27 de maio de 2017

Capítulo 40 - Ipomeia negra

Eles esvaziaram a mesa e levaram a louça para fora, onde a arearam.
Oromis esmigalhou o que havia restado do pão e espalhou em volta da casa para que as aves pudessem comer, e depois voltaram para dentro. Oromis trouxe penas e tinta para Eragon, e os dois retomaram seus estudos do Liduen Kvaedhí, a forma escrita da linguagem antiga, muito mais elegante do que as runas dos humanos e dos anões. Eragon se perdeu nos glifos arcanos, feliz por ter uma tarefa que não exigia nada mais vigoroso do que memorização.
Depois de passar horas curvado sobre folhas de papel, Oromis fez um aceno com a mão e disse:
— Chega. Continuaremos amanhã. — Eragon se recostou e sacudiu os ombros enquanto Oromis escolhia cinco pergaminhos que estavam nos cantos da parede. — Dois desses estão na língua antiga, três no seu idioma nativo. Eles irão ajudá-lo a dominar ambos os alfabetos, assim como dar-lhe-ão informações valiosas que seriam entediantes caso eu resolvesse vocalizá-las.
— Vocalizá-las?
Com uma precisão infalível, a mão de Oromis se moveu bruscamente e arrancou um sexto pergaminho da parede, o qual acrescentou à pirâmide que já estava nas mãos de Eragon.
— Isto é um dicionário. Duvido que consiga, mas tente lê-lo inteiro.
Quando o elfo abriu a porta para que ele saísse, Eragon disse:
— Mestre?
— Sim, Eragon?
— Quando começaremos a trabalhar com magia? — Oromis apoiou um braço contra o vão da porta, parecia estar prestes a cair, como se não possuísse mais a vontade de permanecer em posição vertical. Até que ele suspirou e disse:
— Você precisa confiar em mim para guiar o seu treinamento, Eragon. Contudo, suponho que seria uma tolice adiarmos mais. Venha, deixe os pergaminhos em cima da mesa e vamos explorar os mistérios da necromancia.
No gramado em frente à cabana, Oromis ficou em pé, de frente para os rochedos de Tel’naeír, de costas para Eragon, com os pés separados segurava as mãos atrás das costas. Sem se virar, ele perguntou:
— O que é magia?
— A manipulação da energia através do uso da língua antiga. — Fez-se uma pausa antes de Oromis responder.
— Tecnicamente você está certo e muitos encantadores nunca entendem mais do que isso. No entanto, sua definição falha ao não capturar a essência da magia. A magia é a arte do pensamento, não da força ou da linguagem... você já sabe que um vocabulário limitado não é obstáculo para o uso da magia. Como tudo o mais que você tem de dominar, a magia se fia no fato de se ter um intelecto disciplinado.
Oromis fez uma pausa e prosseguiu:
— Brom ignorou o regime normal de treinamento e as sutilezas da magia para garantir que você teria as habilidades necessárias para permanecer vivo. Eu também tenho que distorcer o regime para me concentrar nas habilidades que provavelmente lhe serão exigidas nas batalhas futuras. No entanto, considerando que Brom lhe ensinou os mecanismos brutos da magia, irei lhe ensinar suas aplicações mais refinadas, os segredos reservados para o mais sábio dos Cavaleiros: como matar sem gastar mais energia do que no movimento de um dedo, o método para transportar instantaneamente um item de um ponto ao outro, um encanto que lhe permitirá identificar venenos na sua comida e na sua bebida, uma variação da cristalomancia para ouvir e ver, como se pode sugar energia dos arredores e com isso preservar a sua própria força, e como maximizá-la de todas as maneiras possíveis. Essas técnicas são tão potentes e perigosas que nunca foram compartilhadas com Cavaleiros novatos como você, mas as circunstâncias impõem que eu as revele e confie em que você não abusará delas. — Levantando seu braço direito, fazendo a sua mão assumir a forma de uma garra em gancho, Oromis proclamou: — Adurna!
Eragon ficou observando enquanto uma esfera d’água crescia e se erguia do riacho perto da cabana e flutuava pelo ar até que ficasse pairando entre os dedos esticados de Oromis.
O riacho era escuro e marrom sob os galhos da floresta, mas a esfera, que dele havia se desprendido, era tão incolor quanto vidro. Manchas de musgo, lama e outras partículas de detritos flutuavam dentro da esfera.
Ainda olhando na direção do horizonte, Oromis disse:
— Pegue. — Ele lançou a esfera para trás por cima do ombro na direção de Eragon.
