27 de maio de 2017

Capítulo 41 - A natureza do mal

Amanhã cintilante chegou cedo demais. Acordado pelo zumbido do relógio vibrante, Eragon agarrou seu punhal e pulou da cama, esperando um ataque. Ele arfou enquanto seu corpo reclamava do abuso dos dois últimos dias. Piscava os olhos para enxergar melhor e deu corda novamente no relógio. Orik havia sumido, o anão deve ter se mandado nas primeiras horas da manhã. Eragon gemeu e andou claudicante até o banheiro para sua higiene matinal, como se fosse um velho acometido de reumatismo.
Ele e Saphira ficaram esperando perto da árvore durante dez minutos até que apareceu um elfo todo pomposo, de cabelos negros. O elfo fez uma reverência, tocou os lábios com dois dedos — que Eragon respondeu — e depois se antecipou ao Cavaleiro ao dizer:
— Que a boa sorte recaia sobre você.
— E que as estrelas zelem por você — respondeu Eragon. — Foi Oromis que o enviou?
O elfo o ignorou e se dirigiu para Saphira.
— Muito prazer, dragão. Sou Vanir da Casa Haldthin. — Eragon franziu a testa, incomodado.
Muito prazer, Vanir.
Só então foi que o elfo se dirigiu a Eragon.
— Irei lhe mostrar onde pode treinar com sua espada. — Ele se afastou a passos largos, sem esperar que Eragon o acompanhasse. A área de treinamento estava salpicada de elfos de ambos os sexos, lutavam em pares ou em grupos. Seus dotes físicos extraordinários resultavam em golpes tão ágeis e rápidos, que soavam como rajadas de granizo caindo sobre um sino de ferro. Debaixo das árvores que debruavam a área, determinados elfos executavam o Rimgar com mais graça e flexibilidade que Eragon achava que um dia iria alcançar.
Depois que todos no campo pararam e se curvaram para Saphira, Vanir desembainhou sua espada curta.
— Se você ficar em guarda com a sua espada, Mão de Prata, podemos começar.
Eragon reparou amedrontado na perícia inumana que os outros elfos tinham com a espada. Por que tenho que fazer isso?, perguntou. Serei simplesmente humilhado.
Você vai ficar bem, disse Saphira, contudo ele podia sentir a preocupação de sua parceira.
Certo.
Enquanto preparava Zar’roc, as mãos de Eragon tremiam por insegurança. Ao invés de se mergulhar no combate, ele lutou contra Vanir a uma certa distância, desviando-se, andando para o lado e fazendo todo o possível para evitar outro corte. Apesar das fugas de Eragon, Vanir o tocou quatro vezes numa rápida sucessão — na caixa torácica, na canela e nos dois ombros.
A expressão inicial impassível e estóica de Vanir logo passou a ser de nítido desprezo. Num ataque, ele deslizou sua espada por toda a extensão de Zar’roc e ao mesmo tempo a fez rodopiar, torcendo o pulso de Eragon. O Cavaleiro permitiu que Zar’roc voasse para longe de sua mão em vez de resistir à força superior do elfo.
Vanir deixou sua espada cair contra o pescoço de Eragon e disse:
— Morto. — Livrando-se da espada, o jovem recuou para reaver Zar’roc. — Morto — repetiu Vanir. — Como você espera derrotar Galbatorix dessa maneira? Esperava coisa melhor, mesmo de um humano fraco.
— Então por que você mesmo não vai lá e enfrenta Galbatorix em vez de se esconder em Du Weldenvarden?
Vanir se retesou, furioso.
— Porque — respondeu ele, calmo e arrogante — não sou um Cavaleiro. E se fosse, não seria tão covarde quanto você.
Ninguém se moveu ou falou no campo.
De costas para Vanir, Eragon se curvou sobre Zar’roc e alçou o pescoço na direção do céu, rosnando para si próprio. Ele não me conhece. Isto é apenas mais um teste para ser superado.
— Covarde, posso afirmar. Seu sangue é tão ralo quanto o do resto da sua raça. Acho que Saphira foi confundida pelas maldades de Galbatorix e escolheu o Cavaleiro errado. — Os elfos que observavam a tudo ofegaram com as palavras de Vanir e murmuraram entre si, desaprovando abertamente sua atroz atitude.
