27 de maio de 2017

Capítulo 44 - Narda

Roran se curvou sobre um dos joelhos e coçou sua nova barba enquanto olhava lá para baixo, para Narda. A pequena cidade era escura e compacta, era como uma crosta de pão de centeio, e estava socada numa fenda ao longo da costa gelada. Mais além, o mar cor de vinho luzia com os últimos raios do sol poente. A água o fascinava, aquilo era completamente diferente da paisagem com que estava acostumado.
Conseguimos.
Ao deixar o promontório, Roran retornou a sua tenda improvisada, deleitando-se enquanto respirava a maresia. Eles acamparam no alto, bem no contraforte da Espinha, para evitar que fossem detectados por espiões do Império.
Enquanto caminhava a passos largos em meio aos grupos de aldeões que se acotovelavam sob as árvores, Roran avaliava suas condições com tristeza e raiva. A trilha que os levava para fora do vale Palancar havia deixado às pessoas doentes, e exaustas, seus rostos estavam magros por causa da falta de comida e suas roupas esfarrapadas. Quase todo mundo usava trapos amarrados nas mãos para se precaver contra a ulceração provocada pelas noites geladas da montanha. As semanas carregando pacotes pesados haviam curvado ombros outrora orgulhosos. A pior visão era a das crianças: magras e estranhamente quietas.
Elas merecem coisa melhor, pensou Roran. Eu estaria nas mãos dos Ra’zac agora se todos não tivessem me protegido.
Inúmeras pessoas se aproximavam de Roran, grande parte delas queria apenas um toque no ombro ou uma palavra de conforto. Alguns ofereciam-lhe nacos de comida, os quais ele recusava ou, quando eles insistiam, dava para uma outra pessoa. Aqueles que permaneciam à distancia observavam com olhos pálidos e arregalados. Ele sabia o que diziam a seu respeito, que ele era louco, que espíritos o haviam possuído, que nem mesmo os Ra’zac poderiam derrotá-lo numa batalha.
Cruzar a Espinha foi ainda mais difícil do que Roran esperava.
As As trilhas na floresta eram rotas de caça, estreitas, íngremes e sinuosas demais para o seu grupo. Por conta disso, os aldeões eram normalmente forçados a cortar caminho em meio às árvores e à vegetação rasteira, uma manobra meticulosa e desprezível, tornava mais fácil para o Império a tarefa de localizá-los. A única vantagem da situação foi que o exercício acabou restabelecendo o ombro ferido de Roran, ele recuperou sua antiga força, embora ainda tivesse dificuldade para levantar o braço em certos ângulos.
Outras privações ainda fizeram o grupo sofrer mais. Uma tempestade súbita os encurralou numa trilha exposta bem no topo das montanhas. Três pessoas congelaram na neve: Hida, Brenna e Nesbit, todos bastante idosos. Foi naquela noite que Roran se convenceu, pela primeira vez, que o vilarejo inteiro iria morrer por ele. Logo depois, um garoto quebrou um braço numa queda, e em seguida Southwell se afogou num rio que brotava de uma geleira. Lobos e ursos atacavam regularmente seus animais domésticos, ignorando as fogueiras dos aldeões. A fome se apegava a eles como se fosse um parasita implacável, corroía os seus estômagos, consumia as suas forças e minava a vontade de prosseguir.
Contudo eles sobreviveram, demonstraram a mesma obstinação e coragem que mantiveram seus ancestrais no vale Palancar, apesar da falta de comida, da guerra e da peste. A gente de Carvahall podia demorar uma era e meia para tomar uma decisão, mas assim que o fazia, nada podia impedir que seguisse o seu rumo.
Agora que haviam alcançado Narda, uma sensação de esperança e de missão cumprida se espalhou pelo acampamento. Ninguém sabia do futuro, mas o fato de eles terem chegado tão longe lhes deu confiança.
Não estaremos seguros até deixarmos o Império, pensou Roran. E é minha responsabilidade garantir a proteção. Tornei-me responsável por todos aqui... Foi uma responsabilidade abraçada com todo o coração, pois tanto permitia que protegesse os aldeões de Galbatorix, como prosseguisse à meta de resgatar Katrina. Já faz tanto tempo que ela foi capturada. Será que ainda está viva? Estremeceu e afastou tais pensamentos. Uma loucura de verdade o aguardava caso se permitisse pensar no destino de Katrina.
