8 de maio de 2017

Capítulo 40

Shakespeare, não invente
Um soneto impossível
Pra cima de mim

FOMOS ATÉ A JANELA e olhamos para baixo. Não havia sinal do imperador. Alguns dos nossos amigos estavam na rotatória lá embaixo, confusos, olhando para nós.
— Um pequeno aviso antes teria sido legal — gritou Jamie.
Ele tinha ficado sem inimigos para eletrocutar. Ele e Hunter Kowalski estavam ilesos, de pé no meio de um mosaico de cacos de vidro.
— Onde está Cômodo? — perguntei.
Hunter deu de ombros.
— Nós não o vimos.
— Como assim? — perguntei. — Ele literalmente voou por esta janela.
— Não — corrigiu Leo. — Ele Litierses-mente voou pela janela. Não é? Foi sensacional, cara.
— Obrigado — disse Lit, assentindo.
Os dois se cumprimentaram com um high-five, como se não tivessem passado os últimos dias falando sobre o quanto queriam matar um ao outro. Eles dariam ótimos deuses olimpianos.
— Bem — disse Thalia. As novas mechas grisalhas da minha explosão solar ficaram bem encantadoras nela. — Acho que seria bom dar uma verificada nas redondezas. Se Cômodo ainda estiver por aí... — Ela olhou para a Rua South Illinois. — Espere, aquela é Meg?
Dobrando a esquina vinham os três karpoi, segurando Meg McCaffrey acima da cabeça como se ela estivesse pegando jacaré (ou pegando pêssego). Quase pulei da janela para ir até ela, mas lembrei que não conseguia voar.
— O Trono da Memória — falei para Emmie. — Precisamos dele agora!
Encontramos os karpoi no saguão do prédio. Um dos Pêssegos havia pegado a Flecha de Dodona de seu esconderijo, debaixo do banco do motorista do Mercedes, e agora a carregava entre os dentes como uma faca na boca de um pirata. Ele a ofereceu para mim. Eu não sabia se devia agradecer ou xingá-lo, mas guardei a flecha na aljava por via das dúvidas.
Josephine e Leo vieram correndo de uma sala lateral carregando entre os dois minha velha mochila, o Trono da Memória. Eles o colocaram no meio de um tapete persa ainda fumegando.
Os bebês pêssego colocaram Meg na cadeira com cuidado.
— Calipso — falei. — Bloco de anotações?
— Pode deixar! — Ela pegou o bloquinho amarelo e um lápis. Ela seria uma ótima aluna de ensino médio, estava sempre preparada para a aula!
Eu me ajoelhei ao lado de Meg. A pele dela estava azul demais, a respiração, irregular demais. Coloquei as mãos nas têmporas dela e verifiquei os olhos. As pupilas estavam do tamanho de cabeças de alfinete. A consciência dela parecia estar sumindo, ficando cada vez menor.
— Força, Meg — supliquei. — Você está entre amigos agora. Está no Trono de Mnemosine. Fale sua profecia!
Meg se sentou ereta de repente. As mãos seguraram as laterais da cadeira como se uma corrente elétrica forte tivesse tomado conta dela.
Nós todos recuamos, formando um círculo ao seu redor enquanto fumaça escura saía por sua boca e envolvia suas pernas.
Quando ela falou, felizmente não foi com a voz de Trofônio, só em um tom neutro e grave digno do próprio Delfos:

Palavras forjadas da memória ardem
Antes da nova lua no Monte do Diabo
Um terrível desafio para o lorde jovem
Até o Tibre se encher de corpos empilhados.

— Ah, não — murmurei. — Não, não, não.
— O quê? — perguntou Leo.
Olhei para Calipso, que estava anotando furiosamente.
— Vamos precisar de um bloco maior.
— Como assim? — perguntou Josie. — A profecia já deve ter acabado...
Meg ofegou e continuou:

Para o sul o Sol segue caminho,
Por labirintos obscuros e terras fatais arrasadas
Até achar o dono do cavalo branquinho
E arrancar os ditos do falante de palavras cruzadas.

Fazia séculos que eu não ouvia uma profecia com essa forma, mas eu a conhecia bem. Queria poder impedir a declamação e poupar o sofrimento de Meg, mas não havia nada que eu pudesse fazer.
Ela tremeu e expirou a terceira estrofe:

Ao palácio ocidental Lester tem que viajar,
A filha de Deméter encontra raízes antigas.
Só o guia com patas sabe como chegar
Percorrendo o caminho com as botas inimigas.

Como ápice do horror, ela cuspiu um dístico rimado:

Ao conhecer os três e ao Tibre vivo chegar,
Só então Apolo começa a dançar.

