investidas dele. — Mas não quero confiar na sorte agora. Os Ra’zac podem estar nos seguindo enquanto conversamos.
Ao pôr-do-sol, eles chegaram aos penhascos que viram de longe naquela manhã. As formações rochosas altas e imponentes elevavam-se acima deles, projetando sombras fracas. A área em volta não tinha dunas em um raio de oitocentos metros. O calor atacou Eragon como um golpe físico quando desmontou de Fogo na Neve, pisando no chão ressecado e rachado. A nuca e o rosto dele estavam queimados pelo sol. Sua pele estava quente e ardendo.
Depois de prenderem os cavalos onde pudessem mordiscar a grama esparsa, Murtagh acendeu uma fogueirinha.
— Quantos quilômetros você acha que percorremos? — perguntou Eragon, tirando a elfa de Saphira.
— Eu não sei! — respondeu Murtagh rispidamente. Sua pele estava vermelha, como seus olhos. Ele pegou uma panela e xingou entre os dentes. — Não temos água o bastante. E os cavalos precisam beber.
Eragon estava tão irritado quanto ele por causa do calor e da falta de umidade, mas ele conseguiu controlar seu gênio.
— Traga os cavalos. — Saphira fez um buraco para ele usando as garras, depois Eragon fechou os olhos, proferindo o encantamento. Embora o solo estivesse seco, havia umidade o bastante para as plantas sobreviverem e o suficiente para ele encher o buraco várias vezes.
Murtagh encheu os odres quando a água se acumulou no buraco e chegou para o lado, deixando os cavalos beberem. Os animais sedentos beberam vários litros dando grandes goles. Eragon foi forçado a retirar o líquido cada vez mais fundo na terra para satisfazê-los. Isso exauriu suas forças até o limite. Quando os cavalos estavam finalmente saciados, ele disse a Saphira: Se você precisar beber, beba agora. A cabeça dela passou como uma cobra em volta dele, e ela tomou dois longos goles, nada mais.
Antes de deixar a água voltar a penetrar no solo, Eragon bebeu o máximo que podia e observou os últimos pingos desaparecerem na terra. Manter a água na superfície era mais difícil do que ele esperava. Mas, pelo menos, está dentro da minha capacidade, ponderou lembrando com certo prazer como, uma vez, fez um grande esforço para erguer uma pedrinha.