Ao amanhecer, Roran, Horst, Baldor, os três filhos de Loring e Gertrude seguiram em direção a Narda. Desceram pelo contraforte até a estrada principal da cidade, tomaram cuidado para ficarem escondidos até alcançar a via. Ali, na planície, o ar parecia denso para Roran, era como se estivesse tentando respirar debaixo d’água.
Roran segurou o martelo em seu cinto enquanto o grupo se aproximava do portão de Narda. Dois soldados guardavam a entrada. Ambos examinaram o grupo de Roran com olhos firmes, demoraram-se em suas esfarrapadas, e depois baixaram suas machadinhas e barraram a entrada.
— De onde vocês são? — perguntou o homem da direita. Ele não devia ter mais de vinte e cinco anos, mas seu cabelo já era completamente branco.
Enchendo o peito, Horst cruzou os braços e disse:
— De todos os lados de Teirm, se você quer saber.
— O que os traz aqui?
— Comércio. Fomos enviados por lojistas que querem comprar mercadorias diretamente de Narda, em vez de passar pelos mercadores de praxe.
— É verdade? Que mercadorias?
No que Horst hesitou, Gertrude disse:
— Da minha parte, são ervas e remédios. As plantas que recebi daqui ou estavam muito velhas ou estavam mofadas e estragadas. Tenho de obter um suprimento fresco.
— E eu e meus irmãos — afirmou Darmmen — viemos fazer um acordo com os seus sapateiros. Os sapatos feitos no estilo do norte estão na moda em Dras-Leona e Urû’baen. — Ele fez uma careta. — Pelo menos estavam quando partimos.
Horst acenou positivamente, com a confiança renovada.
— Sim. E eu estou aqui para juntar uma remessa de ferro ornamental para o meu mestre.
— Assim você diz. E quanto aquele ali? O que ele faz? — perguntou o soldado, seguindo na direção de Roran com seu machado.
— Cerâmica — disse Roran.
— Cerâmica?
— Cerâmica.
— Por que o martelo então?
— Como você acha que se quebra o esmalte de uma garrafa ou de uma jarra? Isso não acontece do nada, você sabe. É preciso golpeá-lo. — Roran devolveu o olhar de descrença do sujeito de cabelo branco com ma expressão estupefata, desafiando-o a questionar suas afirmações. O soldado resmungou e os olhou de cima a baixo novamente.
— Vocês podem ser o que quiserem, mas para mim não parecem comerciantes. Estão mais para gatos de beco famintos.
— Tivemos dificuldades na estrada — disse Gertrude.
— Nisso eu acredito. Se vocês vieram de Teirm, onde estão os seus cavalos?
— Nós os deixamos no nosso acampamento — completou Hamund.
Ele apontou para o sul, o lado oposto onde os aldeões estavam de fato escondidos.
— Não têm dinheiro para ficar na cidade, hã? — Com uma risadinha de desdém, o soldado levantou a sua machadinha e gesticulou para que seu parceiro fizesse o mesmo. — Tudo bem, vocês podem passar, mas não criem problemas ou irão acabar presos ou coisa pior.
Assim que atravessaram o portão, Horst puxou Roran para a lateral da rua e resmungou em seu ouvido.
— Isso foi uma tolice, fazer algo ridículo como isso. Quebrar o esmalte! Você quer brigar? Não podemos... — Ele parou assim que Gertrude puxou a sua manga.
— Veja — murmurou a curandeira.
A esquerda da entrada, havia um quadro de avisos com quase dois metros de extensão e uma cobertura de telha fina para proteger o pergaminho amarelado que havia por baixo. Metade do quadro tinha notificações e proclamações oficiais afixadas. Na outra metade havia um bloco de pôsteres que mostravam retratos de vários criminosos. O mais destacado era um desenho de Roran sem barba.
Assustado, Roran olhou em volta para se certificar de que ninguém na rua estava perto o suficiente para comparar seu rosto com a ilustração e depois voltou sua atenção para o pôster. Ele imaginava que o Império estava em seu encalço, mas ainda era um choque encontrar uma prova disso. Galbatorix deve estar gastando uma quantidade enorme de recursos para tentar nos pegar. Quando estavam na Espinha, era fácil se esquecer do mundo lá fora. Aposto que há pôsteres meus pregados por todo o Império. Ele sorriu, feliz por ter deixado a barba crescer e por ele e os outros terem concordado em usar nomes falsos enquanto estivessem em Narda.