A fumaça preta sumiu. Corri para a frente, e Meg caiu nos meus braços. A respiração dela já estava mais regular, a pele mais quente. Graças às Parcas. A profecia foi exorcizada.
Leo foi o primeiro a falar.
— O que foi isso? Compre uma profecia e leve três de graça? Foram muitos versos.
— Foi um soneto — falei, ainda sem acreditar. — Que os deuses nos ajudem! Foi um soneto shakespeariano.
O limerique de Dodona já tinha sido ruim. Mas um soneto shakespeariano inteiro? Um horror desses só podia ter vindo da Caverna de Trofônio.
Eu relembrei minhas muitas discussões com William Shakespeare.
Bill, eu dizia. Ninguém vai aceitar essa poesia!
Thalia pendurou o arco no ombro.
— Isso tudo foi um poema? Mas tinha quatro partes diferentes.
— É — falei. — Os sonetos transmitem as profecias mais elaboradas, com múltiplas partes móveis. Nenhuma boa, infelizmente.
Meg começou a roncar.
— Vamos analisar nosso destino depois — falei. — Temos que deixar Meg descansar...
Meu corpo também escolheu aquele momento para desmoronar. Eu tinha exigido muito dele.
Então, se rebelou. Caí de lado, e Meg tombou em cima de mim. Nossos amigos se adiantaram. Senti que fui erguido delicadamente e me perguntei, atordoado, se estava pegando pêssego ou se Zeus tinha me convocado de volta ao céu.
Mas vi o rosto de Josephine me olhando de cima, como um presidente do Monte Rushmore, quando ela me levou por um corredor.
— Enfermaria para este aqui — disse ela para alguém ao seu lado. — E depois... Eca. Ele precisa muito de um banho.

