27 de maio de 2017

Capítulo 43 - O Obliterador

Na manhã seguinte, Eragon foi atrás de Arya para pedir desculpas. Procurou-a durante mais de uma hora sem obter sucesso. Parecia que ela havia desaparecido por entre os muitos recantos de Ellesméra. Ele a viu de relance assim que parou na entrada da Mansão Tialdarí e gritou chamandoa, mas ela sumiu antes que o rapaz pudesse se aproximar. Ela está me evitando, percebeu Eragon enfim.
Os dias iam passando e Eragon abraçou o treinamento de Oromis com um zelo que o Cavaleiro mais velho não cansava de elogiar, se dedicava aos seus estudos para desviar seus pensamentos de Arya.
Dia e noite, Eragon se esforçava em suas lições. Memorizou as palavras que serviam para criar, atar e invocar, aprendeu os nomes verdadeiros das plantas e dos animais, e estudou os riscos da transmutação, sabia recorrer ao vento e ao mar, e possuía as incontáveis habilidades necessárias para se entender as forças do mundo. Nos encantos que lidavam com grandes energias — como luz, calor e magnetismo — ele se sobressaía, porque tinha talento para julgar exatamente quanta força era necessária para realizar uma tarefa e sabia inclusive se teria esta força.
Ocasionalmente, Orik vinha, observava tudo de pé, na beira da clareira, calado enquanto Oromis instruía Eragon, ou enquanto o rapaz se esforçava sozinho com um encanto particularmente difícil.
Oromis apresentou muitos desafios a ele. Fez Eragon cozinhar refeições com magia, com o intuito de lhe ensinar a ter mais controle da sua necromancia. As primeiras tentativas de Eragon resultaram num banquete enegrecido. O elfo mostrou ao jovem como detectar e neutralizar venenos de todo tipo e, daí em diante, Eragon teve que examinar sua comida por causa dos venenos diferentes que Oromis estava propenso a misturar nela. Por mais de uma vez, o Cavaleiro ficou com fome por não conseguir encontrar o veneno ou por não ter a capacidade de neutralizá-lo. Por duas vezes ele ficou tão doente que Oromis teve de curá-lo. E o elfo obrigava seu aluno a fazer múltiplos encantos simultaneamente, o que exigia uma tremenda concentração pela direção e pelos objetivos que Eragon queria atingir.
Oromis devotava longas horas à arte de impregnar a matéria com energia, tanto para que fosse liberada mais tarde quanto para dar certos atributos a um objeto. Ele disse:
— Essa era a forma como Rhunön encantava as espadas dos Cavaleiros para nunca quebrar ou perder o fio, é como cantamos para fazer as plantas crescerem do jeito que queremos, uma armadilha pode estar numa caixa, de modo que seja acionada quando esta for aberta, como nós e os anões fazemos o Erisdar, nossas lanternas, e como se pode fazer para curar alguém que está ferido, para citar alguns poucos usos. Esses são os encantos mais potentes que existem, pois podem ficar adormecidos durante uns mil anos ou mais e são difíceis de serem percebidos ou evitados. Eles permeiam grande parte da Alagaësia, moldam a terra e o destino daqueles que vivem aqui.
Eragon perguntou:
— Você poderia usar essa técnica para alterar o seu corpo, não poderia? Ou isso é muito perigoso?
Os lábios de Oromis formaram, inesperadamente, um leve sorriso.
— Ai de nós elfos, você encontrou nossa maior fraqueza: a vaidade. Amamos a beleza em todas as suas formas e buscamos este ideal em nossa aparência. É por isso que somos conhecidos como o Povo Belo. Todo elfo ou elfa aparenta ser exatamente o que deseja. Quando os elfos aprendem os encantos para crescer e moldar coisas vivas, normalmente optam por modificar sua aparência para melhor refletir suas personalidades. Alguns poucos elfos foram além de meras mudanças estéticas e alteraram sua anatomia para se adaptar a vários ambientes, como você verá durante a Celebração de Juramento ao Sangue. Muitas vezes eles são muito mais animais do que elfos.
