22 de maio de 2017

Capítulo 44 - O rio Ramr

Eles fizeram um esforço para acordar bem cedo, quando ainda estava escuro. Eragon tremeu por causa do ar frio.
— Como vamos transportar a elfa? Ela não pode ficar no dorso de Saphira por muito tempo, pois vai acabar se machucando nas escamas. Saphira não pode carregá-la em suas garras, pois iria cansá-la e tornaria o pouso muito perigoso. Não daria certo fazer uma maca, pois seria feita em pedaços durante nossa cavalgada, e eu não quero que os cavalos fiquem mais lentos por causa do peso de mais uma pessoa.
Murtagh refletiu sobre a questão enquanto selava Tornac.
— Se você montasse em Saphira, poderíamos prender a elfa em Fogo na Neve, mas teríamos o mesmo problema das feridas.
Eu tenho uma solução, Saphira falou inesperadamente. Por que vocês não a amarram embaixo da minha barriga? Eu poderei me movimentar livremente, e ela estará mais segura do que em qualquer outro lugar. O único perigo será se os soldados atirarem flechas em mim, mas posso voar além do alcance delas facilmente.
Nenhum deles poderia ter uma ideia melhor, então adotaram a dela rapidamente. Eragon dobrou um dos cobertores dele ao meio, enrolou o corpo pequeno e delicado da elfa e levou-a até Saphira. Cobertores e roupas extras foram sacrificados para fazerem cordas compridas o bastante para envolver a cintura de Saphira. Usando essas cordas, a elfa foi presa na barriga de Saphira com as costas para dentro, sua cabeça ficou entre as patas dianteiras de Saphira. Eragon examinou o trabalho deles com um olhar crítico.
— Temo que suas escamas possam cortar as cordas.
— Teremos de verificá-las frequentemente para ver se não estão desfiando — comentou Murtagh.
Podemos ir agora?, perguntou Saphira, e Eragon repetiu a questão.
Os olhos de Murtagh brilharam perigosamente, um sorriso apertado ergueu seus lábios. Olhou para trás, para o caminho pelo qual vieram, onde a fumaça do acampamento dos soldados era visível, e disse:
— Eu sempre gostei de corridas.
— E agora participamos de uma que vale as nossas vidas.
Murtagh pulou para cima da sela de Tornac e saiu trotando do acampamento. Eragon seguiu bem atrás montando Fogo na Neve. Saphira pulou para o alto com a elfa. Ela voou baixo, perto do chão, para evitar que fosse vista pelos soldados. Desse modo, os três seguiram em direção ao sudoeste, para o distante deserto Hadarac.
Eragon sempre olhava para trás, de olho em seus perseguidores, enquanto cavalgavam. A mente dele, repetidas vezes, se voltava para a mulher. Uma elfa! Ele, de fato, havia visto uma, e estava com eles! Imaginou o que Roran pensaria disso. Ocorreu-lhe que, se um dia voltasse a Carvahall, teria dificuldade de convencer qualquer pessoa de que todas as suas aventuras aconteceram de verdade.
Durante o resto do dia, Eragon e Murtagh viajaram velozes por aquela terra, ignorando o desconforto e o cansaço. Fizeram os cavalos correrem o mais rápido que podiam sem matá-los. Às vezes, desmontavam e corriam a pé, para darem descanso a Tornac e a Fogo na Neve. Pararam apenas duas vezes, em ambas somente para deixar os cavalos comerem e beberem.
Embora os soldados de Gil’ead estivessem bem atrás naquele momento, Eragon e Murtagh tinham de evitar novos soldados cada vez que passavam perto de uma cidade ou vilarejo. De algum modo, um alerta sobre eles foi dado em toda a região. Por duas vezes, quase caíram em emboscadas na trilha, só escaparam porque Saphira conseguiu farejar os soldados que estavam à frente. Depois do segundo incidente, abandonaram a trilha de vez.
O crepúsculo suavizou o campo quando a noite lançou um manto preto em todo o céu. Viajaram durante toda a noite, vencendo os quilômetros de modo implacável. Nas altas horas da noite, o solo ergueu-se embaixo deles, formando colinas baixas repletas de cactos.
Murtagh apontou para a frente.
— Há uma cidade, Bullridge, a alguns quilômetros à frente, que devemos contornar. Com certeza, devem ter colocado soldados a postos para ver se nos acham. Devíamos tentar passar por eles enquanto está escuro.
Depois de três horas, viram os lampiões amarelados de Bullridge. Uma teia de soldados fazia patrulha entre fogueiras acesas em volta da cidade. Eragon e Murtagh esconderam as bainhas de suas espadas e desmontaram cuidadosamente. Guiaram os cavalos através de um longo desvio em volta de Bullridge, escutando atentamente, para evitar tropeçarem em algum acampamento.
