27 de maio de 2017

Capítulo 42 - A imagem da perfeição

Finalmente entendo a natureza dos meus inimigos, pensou Eragon. Ele receara os Ra’zac desde que apareceram pela primeira vez em Carvahall, não só por causa dos seus feitos abomináveis, mas porque sabia muito pouco sobre as criaturas. Em sua ignorância, ele atribuía aos Ra’zac mais poder do que eles de fato possuíam e os temia com um medo quase supersticioso. Pesadelos de fato. Mas agora que a explicação de Oromis havia despido a aura de mistério, eles não pareciam mais tão terríveis. O fato de serem vulneráveis à luz e à água reforçava a convicção de Eragon de que na próxima vez em que se encontrassem, ele destruiria os monstros assassinos de Garrow e Brom.
— E seus genitores se chamavam Ra’zac também? — perguntou ele.
Oromis balançou a cabeça.
— Nós os chamávamos de Lethrblaka. E considerando que sua prole é meio tacanha, quando é astuto, Lethrblaka têm toda a inteligência de um dragão. Um dragão cruel, malévolo e perturbado.
— De onde eles vêm?
— De qualquer terra que seus ancestrais abandonaram. Suas depredações podem ter sido o que forçou o rei Palancar a emigrar. Quando nós, os Cavaleiros, ficamos a par da presença irregular dos Ra’zac na Alagaësia, fizemos o melhor possível para exterminá-los, como se estivéssemos nos livrando de uma influência maligna. Infelizmente, fomos apenas parcialmente bem-sucedidos. Dois Lethrblaka escaparam, e eles, junto com sua pupa, são os que lhes causaram tanto sofrimento. Depois que mataram Vrael, Galbatorix os buscou e fez uma barganha. Em troca dos serviços deles, ofereceu sua proteção e uma quantidade garantida da comida favorita deles. É por isso que Galbatorix permite que vivam perto de Dras- Leona, uma das maiores cidades do Império.
O maxilar de Eragon se contraiu.
— Eles têm muito por que responder. E irão, se tudo sair como eu espero.
— Irão sim — concordou Oromis. Enquanto voltava para a cabana, ele passou pela sombra negra do vão da porta, e depois reapareceu carregando meia dúzia de placas de lousa com cerca de quinze centímetros de largura e trinta de altura. E deu uma para Eragon. — Vamos abandonar tais assuntos desagradáveis por um tempo. Achei que você gostaria de aprender como se faz uma fairth. E um excelente artifício para focar os seus pensamentos. A lousa está impregnada com tinta suficiente para cobri-la com qualquer combinação de cores. Tudo o que você precisa fazer é se concentrar na imagem que deseja reter e depois dizer: “Deixe aquilo que eu vejo no meu olho da mente ser replicado na superfície desta placa.” — Enquanto Eragon examinava a placa de cerâmica, Oromis gesticulou na direção da clareira. — Olhe à sua volta, Eragon, e encontre alguma coisa que valha a pena ser preservada.
Os primeiros objetos que Eragon observou pareciam óbvios demais, banais demais para ele: um lírio amarelo aos seus pés, a cabana excessivamente pequena de Oromis, o riacho branco e a própria paisagem. Nada era único. Nada daria a um observador uma compreensão clara do objeto da fairth ou de quem a havia criado. Coisas que mudam e estão perdidas, isso é o que vale a pena preservar, pensou ele. Seu olho deparou com os nós lívidos e esverdeados de brotos da primavera na ponta dos galhos de uma árvore, e depois com a ferida estreita e profunda que rasgava o tronco, onde uma tempestade havia quebrado um ramo, arrancando uma lasca da casca. Esferas translúcidas de seiva incrustavam o sulco, atraindo e retratando a luz.
Eragon se posicionou ao longo do tronco de modo que as intumescências arredondadas da seiva congelada da árvore se projetassem de perfil e ficassem emoldurados por um cacho de novas folhas de pinheiro cintilantes. Então fixou a cena em sua mente o melhor que pôde e proferiu o encanto.