Ele tentou pegar a bola, mas assim que ela tocou em sua pele, a água perdeu coesão e estourou no seu peito.
— Pegue-a usando magia — disse Oromis. Mais uma vez ele gritou: — Adurna! — E outra esfera d’água se formou na superfície do riacho e pulou em sua mão como um gavião treinado obedecendo ao seu mestre.
Desta vez Oromis jogou a bola sem avisar. No entanto, Eragon estava preparado e disse:
— Reisa du adurna. — Ela diminuiu de velocidade até parar a uma distância, equivalente à espessura de um fio de cabelo, da palma de sua mão.
— Que escolha estranha de palavras — disse Oromis —, mas funciona, apesar disso.
Eragon sorriu e sussurrou:
— Thrysta.
A bola mudou o seu curso e voou na direção da base da cabeça prateada de Oromis. No entanto, a esfera não aterrissou onde ele pretendia, mas em vez disso passou como um raio pelo elfo, fez uma curva e voltou para Eragon numa velocidade ainda maior.
A água continuou dura e sólida como mármore polido quando atingiu Eragon, produzindo um baque surdo na hora em que colidiu com o seu crânio. O golpe o fez se estatelar na relva, ficou ali atordoado, pestanejando enquanto luzes pulsantes deslizavam pelo céu.
— Sim — disse Oromis. — Uma palavra melhor teria sido letta ou ködthr. — Ele finalmente se virou para encarar Eragon e levantou a sobrancelha com aparente surpresa. — O que você está fazendo? Levante-se. Não podemos ficar deitados o dia inteiro.
— Sim, mestre — gemeu Eragon.
Quando o jovem conseguiu se levantar, Oromis o fez manipular a água de várias maneiras — moldava-a na forma de nós complexos, mudava a cor da luz que ela absorvia ou refletia, e congelava-a em certas sequências predeterminadas —, nenhuma lhe pareceu difícil.
Os exercícios continuaram por tanto tempo que o interesse inicial de Eragon se desvaneceu e foi substituído por impaciência e perplexidade. Ele agia de forma cautelosa para não ofender Oromis, mas não via sentido no que o elfo estava fazendo, como se seu mentor evitasse quaisquer encantos que exigissem mais força. Já demonstrei a extensão das minhas habilidades. Por que ele persiste em repassar esses fundamentos? Ele disse:
— Mestre, eu já entendi. Não podemos seguir em frente?
Os músculos no pescoço de Oromis endureceram, e seus ombros pareciam granito apesar de terem se movido, até mesmo a respiração do elfo parou antes de ele dizer:
— Você nunca vai aprender a respeitar, Eragon-vodhr? Então que seja assim! — Em seguida ele pronunciou quatro palavras na língua antiga num tom de voz tão grave que seu significado fugiu a Eragon.
O jovem Cavaleiro gritou enquanto sentia cada uma de suas pernas envolvidas por uma pressão que ia até o joelho, apertando e comprimindo suas panturrilhas de um jeito que tornava impossível caminhar. Suas coxas e o restante do seu corpo estavam livres para se mover, mas exceto essa parte, era como se ele tivesse sido jogado em cal de argamassa.
— Liberte-se — disse Oromis.
Este desafio jamais fora enfrentado por Eragon: como agir contra os encantos feitos por outros. Ele podia romper suas algemas invisíveis usando um de dois métodos diferentes. O mais eficiente seria se ele soubesse como Oromis o imobilizara — fosse afetando seu corpo direta ou indiretamente — para então redirecionar o elemento ou a força para dispersar o poder do elfo. Ou poderia usar um encanto vago e genérico para bloquear o que quer que o elfo estivesse fazendo. O aspecto negativo da tática era que ela levaria a uma disputa direta de poder entre os dois. Teria que acontecer alguma hora, pensou Eragon. Ele não cogitava que pudesse ter alguma esperança de levar a melhor contra um elfo.
Convocando a frase exigida, ele disse:
— Losna kalfya iet. — Solte as minhas panturrilhas.
A onda de energia que abandonou Eragon era maior do que previra, ele deixou de ficar moderadamente cansado por causa das dores e dos esforços do dia e passou a se sentir como se tivesse marchado sobre terreno acidentado desde o amanhecer. Até que a pressão sumiu de suas pernas, fazendo-o cambalear enquanto recuperava o equilíbrio.
Oromis balançou a cabeça.
— Que tolice — disse ele —, muita tolice. Se eu tivesse me comprometido a manter o meu encanto, ele o teria matado. Nunca use absolutos.
— Absolutos?