* * *

Algumas horas de sono sem sonhos foram seguidas por um banho de espuma relaxante.
Não era o Monte Olimpo, amigos, mas estava quase chegando lá.
No final da tarde, eu estava vestindo roupas limpas que não me deixavam congelando e não fediam a excremento subterrâneo. Minha barriga estava cheia de mel e pão recém-assado. Andei pela Estação Intermediária, ajudando no que podia. Foi bom me manter ocupado. Isso me impediu de pensar demais nos versos da Profecia das Sombras.
Meg descansava confortavelmente em um quarto de hóspedes, protegida com afinco por Pêssego, Pêssego e o Outro Pêssego.
As Caçadoras de Ártemis cuidavam dos feridos, que eram tão numerosos que a Estação Intermediária teve que dobrar o tamanho da enfermaria. Lá fora, a elefanta Lívia ajudava na limpeza, tirando veículos quebrados e destroços da rotatória. Leo e Josie passaram a tarde recolhendo peças de Festus, que, segundo eles, foi destruído pelas mãos de Cômodo. Felizmente, Leo parecia achar isso mais uma chateação do que uma tragédia.
— Que nada, cara — comentou ele quando ofereci minhas condolências. — Consigo montá-lo de volta sem problemas. Eu o projetei para que fosse como um kit de Lego, que dá para ser montado rapidinho!
Ele voltou a ajudar Josephine, que estava usando um guindaste para tirar a pata traseira esquerda de Festus da torre do sino da Union Station.
Calipso, em um surto de magia aérea, conjurou espíritos do vento suficientes para reparar os estilhaços de vidro do vitral redondo, depois desabou por causa do esforço.
Sssssarah, Jamie e Thalia Grace percorreram as ruas ao redor, procurando por indícios de Cômodo, mas o imperador tinha desaparecido. Pensei em como salvei Hemiteia e Parteno quando elas pularam daquele penhasco tanto tempo atrás, dissolvendo-as em luz. Uma quase-deidade como Cômodo seria capaz de fazer algo assim consigo mesmo? Fosse qual fosse o caso, eu desconfiava que ainda veríamos o Novo Hércules novamente.
No pôr do sol, fui convidado a me juntar a uma pequena cerimônia íntima em memória de Heloísa, o grifo. Toda a população da Estação queria ter ido homenagear o sacrifício dela, mas Emmie explicou que um grupo muito grande incomodaria ainda mais Abelardo. Enquanto Hunter Kowalski ficava cuidando do ovo no galinheiro (para onde havia sido levado por questões de segurança, antes da batalha), eu me juntei a Emmie, Josephine, Georgie e Calipso no telhado.
Abelardo, o viúvo de luto, observou em silêncio enquanto Calipso e eu, parentes honorários desde nossa missão de resgate no zoológico, depositamos, com toda a delicadeza, o corpo de Heloise em um trecho de terra não cultivada no jardim.
Depois da morte, os grifos ficam surpreendentemente leves. Os corpos desidratam quando o espírito os abandona, deixando só pelo, penas e ossos ocos. Demos um passo para trás quando Abelardo se aproximou do corpo da companheira. Ele eriçou as asas e encostou de leve o bico na plumagem do pescoço de Heloísa pela última vez. Jogou a cabeça para trás e soltou um grito agudo, um chamado que dizia Eu estou aqui. Onde está você?
Em seguida, levantou voo e desapareceu nas nuvens baixas cinzentas. O corpo de Heloísa virou pó.
— Vamos plantar erva-de-gato neste canteiro. — Emmie secou uma lágrima da bochecha. — Heloísa adorava erva-de-gato.
Calipso enxugou os olhos na manga.
— Parece uma ótima ideia. Para onde Abelardo foi?
Josephine observou as nuvens.
— Ele vai voltar. Precisa de tempo. Vai demorar várias semanas para o ovo chocar. Vamos ficar de olho por ele.
Pensar no grifo e no ovo sozinhos no mundo me deixou indescritivelmente triste, mas eu sabia que eles tinham a família de consideração mais amorosa que poderiam algum dia encontrar ali na Estação Intermediária.
Durante a breve cerimônia, Georgina ficou me olhando com cautela, suas mãos brincando com alguma coisa. Uma boneca? Eu não estava prestando muita atenção. Josephine deu um tapinha nas costas da filha.
— Tudo bem, querida — disse Josephine para ela. — Vá em frente.
Georgina veio na minha direção arrastando os pés. Estava usando um macacão novinho em folha, que ficava bem melhor nela do que em Leo. Limpo, o cabelo dela estava mais leve, o rosto, mais rosado.
— Minhas mães me disseram que você talvez seja meu pai — murmurou ela.
Engoli em seco. Ao longo dos séculos, passei por situações semelhantes incontáveis vezes e sempre ficava desconfortável, mas, como Lester Papadopoulos, eu me senti mais constrangido do que nunca.
— Talvez... Talvez eu seja, Georgina. Não sei.
— Tudo bem. — Ela ergueu o que estava segurando, um bonequinho feito de limpadores de cachimbo, e o colocou na minha mão. — Fiz isto pra você. Pode levar quando for embora.
O boneco não era grande coisa, uma espécie de biscoito de gengibre, mas com silhueta de homem, feito de arame e fiapos coloridos, com alguns fios de barba nas juntas... Espere. Ah, caramba. Era o mesmo bonequinho que tinha sido esmagado pela cara de Cômodo. Devia ter caído quando ele voou janela afora.
— Obrigado — falei. — Georgina, se você algum dia precisar de mim, se algum dia quiser conversar...
— Não, eu estou bem.
Ela se virou e correu para os braços de Josephine.
Josephine beijou a cabeça dela.
— Você foi ótima, querida.
Elas se viraram e foram para a escada. Calipso me deu um sorrisinho debochado e as seguiu, me deixando sozinho com Emmie.
Por alguns momentos, ficamos em silêncio em frente ao canteiro do jardim.
Emmie apertou seu antigo casaco prateado de Caçadora um pouco mais em volta do corpo.
— Heloísa e Abelardo foram nossos primeiros amigos aqui quando assumimos a Estação Intermediária.
— Sinto muito, mesmo.
O cabelo grisalho dela brilhava como aço no pôr do sol. As rugas pareciam mais fundas, o rosto mais velho e cansado. Quanto tempo mais ela viveria nessa vida mortal? Mais vinte anos? Um piscar de olhos para um imortal. Mas eu não conseguia mais sentir irritação por ela ter desistido do meu presente da divindade. Era evidente que Ártemis compreendera a escolha dela. Ártemis, que rejeitava toda forma de amor romântico, achou que Emmie e Josephine mereciam envelhecer juntas.
Eu também tinha que aceitar isso.
— Você construiu uma coisa boa aqui, Hemiteia — falei. — Cômodo não conseguiu destruir isso. Você vai restaurar o que perdeu, tenho certeza. Sinto inveja de você.
Ela conseguiu dar um sorriso leve.
— Nunca achei que fosse ouvir essas palavras de você, Lorde Apolo.
Lorde Apolo. O título parecia não pertencer a mim. Parecia um chapéu que havia usado séculos atrás... Uma coisa grande e nada prática e pesada como aqueles chapéus elisabetanos que Bill Shakespeare usava para esconder a careca.
— E a Profecia das Sombras? — perguntou Emmie. — Você sabe o que quer dizer?
Observei uma pena de grifo rolar na terra.
— Uma parte. Não tudo. Talvez o suficiente para traçar um plano.
Emmie assentiu.
— Então é melhor reunirmos nossos amigos. Podemos conversar no jantar. Além do mais — ela me deu um soquinho no braço —, as cenouras não vão se descascar sozinhas.

4 comentários:

  1. O TIBRE! ISSO AI TODOS OS CAMINHOS LEVAM A ROMA

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  2. Droga! Como vou criar teorias pra uma profecia desse tamanho! Minha aula de crítica literária não ajuda nesse tipo de interpretação. "A profecia foi exorcizada" Imaginei Dean e Sam atrás deles recitando "Exorcizamus te, omnis immundus spiritus..."

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  3. — Bem — disse Thalia. As novas mechas grisalhas da minha explosão solar ficaram bem encantadoras nela.

    so eu agora vejo a thalia parecida com a vampira

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  4. Leo sendo o Leo:

    — Que nada, cara — comentou ele quando ofereci minhas condolências. — Consigo montá-lo de volta sem problemas. Eu o projetei para que fosse como um kit de Lego, que dá para ser montado rapidinho!

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Boa leitura :)