22 de maio de 2017

Capítulo 42 - Um guerreiro e um curandeiro

Saphira deixou-se levar por uma corrente de ar até uma clareira e pousou no topo de uma colina, repousando suas asas abertas no chão. Eragon podia senti-la tremendo embaixo dele. Estavam a apenas uns três quilômetros de distância de Gil’ead.
Na clareira estavam presos Fogo na Neve e Tornac, que relinchou nervosamente quando Saphira chegou. Eragon deslizou para o chão e começou a tratar das feridas de Saphira imediatamente, enquanto Murtagh aprontava os cavalos.
Sem poder ver direito no escuro, Eragon passou as mãos cegamente sobre as asas de Saphira. Encontrou três lugares onde as flechas perfuraram a fina membrana, deixando furos ensanguentados do tamanho de seu polegar. Um pedacinho da ponta de trás da asa esquerda dela também foi arrancado. Ela tremia quando os dedos dele passavam por cima das feridas. Ele, exaustivamente, curou os ferimentos usando palavras da língua antiga. Depois, Eragon voltou-se para a flecha que estava presa em um dos fortes músculos de seu braço alado. A ponta da flecha entrou pelo lado inferior. Sangue quente pingava da ferida.
Eragon chamou Murtagh e instruiu:
— Segure a asa para baixo. Tenho de retirar esta flecha. — Ele indicou onde Murtagh devia segurar com força.
Isso vai doer, ele alertou Saphira, mas vai acabar rápido. Tente não resistir, você pode nos machucar.
Ela esticou o pescoço e prendeu uma alta árvore jovem entre seus dentes curvados. Com um golpe de sua cabeça, ela arrancou a planta do chão e segurou-a firmemente entre suas mandíbulas.
Estou pronta.
Certo, disse Eragon.
— Aguente firme — murmurou ele para Murtagh. Depois, quebrou a ponta da flecha. Tentando não causar mais danos, puxou a haste de madeira para fora do corpo de Saphira. Quando a flecha saiu do músculo, ela jogou a cabeça para trás e soltou um gemido de dor enquanto mordia a árvore fortemente. A asa se contraiu involuntariamente, cortando Murtagh embaixo do queixo e jogando-o no chão.
Com um rosnado, Saphira balançou a árvore, enchendo-os de terra antes que ela a jogasse para longe. Depois que Eragon curou a ferida, ajudou Murtagh a ficar em pé.
— Ela me pegou de surpresa — admitiu Murtagh tocando seu queixo arranhado.
Sinto muito.
— Ela não quis machucar você — garantiu Eragon. Ele foi ver como estava a elfa desacordada.
Você terá de carregá-la mais um pouco, disse ele a Saphira. Não podemos levá-la nos cavalos e cavalgar rápido o bastante. Você vai voar com mais facilidade agora, pois já retirei a flecha.
Saphira abaixou a cabeça.
Eu a carregarei.
Obrigado, agradeceu Eragon. Ele a abraçou calorosamente. O que você fez foi incrível. Nunca esquecerei isso.
A emoção transpareceu nos olhos dela.
Agora, partirei. Ele afastou-se quando ela alçou voo, agitando o ar; os cabelos da elfa debatiam-se ao vento. Segundos depois, eles partiram. Eragon correu para Fogo na Neve, pulou para cima da sela e saiu galopando com Murtagh.
Enquanto cavalgavam, Eragon tentou lembrar o que sabia sobre os elfos. Eles tinham vida longa, esse fato era constantemente repetido, embora ele não soubesse quanto tempo. Falavam a língua antiga, e muitos podiam usar magia. Depois da queda dos Cavaleiros, os elfos ficaram em isolamento. Ninguém havia visto um deles no Império desde então. Então, por que um deles está aqui, agora? E como o Império conseguiu capturá-la? Se ela pode usar magia, provavelmente devia estar drogada, como eu estava.
Viajaram através da noite, não parando nem quando suas forças, que se esgotavam, faziam-nos andar mais devagar. Continuaram no caminho, apesar de os seus olhos estarem ardendo e dos movimentos desajeitados. Atrás, fileiras de homens a cavalo empunhando tochas procuravam a trilha deles em volta de Gil’ead.