Eragon rangeu os dentes. Ele podia aguentar insultos contra a sua pessoa, mas não contra Saphira. Ela já estava se mexendo quando a frustração reprimida, o medo e a dor explodiram dentro do rapaz, fazendo-o se virar rapidamente, a ponta de Zar’roc zunindo pelo ar.
O golpe teria matado Vanir se este não o tivesse bloqueado no último segundo. Ele parecia surpreso com a ferocidade do ataque. Sem nenhuma reserva, Eragon empurrou Vanir para o meio do campo, batendo e golpeando como se fosse um louco — determinado a ferir o elfo de qualquer maneira possível. Ele cortou Vanir na altura do quadril com força suficiente para tirar sangue, mesmo tendo sido com o fio bloqueado de Zar’roc.
Naquele instante, as costas de Eragon se romperam numa explosão de agonia tão intensa que ele a experimentou com todos os cinco sentidos: como se fosse o som uma catarata ensurdecedora, um gosto metálico revestiu sua língua, um fedor pungente e de fazer os olhos lacrimejarem invadiu suas narinas, cheiro de vinagre, cores pulsantes, e, acima de tudo, a sensação de que Durza havia acabado de rasgar suas costas.
Eragon podia ver Vanir em pé sobre ele, rindo com desprezo.
Ocorreu-lhe que o elfo era bem jovem.


Depois da crise, Eragon limpou o sangue da boca com a mão e o mostrou para Vanir, perguntando:
— É ralo o bastante? — Vanir não se permitiu responder, mas ao invés disso guardou sua espada e se afastou. — Para onde você está indo? — perguntou Eragon. — Temos um negócio inacabado, você e eu.
— Você não está em condições de duelar — zombou o elfo.
— Experimente. — Eragon podia ser inferior aos elfos, mas se recusava a lhes dar o prazer da confirmação. O Cavaleiro ganharia o respeito deles com pura persistência, nada mais.
Ele insistia em completar a hora que Oromis havia determinado, depois da qual Saphira foi até Vanir e tocou em seu peito com a ponta de uma de suas garras de marfim. Morto, disse ela. Vanir empalideceu. Os outros elfos se afastaram dele pouco a pouco.
Assim que estavam no ar, Saphira disse: Oromis tinha razão.
Sobre o quê?
Você dá mais de si quando tem um oponente.
Na cabana de Oromis, o dia retomou a rotina: Saphira acompanhou Glaedr para suas instruções enquanto Eragon ficou com Oromis.
O rapaz ficou horrorizado quando descobriu que Oromis o esperava para fazer o Rimgar como complemento dos seus exercícios anteriores. Ele precisou de toda a sua coragem para obedecer. Sua apreensão, no entanto, se mostrou infundada, pois a Dança da Cobra e do Grou era muito delicada para cansá-lo.
Isso, aliado à meditação na clareira isolada, deram a Eragon a primeira oportunidade desde o dia anterior para organizar seus pensamentos e pensar na questão que Oromis havia lhe proposto.
Enquanto o fazia, observou suas formigas vermelhas invadirem um formigueiro menor e rival, elas aniquilaram seus habitantes e roubaram suas provisões. Ao final do massacre, apenas um punhado de formigas rivais ficaram vivas, sozinhas e desorientadas na terra estéril, vasta e hostil coberta pelas folhas dos pinheiros.
Como os dragões na Alagaësia, pensou Eragon. Sua ligação com as formigas desapareceu assim que pensou no destino infeliz dos dragões.
Pouco a pouco, uma resposta para o seu problema ia se revelando, uma resposta fundamental e verdadeira.
Ele terminou sua meditação e voltou para a cabana. Desta vez, Oromis pareceu razoavelmente satisfeito com o que Eragon havia realizado.
Enquanto Oromis servia a refeição do meio-dia, Eragon disse:
— Sei por que lutar com Galbatorix vale a pena, embora milhares de pessoas possam morrer.
— Oh? — Oromis se sentou. — Então me diga.