Havia uma recompensa escrita à tinta na parte de baixo do pôster. Garrow jamais ensinou Roran e Eragon a ler, mas os ensinou a identificar os algarismos. Como ele dizia: “você precisa saber quanto tem, quanto vale o seu trabalho e quanto lhe pagam por ele, para que não seja roubado por um safado com duas caras.” Com isso, Roran pôde ver que o Império havia oferecido dez mil coroas por ele, o suficiente para alguém confortavelmente durante muitos anos. De uma maneira estranha, o valor da recompensa o deixou feliz, pois o fez se sentir importante.
Depois seu olhar se voltou para o pôster que estava ao lado.
Era o retrato de Eragon.
Roran se sentiu como se tivesse levado um soco na boca do estômago e por alguns segundos se esqueceu de respirar.
Ele está vivo!
Após a sensação de alívio inicial, Roran voltou a sentir raiva de Eragon por causa da morte de Garrow. A destruição de sua fazenda passou a ocupar os seus pensamentos assim como o desejo ardente de saber por que o Império caçava Eragon. Deve ter algo a ver com aquela pedra azul e a primeira visita dos Ra’zac a Carvahall. Mais uma vez, Roran quis saber em que tipo de tramas diabólicas ele e o resto de Carvahall haviam se metido.
Em vez de uma recompensa, o pôster de Eragon trazia duas linhas de runas.
— De que crime ele é acusado? — perguntou Roran para Gertrude. A pele em volta dos olhos de Gertrude enrugava enquanto ela fitava o quadro.
— Traição, ambos vocês. Aqui diz que Galbatorix entregará um condado para qualquer pessoa que capturar Eragon, mas que aqueles que tentarem fazê-lo devem tomar cuidado, pois ele é extremamente perigoso.
Roran piscou, admirado. Eragon? Parecia inconcebível até Roran perceber o quanto ele mesmo havia mudado nas últimas semanas. O mesmo sangue corre nas nossas veias. Quem sabe, talvez Eragon tenha conseguido tantas ou mais coisas do que eu desde que partiu.
Em voz baixa, Baldor disse:
— Se matar os homens de Galbatorix e desafiar os Ra’zac só faz com que a sua cabeça valha dez mil coroas, por maior que ela seja, o que o faria valer um condado?
— Importunar o rei pessoalmente — sugeriu Larne.
— Já chega disso — disse Horst. — Guarde sua língua melhor, Baldor, ou vamos acabar atrás das grades. E Roran, não chame atenção para si próprio novamente. Com uma recompensa dessas, as pessoas estarão propensas a confundir estranhos com qualquer um que se encaixe na sua descrição. — Ao passar a mão no cabelo, Horst puxou o seu cinto para cima e afirmou: — Certo. Todos nós temos trabalhos a fazer. Voltem aqui ao meio-dia para fazerem um relatório do progresso de cada um.
O grupo se dividiu em três. Darmmen, Larne e Hamund foram juntos pegar comida para os aldeões, tanto para atender a necessidades urgentes, quanto para sustentá-los ao longo da próxima etapa da viagem.
Gertrude — como havia dito para o guarda — saiu para reabastecer seu estoque de ervas, unguentos e tinturas. E Roran, Horst e Baldor seguiram pelas ruas enviesadas até as docas, onde esperavam poder fretar um navio para levar os aldeões para Surda ou, pelo menos, até Teirm.
Quando eles alcançaram o cais na praia, Roran parou e contemplou o oceano, agora cinzento por causa das nuvens baixas e pontilhado com cristas de onda devido ao vento irregular. Jamais imaginara o quão perfeitamente plano poderia ser o horizonte. O estrondo oco da água batendo contra as estacas sob os seus pés fazia ele se sentir sobre a superfície de um enorme tambor. O cheiro de peixe — fresco, pungente e apodrecido — se sobrepunha a todos os outros odores. Olhando de Roran até Baldor, que estava igualmente arrebatado,
Horst disse:
— Bela visão, não?
— Sim — afirmou Roran.
— Faz você se sentir muito pequeno, não é?
— É — concordou Baldor.
Horst acenou positivamente com a cabeça.
— Lembro-me de quando vi o oceano pela primeira vez, teve um efeito semelhante sobre mim.
— Quando foi isso? — perguntou Roran. Junto com os bandos de gaivotas que rodopiavam sobre a angra, ele notou um tipo estranho de pássaro que estava empoleirado sobre o quebra-mar. O animal era meio desajeitado e seu corpo tinha um bico listrado, que ele mantinha encolhido contra o seu peito como se fosse um homem velho e pomposo, tinha a cabeça e o pescoço brancos e torso preto. Uma das aves levantou o seu bico, revelando uma bolsa por baixo que parecia ser de couro.