— Jamais verbalize os seus encantos de modo que só dois resultados sejam possíveis: o sucesso ou a morte. Se um inimigo tivesse prendido as suas pernas e fosse mais forte do que você, então toda a sua força teria se esgotado enquanto tentava quebrar tal encanto. Você teria morrido sem ter a chance de abortar a tentativa assim que percebesse que ela era inútil.
— Como faço para evitar isso? — perguntou Eragon.
— É mais seguro fazer o encanto tornar-se um processo que possa ser terminado discretamente. Em vez de dizer solte as minhas panturrilhas, que é um absoluto, você poderia dizer reduza a mágica que aprisiona as minhas panturrilhas. É um pouco prolixo, mas você então poderia decidir o quanto queria que o encanto do seu oponente diminuísse e se era seguro removê-lo inteiramente. Vamos tentar novamente.
A pressão voltou para as pernas de Eragon assim que Oromis pronunciou sua evocação inaudível. Eragon estava tão cansado que duvidava que pudesse criar muita oposição. Não obstante, ele se esforçou para usar a magia.
Antes que a língua antiga deixasse a boca de Eragon, ele ficou a par de uma sensação curiosa que brotava enquanto o peso que confinava suas pernas ia diminuindo até se estabilizar. Ela coçava e o fazia sentir como se estivesse sendo puxado para fora de um atoleiro de lama fria e escorregadia. Ele olhou para Oromis e viu a aflição traçada no rosto do elfo, como se ele estivesse agarrado a algo precioso que não poderia suportar perder. Uma veia pulsava em uma das têmporas de Oromis.
Quando os grilhões misteriosos de Eragon sumiram, Oromis recuou como se tivesse sido picado por uma vespa e ficou em pé com o olhar fixo em suas duas mãos enquanto o peito magro arfava. Durante talvez um minuto ele ficou desse jeito, então se levantou e andou até a beirada dos rochedos de Tel’naeír, uma figura solitária cuja silhueta se projetava contra o céu opaco.
A tristeza e o pesar brotavam em Eragon — as mesmas emoções que dele se apoderaram quando viu pela primeira vez a pata mutilada de Glaedr. Ele se amaldiçoou por ter sido tão arrogante com Oromis, tão alheio às suas fraquezas, e por não ter confiado mais no julgamento do elfo. Não sou o único que tem que lidar com feridas do passado. Eragon ainda não havia entendido totalmente o que Oromis disse quando afirmou que tudo menos a mágica mais sutil estava fora do seu alcance. Agora ele conseguia avaliar a profundidade da situação de Oromis e da dor que ela deve ter-lhe causado, especialmente para um de sua raça, que nasceu e foi criado com magia.
Eragon foi até onde Oromis estava, ajoelhou-se e curvou-se à moda dos anões, encostando a testa no chão.
— Ebrithil, me perdoe.
O elfo não deu o menor sinal de que havia escutado.
Os dois permaneceram em suas respectivas posições enquanto o sol se punha atrás de ambos, os pássaros cantavam suas canções noturnas e o ar ia tornando-se úmido e frio. Do norte, vinham os baques sutis e descompassados das asas de Saphira e Glaedr, enquanto voltavam depois de passar o dia distantes.
Num tom de voz baixo e distante, Oromis falou:
— Vamos começar tudo de novo amanhã, com esse e outros assuntos. — Pelo seu perfil, Eragon podia dizer que Oromis havia recuperado sua expressão costumeira de reserva impassível. — Tudo bem para você?
— Sim, mestre — respondeu Eragon, satisfeito por ter sido perguntado.
— Acho que seria melhor se, de agora em diante, você se esforçasse para só falar na língua antiga. Temos pouco tempo, e essa é a maneira mais rápida para você aprender.
— Mesmo quando eu falar com Saphira?
— Mesmo assim.
Adotando a língua dos elfos, Eragon fez um juramento:
— Então trabalharei incessantemente até não só pensar, como sonhar, na sua língua.
— Se você conseguir — disse Oromis, respondendo da mesma forma — nossa aventura pode vir a ser bem-sucedida. — Ele fez uma pausa. — Em vez de voar direto para cá pela manhã, você acompanhará o elfo que eu mandar para guiá-lo. Ele irá levá-lo para um lugar onde os habitantes de Ellesméra praticam o manejo da espada. Fique lá por uma hora, depois continue normalmente.
— Não será você que me ensinará? — perguntou Eragon, sentindo-se desprezado.
— Não tenho nada para ensinar. Você é um dos melhores espadachins que encontrei. Não sei lutar mais do que você e aquilo que possuo e que você não tem, eu não posso lhe dar. Tudo que lhe resta é preservar sua habilidade atual.