— Porque Galbatorix já causou mais sofrimento ao longo dos últimos cem anos do que jamais poderíamos causar em uma única geração. E, ao contrário de um tirano normal, não podemos esperar que ele morra. Ele pode vir a governar por séculos ou milênios, pode perseguir e torturar gente o tempo todo, a não ser que o detenhamos. Se ele se tornasse forte o suficiente, iria marchar sobre os anões e vocês aqui em Du Weldenvarden e aniquilaria ou escravizaria ambas as raças. E... — Eragon esfregou a beirada da mesa — ... precisamos lutar para resgatar os dois ovos que estão com Galbatorix, pois é a única maneira de salvar os dragões.
O trinar estridente da chaleira de Oromis os interrompeu, até zumbir nos ouvidos de Eragon. Depois de se levantar, Oromis tirou a chaleira do fogo e verteu a água para o chá de mirtilo. As rugas em volta dos seus olhos ficaram mais suaves.
— Agora — disse ele — você entende.
— Eu entendo, mas não me dá o menor prazer.
— Nem devia. Mas agora podemos confiar que você não irá se desviar do caminho quando se confrontar com as injustiças e as atrocidades que os Varden inevitavelmente cometerão. Não podemos permitir que você seja consumido por dúvidas quando a sua força e o seu foco são mais necessários do que nunca. — Oromis estalou os dedos e olhou no espelho escuro do seu chá, contemplando o que quer que tenha visto no reflexo tenebroso. — Você acredita que Galbatorix é mau?
— É claro!
— Você acredita que ele se considera mau?
— Não, duvido.
Oromis bateu seus dedos indicadores, um contra o outro.
— Então você também deve acreditar que Durza era maligno?
As lembranças fragmentadas que Eragon recolhera de Durza quando ambos lutaram em Tronjheim lhe retornaram naquele instante, lembrou como o jovem Espectro — Carsaib, então — fora subjugado pelas aparições que ele havia evocado para vingar a morte do seu mentor, Haeg.
— Ele mesmo não era mau, mas os espíritos que o controlavam eram.
— E quanto aos Urgals? — perguntou Oromis bebericando seu chá. — Eles são malignos?
As juntas dos dedos de Eragon embranqueceram quando ele segurou sua colher.
— Quando penso na morte, vejo o rosto de um Urgal. Eles são piores do que bestas. As coisas que fizeram... — Ele balançou a cabeça, incapaz de prosseguir.
— Eragon, que tipo de conceito você formaria sobre os humanos se tudo que soubesse deles fossem as ações de seus guerreiros no campo de batalha?
— Isso não... — Ele respirou bem fundo. — É diferente. Os Urgals merecem ser eliminados, cada um deles.
— Até mesmo suas mulheres e crianças? Aquelas que não o feriram e que provavelmente jamais o farão? Os inocentes? Você os mataria e condenaria uma raça inteira à desgraça?
— Eles não iriam nos poupar, caso tivessem a chance.
— Eragon! — exclamou Oromis num tom cortante. — Não quero nunca mais ouvir você usando esse tipo de desculpa novamente. Não é porque alguém fez – ou faria – algo, que significa que você deve fazer também. Isso é uma atitude indolente, repugnante e indicativa de uma mente inferior. Estou sendo claro?
— Sim, mestre.
O elfo levou sua caneca aos lábios e bebeu, tinha os olhos brilhantes fixos em Eragon o tempo todo.
— O que de fato você sabe sobre os Urgals?
— Conheço suas forças, fraquezas e sei matá-los. É tudo de que preciso saber.
— Por que então eles odeiam e atacam os humanos? E quanto à sua história e suas lendas, ou o jeito como vivem?
— Isso importa?
Oromis suspirou.
— Apenas se lembre — disse ele gentilmente — que numa certa altura, seus inimigos podem vir a se tornar seus aliados. Essa é a natureza da vida.
Eragon resistiu à ânsia de argumentar. Ele girou o chá que estava em sua caneca, o líquido rodopiava num redemoinho negro, fazia uma lente branca de espuma no vórtice.
— Foi por isso que Galbatorix recrutou os Urgals?
— Isso não é um exemplo que eu teria escolhido, mas sim.
— Parece estranho o fato de ele os ter favorecido. Afinal de contas, foram eles que mataram seu dragão. Veja o que ele fez conosco, os Cavaleiros, e não fomos nem responsáveis pela sua perda.