Estava muito frio quando acordaram no dia seguinte. A areia tinha uma tonalidade rosada sob a luz da manhã, e o céu estava nebuloso, escondendo o horizonte. O humor de Murtagh não melhorou com o sono, e Eragon notou que o dele piorava rapidamente. Durante o café da manhã, perguntou:
— Você acha que vai demorar para sairmos do deserto?
Murtagh olhou para ele com uma expressão zangada.
— Nós atravessamos apenas uma pequena parte, então só posso supor que levaremos uns dois ou três dias.
— Mas veja como já chegamos longe.
— Tudo bem, talvez não demore tanto! Agora, só me importa sair do Hadarac o mais rápido possível. O que estamos fazendo já é muito difícil sem ter de tirar areia dos olhos a cada minuto.
Eles acabaram de comer, e Eragon foi até a elfa. Ela estava deitada como se estivesse morta, parecendo um cadáver, com exceção de sua respiração ritmada.
— Onde está o seu mal? — sussurrou Eragon, tirando uma mecha de cabelo da testa da elfa. — Como você consegue dormir deste jeito e continuar viva? — A imagem dela, alerta e equilibrada na cela da prisão, ainda estava vívida em sua mente. Preocupado, ele a preparou para viajar e depois selou e montou Fogo na Neve.
Ao levantarem acampamento, uma linha de manchas escuras se tornou visível no horizonte, indistinta no ar nebuloso. Murtagh achava que eram colinas distantes. Eragon não estava convencido, mas não podia obter mais nenhum detalhe sobre aquilo.
O problema da elfa enchia os pensamentos dele. Eragon tinha certeza de que algo devia ser feito para ajudá-la ou ela iria morrer, embora não soubesse o quê. Saphira estava tão preocupada quanto ele. Falaram sobre isso durante horas, mas nenhum deles sabia o bastante sobre cura para resolver o problema que os desafiava.
Ao meio-dia, pararam para um breve descanso. Quando recomeçaram a jornada, Eragon notou que a névoa havia diminuído desde a manhã e que as manchas distantes ganharam mais definição.
Deixaram de ser massas indistintas de um tom azul-púrpura e viraram montanhas grandes, cobertas de florestas, com traços definidos. O ar acima delas era branco, pálido, desprovido de sua tonalidade usual, toda a cor parecia ter sido apagada de uma faixa horizontal do céu, que ficava no topo das colinas e se estendia até os limites do horizonte.
Olhou admirado, mas quanto mais tentava compreender aquilo, mais confuso ficava. Piscou e balançou a cabeça, pensando que devia ser alguma ilusão criada pelo ar do deserto. Contudo, quando abriu os olhos, a incongruência ainda estava lá. De fato, o branco cobria metade do céu na frente deles. Certo de que algo estava terrivelmente errado, começou a falar sobre aquilo com Murtagh e Saphira quando, de repente, entendeu o que estava vendo.
O que eles achavam ser colinas, na verdade, eram as bases de montanhas gigantescas, com vários quilômetros de extensão. Exceto pelas densas florestas ao longo de suas regiões mais baixas, as montanhas eram cobertas inteiramente por neve e gelo. Foi isso que iludiu Eragon e o fez pensar que o céu estava branco. Inclinou o pescoço para trás, tentando ver os picos, mas não estavam visíveis. As montanhas esticavam-se, subindo ao céu, até desaparecerem de vista. Vales estreitos e irregulares, com reentrâncias que quase dividiam as montanhas, formavam gargantas muito fundas. Parecia uma muralha de margens irregulares, cheia de dentes que ligava a Alagaësia aos céus.
Elas não têm fim!, pensou ele, admirado. As histórias que faziam menção às montanhas Beor sempre destacavam seu tamanho, mas ele sempre via tais comentários como simples fatores decorativos da narrativa. Contudo, naquele momento, foi forçado a reconhecer sua autenticidade.
Sentindo a surpresa e a admiração dele, Saphira acompanhou o olhar dele com o seu. Em poucos segundos, ela reconheceu as montanhas pelo que eram de fato.
Eu me sinto como um filhote recém-saído do ovo novamente. Comparada a elas, até eu me sinto pequena!
Devemos estar perto do fim do deserto, disse Eragon. Só viajamos dois dias e já podemos ver os limites dele e além!
Saphira voava em espiral acima das dunas.
De fato, mas considerando o tamanho daqueles picos, eles ainda podem estar a duzentos e cinquenta quilômetros daqui. É difícil medir distâncias tendo como base algo tão imenso. Elas não seriam um esconderijo perfeito para os elfos ou para os Varden?
Poderiam esconder mais do que os elfos e os Varden, afirmou ele. Nações inteiras poderiam viver lá em segredo, escondidas do Império. Imagine viver com aqueles gigantes pairando acima de você!
Ele guiou Fogo na Neve até Murtagh e apontou, sorrindo.
— O que foi? — resmungou Murtagh, examinando o terreno.
— Olhe com atenção — insistiu Eragon.
Murtagh olhou atentamente para o horizonte. Ele deu de ombros.
— O que foi? Não estou... — As palavras morreram em sua boca, dando espaço para uma expressão de espanto, de queixo caído. Murtagh balançou a cabeça, balbuciando. — Isso é impossível! — Fez tanta força para olhar com os olhos semicerrados que rugas se formaram em seu rosto. Balançou a cabeça de novo. — Eu sabia que as montanhas Beor eram grandes, mas não que tinham esse tamanho monstruoso!
— Vamos torcer para que os animais que vivem lá não tenham seu tamanho proporcional às montanhas — disse Eragon brincando.
Murtagh sorriu.
— Será bom ter um pouco de sombra e passar algumas semanas descansando. Estou farto desta marcha forçada.
— Eu também estou cansado — admitiu Eragon. — Mas não quero parar até que a elfa esteja curada... Ou ela morrerá.
— Não vejo como continuar viajando poderá ajudá-la — disse Murtagh seriamente. — Uma cama será melhor para ela do que ficar pendurada embaixo de Saphira o dia todo.
Eragon deu de ombros.
— Pode ser... Quando chegarmos às montanhas, eu poderia levá-la a Surda, que não fica tão longe. Deve haver um curandeiro que possa ajudá-la. Nós, com certeza, não podemos.
Murtagh protegeu os olhos do sol com a mão e olhou fixamente para as montanhas Beor.
— Podemos falar sobre isso depois. Agora, nosso objetivo é chegar até as Beor. Lá, pelo menos, os Ra’zac terão dificuldade para nos encontrar, e estaremos protegidos contra o Império.
Conforme o dia passava, não parecia que as montanhas Beor ficavam mais próximas, embora a paisagem tivesse mudado dramaticamente. A areia transformou-se lentamente, dos grãos soltos de tom avermelhado, em uma terra compacta, de cor escura. Em vez das dunas havia tufos irregulares de plantas e sulcos profundos no chão, onde inundações ocorreram. Uma brisa fria corria pelo ar, proporcionando um frescor muito bem-vindo. Os cavalos pressentiram a mudança de clima e avançaram ansiosos.
Quando a noite venceu o sol, os sopés das montanhas estavam a meros cinco quilômetros de distância. Hordas de gazelas corriam pelos campos luxuriantes de grama ondulante. Eragon flagrou Saphira olhando para elas de modo apetitoso. Acamparam perto de um riacho, aliviados por terem saído do cruel deserto Hadarac.

4 comentários:

  1. Hum...lá atras perguntei se isso já virou filme, acabei de ver o trailer. Pelo q vi deu vontade de ir alem, mas tenho medo da decepção, com o hobbit foi uma decepção sem tamanho. Enfim...vamos continuar lendo...

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    1. Sim, é decepcionante. O filme é estranho... Parece a xerox da xerox da xerox, sabe?

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  2. Karina, acabei de ler HERANÇA, sem brincadeira, ao terminar deu vontade de reler tudo. Faço isso agora, releio toda a saga...E-S-P-E-T-A-C-U-L-A-R...

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    1. Ahhh que ótimo, Marcia! Essa saga é ótima mesmo ❤ boa leitura!

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Boa leitura :)