A superfície da placa cinzenta ficou iluminada enquanto uma profusão de cores a fazia brilhar, combinando-se e misturando-se para produzir um arranjo de matizes apropriado. Quando os pigmentos finalmente pararam de se mover, Eragon se viu olhando para uma cópia estranha do que ele queria reproduzir. A seiva e as folhas foram reproduzidas com detalhes vibrantes e minuciosos, enquanto tudo o mais era indistinto e turvo, como se fosse visto por olhos entreabertos. Estava bem distante da limpidez total da fairth de Ilirea feita por Oromis.
A um sinal de seu Mestre, Eragon lhe passou a placa. O elfo a estudou por um minuto e depois disse:
— Você possui uma maneira invulgar de pensar, Eragon-finiarel. A maior parte dos humanos tem dificuldades para atingir o nível apropriado de concentração para criar uma imagem reconhecível. Você, por outro lado, parece observar quase tudo naquilo que o interessa. É um foco restrito, no entanto. O problema que você tem aqui é igual ao da sua meditação. Você deve relaxar, alargar o seu campo de visão e se permitir absorver tudo ao seu redor sem julgar o que é importante ou não. — Colocando o quadro de lado, Oromis pegou uma segunda placa vazia que estava em cima do gramado e a deu para Eragon. — Tente novamente com o que eu...
— Salve, Cavaleiro!
Assustado, Eragon se virou e viu Orik e Arya emergindo lado a lado do meio da floresta. O anão levantou o braço em sinal de cumprimento. Sua barba havia acabado de ser aparada e trançada, seu cabelo estava amarrado num belo rabo-de-cavalo, e ele usava uma túnica nova — cortesia dos elfos — vermelha e marrom, bordada com fios dourados. Sua aparência não dava a menor pista do seu estado na noite anterior.
Eragon, Oromis e Arya se cumprimentaram da maneira tradicional e, depois, abandonando a língua antiga, o elfo perguntou:
— A que posso atribuir essa visita? Ambos são bem-vindos à minha cabana, mas como vocês podem ver, estou no meio do meu trabalho com Eragon, e isso é de suprema importância.
— Peço desculpas por incomodá-lo, Oromis-elda — disse Arya — mas...
— A culpa é minha — disse Orik. Ele olhou para Eragon antes de prosseguir. — Fui mandado até aqui por Hrothgar para garantir que Eragon receba a educação que lhe é devida. Não tenho dúvidas de que isso esteja acontecendo, mas sou obrigado a ver seu treinamento com meus próprios olhos para que, quando voltar a Tronjheim, possa dar ao meu rei um relatório verdadeiro dos eventos.
Oromis disse:
— Aquilo que eu ensino a Eragon não deve ser partilhado com mais ninguém. Os segredos dos Cavaleiros são só para ele.
— E eu entendo isso. No entanto, vivemos em tempos incertos, a pedra que outrora estava fixa e sólida agora está instável. Temos que nos adaptar para sobreviver. Há tantas coisas que dependem de Eragon, que nós anões temos o direito de verificar se seu treinamento está prosseguindo como foi prometido. Você acha que o nosso pedido é injusto?
— Bem falado, mestre Anão — disse Oromis. Ele bateu os dedos de leve um no outro, inescrutável como sempre. — Posso supor, então, que isso é uma questão de dever para você?
— Dever e honra.
— E nenhum dos dois permitirá que você desista?
— Temo que não, Oromis-elda — respondeu Orik.
— Muito bem. Você pode ficar e assistir ao resto desta lição. Isso o deixará satisfeito?
Orik franziu a testa.
— Vocês já estão no final?
— Começamos agora.
— Então, sim, ficarei satisfeito. Por enquanto, pelo menos.
Enquanto eles falavam, Eragon tentou atrair a atenção de Arya, mas ela se manteve centrada em Oromis.
— ... Eragon!
Ele piscou e, num susto, largou seu devaneio de lado.
— Sim, mestre.
— Não fique vagando, Eragon. Quero que você faça uma nova fairth. Mantenha a sua mente aberta, como lhe disse antes.
— Sim, Mestre. — Eragon levantou a placa, com as mãos levemente úmidas por conta da ideia de ter Orik e Arya ali para julgar o seu desempenho. Ele queria se sair bem para provar que Oromis era um bom professor. Ainda assim, ele não conseguia se concentrar nas folhas de pinheiro e na seiva, Arya o puxava como se fosse um magneto, chamando sua atenção sempre que ele pensava em outra coisa.