— Ah — disse Oromis —, louco Galbatorix pode ser, mas ainda assim é tão esperto quanto uma raposa. Acho que ele pretendia usar os Urgals para destruir os Varden e os anões... e outros, se tivesse triunfado em Farthen Dûr... e com isso eliminaria dois dos seus inimigos, enquanto, simultaneamente, enfraqueceria os Urgals para que pudesse descartá-los quando quisesse.


O estudo da língua antiga tomou toda a tarde, só depois começaram a prática de magia. A maior parte das preleções de Oromis dizia respeito à maneira apropriada de controlar várias formas de energia: luz, calor, eletricidade e até mesmo a gravidade. Ele explicou que essas potências consumiam força mais rápido do que qualquer outro tipo de encanto, por isso era mais seguro já encontrá-las na natureza e moldá-las com magia, em vez de tentar criá-las.
Abandonando o assunto, Oromis perguntou:
— Como você mataria com magia?
— Já o fiz de muitas formas — disse Eragon. — Já cacei com seixos movendo-os e mirando-os com magia – assim como usei a palavra jierda para quebrar as pernas e os pescoços dos Urgals. Uma vez, com thrysta, eu parei o coração de um homem.
— Há métodos mais eficientes — revelou Oromis. — O que é necessário para matar um homem? Uma espada atravessando o peito? Um pescoço quebrado? A perda de sangue? Basta apenas que uma única artéria no cérebro seja arrancada ou que certos nervos sejam cortados. Com o encanto certo, você pode destruir um exército.
— Devia ter pensado nisso em Farthen Dûr — disse Eragon, desgostoso consigo mesmo. Não só em Farthen Dûr, mas também quando os Kull nos afugentaram do deserto Hadarac. — Mais uma vez, por que Brom não me ensinou isso?
— Porque ele não esperava que você fosse encarar um exército durante os meses ou anos próximos, essa não é uma ferramenta que é concedida para Cavaleiros jovens.
— Se é tão fácil matar as pessoas, então, para que nós ou Galbatorix recrutamos um exército?
— Para ser sucinto, tática. Os mágicos são vulneráveis a ataques físicos, quando estão envolvidos em seus embates mentais. Por essa razão, precisam de guerreiros para protegê-los. E os guerreiros devem estar protegidos, pelo menos em parte, dos ataques mágicos, caso contrário seriam assassinados em minutos. Essas limitações significam que, quando os exércitos enfrentam um ao outro, seus mágicos estão junto das tropas, perto das extremidades, mas não tão perto a ponto de ficarem em perigo. Os mágicos em ambos os lados abrem suas mentes e tentam sentir se alguém está usando ou está prestes a usar magia. Como seus inimigos podem estar fora do seu alcance mental, os mágicos também erguem defesas em torno de si e de seus guerreiros, para parar ou reduzir ataques distantes, como o de um seixo que voa na direção de suas cabeças, vindo de um quilômetro e meio de distância.
— Com certeza, um homem não pode defender um exército inteiro — disse Eragon.
— Não sozinho, mas com mágicos em número suficiente, você pode se munir de uma quantidade razoável de proteção. O maior perigo neste tipo de conflito é que um mágico inteligente pode pensar num ataque único que possa desviar suas defesas sem tropeçar nelas. Isso por si só poderia ser o bastante para decidir uma batalha.
“Além do mais”, prosseguiu Oromis, “você deve ter em mente que a habilidade de usar a magia é extremamente rara entre as raças. Nós elfos não somos exceção, embora tenhamos uma quantidade maior de encantadores do que a maioria, como resultado dos juramentos aos quais nos amarramos há séculos. A maioria daqueles que são abençoados com a magia possuem pouco ou nenhuma inteligência apreciável, lutam para curar da mesma forma que batalham para ferir.”
Eragon entendeu. Ele havia encontrado mágicos desse tipo entre os Varden.
— Mas ainda assim é necessária a mesma quantidade de energia para realizar uma tarefa.