Com a cidade atrás deles, Eragon relaxou um pouco. O amanhecer finalmente encheu o céu com um rubor delicado e esquentou o ar frio da noite. Pararam no alto de uma colina para observar a área que os cercava. O rio Ramr estava à esquerda, mas também estava a oito quilômetros à direita de onde estavam. O rio continuava rumo ao sul por vários quilômetros e, depois, volvia em torno de si mesmo, formando uma volta circular estreita antes de se curvar para o oeste. Percorreram mais de setenta e sete quilômetros em um dia. Eragon recostou-se contra o pescoço de Fogo na Neve, satisfeito com a distância que haviam percorrido.
— Vamos achar uma ravina ou uma depressão onde possamos dormir sossegados. — Eles pararam perto de uma aglomeração de juníperos e esticaram seus cobertores embaixo deles. Saphira esperou pacientemente enquanto desamarravam a elfa de sua barriga.
— Farei o primeiro turno da vigia e vou acordá-lo no meio da manhã — disse Murtagh colocando sua espada desembainhada em cima dos joelhos. Eragon resmungou, consentindo, e puxou os cobertores até a altura dos ombros.


O anoitecer encontrou-os cansados e sonolentos, mas determinados a continuar. Enquanto preparavam-se para partir, Saphira comentou com Eragon:
Esta é a terceira noite desde que salvamos você em Gil’ead, e a elfa ainda não acordou. Estou preocupada. Ela não bebeu ou comeu durante todo esse tempo. Sei pouco sobre elfos, mas ela está fraca. Duvido que consiga sobreviver durante muito tempo se não receber algum alimento.
— O que há de errado? — perguntou Murtagh por cima do dorso de Tornac.
— A elfa — respondeu Eragon, baixando o olhar em direção a ela. — Saphira está preocupada porque ela não acordou nem se alimentou, isso me perturba também. Curei suas feridas, pelo menos na superfície, mas parece que isso não fez bem nenhum a ela.
— Talvez o Espectro tenha mexido na mente dela — sugeriu Murtagh.
— Então, precisamos ajudá-la.
Murtagh ajoelhou-se ao lado da mulher. Ele examinou-a com cuidado, depois balançou a cabeça e pôs-se de pé.
— Pelo que vi, ela está apenas dormindo. Parece que eu poderia acordá-la com uma palavra ou com um toque, porém ela continua adormecida. Esse estado de coma pode ser algo que os elfos impõem a si mesmos para fugir da dor dos ferimentos, mas se é assim, por que ela não termina com isso? Agora, não há mais perigo para ela.
— Mas será que ela sabe disso? — perguntou Eragon baixinho.
Murtagh pôs uma das mãos no ombro dele.
— Isso precisa esperar. Temos de partir agora ou arriscaremos perder a vantagem que ganhamos com muito esforço. Você pode cuidar dela depois quando pararmos.
— Só farei uma coisa antes — anunciou Eragon. Ele ensopou um pano e espremeu-o para que a água caísse entre os lábios perfeitos da elfa. Fez isso várias vezes e umedeceu sua testa acima das sobrancelhas uniformes e angulosas, sentindo-se estranhamente protetor.
Seguiram pelas colinas, evitando os topos com medo de serem vistos por sentinelas. Saphira ficou com eles no solo pelo mesmo motivo. Apesar de seu grande corpo, andava silenciosamente, somente a cauda podia ser ouvida arrastando sobre o chão, como uma grande cobra azul.
Finalmente o céu ficou mais claro no leste. A estrela da manhã Aiedail apareceu quando eles chegaram à margem de uma escarpa íngreme coberta de montes de vegetação. A água rugia lá embaixo como se cortasse as pedras e fluísse entre os galhos.
— O Ramr! — disse Eragon mais alto do que o barulho.
Murtagh concordou com a cabeça.
— Isso! Precisamos encontrar um lugar para cruzá-lo em segurança.
Não será necessário, disse Saphira. Posso atravessar todos vocês, não importa qual seja a largura do rio.
Eragon ergueu o olhar para seu corpo azul-acinzentado:
E quanto aos cavalos? Não podemos deixá-los para trás. Eles são pesados demais para você levantá-los.
Desde que vocês não estejam montados e se eles não se debaterem muito, tenho certeza de que posso carregá-los. Se eu pude me desviar das flechas com três pessoas nas minhas costas, posso, com certeza, voar levando um cavalo, atravessando um rio em linha reta.
Acredito em você, mas só vamos tentar fazer isso se não houver outra saída. É perigoso demais.
Ela desceu a barragem com dificuldade.
Não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar tempo aqui.
Eragon seguiu-a, guiando Fogo na Neve. A escarpa acabava de repente no Ramr, onde o rio corria escuro e ágil. Uma névoa branca subia das águas, como sangue soltando vapor no inverno. Era impossível ver o outro lado. Murtagh atirou um galho na corrente e observou-o ser levado, sacudindo na água agitada.