— Por que não posso fazer isso com você... Mestre?
— Porque não gosto de começar o dia com sobressaltos e conflitos. — Ele olhou para Eragon, então abrandou sua fala e acrescentou: — E porque será bom para você se entrosar com as outras pessoas que vivem aqui. Eu não represento a minha raça. Mas chega disso. Veja, eles estão se aproximando.
Os dragões deslizavam em frente ao sol poente. Primeiro veio Glaedr com um rugir de vento, encobrindo o céu com seu corpanzil, antes de se acomodar em cima da grama e dobrar suas asas douradas, e depois Saphira, tão rápida e ágil quanto um pardal atrás de uma águia.
Como haviam feito na manhã anterior, Oromis e Glaedr fizeram uma série de perguntas para se certificar de que Eragon e Saphira haviam prestado atenção nas lições de um e de outro. Nem sempre eles o tinham feito, mas ao cooperar e partilhar informações entre si, os dois conseguiram responder todas as perguntas. Seu único obstáculo foi a língua antiga que lhes foi exigida para manter contato.
Melhor, ressoou Glaedr depois. Bem melhor. Ele curvou seu olhar na direção de Eragon. Você e eu teremos que treinar juntos em breve.
— É claro, Skulblaka.
O velho dragão bufou e se arrastou ao lado de Oromis, meio que pulando com a perna da frente para compensar a que não tinha. Lançando-se para a frente, Saphira mordeu a ponta do rabo de Glaedr, jogando-o para o ar com o girar de sua cabeça, como faria para quebrar o pescoço de um gamo. Ela recuou assim que Glaedr se virou e abocanhou seu pescoço, expondo seus enormes caninos.
Eragon estremeceu e, um pouco tarde demais, cobriu seus ouvidos para protegê-los do rugido de Glaedr. A velocidade e a intensidade da reação de Glaedr sugeriram a Eragon que não havia sido a primeira vez que Saphira o perturbara ao longo do dia. Em vez de remorso, Eragon percebeu que ela na verdade estava excitada, se divertia — como se fosse uma criança com um brinquedo novo — e demonstrava uma devoção quase cega pelo outro dragão.
— Contenha-se, Saphira! — disse Oromis. Saphira se empinou para trás e se acomodou sobre seus quadris, embora nada em sua conduta expressasse arrependimento. Eragon murmurou débeis desculpas até que Oromis fez um aceno com a mão e disse: — Fora, os dois.
Sem discutir, Eragon montou sobre Saphira. Ele teve de apressá-la para decolarem logo e, assim que o fez, ela insistiu em girar três vezes sobre a clareira até o Cavaleiro conseguir fazê-la virar na direção de Ellesméra. O que deu em você para mordê-lo?, perguntou. Ele achava que sabia, mas queria que ela confirmasse.
Eu só estava brincando.
Era a verdade, visto que eles falaram na língua antiga, contudo Eragon suspeitava de que se tratava de apenas um pedaço de uma verdade maior. Sim, mas de quê? Ela ficou tensa embaixo do parceiro. Você se esquece do seu dever. Ao... Ele buscava a palavra certa. Incapaz de encontrá-la voltou a falar sua língua nativa. Ao provocar Glaedr, você distraiu a ele, a Oromis e a mim... e retardou aquilo que temos de concluir. Você nunca foi tão descuidada antes.
Não se atreva a ser minha consciência.
Ele riu então, e por um instante foi negligente com o fato de estar sentado entre as nuvens, rolando para o lado até quase cair da ponta dos ombros do dragão. Oh, que grande ironia, depois de todo o tempo que você passou me dizendo o que fazer. Sou a sua consciência, Saphira, tanto quanto você é a minha. Você teve bons motivos para me castigar e me dar conselhos no passado e agora devo fazer o mesmo por você: pare de importunar Glaedr com seus galanteios.
Ela permaneceu em silêncio.
Saphira?
Estou ouvindo.
Espero que sim.
Depois de um minuto voando em paz, ela disse: Dois ataques em um dia. Como você está agora?
Dolorido e indisposto. Ele fez uma careta. Parte por causa do Rimgar e dos embates, mas principalmente devido aos efeitos secundários da dor. E como um veneno, enfraquece os meus músculos e nubla a minha mente. Eu só espero continuar são tempo suficiente para o treinamento. Depois, no entanto... não sei o que farei. Certamente não posso lutar pelos Varden assim.