— Bartram, o ferreiro que veio antes de mim — afirmou Horst —, morreu quando eu tinha quinze anos, um ano antes do final do meu aprendizado. Tive que encontrar um ferreiro que estivesse disposto a terminar o trabalho de outro homem, por isso viajei para Ceunon, que se erguia ao longo do Mar do Norte. Lá encontrei Kelton, um velho desprezível, mas competente. Ele concordou em me dar umas aulas. — Horst deu uma gargalhada. — Na hora em que terminamos, não sabia se devia agradecê-lo ou amaldiçoá-lo.
— Devia agradecê-lo, creio — disse Baldor. — Você jamais teria casado com mamãe de outra maneira.
Roran franzia a testa enquanto estudava a areia.
— Não há muitos navios — observou. Tinha duas embarcações atracadas na extremidade sul do porto e uma terceira no lado oposto, havia barcos de pesca e escaleres entre estes. Um dos navios mais ao sul portava o mastro quebrado. Roran não tinha experiência com navios mas, para ele, nenhuma das naus parecia grande o suficiente para carregar quase trezentos passageiros.
Eles foram de um navio para o outro. Roran, Horst e Baldor logo descobriram que todas as embarcações estavam de algum modo ocupadas.
Levaria um mês ou mais para consertar o navio com o mastro quebrado. A embarcação seguinte, o Mensageiro das Ondas, era equipado com velas de couro e estava prestes a seguir para o norte até as ilhas traiçoeiras onde as plantas Seithr cresciam. E o Albatroz, a última nau, havia acabado de chegar da distante Feinster e fazia reparos e costuras antes de partir novamente com uma carga de lã.
Um sujeito que trabalhava nas docas riu das perguntas de Horst.
— Você chegou tarde e cedo ao mesmo tempo. A maior parte dos navios que saem e chegam durante a primavera não estão mais aqui há duas ou três semanas. Mais outro mês e os ventos do noroeste começarão a soprar, daí os caçadores de focas e leões-marinhos voltarão e receberemos embarcações de Teirm e do resto do Império para levar as peles, a carne e o óleo. Só então vocês terão uma chance de contratar um capitão. Até lá, não veremos mais tráfego do que isso.
Desesperado, Roran perguntou:
— Não há outra maneira de levar mercadorias daqui até Teirm? Não precisa ser um navio rápido e confortável.
— Bem — disse o sujeito, erguendo a caixa sobre o ombro —, se não precisa ser rápido e vocês só vão até Teirm, então poderiam falar com o Clóvis que está logo ali. — Ele apontou para um galpão flutuante entre dois píeres, onde podia haver barcos guardados. — Ele é dono de algumas chatas nas quais transporta grãos no outono. No resto do ano, Clóvis ganha a vida pescando, como quase todo mundo em Narda. — Então o sujeito franziu a testa. — Que tipo de carga vocês têm? As ovelhas já foram tosquiadas e não há safra nessa época do ano.
— Varias coisas — afirmou Horst, que jogou uma moeda de cobre Para o homem das docas.
Ele a guardou no bolso com uma piscadela e uma cutucada.
— O senhor tem razão. Várias coisas. Sei o que é uma evasiva quando escuto uma. Mas não temam o velho Ulric, vou guardar segredo. Vejo o senhor depois. — Ele saiu andando dali, assobiando.
Como eles logo puderam constatar, Clóvis não estava nas docas. Depois de perguntarem, ainda levaram meia hora para andar até sua casa, do outro lado de Narda, onde o encontraram plantando bulbos de íris na trilha que dava na sua porta da frente. Era um homem robusto com o rosto queimado pelo sol e a barba bastante grisalha. Uma hora a mais se passou até convencerem o marinheiro de que estavam realmente interessados em suas chatas, apesar da estação, e depois voltaram em conjunto para os galpões, os quais ele abriu para revelar três barcaças idênticas: Merrybell, Edeline e Javali Vermelho.
Cada uma das embarcações media pouco mais de vinte metros de extensão por seis de largura e estava pintada num tom de ferrugem. Tinham porões de carga que podiam ser cobertos com lonas, um mastro que podia ser erguido no centro, para segurar uma única vela quadrada, e um bloco de cabines logo acima do convés na traseira — ou popa, como Clóvis a chamava — da embarcação.