Oromis hesitou e logo prosseguiu:
— No entanto, transferir poder para uma criatura viva é diferente de transferir poder para um objeto inanimado. São muito poucos os materiais adequados para armazenar energia, muitos deles, ao mesmo tempo, permitem-na se dissipar ou ficam tão carregados que quando você toca o objeto, um raio acaba percorrendo o seu corpo. Os melhores materiais encontrados para esse propósito foram pedras preciosas e semipreciosas. Quartzos, ágatas e outras de valor inferior não são tão eficientes quanto, digamos, um diamante, mas qualquer gema serve. É por isso que as espadas dos Cavaleiros sempre possuem uma joia incrustada no punho de suas espadas. E também por essa razão que o seu colar de anão, que é inteiramente de metal, precisa sugar a sua força para alimentar o seu encanto, já que não tem energia própria.
Quando não estava com Oromis, Eragon completava sua educação lendo os muitos pergaminhos que o elfo lhe deu, um hábito ao qual ele logo passou a se dedicar. A infância de Eragon — limitada como foi pela tutela de Garrow — só o expusera ao conhecimento necessário para tocar uma fazenda.
A informação que descobria nos quilômetros de papel chegavam como chuva num deserto ressecado, saciavam uma sede anteriormente desconhecida. Ele devorava textos sobre geografia, biologia, anatomia, filosofia e matemática, assim como memórias, biografias e histórias. Mais importante do que meros fatos, foi sua introdução a modos alternativos de pensar. Eles desafiavam suas crenças e o forçavam a reexaminar suas noções em relação a tudo, dos direitos de um indivíduo dentro da sociedade até o que fazia com que o sol se movesse pelo céu. O rapaz notou que um certo número de pergaminhos diziam respeito aos Urgals e sua cultura. Eragon os leu e não os mencionou nenhuma vez, nem Oromis perguntou.
A partir dos seus estudos, Eragon aprendeu muito sobre os elfos, era um assunto que ele pesquisava avidamente na esperança de que pudesse ajudá-lo a entender Arya. Para a sua surpresa, descobriu que os elfos não se casavam, ao invés disso se uniam a parceiros e ficavam com eles o tempo que desejassem, fosse por um dia ou um século. As crianças eram raras e ter um filho era considerado como jura de amor suprema.
Eragon também aprendeu que desde o primeiro encontro entre as duas raças, poucos casais formados por um elfo e um humano existiram: principalmente Cavaleiros humanos que encontraram companheiras apropriadas entre as elfas. No entanto, por mais que pesquisasse nos registros ocultos, a maior parte de tais relacionamentos acabava em tragédia, tanto porque os amantes eram incapazes de se relacionar um com o outro, ou porque os humanos envelheciam e morriam antes que os elfos envelhecessem.
Além dos textos ensaísticos, Oromis presenteou Eragon com cópias das melhores canções, poemas e épicos dos elfos, eles capturavam a imaginação do rapaz, já que as únicas histórias com as quais ele estava familiarizado eram as recitadas por Brom em Carvahall. Ele devorou os épicos da mesma forma como fazia com uma refeição bem preparada, demorava-se na leitura das narrativas O Feito de Gëda ou A Balada de Umhodan, como a prolongar seu deleite.
O treinamento de Saphira, por sua vez, prosseguia a passos largos. Ligado como estava à mente dela, Eragon acabava vendo Glaedr submetê-la a um regime de exercícios tão vigoroso quanto o seu. Ela praticava suspensão no ar ao mesmo tempo em que levantava pedras grandes arredondadas, assim como corridas de curta distância, mergulhos e outras acrobacias. Para aumentar sua resistência, Glaedr a fazia soprar fogo durante horas sobre um pilar de pedra natural, na tentativa de derretê-lo. No começo, Saphira só conseguia manter as chamas durante alguns minutos de cada vez, mas em pouco tempo o facho ardente brotava de seu estômago durante mais de meia hora sem parar, esquentava o pilar até ele ficar branco de tão aquecido.