Depois de várias horas no escuro, a alvorada iluminou o céu. Segundo um acordo não declarado, Eragon e Murtagh pararam os cavalos.
— Precisamos acampar — sugeriu Eragon exausto. — Preciso dormir... Não importa se eles vão nos pegar ou não.
— Concordo — disse Murtagh, esfregando os olhos. — Peça para Saphira pousar. Vamos encontrá-la.
Seguiram as instruções de Saphira e encontraram-na bebendo em um córrego na base de um pequeno penhasco, a elfa ainda estava caída em cima de seu dorso. Saphira os cumprimentou com um gemido suave no momento em que Eragon desmontou.
Murtagh ajudou-o a tirar a elfa da sela de Saphira e a colocá-la no chão. Depois, recostaram-se em uma pedra, exaustos. Saphira examinou a elfa de modo curioso. Por que será que ela ainda não acordou? Já faz horas que saímos de Gil’ead.
— Quem sabe o que fizeram com ela? — Disse Eragon com raiva.
Murtagh acompanhou os olhares deles.
— Pelo que sei, ela é a primeira da espécie dos elfos que o rei capturou. Desde que se isolaram, ele os procura sem sucesso, até agora. Ou o rei achou o esconderijo deles ou ela foi capturada por acaso. Acho que foi por acidente, pois se tivesse encontrado o esconderijo dos elfos, o rei já teria declarado guerra e mandado seu exército ir ao encalço deles. Como isso não aconteceu, a questão é: os soldados de Galbatorix foram capazes de extrair dela o local do esconderijo dos elfos antes de nós a salvarmos?
— Só saberemos quando ela recuperar a consciência. Conte o que aconteceu depois que fui capturado. Como fui parar em Gil’ead?
— Os Urgals estão trabalhando para o Império — disse Murtagh brevemente, jogando seu cabelo para trás. — E, pelo que parece, o Espectro também. Saphira e eu vimos os Urgals entregando você a ele, embora eu não soubesse o que ele era na ocasião, e para um grupo de soldados. Foram eles que o levaram a Gil’ead.
É verdade, disse Saphira enrolando-se perto deles.
A mente de Eragon lembrou-se de repente dos Urgals com quem ele falou em Teirm e do “chefe” que eles mencionaram. Eles falaram do rei! Eu insultei o homem mais poderoso de toda a Alagaësia!, percebeu ele com temor. Lembrou o horror dos aldeões dizimados em Yazuac. Uma sensação doentia, de raiva, percorreu o estômago dele. Os Urgals estavam sob as ordens de Galbatorix! Por que ele cometeria tal atrocidade contra seus próprios súditos?
Porque ele é diabólico, afirmou Saphira.
Com uma expressão zangada no rosto, Eragon exclamou:
— Isso vai significar guerra! Assim que o povo do Império souber disso, irá se rebelar e apoiar os Varden.
Murtagh apoiou o queixo em sua mão.
— Mesmo que todos soubessem desse ultraje, poucos conseguiriam chegar aos Varden. Com os Urgals sob seu comando, o rei tem guerreiros suficientes para fechar as fronteiras do Império e continuar no controle, sem se importar com o tamanho da revolta do povo. Com tal domínio de terror, ele será capaz de dar a forma que quiser ao Império. E embora seja odiado, o povo poderia ser galvanizado e se juntaria a ele se tivessem inimigos em comum.
— Quem seriam eles? — perguntou Eragon, confuso.
— Os elfos e os Varden. Com os boatos certos, eles podem ser retratados como os monstros mais desprezíveis da Alagaësia, inimigos que esperam para tomar suas terras e riquezas. O Império poderia até dizer que os Urgals foram mal compreendidos durante esse tempo todo e que, na verdade, são amigos e aliados na luta contra terríveis inimigos. Imagino o que o rei prometeu a eles em troca de seus serviços.
— Isso nunca daria certo — disse Eragon, sacudindo a cabeça. — Ninguém poderia ser enganado tão facilmente sobre Galbatorix e os Urgals. Além disso, por que ele faria isso? Ele já está no poder.