Não pense nisso, ela aconselhou-o. Você não pode alterar sua condição, não se culpe. Viva no presente, lembre-se do passado e não tema pelo futuro, pois ele não existe e nunca existirá. Só existe o agora.
Ele bateu no ombro de Saphira e sorriu com uma gratidão resignada. A sua direita, um milhafre pegava uma corrente de ar quente enquanto patrulhava a floresta descontínua em busca de sinais de presas peludas ou cheias de penas. Eragon observava a cena, refletia sobre a pergunta que Oromis havia lhe feito: Como ele poderia justificar a guerra contra o Império quando ela iria causar tanto pesar e agonia?
Tenho uma resposta, disse Saphira.
Qual é?
Que Galbatorix tem... ela hesitou, mas depois disse: Não irei lhe dizer nada. Você deve descobrir isso sozinho.
Saphira! Seja razoável.
Estou sendo razoável. Se você não sabe por que nós fazemos a coisa certa, pode muito bem se render a Galbatorix por todo o bem-estar que você propiciará. Não importou o quão eloquentes foram os argumentos, ele não conseguia arrancar mais nada de Saphira, ela bloqueou aquela parte de sua mente.
De volta aos seus aposentos, Eragon fez uma refeição leve e estava prestes a abrir um dos pergaminhos de Oromis quando uma batida na porta de tela o interrompeu.
— Entre — disse ele desejando ver Arya novamente. E era ela.
Arya cumprimentou Eragon e Saphira e depois disse:
— Achei que você poderia apreciar a oportunidade de visitar a Mansão Tialdarí e seus jardins, já que expressou interesse neles ontem. Isso se você não estiver muito cansado. — Ela usava uma saia vermelha e leve decorada com desenhos intricados bordados com linha preta. O desenho colorido repetia o padrão dos mantos da rainha e enfatizava a forte semelhança entre mãe e filha.
Eragon abandonou os pergaminhos.
— Ficaria encantado em vê-los.
Ele quer dizer que ficaríamos encantados, acrescentou Saphira.
Arya pareceu surpresa ao ver que ambos falaram na língua antiga, por isso Eragon explicou a ordem de Oromis.
— Excelente ideia — disse Arya, falando na mesma língua. — E será mais apropriado vocês falarem assim enquanto estiverem por aqui.
Assim que os três desceram da árvore, Arya os guiou para oeste, em direção a outra face de Ellesméra. Encontraram muitos elfos no caminho, todos pararam e se curvaram perante Saphira.
Eragon notou mais uma vez que não havia crianças elfas à vista. Ele mencionou tal fato para Arya e ela disse:
— Sim, temos algumas crianças. Só duas estão em Ellesméra no momento, Dusan e Alanna. Estimamos as crianças acima de tudo pelo fato de elas serem tão raras. Ter uma criança é a maior honra e responsabilidade que pode ser concedida a qualquer ser vivo.
Finalmente chegaram a uma arcada alta e pontiaguda, cheia de suportes — fixada entre duas árvores —, era a entrada para um amplo complexo. Ainda falando na língua antiga, Arya entoou:
— Raiz da árvore, fruto da videira, deixe-me passar pelo meu sangue que há nessa clareira.
As duas portas da arcada estremeceram, depois abriram, liberaram cinco borboletas soberanas que esvoaçaram rumo ao céu sombrio. Do outro lado da arcada havia um vasto jardim de flores planejado para parecer tão imaculado e natural quanto uma campina selvagem. O único elemento destoante era a variedade de plantas, muitas das espécies estavam vicejando fora da estação, ou vinham de climas mais quentes ou frios e jamais teriam florescido sem a magia dos elfos. A cena era iluminada pelas lanternas sem chamas que mais pareciam joias, acrescida por constelações de pirilampos.
Para Saphira, Arya disse:
— Tenha cuidado com o seu rabo, para que ele não roce nos canteiros.
Avançando, os três atravessaram o jardim pela trilha de árvores dispersas. Antes que Eragon soubesse bem onde estava, as árvores tornaram-se mais numerosas até se aglomerarem ao ponto de formar uma muralha. Ele percebeu, então, a soleira da porta de uma mansão, de madeira polida, sem sequer tomar consciência de que havia entrado.
A mansão era quente e acolhedora — lugar de paz, reflexão e conforto. Sua forma era determinada pelos troncos das árvores descascadas e polidas com óleo até a madeira brilhar como âmbar. Vãos regulares entre os troncos serviam de janelas. O aroma das folhas de pinheiro esmagadas perfumava o ar. Um certo número de elfos ocupava a mansão, liam, escreviam e, num canto escuro, tocavam uma série de foles de bambu.