Eragon também aprendia a cultura dos dragões que estava sendo transmitida para Saphira, ouvia detalhes sobre as vidas e a história dos dragões que complementaram o conhecimento instintivo dela. Grande parte disso era incompreensível para o Cavaleiro, e ele suspeitava que Saphira ocultava muitas outras coisas, os segredos partilhados apenas entre dragões. Uma informação que ele conseguiu colher, guardada por Saphira, era o nome de seu pai, Iormúngr, e sua mãe, Vervada, que significava no modo antigo de falar Aquela Que Rasga As Tempestades. Ao passo que Iormúngr estava ligado a um Cavaleiro, Vervada era um dragão selvagem que havia botado muitos ovos, mas só entregou um deles aos cuidados dos Cavaleiros: Saphira. Ambos os dragões pereceram durante a Queda.
Em alguns dias, Eragon e Saphira voavam junto com Oromis e Glaedr, praticavam combate aéreo ou visitavam ruínas, escondidas em Du Weldenvarden. Noutros, eles revertiam a ordem, e Eragon saía com Glaedr enquanto Saphira permanecia nos rochedos de Tel’naeír com Oromis.
Toda manhã, Eragon duelava com Vanir que, sem exceção, instigava um ou mais espasmos do Cavaleiro. Para piorar as coisas, o elfo continuava a tratar Eragon com uma condescendência arrogante. Ele fazia gestos indiretos de desprezo que, aparentemente, nunca excediam os limites da boa educação e se recusava a se enfurecer não importava o quanto
Eragon o atazanasse. O Cavaleiro odiava a ele e a sua conduta ponderada e afetada. Parecia que Vanir o estava insultando a cada movimento. E os companheiros do elfo — que na melhor das hipóteses de Eragon, eram de uma geração mais jovem — compartilhavam da mesma aversão velada por Eragon, embora jamais tivessem demonstrado nada a não ser respeito por Saphira.
Sua rivalidade chegou ao auge quando, depois de derrotar Eragon seis vezes seguidas, Vanir baixou a espada e disse:
— Morto novamente, Matador de Espectros. Que repetitivo. Você quer continuar? — Seu tom indicava o enfado.
— Sim — resmungou Eragon. Ele já havia tido uma crise de dor nas costas e não estava a fim de brigar.
Ainda assim, quando Vanir disse:
— Diga-me, estou curioso: como você matou Durza sendo assim tão lento? Não consigo entender como conseguiu.
Eragon se sentiu compelido a responder:
— Eu o peguei de surpresa.
— Desculpe, eu devia ter imaginado que havia algum tipo de trapaça por trás disso.
O Cavaleiro conteve o impulso de ranger os dentes.
— Se eu fosse um elfo ou você um humano, aposto que não teria como medir forças com a minha espada.
— Talvez — disse Vanir. Ele ficou em posição e, em três segundos e dois golpes, desarmou Eragon. — Mas acho que não. Você não deve se gabar para um espadachim melhor, senão ele pode decidir punir a sua audácia.
Naquele instante Eragon perdeu a calma e mergulhou dentro de si mesmo, na torrente de magia. Acabou liberando a energia contida com uma das doze palavras menores de ligação, gritando “Malthinae!” para prender as pernas e os braços de Vanir e manter seu maxilar fechado para que não pudesse proferir um encanto contrário. Os olhos do elfo incharam, enfurecidos.
E Eragon retrucou:
— E você não deve ficar se gabando para alguém que é mais versado em magia do que você.
As sobrancelhas negras de Vanir se encontraram.
Sem avisar e sem um único sussurro, uma força invisível atingiu Eragon em cheio no peito e o jogou dez metros para trás no meio da grama e o fez cair de lado, soltando muito ar pelos pulmões. O impacto fez Eragon perder o controle da magia e libertou Vanir.
Como ele fez isso?
Avançando em sua direção, Vanir afirmou:
— Sua ignorância o trai, humano. Você não sabe do que fala. Pensar que foi escolhido para suceder Vrael, que recebeu seus aposentos, que teve a honra de servir o Sábio Pesaroso... — Ele balançou a cabeça. — Fico irritado ao ver que tais dádivas estão sendo concedidas a alguém tão indigno. Você nem ao menos entende o que é magia ou como ela funciona.