— Mas a autoridade dele é desafiada pelos Varden, com quem o povo simpatiza. Também há Surda, que o desafia desde que se separou do Império. Galbatorix é forte dentro do Império, mas seu braço é fraco fora dele. Quanto às pessoas perceberem seus logros, elas acreditarão no que ele quiser. Isso já aconteceu uma vez. — Murtagh ficou em silêncio e olhou mal-humorado em direção ao horizonte.
As palavras dele perturbaram Eragon. Saphira fez contato mental com ele:
Para onde Galbatorix está enviando os Urgals?
O quê?
Tanto em Carvahall quanto em Teirm, você ouviu dizer que os Urgals estavam saindo do local, migrando para o sudeste, como se fossem desbravar o deserto Hadarac. Se o rei realmente os controla, por que ele os está enviando naquela direção? Talvez um exército de Urgals esteja sendo formado para uso particular dele, ou uma cidade desses monstros pode estar sendo erguida.
Eragon tremeu ao pensar nisso. Estou cansado demais para me perturbar com isso. Sejam lá quais forem os planos de Galbatorix, eles só nos causarão problemas. Eu só gostaria de saber onde os Varden estão. Era para lá que devíamos estar indo, mas estamos perdidos sem Dormnad. Não importa o que façamos, o Império nos achará.
Não desista, disse ela encorajando-o. Depois, acrescentou com indiferença: Contudo, provavelmente você deve estar certo.
Obrigado. Ele olhou para Murtagh.
— Você arriscou a sua vida para me salvar. Fico lhe devendo por isso. Eu não conseguiria escapar sozinho. — Mas havia mais do que isso. Agora, havia um elo entre eles, firmado na fraternidade da batalha e fortalecido pela lealdade que demonstrou Murtagh.
— Estou feliz por ter ajudado. Eu... — hesitou Murtagh e esfregou o rosto. — Minha maior preocupação agora é como vamos viajar com tantos homens nos procurando. Os soldados de Gil’ead vão nos caçar amanhã. Assim que acharem as pegadas dos cavalos, saberão que não fugimos voando com Saphira.
Eragon concordou com tristeza.
— Como você conseguiu entrar no castelo?
Murtagh riu baixinho.
— Pagando um belo suborno e rastejando por uma canaleta imunda do esgoto da cozinha. Mas o plano não teria dado certo sem a Saphira. Ela... — Ele parou e dirigiu suas palavras para ela. — Quer dizer, você é a única razão por termos escapados de lá com vida.
Eragon, com dignidade, pôs uma das mãos em seu pescoço escamoso. Enquanto ela murmurava satisfeita, olhou cativado para o rosto da elfa. Relutante, ele pôs-se de pé com dificuldade.
— Devíamos fazer uma cama para ela.
Murtagh ficou em pé e esticou um cobertor para a mulher. Quando a levantaram para deitá-la, o punho da manga dela rasgou-se em um galho. Eragon começou a arrumar o tecido e espantou-se de repente.
O braço dela estava repleto de hematomas e cortes, alguns já estavam quase curados, enquanto outros estavam abertos e inflamados. Eragon balançou a cabeça com raiva e levantou a manga um pouco mais.
As feridas estendiam-se até o ombro. Com dedos trêmulos, ele desfez o laço na parte de trás da blusa, temendo o que poderia encontrar.
Quando o couro caiu, Murtagh xingou. Suas costas eram fortes e musculosas, mas estavam cobertas por cascas de feridas, que davam à pele um aspecto ressecado, como lama rachada. Ela havia sido açoitada impiedosamente e queimada com ferros quentes com a forma de garras. Nos lugares onde a pele ainda estava intacta, havia manchas roxas e pretas devido aos inúmeros golpes. No ombro esquerdo havia uma tatuagem feita com tinta cor de anil. Era o mesmo símbolo que havia no anel de safira de Brom. Eragon, silenciosamente, jurou que mataria o responsável pela tortura dada àquela mulher.
— Você pode curar isso? — perguntou Murtagh.