— Energia sim, mas mágicos menos dotados acham mais difícil sentir o fluxo de magia e mergulhar nela do que eu ou você. Poucos mágicos são fortes o bastante para ameaçar um exército inteiro. E aqueles que o são, sempre gastam grande parte do seu tempo durante as batalhas iludindo, rastreando ou lutando contra seus oponentes, o que é uma sorte do ponto de vista dos guerreiros normais, caso contrário todos eles seriam mortos logo.
Confuso, Eragon disse:
— Os Varden não têm muitos mágicos.
— Esse é um dos motivos de você ser tão importante.
Passou-se um momento enquanto Eragon refletia sobre o que Oromis havia lhe dito.
— Essas defesas, elas só drenam energia da pessoa quando são ativadas?
— Sim.
— Então, com tempo suficiente, você poderia adquirir incontáveis camadas de defesas. Você poderia se tornar... — Ele sofria com o uso da língua antiga enquanto tentava se expressar. — ... intocável?... invencível?... invencível contra qualquer ataque, mágico ou físico.
— Defesas — disse Oromis — se fiam na força do seu corpo. Se essa força é superada, você morre. Não importa a quantidade de defesas que tenha, você só terá como bloquear ataques enquanto o seu corpo puder sustentar a produção de energia.
— E a força de Galbatorix tem aumentado a cada ano... Como é possível?
Era uma pergunta retórica, mas no que Oromis permaneceu em silêncio, com seus olhos amendoados fixos num trio de andorinhas que faziam piruetas mais acima, Eragon percebeu que o elfo estava pensando na melhor resposta para lhe dar. Os pássaros perseguiram uns aos outros durante alguns minutos. Quando sumiram de vista, Oromis disse:
— Não é apropriado termos essa discussão no momento presente.
— Então você sabe? — exclamou Eragon, surpreso.
— Sei. Mas essa informação deve ser dada mais adiante, ao longo do seu treinamento. Você não está pronto para recebê-la. — Oromis olhou para Eragon, como se esperasse sua objeção.
Eragon se curvou.
— Como desejar, mestre. — Ele jamais poderia arrancar a informação de Oromis, até o elfo se dispor a compartilhá-la, então por que tentar? Ainda assim se perguntava o que poderia ser tão perigoso a ponto de Oromis não ousar lhe revelar, e por que os elfos esconderam dos Varden? Outro pensamento lhe ocorreu e ele disse: — Se batalhas com mágicos são orquestradas do jeito que você disse, então por que Ajihad me deixou lutar sem defesas em Farthen Dûr? Eu nem ao menos sabia que precisava manter minha mente aberta para os inimigos. E por que Arya não matou a maioria ou todos os Urgals? Não havia mágicos para se opor a ela exceto Durza, mas ele não podia defender suas tropas quando estava debaixo da terra.
— Será que Ajihad não fez com que Arya ou alguém da Du Vrangr Gata colocasse defesas à sua volta? — perguntou Oromis.
— Não, mestre.
— E você lutou assim mesmo?
— Sim, mestre.
Os olhos de Oromis perderam o foco e se retraíram para dentro de si enquanto ele permanecia imóvel em pé no gramado. Ele falou sem avisar:
— Consultei Arya e ela disse que os Gêmeos dos Varden receberam a ordem de avaliar as suas habilidades. Disseram a Ajihad que você era competente no que dizia respeito a qualquer tipo de magia, incluindo defesas. Nem Ajihad nem muito menos Arya duvidaram do julgamento deles em relação a essa questão.
— Aqueles cachorros de língua solta, carecas, cheios de carrapatos e traiçoeiros — praguejou Eragon. — Eles tentaram me matar! — Voltando a falar na sua própria língua, ele se perdeu em mais algumas pragas pungentes.
— Não suje o ar — disse Oromis delicadamente. — Isso lhe trará um certo mal-estar... De qualquer maneira, suspeito que os Gêmeos tenham permitido que você entrasse na batalha desprotegido não para que morresse, mas para que Durza pudesse capturá-lo.
— O quê?
— De acordo com seu próprio relato, Ajihad suspeitou que os Varden haviam sido traídos quando Galbatorix começou a perseguir seus aliados no Império com uma precisão quase perfeita. Os Gêmeos estavam a par das identidades dos colaboradores dos Varden. Além do mais, os Gêmeos o atraíram até o centro de Tronjheim, e com isso o separaram de Saphira e o colocaram ao alcance de Durza. A explicação lógica é que eles eram traidores.