Finalmente percebeu que era inútil resistir à atração dela. Por isso, compôs sua imagem na mente — o que levou menos tempo que um batimento cardíaco, já que conhecia as feições da elfa melhor do que as suas — e proferiu o encanto na língua antiga, vertendo toda a adoração, o amor e o medo que sentia por ela nos movimentos caprichosos da magia.
O resultado o deixou mudo.
A fairth mostrava a cabeça de Arya e seus ombros contra um fundo escuro e indistinto. Seu rosto era iluminado pela luz do fogo do lado direito e fitava o observador com um olhar astuto, parecendo não apenas ser o que era, mas a imagem que ele tinha da elfa: misteriosa, exótica e a mulher mais bonita que o jovem já havia visto. Era um quadro borrado e imperfeito, mas possuía uma intensidade e uma paixão tais que evocaram uma reação visceral de Eragon. É assim que eu realmente a vejo? Quem quer que fosse aquela mulher, era tão sábia, poderosa e hipnótica que poderia consumir qualquer homem inferior.
De uma grande distância, ele ouviu Saphira sussurrar: Tenha cuidado...
— O que você fez, Eragon? — indagou Oromis.
— Eu... eu não sei. — O rapaz hesitou enquanto o elfo estendia a mão para pegar a fairth, relutando em deixar os outros examinarem o seu trabalho, especialmente Arya. Depois de uma hesitação longa e apavorante, Eragon tirou os dedos da placa e a liberou para Oromis.
A expressão do elfo tornou-se inflexível quando olhou para a fairth, e depois para Eragon, que tremia sob o peso do seu olhar. Sem dizer uma palavra, Oromis passou a placa para Arya.
O cabelo da elfa escondeu o seu rosto quando ela se curvou sobre a placa, mas Eragon viu tendões e veias sulcando suas mãos enquanto ela segurava com força a lousa, que tremia enquanto era apertada.
— Bem, o que é isso? — perguntou Orik.
Erguendo a fairth por sobre a sua cabeça, Arya a jogou no chão, quebrando a figura em milhares de pedaços. Depois, ela se ergueu e, com grande dignidade, passou por Eragon, atravessou a clareira, e adentrou as profundezas de Du Weldenvarden.
Orik pegou um dos fragmentos da lousa. Estava vazio. A imagem havia desaparecido quando a placa quebrou. Ele puxou sua barba.
— Em todas as décadas desde que a conheço, nunca tinha visto Arya perder a calma assim. Nunca. O que você fez, Eragon?
Pasmo, Eragon respondeu:
— Um retrato dela.
Orik franziu a testa, obviamente confuso.
— Um retrato? Por que isso...
— Acho que seria melhor se você partisse agora — disse Oromis. — A lição acabou, de qualquer maneira. Volte amanhã ou daqui a dois dias se quiser ter uma ideia melhor do progresso de Eragon.
O anão olhou de soslaio para Eragon, depois concordou e tirou a sujeira das mãos.
— Sim, acho que vou fazer isso. Obrigado por me dispensar o seu tempo, Oromis-elda. Fico muito grato. — Enquanto ele seguia de volta para Ellesméra, virou a cabeça para trás e se dirigiu a Eragon: — Estarei no quarto de hóspedes da Mansão Tialdarí se você quiser conversar.
Quando Orik sumiu, Oromis levantou a bainha de sua túnica, agachou-se e começou a recolher os restos da placa. Eragon ficou olhando-o, incapaz de se mover.
— Por quê? — perguntou ele na língua antiga.
— Talvez — disse Oromis — Arya estivesse com medo de você.
— Medo? Ela nunca fica com medo. — Na hora em que disse isso, Eragon percebeu que não era verdade. Ela simplesmente escondia o seu medo melhor do que a maior parte das pessoas. Ele curvou um dos joelhos, ele pegou um pedaço da fairth e o pôs na mão de Oromis. — Por que eu iria amedrontá-la? Por favor, diga-me.
Oromis se levantou e andou até a beira do riacho, onde espalhou os fragmentos da lousa pela margem, deixando as lascas cinzentas escorrerem aos poucos pelos seus dedos.