A raiva de Eragon veio à tona novamente como se fosse uma maré vermelha.
— O que eu já fiz para ofendê-lo? Por que você me despreza tanto? Você preferiria que não houvesse Cavaleiro nenhum para se opor a Galbatorix?
— Minhas opiniões são de menor importância.
— Concordo, mas gostaria de ouvi-las.
— Ouvir, como Nuala escreveu em Convocações, é o caminho para a sabedoria só quando é resultado de uma decisão consciente e não um vácuo de percepção.
— Endireite a sua língua, Vanir, e dê-me uma resposta honesta!
Vanir sorriu friamente.
— Como quiser, ó Cavaleiro. — Chegando-se mais para perto de modo que só Eragon pudesse ouvir sua voz suave, o elfo disse: — Durante oitenta anos depois da Queda dos Cavaleiros, não alimentávamos nenhuma esperança de vitória. Sobrevivemos escondidos usando truques e magia, o que não passa de uma medida temporária pois, no fim das contas, Galbatorix será forte o bastante para marchar sobre nós e sobre nossas defesas. Depois, muito tempo depois que já havíamos nos resignado com nosso destino, Brom e Jeod resgataram o ovo de Saphira, e mais uma vez passou a existir uma chance de derrotar o infame usurpador. Imagine o quanto celebramos e ficamos felizes. Sabíamos que, para resistir a Galbatorix, o novo Cavaleiro teria que ser mais poderoso do que qualquer um dos que o precederam, mais poderoso até do que Vrael. No entanto, como a nossa paciência foi recompensada? Com outro humano como Galbatorix. Pior... um aleijado. Você nos condenou a todos, Eragon, no instante em que tocou no ovo de Saphira. Não espere que saudemos a sua presença. — Vanir tocou em seus lábios com o primeiro e o segundo dedos, depois se afastou de Eragon e saiu andando do campo de embates, deixando o jovem parado onde estava.
Ele tem razão, pensou Eragon. Não sou apropriado para essa tarefa. Qualquer um desses elfos, até mesmo Vanir, seria um Cavaleiro melhor do que eu.
Emanando fúria, Saphira intensificou o contato com seu parceiro.
Por que você faz tão pouco caso do meu julgamento, Eragon? Você se esquece de que quando eu estava no meu ovo, Arya me expôs a cada um desses elfos — assim como a muitas crianças Varden — e que rejeitei a todos. Jamais teria escolhido alguém para ser o meu Cavaleiro a não ser que pudesse ajudar a sua raça, a minha e aos elfos, pois nós três partilhamos de um destino que está interligado. Você era a pessoa certa, no lugar certo, na hora certa. Nunca se esqueça disso.
Se em algum momento isso for verdade, disse ele, foi antes de Durza me ferir. Agora não vejo nada a não ser escuridão e infortúnio no nosso futuro. Não desistirei mas fico desesperado ao ver que podemos não ser bem sucedidos. Talvez nossa tarefa não seja derrotar Galbatorix e sim preparar o caminho para o próximo Cavaleiro escolhido pelos ovos restantes.


Nos rochedos de Tel’naeír, Eragon encontrou Oromis à mesa de sua cabana, pintando um cenário com tinta negra na parte de baixo de um pergaminho que ele havia acabado de escrever.
Eragon se curvou e ajoelhou.
— Mestre.
Quinze minutos se passaram antes de Oromis terminar de pintar os tufos de folhas de pinheiro num junípero sulcado, deixar sua tinta de lado, limpar seu pincel de zibelina com a água que estava numa caçarola de barro e depois se dirigir a Eragon, dizendo:
— Por que você veio tão cedo?
— Peço desculpas por perturbá-lo, mas Vanir abandonou nosso duelo no meio e eu não sabia o que devia fazer.
— Por que Vanir partiu, Eragon-vodhr?