— Se eram traidores — disse Eragon — isso não importa mais, eles já estão mortos há muito tempo.
Oromis inclinou a cabeça.
— Sim. Arya disse que os Urgals tinham mágicos em Farthen Dûr e que ela enfrentou muitos deles. Nenhum deles o atacou?
— Não, mestre.
— Mais uma evidência de que você e Saphira foram deixados para que Durza os capturasse e os levasse para Galbatorix. A armadilha foi bem montada.
Na hora seguinte, Oromis ensinou a Eragon doze métodos para matar, sendo que nenhum deles exigia mais energia do que a necessária para levantar uma pena carregada de tinta. Enquanto ele terminava de memorizar a última, um pensamento veio a Eragon e o fez sorrir.
— Os Ra’zac não terão chance alguma na próxima vez em que cruzarem o meu caminho.
— Mesmo assim, ainda é preciso que você tenha cuidado com eles — preveniu Oromis.
— Por quê? Três palavras e eles estarão mortos.
— O que as águias-pescadoras comem?
Eragon piscou.
— Peixes, é claro.
— E se um peixe fosse levemente mais rápido e inteligente do que seus irmãos, seria ele capaz de fugir de uma delas?
— Duvido — disse Eragon. — Pelo menos não por muito tempo.
— Da mesma forma que as águias-pescadoras foram criadas para serem as melhores caçadoras de peixes, os lobos foram criados para serem os melhores caçadores de gamos e outras presas maiores, e todos os animais são dotados do que melhor serve para seu objetivo. Da mesma forma, os Ra’zac foram criados para serem predadores de humanos. Eles são os monstros na escuridão, os pesadelos que assombram a sua raça.
A nuca de Eragon formigou de medo.
— Que espécie de criatura eles são?
— Não são elfos, humanos, anões, dragões, feras cobertas de pelos, escamas ou penas, répteis ou insetos. Não se encaixam em nenhuma outra categoria de animal.
Eragon forçou um sorriso.
— Eles são plantas, então?
— Isso também não. Eles se reproduzem pondo ovos, como os dragões. Quando eles os chocam, os jovens, ou pupas, ganham exoesqueletos negros que imitam as formas humanas. É uma imitação grotesca, mas convincente o bastante para permitir que os Ra’zac se aproximem de suas vítimas sem alarmá-las. Em todas as áreas nas quais os humanos são fracos, os Ra’zac são fortes. Podem enxergar numa noite turva, farejar como um sabujo, pular mais alto e se mover com mais rapidez. No entanto, a luz intensa lhes é dolorosa e eles têm um pavor mórbido de águas profundas, pois não conseguem nadar. Sua maior arma é seu bafo maligno, que confunde as mentes dos homens (e incapacita muitos), embora seja menos potente sobre os anões, e os elfos sejam totalmente imunes.
Eragon estremeceu ao lembrar da primeira visão que teve dos Ra’zac em Carvahall e como fora incapaz de fugir assim que eles o notaram.
— Parecia com um sonho no qual eu queria correr mas não conseguia me mover, não importava o quanto eu tentasse.
— É uma descrição razoável — disse Oromis. — Embora os Ra’zac não possam se valer de magia, eles não devem ser subestimados. Se sabem que você os persegue, não se revelarão e permanecerão na sombra, onde são fortes, e conspirarão para lhe criar uma emboscada como fizeram perto de Dras-Leona. Nem mesmo a experiência de Brom conseguiu protegê-lo deles. Nunca fique confiante demais, Eragon. Jamais seja arrogante, pois aí você estará agindo de forma displicente e seus inimigos explorarão suas fraquezas.
— Sim, mestre.
Oromis encarou Eragon com um olhar firme.
— Os Ra’zac continuam sendo pupas durante vinte anos enquanto vão amadurecendo. Na primeira lua cheia de seu vigésimo aniversário, eles se desprendem de seus exoesqueletos, expandem suas asas e emergem como adultos prontos para caçar todas as criaturas, não se limitam a seres humanos.
— Então, as montarias dos Ra’zac, aquelas nas quais eles voam, são de fato...
— Sim, seus genitores.

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Boa leitura :)