— As fairths só mostram o que você quiser. É possível mentir com elas criar uma imagem falsa, mas fazê-lo requer mais habilidade do que você possui. Arya sabe disso. E também sabe que a sua fairth era uma representação precisa dos seus sentimentos para com ela.
— Mas por que isso iria amedrontá-la?
Oromis sorriu com tristeza.
— Porque isso revelou a profundidade da sua paixão. — Ele apertou as pontas dos dedos, formando uma série de arcos. — Vamos analisar a situação, Eragon. Enquanto você tem idade o suficiente para ser considerado um homem entre sua gente, aos nossos olhos você não passa de uma criança. — Eragon franziu a testa, ouvindo ecos das palavras de Saphira na noite anterior. — Normalmente eu não compararia a idade de um homem com a de um elfo, mas como você partilha da nossa longevidade, você também deve ser julgado pelos nossos padrões.
“E você é um Cavaleiro. Contamos com sua ajuda para derrotarmos Galbatorix, seria desastroso para todos na Alagaësia se você se desviasse dos seus estudos.
“Ora, como Arya deveria ter reagido a sua fairth? É óbvio que você a vê sob uma luz romântica, contudo — embora eu não tenha dúvida de que Arya gosta muito de você —, uma união entre vocês dois é impossível devido à sua juventude, cultura, raça e responsabilidades. Seu interesse colocou Arya numa posição desconfortável. Ela não ousa defrontá-lo, por medo de interromper o seu treinamento. Mas, como filha da rainha, ela não pode ignorá-lo e correr o risco de ofender um Cavaleiro, especialmente um no qual tanta coisa recai... Mesmo que você fosse um companheiro adequado, Arya se absteria de encorajá-lo para que pudesse dedicar toda a sua energia à tarefa que tem nas mãos. Ela sacrificaria sua felicidade por um bem maior.” A voz de Oromis engrossou: “Você tem que entender, Eragon, que matar Galbatorix é mais importante do que qualquer outra pessoa. Nada mais importa.” Ele fez uma pausa, seu olhar suavizou-se, e depois acrescentou: “Dadas as circunstâncias, é muito estranho Arya temer que seus sentimentos por ela possam pôr em perigo tudo para o qual trabalhamos?”
Eragon balançou a cabeça. Ele se sentia envergonhado pelo fato de seu comportamento ter deixado Arya angustiada, e consternado por ter agido de forma tão negligente e imatura. Eu poderia ter evitado toda essa confusão se tivesse simplesmente me controlado melhor.
Tocando-o no ombro, Oromis o conduziu de volta para a cabana.
— Não pense que não sou solidário, Eragon. Todo mundo vivencia fervores como o seu durante suas vidas. Isso faz parte do crescimento. Também sei como é difícil para você abdicar dos prazeres da vida, mas isso é necessário caso queiramos ser bem-sucedidos.
— Sim, mestre.
Eles se sentaram à mesa da cozinha e Oromis começou a dispor o material de escrita para que Eragon praticasse o Liduen Kvaedhí.
— Seria pouco razoável da minha parte esperar que você se esquecesse da fascinação que tem por Arya, mas gostaria que a deixasse de lado para impedir que interfira novamente no meu treinamento. Você pode me prometer isso?
— Sim, mestre. Eu prometo.
— E Arya? Qual seria a coisa mais honrada para se fazer em relação a situação desagradável que ela vive no momento?
Eragon hesitou.
— Não quero perder a sua amizade.
— Não.
— Por essa razão... irei até ela, pedirei desculpas, e irei lhe garantir que nunca mais a farei sofrer tanto novamente. — Era difícil para ele dizer aquilo, mas assim que o fez, teve uma sensação de alívio, como se o fato de reconhecer o seu erro o tivesse purificado. Oromis parecia satisfeito.
— Só por isso, você prova que amadureceu.
Eragon sentia a maciez das folhas de papel sob suas mãos ao pressioná-las contra o tampo da mesa. Ele olhou para a espaço branco e vazio por um instante, depois mergulhou uma pena na tinta e começou a reproduzir uma coluna de glifos. Cada linha marcada era como um raio noturno contra o papel, um abismo no qual ele poderia se perder e tentar esquecer seus sentimentos confusos.

Um comentário:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)