— Elas são um pouco mais fundas do que uma barcaça fluvial — explicou Clóvis — por isso não costumam virar durante um temporal, mas vocês fariam bem em evitar tempestades de verdade. Essas barcaças não foram feitas para o mar aberto. Foram feitas para andar à vista de quem está em terra firme. E agora é a pior época do ano para lançá-las. Palavra de honra, temos temporais consecutivos há um mês.
— Você possui tripulação para todas as três? — perguntou Roran.
— Bem, agora... veja, há um problema. A maior parte dos homens que emprego partiram há semanas para caçar focas, como é de praxe. Como só preciso deles depois da colheita, eles ficam livres durante o resto do ano... Estou certo de que vocês, cavalheiros, entendem a minha posição. — Clóvis tentou sorrir, depois passeou o olhar por Roran, Horst e Baldor, como se não soubesse para quem devia se dirigir.
Roran andou ao longo de toda a extensão da Edeline, examinava para ver se havia algum dano. A chata parecia velha, mas a madeira parecia bem conservada e a pintura, nova.
— Se substituirmos os homens que estão faltando em suas tripulações, quanto custaria para irmos a Teirm com todas as três barcaças?
— Isso depende — disse Clóvis. — Os marujos ganham quinze moedas de cobre por dia, sem contar com toda a boa comida que puderem e um trago de uísque por fora de vez em quando. O que os seus ganharão é problema de vocês. Não os colocarei na minha folha pagamento. Normalmente, também contratamos guardas para ficar em cada chata, mas eles estão...
— Eles saíram para caçar, sim — afirmou Roran. — Vamos providenciar guardas também.
O pomo na garganta bronzeada de Clóvis pulou enquanto ele engolia em seco.
— Isso seria mais do que razoável... seria mesmo. Além do soldo da tripulação, eu cobro uma taxa de duzentas coroas, além do quê, vocês ficarão responsáveis por qualquer dano que os seus homens causem às chatas e, como dono e capitão, também fico com doze por cento do lucro total que vocês obtiverem com a venda da carga.
— Nossa viagem não terá nenhum lucro.
Isso, mais do que qualquer coisa, desagradou Clóvis. Ele esfregou a covinha do queixo com o polegar esquerdo, começou a falar duas vezes e parou, até que finalmente disse:
— Se esse é o caso, então quero mais quatrocentas coroas até o final da viagem. O que vocês querem transportar, se me permitem a pergunta?
Nós o deixamos assustado, pensou Roran.
— Rebanhos.
— Ovelhas, gado, cavalos, bodes, bois...?
— Nossos rebanhos possuem todo sortimento de animais.
— E por que vocês querem levá-los para Teirm?
— Temos nossos motivos. — Roran quase sorriu com a confusão de Clóvis. — Você cogitaria navegar para além de Teirm?
— Não! Teirm é o meu limite. Não conheço as águas longínquas, nem gostaria de ficar mais distante do que isso da minha mulher e da minha filha.
— Quando você ficaria pronto? Clóvis hesitou e deu mais dois passos.
— Talvez em cinco ou seis dias. Não... não, é melhor esperar uma semana, tenho questões que preciso resolver antes de partir.
— Pagaríamos dez coroas a mais para partir depois de amanhã. — Eu não...
— Doze coroas.
— Depois de amanhã então — prometeu Clóvis. — De um jeito ou de outro estarei pronto até lá.
Passando a mão na amurada da chata, Roran acenou positivamente sem olhar para trás na direção de Clóvis e perguntou:
— Posso trocar ideias por um minuto a sós com meus parceiros?
— Como quiser, senhor. Vou dar uma volta nas docas enquanto vocês resolvem tudo. — Clóvis correu para a porta. Assim que deixou o galpão, ele perguntou: — Desculpe, mas você podia me dizer o seu nome novamente? Temo que o tenha esquecido, minha memória é terrível.
— Martelo Forte. Meu nome é Martelo Forte.
— Ah, é claro. Bom nome esse.
Quando a porta se fechou, Horst e Baldor foram para cima de Roran. Baldor foi logo falando:
— Não temos condições de pagá-lo.
— Não temos condições de desistir — respondeu Roran. — Não temos o ouro para comprar as barcaças, nem eu me imagino tentando aprender a guiá-las quando a vida de todos dependem disso. Será mais rápido e seguro pagar por uma tripulação.
— Ainda assim é tudo muito caro — disse Horst. Roran ficou tamborilando com os dedos na amurada.