Oromis cruzou os dedos das mãos no seu colo enquanto Eragon descrevia o encontro, terminando com:
— Eu não devia ter perdido o controle, mas o fiz, e me senti ainda mais idiota por causa disso. Eu falhei com você, mestre.
— Falhou sim — concordou Oromis. — Vanir pode ter lhe provocado, mas isso não era motivo para responder na mesma moeda. Você precisa controlar melhor suas emoções, Eragon. Se você permitir que o seu ânimo influencie o seu julgamento durante uma batalha, pode ser fatal. Além do mais, tais demonstrações de infantilidade apenas justificam os elfos que se opõem a você. Nossas maquinações são sutis e dão pouco espaço para tais erros.
— Lamento, mestre. Isso não acontecerá novamente.
Oromis parecia esperar sentado a hora na qual eles normalmente executavam o Rimgar, Eragon aproveitou a oportunidade para perguntar:
— Como Vanir pôde fazer mágica sem falar?
— Ele o fez? Talvez outro elfo tenha decidido ajudá-lo.
Eragon balançou a cabeça.
— Durante o meu primeiro dia em Ellesméra, também vi Islanzadí evocar uma chuva de flores ao bater as mãos, nada mais. E Vanir disse que eu não entendo como a magia funciona. O que ele quis dizer?
— Mais uma vez — disse Oromis, resignado —, você quer alcançar um conhecimento para o qual não está preparado. Contudo, por força das nossas circunstâncias, não posso negá-lo para você. Só fique sabendo disso: aquilo que você pergunta não foi ensinado aos Cavaleiros... e não é ensinado aos nossos mágicos... até que eles tenham dominado todos os outros aspectos da magia, pois isso é o segredo para a verdadeira natureza da magia e a língua antiga. Aqueles que o conhecem podem adquirir um grande poder sim, mas a um grande risco. — Por um instante ele fez uma pausa. — Como a língua antiga está ligada à magia, Eragon-vodhr?
— As palavras da língua antiga podem liberar a energia acumulada dentro do seu corpo e com isso ativam um encanto.
— Ah. Então você quer dizer que certos sons e vibrações no ar, de algum modo, estão ligados a essas energias? Sons que podem ser produzidos ao acaso por qualquer criatura ou coisa?
— Sim, mestre.
— Isso não lhe parece absurdo?
Confuso, Eragon respondeu:
— Não importa se parece absurdo, mestre, simplesmente o é. Será que eu devia achar absurdo a lua ficar minguante ou cheia, ou as mudanças de estações, ou os pássaros que voam para o sul no inverno?
— É claro que não. Mas como um mero som poderia fazer algo assim? Será que alguns padrões de tom e volume realmente desencadeiam reações que nos permitem manipular a energia?
— Mas eles o fazem.
— O som não exerce nenhum controle sobre a magia. Dizer uma palavra ou frase nesta língua não é o mais importante, é pensar nelas nesta língua. — O elfo movimentou seu pulso e uma chama dourada apareceu sobre a palma de Oromis para depois desaparecer. — No entanto, a não ser que haja uma necessidade urgente, nós ainda proferimos nossos encantos em voz alta para evitar que pensamentos dispersos os anulem, é perigoso até mesmo para os usuários de magia mais experientes.
As implicações deixaram Eragon tonto. Voltou o pensamento até o dia em que quase afundou sob a queda d’água do lago Kóstha-mérna e como fora incapaz de recorrer à magia por causa da quantidade de água que o cercava. Se eu soubesse disso então, poderia ter me salvado, pensou.
— Mestre — disse ele —, se o som não afeta a magia, por que, então, os pensamentos o fazem?
Agora Oromis sorriu.
— Por que na verdade? Devo assinalar que não somos nós mesmos a fonte da magia. Ela pode existir por conta própria, independente de qualquer encanto, assim como as luzes nos pântanos perto de Aroughs, a fonte de sonhos nas grutas de Mani nas montanhas Beor e o cristal flutuante sobre Eoam. A magia natural como essa é traiçoeira, imprevisíve1 e normalmente mais poderosa do que qualquer coisa que possamos evocar.