Todos pararam e inclinaram suas cabeças, reconheciam a presença de Saphira.
— Vocês ficariam aqui — disse Arya — caso não fossem Cavaleiro e dragão.
— É magnífico — respondeu Eragon.
Arya os guiou por todos os cantos do complexo que era acessível a dragões. Cada nova sala era uma surpresa, não havia duas iguais, e cada câmara revelava maneiras diferentes para incorporar a floresta em sua construção. Em uma sala, um córrego prateado escorria pela muralha antiga, fluía pelo chão sobre um veio de seixos, depois saía para o ar livre.
Em outra sala, trepadeiras, de uma espécie de verde e frondosa, adornavam com flores em forma de trombeta nos tons mais delicados de rosa e branco todo o ambiente, exceto o chão. Arya a chamava de Vinha Lianí. Viram muitas grandes obras de arte, de desenhos e pinturas a esculturas e mosaicos radiantes de vitrais — todos baseados nas formas naturais de plantas e animais.
Islanzadí os encontrou brevemente num pavilhão aberto que se unia a dois outros prédios através de passagens cobertas. Ela perguntou sobre os progressos no treinamento de Eragon e sobre como estavam suas costas, e o Cavaleiro respondeu a ambas as indagações com frases curtas e educadas. Isso pareceu ter deixado a rainha satisfeita, ela trocou algumas palavras com Saphira e depois partiu.
No fim, voltaram para o jardim. Eragon andou ao lado de Arya — Saphira ia atrás — arrebatado pelo som de sua voz enquanto ela lhe falava sobre as espécies diferentes de flores, de onde elas se originaram, como foram cultivadas e manipuladas pela magia. Ela também apontou as flores que só abriam suas pétalas durante a noite, como um estramonio branco.
— Qual é a sua favorita? — perguntou ele.
Arya sorriu e o conduziu até uma árvore que ficava no canto do jardim, perto de uma lagoa cercada por juncos. Em volta do galho mais baixo da árvore, havia uma ipomeia com três flores negras e aveludadas, hermeticamente fechadas.
Soprando sobre elas, Arya sussurrou:
— Abram.
As pétalas farfalhavam enquanto se expandiam, abanaram seus mantos negros para expor o néctar acumulado em seus centros. Raios de luz azul-escura encheram o cálice das flores, espalharam-se pela corola negra como os vestígios do dia dentro da noite.
— Não é a flor mais linda e perfeita? — perguntou Arya.
Eragon a encarou, deliciosamente consciente de sua proximidade, e disse:
— Sim... é verdade. — Antes que sua coragem o abandonasse, ele acrescentou: — Assim como você.
Eragon!, exclamou Saphira.
Arya fixou seus olhos sobre ele, observando-o atentamente até que se sentisse forçado a desviar o olhar. Quando ousou encará-la novamente, o rapaz ficou aflito ao vê-la sorrindo levemente, como tivesse se divertido com sua reação.
— Você é muito gentil — murmurou ela. Levantando o braço, a elfa tocou na pétala de uma flor e olhou para ele de onde estava. — Faölin criou essa aqui especialmente para mim durante um solstício de verão há muito tempo atrás.
Ele mudou de lugar e respondeu com algumas palavras ininteligíveis, magoado e ofendido por ela não ter levado seu elogio mais a sério. Eragon bem que gostaria de desaparecer, e até mesmo considerou a possibilidade de fazer um encanto exatamente para isso.
Por fim, ele se levantou e disse:
— Por favor, desculpe, Arya Svit-kona, mas está tarde e temos de voltar para a nossa árvore.
O sorriso da elfa ficou mais intenso.
— É claro, Eragon. Entendo. — Ela os acompanhou até a arcada principal, lhes abriu as portas e disse: — Boa-noite, Saphira. Boa-noite, Eragon.
Boa-noite, respondeu Saphira.
Apesar do embaraço, Eragon não pôde deixar de perguntar.
— Será que veremos você amanhã?
Arya inclinou a cabeça.
— Provavelmente estarei ocupada. — Depois disso as portas se fecharam, impedindo que ele a visse voltando para o complexo principal.
Agachando-se bastante para poder passar pela trilha, Saphira cutucou Eragon. Pare de sonhar acordado e suba nas minhas costas. Depois de subir, ele tomou seu lugar de praxe, agarrou o espinho do pescoço em frente a ele, e Saphira se ergueu. Assim que se afastaram um pouco, ela se pronunciou: Como você pode criticar a minha conduta com Glaedr e depois faz algo parecido? No que estava pensando?