— Podemos pagar as despesas iniciais de duzentas coroas. Assim que alcançarmos Teirm, no entanto, sugiro que roubemos as chatas usando as habilidades que aprendermos durante a viagem ou então devemos prender Clóvis e seus homens até que possamos escapar por outros meios. Dessa maneira, não teremos que pagar as quatrocentas coroas a mais, bem como os soldos dos marujos.
— Não gosto de enganar um homem que está fazendo um trabalho honesto — disse Horst. — Isso vai contra os meus princípios.
— Também não gosto, mas você consegue pensar numa alternativa?
— Como você vai fazer para que todos embarquem nas chatas?
— Farei com que eles encontrem Clóvis a uma légua ou mais costa abaixo, longe de Narda.
Horst suspirou.
— Muito bem, vamos lá, mas isso está deixando um gosto ruim na minha boca. Chame Clóvis de volta, Baldor, e vamos selar esse pacto.


Naquela noite, os aldeões se juntaram em volta de uma pequena fogueira para ouvir o que havia transcorrido em Narda. De onde estava ajoelhado no chão, Roran olhou para as brasas pulsantes enquanto ouvia Gertrude e os três irmãos contando suas aventuras em separado. As notícias sobre os pôsteres de Roran e Eragon provocaram murmúrios de inquietação no meio da plateia.
Quando Darmmen terminou, Horst assumiu o relato e, com frases curtas e rápidas, contou sobre a falta de navios apropriados em Narda, como o trabalhador das docas recomendou Clóvis, e o acordo que foi feito depois. Porém, no momento em que Horst mencionou a palavra barcaças, os gritos de ira e descontentamento dos aldeões abafaram a sua voz.
Enquanto se aproximava da vanguarda do grupo, Loring levantou os braços, chamando a atenção.
— Barcaças? — disse o sapateiro. — Barcaças? Não queremos barcaças fétidas!. — Cuspiu perto dos seus pés enquanto as pessoas berravam, concordando.
— Quietos, todos vocês! — exclamou Delwin. — Seremos ouvidos se continuarmos fazendo barulho. — Assim que o estalido da madeira no fogo tornou-se o barulho mais alto, ele prosseguiu calmo: — Concordo com Loring. Barcaças são inaceitáveis. Elas são lentas e vulneráveis. E ficaríamos apertados numa total falta de privacidade e sem nenhum abrigo por sei lá quanto tempo. Horst, Elain está no sexto mês de gravidez. Você não pode esperar que ela e os outros doentes e enfermos fiquem sob o sol ardente durante semanas a fio.
— Podemos cobrir os porões de carga com lonas — respondeu Horst. — Não é muito, mas isso irá nos proteger do sol e da chuva.
A voz de Birgit irrompeu no meio dos murmúrios da multidão:
— Tenho uma outra preocupação. — As pessoas abriram caminho para ela se aproximar da fogueira. — E quanto às duzentas coroas a que Clóvis faz jus e o dinheiro que Darmmen e seus irmãos gastaram? Já usamos a maior parte do nosso dinheiro. Ao contrário do que acontece nas cidades, nossa riqueza não está no ouro e sim nos nossos animais e nossas propriedades. Essas últimas se foram e restam poucos animais. Mesmo se virarmos piratas e roubarmos essas chatas, como poderemos comprar suprimentos em Teirm ou continuar a viagem?
— O mais importante — resmungou Horst — é chegar em Teirm. Ao chegarmos lá, então poderemos nos preocupar com o futuro... É provável que tenhamos de recorrer a medidas mais drásticas.
O rosto magro de Loring começou a se enrugar.
— Drásticas? O que você quer dizer com drásticas? Já tomamos medidas drásticas. Toda essa aventura é uma medida drástica. Não me importa o que você diga, não viajarei nessas malditas chatas, não depois de tudo o que passamos na Espinha. Barcaças são para grãos e animais. O que queremos é um navio com cabines e beliches, onde possamos dormir confortavelmente. Por que não esperamos mais uma semana para ver se chega um navio para o qual possamos comprar passagens? Que perigo há nisso, hã? Ou por que não... — Ele continuou a ralhar durante mais de quinze minutos, acumulando uma montanha de objeções antes de passar a palavra para Thane e Ridley, que sustentaram os seus argumentos.
A conversa parou quando Roran desdobrou as pernas e se levantou, silenciando os aldeões com sua presença. Eles ficaram esperando, aflitos, esperando por mais um dos seus discursos visionários.
— É aceitar a barca ou andar mais — disse ele.
E depois foi para a cama.

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