“Épocas atrás, toda a magia era assim. Para usá-la era necessário apenas a capacidade de sentir a magia com a sua mente, coisa que qualquer mágico deve possuir, também o desejo e a força para usá-la. Sem a estrutura da língua antiga, os mágicos não podiam controlar seu talento e, como resultado, libertavam muitos demônios terra afora, matavam milhares de pessoas. Com o tempo, eles descobriram que a linguagem os ajudava a ordenar seus pensamentos e evitar grandes erros. Mas isso não era um método à prova de falhas. No fim das contas, acabou ocorrendo um acidente tão horrendo que quase destruiu todos os seres vivos do mundo. Sabemos deste episódio por causa dos fragmentos de manuscritos do período que sobreviveram até os dias de hoje, mas quem ou o quê evocou aquele encanto fatal ainda é um mistério. Os manuscritos dizem que, posteriormente, uma raça chamada de Povo Pardo (não se tratavam de elfos, pois naquela época ainda éramos muito bisonhos) juntou os seus recursos e trabalhou num encanto, talvez o maior que já foi feito ou que para sempre será. Unido, o Povo Pardo mudou a natureza da própria magia. Eles o fizeram para que sua língua, a língua antiga, pudesse controlar o que um encanto faz... pudesse de fato limitar a magia de modo que, se você dissesse queime aquela porta e por acidente olhasse para mim e pensasse em mim, a magia ainda assim faria a porta se incendiar, não eu. E eles deram à língua antiga suas duas únicas peculiaridades, a capacidade de evitar que aqueles que a usam para se comunicar mintam e a capacidade de descrever a verdadeira natureza das coisas. Como eles o fizeram permanece um mistério.
“Os manuscritos diferem no que diz respeito ao que aconteceu com o Povo Pardo quando completou o seu trabalho, mas parece que o encanto consumiu todo o seu poder e fez os seus integrantes se resumirem a uma sombra do que eram. Eles desapareceram, optaram por viver em suas cidades até as pedras virarem poeira e por arrumar companheiras em meio às raças mais jovens e assim se ocultaram.”
— Então — disse Eragon — ainda é possível usar a magia sem a língua antiga?
— Como você acha que Saphira cospe fogo? E, de acordo com os próprios relatos, ela não usou palavra alguma quando transformou o túmulo de Brom em diamante, nem quando abençoou a criança em Farthen Dûr. As mentes dos dragões são diferentes das nossas, não precisam de proteção contra a magia. Eles não podem usá-la conscientemente, com exceção de seu fogo, mas quando o dom lhes é concedido, sua força não tem paralelo... Você parece confuso, Eragon. Por quê?
O jovem olhou para suas mãos.
— E o que significa isso para minha vida, mestre?
— Significa que você continuará estudando a língua antiga, para que possa ter muitas conquistas, coisa que seria muito complexa ou perigosa de outro modo. Isso quer dizer que se você for capturado e amordaçado, ainda poderá recorrer à magia para se libertar, como fez Vanir. Significa que se você for capturado e drogado e não puder evocar a língua antiga, poderá, mesmo assim, fazer um encanto, embora apenas na mais grave das circunstâncias. Isso significa que se fizer um feitiço para aquilo que não tem nome na língua antiga, você poderá fazê-lo. — Oromis hesitou. — Mas tome cuidado para não cair na tentação de usar esses poderes. Até mesmo os mais sábios entre nós hesitam em esbanjá-los por medo de morrer ou coisa pior.


Na manhã seguinte, e em todas as manhãs que se seguiram enquanto permaneceu em Ellesméra, Eragon duelou com Vanir, mas jamais perdeu a compostura novamente, não importaram as provocações do elfo, em palavras ou atos.
Nem Eragon se ressentia pela rivalidade. Suas costas doíam com mais frequência, levava-o aos limites de sua resistência. Os ataques debilitantes o sensibilizavam, as atitudes que antes não lhe causavam nenhum problema podiam agora deixá-lo no chão se contorcendo. Até mesmo o Rimgar começou a desencadear convulsões enquanto ele avançava para posições mais vigorosas. Não era incomum vê-lo ter três ou quatro crises num só dia.