Você sabe o que sinto em relação a ela, murmurou.
Bah! Se você é a minha consciência e eu sou a sua, então é meu dever alertá-lo quando estiver agindo como um dândi iludido. Você não está usando a lógica, como Oromis fica dizendo para que façamos. que você realmente espera que aconteça entre você e Arya? Ela é uma princesa!
E eu sou um Cavaleiro.
Ela é uma elfa, você é um humano!
A cada dia que passa eu me pareço cada vez mais com um elfo.
Eragon, ela tem mais de cem anos de idade!
Viverei tanto tempo quanto ela ou qualquer outro elfo.
Ah, mas ainda não viveu, e esse é o problema. Você não pode superar tal vasta diferença. Ela é uma mulher adulta, tem um século de experiência, enquanto você é...
O quê? O que eu sou?, perguntou rispidamente. Uma criança? É isso que você quer dizer?
Você não é uma criança. Não depois do que viu e fez desde que nos unimos. Mas é jovem, mesmo aos olhos da sua raça jovem — muito mais aos olhos dos duendes, dragões e elfos.
Assim como você.
Sua réplica a silenciou por um instante. Até que: Eu só estou tentando protegê-lo, Eragon. Só isto. Quero que você seja feliz e temo que não o será se insistirem em importunar Arya.
Os dois estavam prestes a se recolher quando ouviram a porta do alçapão no vestíbulo bater ao ser aberta e o retinir da cota enquanto alguém subia por dentro da árvore. Com Zar’roc na mão, Eragon afastou a porta de tela, pronto para lutar.
Sua mão caiu assim que ele viu Orik no chão. O anão tomou um bom gole da garrafa que trazia na mão esquerda, e depois olhou de soslaio para Eragon e falou de forma enrolada por culpa da quantidade absurda de álcool ingerida.
— E aí, garoto, cadê você? Ah, aí está vochê... Estava querendo saber onde você estava. Não conseguia encontrá-lo, por isso pensei que dada essa bela e dolorosa noite, eu podia encontrá-lo... e aqui está você! O que podemos conversar, você e eu, agora que estamos juntos neste agradável ninho de passarinho?
Segurando o braço livre do anão, Eragon o puxou e o colocou em pé, ficou surpreso, como sempre, ao constatar como Orik era pesado, igual a um seixo em miniatura. Quando Eragon deixou de segurá-lo, Orik balançou de um lado para o outro, ficando em ângulos tão instáveis que ameaçava tombar à menor provocação.
— Entre — disse Eragon em sua própria língua. Ele fechou o alçapão. — Você vai acabar ficando resfriado se continuar aí.
Orik piscou seus olhos arredondados e profundos para Eragon.
— Eu não o vi perto do meu retiro frondoso, não vi mesmo. Você me abandonou na companhia dos elfos... eles são enfadonhos e são péssima companhia, e como são.
Um leve sentimento de culpa fez Eragon disfarçar um sorriso desajeitado. Ele havia se esquecido do anão em meio a tudo que vinha acontecendo.
— Lamento não tê-lo visitado, Orik, mas meus estudos têm me mantido ocupado. Venha, dê-me o seu manto. — Enquanto ajudava o anão a tirar seu manto marrom, ele perguntou: — O que você está bebendo?
— Faelnirv — declarou Orik. — Uma dose fantástica, dá para virar facilmente de uma vez só. A melhor e a maior de todas as invenções dos elfos, ela lhe dá o dom da tagarelice. As palavras fluem da sua boca como se fossem cardumes de peixes fluviais, como bandos de beija-flores excitados, como rios de cobras em compulsão. — Ele hesitou, aparentemente tomado pela magnificência única de suas analogias. Eragon o conduziu até o quarto, Orik saudou Saphira com sua garrafa e disse: — Saudações, ó Dente de Ferro. Que suas escamas brilhem tanto quanto os carvões da fundição de Morgothal.
Saudações, Orik, disse Saphira, deitando a cabeça na beirada de sua cama. O que o deixou nesse estado? Você não é assim. Eragon repetiu a mesma pergunta.
— O que me deixou nesse estado? — repetiu Orik. Ele caiu na cadeira que Eragon havia providenciado, os pés pendiam a alguns centímetros acima do chão, e começou a balançar a cabeça. — Gorros vermelhos, gorros verdes, elfos aqui e acolá. Já estou por aqui com os elfos e sua cortesia triplamente maldita. Eles não têm energia. E não falam nada. Sim senhor, não senhor, não dá para arrancar nada desses chatos. — Ele olhou para Eragon com uma expressão triste. — O que ficarei fazendo enquanto durar o seu aprendizado? Será que vou ter de ficar aqui sentado girando os polegares enquanto viro pedra e me junto aos espíritos dos meus ancestrais? Diga-me, ó sagaz Cavaleiro.