— Eu... Eu não sei — respondeu Eragon. Ele engoliu em seco uma náusea repentina. — Há muitas feridas.
Eragon! Disse Saphira de repente. Ela é da raça dos elfos. Não pode morrer. Cansado ou não, com fome ou não, você deve salvá-la. Juntarei minhas forças às suas, mas é você que deve invocar a magia.
É verdade... Você está certa, murmurou ele, sem conseguir tirar os olhos da bela criatura. Determinado, ele tirou as luvas e disse para Murtagh: — Isso vai levar algum tempo. Pode me arranjar um pouco de comida? E também poderia ferver alguns panos? Não posso curar todas as feridas.
— Não podemos acender uma fogueira se não quisermos ser vistos — retrucou Murtagh. — Você terá de usar panos sem lavá-los, e a comida terá de ser fria. — Eragon fez uma cara feia, mas se conformou.
Conforme ele colocava gentilmente uma de suas mãos na coluna da mulher, Saphira acomodou-se perto dele, com seus olhos, brilhantes, fixos nela. Ele respirou fundo, invocou a sua magia e começou a trabalhar.
Ele pronunciou palavras da língua antiga:
— Waíse heill! — Uma luz como a de fogo queimando brilhou embaixo da palma da mão dele, e pele nova, sem manchas aparecia sob ela, juntando-se sem deixar nenhuma cicatriz. Ignorou hematomas e feridas que não representavam risco de vida, pois curar todas elas consumiria a energia de que ele precisava para os ferimentos mais graves. Enquanto Eragon trabalhava, ficou impressionado pelo fato de a mulher ainda estar viva. Foi torturada até chegar à beira da morte várias vezes, com uma precisão que o espantava. Embora tentasse preservar o recato da bela mulher, não podia deixar de notar que embaixo de todas aquelas feridas desfigurantes seu corpo era extremamente belo. Ele estava exausto e não se deixou levar por isso – embora suas orelhas ficassem vermelhas de vez em quando, e esperasse com ardor que Saphira não soubesse o que ele estava pensando.
Ele trabalhou até a alvorada, parando apenas durante pequenos intervalos para comer ou beber, tentando se refazer de seu jejum, da fuga e, agora, da cura da elfa. Saphira permaneceu ao lado dele, emprestando sua força quando podia. O sol já estava alto no céu quando finalmente se pôs de pé, gemendo quando seus músculos doloridos esticaram-se. As mãos dele estavam com um tom cinzento, e seus olhos estavam ressecados e pareciam cheios de areia. Foi cambaleando até os alforjes e tomou um grande gole do odre de vinho.
— Acabou? — perguntou Murtagh.
Eragon concordou com a cabeça, tremendo. Não se arriscou a falar.
O acampamento girou em sua frente, ele quase desmaiou.
Você trabalhou muito bem, disse Saphira confortando-o.
— Ela vai viver?
— Eu... Eu não sei — disse ele com uma voz desolada. — Os elfos são fortes, mas mesmo eles não podem suportar um abuso como esse sem pagar um preço. Se eu soubesse mais sobre cura, poderia tentar reanimá-la, mas... — Ele gesticulou fracamente. A mão dele tremia tanto que chegou a derramar um pouco do vinho. Outro grande gole ajudou-o a se manter em pé. — É melhor começarmos a cavalgar de novo.
— Não! Você precisa dormir — protestou Murtagh.
— Eu... Posso dormir na sela. Mas não podemos nos dar ao luxo de ficar aqui, não com tantos soldados se aproximando de nós.
Murtagh, relutante, acabou concordando.
— Neste caso, guiarei Fogo na Neve enquanto você descansa. — Eles selaram os cavalos, prenderam a elfa em Saphira e deixaram o acampamento. Eragon comia enquanto cavalgava, tentando recuperar a energia perdida antes de se inclinar para a frente, recostar em Fogo na Neve e fechar os olhos.

Um comentário:

  1. Só eu q me lembrei do resgate da princesa Leia quando Eragon resgatou a elfa ? Lembrou muitooo

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Boa leitura :)