O rosto de Eragon ficou fatigado. Andava se arrastando, fazia movimentos lentos e cuidadosos porque ele tentava preservar sua força. Ficou difícil para ele raciocinar ou prestar atenção nas lições de Oromis, e lacunas começavam a aparecer em sua memória das quais não podia dar conta. No seu tempo livre, o rapaz costumava pegar o anel enigmático de Orik, preferia se concentrar nos aros entrelaçados do que em sua condição física. Quando estava com ele, Saphira insistia para que subisse em suas costas e fazia todo o possível para deixá-lo confortável e relaxado.

Numa manhã, enquanto ele se agarrava a um ressalto do pescoço dela, Eragon disse: Tenho um nome novo para a dor.
Qual e?
O Obliterador. Porque quando sentimos dor, nada mais pode existir. Nenhum pensamento. Nenhuma emoção. Apenas o impulso para se livrar dela. Quando ela é forte o suficiente, o Obliterador nos despe de tudo que faz de nós o que somos até sermos reduzidos a criaturas menores do que animais, criaturas com um único desejo e meta: fugir.
Um bom nome, então.
Estou definhando, Saphira, como um velho cavalo que já vagou por muitos campos. Segure-me com a sua mente, ou posso acabar vagando por aí e me esquecer de quem sou.
Jamais irei abandoná-lo.
Mais tarde, Eragon foi vitimado por três surtos de agonia enquanto enfrentava Vanir e mais dois durante o Rimgar. Enquanto se recompunha da posição fetal em que ficara, Oromis disse:
— De novo, Eragon. Você precisa melhorar o seu equilíbrio.
Eragon balançou a cabeça e rosnou em voz baixa.
— Não. — Ele cruzou os braços para esconder seus tremores.
— O quê?
— Não.
— Levante-se, Eragon, e tente novamente.
— Não! Faça a pose você mesmo, eu não a farei.
Oromis se ajoelhou ao lado de Eragon e colocou a mão fria em seu rosto. Mantendo-a ali, ele olhou para o rapaz com tanta doçura, que Eragon entendeu o tamanho da compaixão do elfo por ele e que, se fosse possível, Oromis assumiria de boa vontade a dor do jovem para aliviar seu sofrimento.
— Não abandone a esperança — disse Oromis. — Nunca. — Uma extensão de força parecia fluir dele para Eragon. — Somos os Cavaleiros. Ficamos entre a luz e a escuridão e mantemos seu equilíbrio. Ignorância, medo, ódio: esses são os nossos inimigos. Negue-os com toda a sua força, Eragon, ou falharemos com certeza. — Ele se levantou e estendeu uma das mãos na direção de Eragon. — Agora erga-se, Matador de Espectros, e prove que pode dominar os instintos da sua carne!
Eragon respirou bem fundo e se ergueu apoiado num dos braços, estremecendo por causa do esforço. Acocorou-se, parou por um instante, depois se levantou totalmente e encarou Oromis bem nos olhos.
O elfo acenou positivamente em sinal de aprovação. Eragon permaneceu em silêncio até terminarem o Rimgar e depois foram se banhar no riacho, onde ele disse:
— Mestre.
— Sim, Eragon?
— Por que tenho de passar por essa tortura? Você podia usar de magia para me dar as habilidades das quais preciso, para moldar o meu corpo como faz com as árvores e as plantas.
— Eu poderia, mas se o fizesse, você não entenderia como conseguiu a força, suas próprias habilidades, e o modo de mantê-las. Não há atalhos para o caminho que está trilhando, Eragon.
A água fria correu por toda a extensão do corpo de Eragon enquanto ele se abaixava dentro do rio. Ele mergulhou a cabeça sob a superfície, segurando uma pedra a fim de que não fosse arrastado para longe dali, e ficou deitado e esticado ao longo do fundo do córrego, sentindo-se como uma flecha voando pela água.

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