— Você acha que a profundidade é de quanto? — perguntou Eragon.
— Não sei dizer — respondeu Murtagh, com um tom de preocupação na voz. — Você pode ver a distância até o outro lado usando a sua magia?
— Acho que não, a não ser que eu ilumine este lugar como um farol.
Com um golpe de ar, Saphira levantou voo e planou alto sobre o Ramr. Depois de um curto espaço de tempo, ela disse:
Estou na outra margem. O rio tem mais de oitocentos metros de largura. Vocês não podiam ter escolhido um lugar pior para atravessá-lo. O Ramr faz uma curva neste ponto, que é o mais largo dele.
— Oitocentos metros! — exclamou Eragon. Ele falou a Murtagh sobre a oferta de Saphira para levá-los voando à outra margem.
— Prefiro não tentar fazer isso, pelo bem dos cavalos. Tornac não está tão acostumado com Saphira quanto Fogo na Neve. Ele pode entrar em pânico e machucar a ambos. Peça a Saphira para procurar lugares rasos onde possamos atravessar nadando em segurança. Se não houver nenhum ponto com essas características no raio de dois quilômetros, sem importar para que lado seja, então acho que ela poderia nos rebocar em uma jangada.
Atendendo ao pedido de Eragon, Saphira concordou em procurar um lugar mais raso. Enquanto ela explorava, eles agacharam-se perto dos cavalos e comeram pão seco. Não demorou para Saphira voltar, suas asas cor de violeta sussurravam no céu do começo do crepúsculo.
O rio é fundo e caudaloso tanto para cima quanto para baixo.
Assim que ouviu isso, Murtagh disse:
— É melhor que eu vá primeiro, assim poderei cuidar dos cavalos. — Ele pulou para cima da sela de Saphira. — Tenha cuidado com Tornac. Eu o tenho há muitos anos. Não quero que nada aconteça a ele. — Depois, Saphira decolou.
Quando ela voltou, a elfa inconsciente já havia sido desamarrada de sua barriga. Eragon levou Tornac até Saphira, ignorando o relinchar baixo do cavalo. Saphira apoiou-se nas patas traseiras para poder agarrar o cavalo em volta da barriga com as suas patas dianteiras. Eragon olhou suas garras fantásticas e disse:
— Espere! — Ele reposicionou o cobertor da sela de Tornac, prendendo-o na barriga do animal, de modo a proteger a pele inferior, mais macia, e fez um sinal para que Saphira prosseguisse.
Tornac bufou de medo e tentou sair correndo quando as patas dianteiras de Saphira o agarraram pelos lados, mas ela o segurou com força. O cavalo arregalou os olhos de modo desesperado, o branco dos olhos serviu de mera moldura para as pupilas dilatadas. Eragon tentou acalmar Tornac ao tocar a mente dele, mas o pânico do animal resistiu a seu toque. Antes que Tornac pudesse tentar escapar novamente, Saphira pulou rumo ao céu. As pernas traseiras dela impulsionaram com tanta força que suas garras chegaram a marcar as pedras que estavam embaixo. Suas asas fizeram uma força gigantesca, lutando para erguer a enorme carga. Por um momento, parecia que ela ia cair no chão, mas, com um movimento abrupto para cima, disparou no ar. Tornac relinchava de pavor, dando coices e se debatendo. O som era terrível, como o de metal chiando.
Eragon xingou, imaginando se havia alguém perto o bastante para ouvir. É melhor você se apressar, Saphira. Ele prestou atenção para ver se escutava alguns soldados enquanto esperava, observando a paisagem escura, procurando a luz de tochas reveladoras. Logo, viu tal luz, em uma fila de homens a cavalo descendo um barranco a quase cinco quilômetros de distância.
Quando Saphira pousou, ele levou Fogo na Neve até ela. O animal tolo de Murtagh está histérico. Ele teve de prender Tornac para evitar que fugisse. Ela agarrou Fogo na Neve e levou-o, ignorando os protestos do cavalo.
Eragon observou-a partir, sentindo-se sozinho na noite. Os homens estavam a menos de dois quilômetros de distância.
Finalmente, Saphira chegou para pegá-lo e logo eles estavam novamente em terra firme, com o Ramr atrás deles. Assim que os cavalos se acalmaram e suas selas foram reajustadas, eles recomeçaram sua viagem até as montanhas Beor. O ar estava repleto de cantos de pássaros que acordavam para um novo dia.
Eragon adormecia até quando andava. E mal percebia que Murtagh estava com tanto sono quanto ele. Havia momentos em que nenhum deles guiava os cavalos, e era apenas a vigilância de Saphira que os mantinha no curso.
Finalmente o solo ficou macio e cedia embaixo dos pés deles, forçando-os a parar. O sol estava alto no céu. O rio Ramr não era mais do que uma linha indistinta atrás deles.
Eles haviam chegado ao deserto Hadarac.

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