Você não possui habilidades ou hobbies com os quais possa se ocupar?, perguntou Saphira.
— Sim — disse Orik. — Sou um ferreiro bom o suficiente para qualquer um que queira julgar. Mas por que devo fabricar armas e armaduras brilhantes para quem não lhes dá valor? Sou inútil aqui. Tão inútil quanto um Feldünost de três pernas.
Eragon estendeu uma das mãos em direção à garrafa.
— Posso? — Orik olhou para ele e para a garrafa, depois fez uma careta e desistiu. O faelnirv estava gelado ao descer pela garganta de Eragon, ardendo e pungindo. Ele piscou e seus olhos marejaram. Depois que se deliciou com um segundo gole, ele devolveu a garrafa para Orik, já desapontado pelo pouco que sobrou da bebida.
— Que travessuras — perguntou Orik — vocês têm aprontado com Oromis em sua bucólica floresta?
O anão alternava risadas suspiros. Eragon descrevia o seu treinamento, a bênção mal aplicada em Farthen Dûr, a Menoa, suas costas e tudo o mais nos últimos dias. O jovem terminou com o assunto que lhe era mais precioso no momento: Arya. Encorajado pelo licor, confessou seu afeto pela elfa e descreveu como ela havia rechaçado a sua investida. Balançando o dedo, Orik disse:
— A rocha abaixo de você está rachada, Eragon. Não provoque o destino. Arya... — Ele parou, depois resmungou e tomou outro gole de faelnirv. — Ah, é tarde demais para isso. Quem sou eu para dizer o que é sabedoria e o que não é?
Saphira já havia fechado os seus olhos há algum tempo. Sem os abrir, ela perguntou. Você é casado, Orik? A pergunta surpreendeu Eragon, ele jamais havia parado para pensar na vida pessoal de Orik.
— Eta — respondeu Orik. — Embora esteja comprometido com Hvedra, filha de Thorgerd Um-olho e Himinglada. Éramos para ter casado nesta primavera, até que os Urgals atacaram e Hrothgar me mandou fazer essa maldita viagem.
— Ela é do Dûrgrimst Ingeitum? — perguntou Eragon.
— É claro! — bradou o anão, batendo com o punho na lateral da cadeira. — Você acha que eu iria me casar com alguém de fora do meu clã? Ela é neta da minha tia Vardrûn, prima de segundo grau de Hrothgar, com panturrilhas roliças e macias como cetim, bochechas vermelhas como maçãs, e é a donzela anã mais linda que já existiu.
Sem dúvida, disse Saphira.
— Estou certo de que não demorará muito para você vê-la novamente — disse Eragon.
— Humpf — disse Orik enquanto olhava de soslaio para o Cavaleiro. — Você acredita em gigantes? Gigantes altos, fortes, corpulentos e barbados com dedos que parecem pás?
— Nunca vi nem ouvi falar deles — disse Eragon —, exceto em histórias. Se eles existem, não é na Alagaësia.
— Ah, mas existem! Existem sim! — exclamou Orik, agitando a garrafa sobre a sua cabeça. — Diga-me, oh, Cavaleiro, se um gigante medonho o encontrasse na trilha do jardim, do que ele o chamaria se não fosse de jantar?
— Eragon, presumo.
— Não, não. Ele o chamaria de anão, pois aos olhos dele você seria um anão. — Orik deu uma gargalhada e cutucou as costelas de Eragon com seu cotovelo duro. — Está vendo você agora? Humanos e elfos são os gigantes. Este lugar está cheio deles, aqui, acolá e em toda parte, batendo seus pés enormes e projetando sobre nós suas sombras intermináveis. — Ele continuou a rir, balançando a cadeira onde estava até que ela virou, fazendo-o cair no chão com um baque surdo. Enquanto o ajudava a se levantar, Eragon disse:
— Acho melhor você ficar aqui esta noite. Não está em condições de descer esses degraus no escuro.
Orik concordou com uma alegre indiferença. Ele permitiu que Eragon removesse a sua cota e o colocasse num dos lados da cama. Depois de tudo o jovem suspirou, apagou as luzes e deitou ao seu lado no colchão.
Adormeceu ouvindo o anão murmurar:
— Hvedra... Hvedra... Hvedra...

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