22 de maio de 2017

Capítulo 40 - Du Súndavar Freohr

As primeiras coisas que Eragon notou foram que ele estava aquecido e seco. Sua bochecha estava pressionada contra um tecido grosso e suas mãos estavam desamarradas. Ele mexeu-se, mas levou alguns minutos para poder ser capaz de se levantar e examinar o ambiente que o cercava.
Ele estava sentado em uma cela, sobre um catre, cheio de calombos. Havia uma janela no alto fechada por grades. A porta da cadeia, que possuía uma pequena janela na metade superior, bloqueada por barras como a da parede, estava trancada de forma segura.
Sangue seco trincou no rosto de Eragon quando ele se mexeu. Demorou um momento para perceber que o sangue não era seu. A cabeça doía horrivelmente — o que era de se esperar, considerando o golpe que havia levado — e sua mente estava estranhamente confusa. Tentou usar magia, mas não podia se concentrar o bastante para lembrar sequer uma das palavras da língua antiga. Eles devem ter me drogado, concluiu finalmente.
Com um gemido se pôs de pé, sentindo falta do peso familiar de Zar’roc na cintura, e foi cambaleando até a janela na parede. Conseguiu olhar por ela ao ficar nas pontas dos pés. Levou um minuto para que seus olhos se ajustassem à claridade do lado de fora. A janela estava no mesmo nível do chão.
Uma rua cheia de pessoas apressadas passava bem ao lado da cela dele, atrás da qual havia fileiras de casas de madeira idênticas.
Sentindo-se fraco, Eragon foi escorregando até o chão e fixando nele um olhar inexpressivo. O que ele viu do lado de fora o perturbou, mas não tinha certeza do por quê. Xingando o seu pensamento lento, recostou a cabeça e tentou limpar a mente. Um homem entrou na cela e pôs uma bandeja de comida e uma jarra de água sobre o catre. Quanta gentileza! Pensou sorrindo amigavelmente. Comeu um pouco da sopa de repolho e do pão velho, mal conseguindo engoli-los. Gostaria que ele tivesse me trazido algo melhor, reclamou deixando cair a colher.
De repente, percebeu o que estava errado. Fui capturado pelos Urgals, não por homens! Como vim parar aqui? O cérebro confuso lutava com esse paradoxo sem sucesso. Com um esforço mental, colocou essa descoberta de lado quando viu que não sabia o que fazer com ela.
Ele sentou-se no catre e olhou fixamente para longe. Horas depois, trouxeram mais comida. Eu já estava ficando com fome, pensou de modo pouco claro. Desta vez foi capaz de comer sem ficar enjoado.
Quando terminou, decidiu que era hora de tirar uma soneca. Afinal, ele estava em uma cama, o que mais poderia fazer? A mente foi se acalmando, o sono começou a tomar conta dele. Foi quando, em algum lugar, um portão fez barulho ao ser aberto e o ruído constante de botas com reforço de aço batendo no piso de pedra encheu o ar. O ruído foi ficando cada vez mais alto até parecer que alguém batia com uma panela dentro da cabeça de Eragon. Ele resmungou consigo mesmo:
— Será que não podem me deixar descansar em paz? — Uma curiosidade confusa foi, lentamente, superando sua exaustão, até que conseguiu se arrastar até a porta, piscando como uma coruja.
Pela janela, viu um corredor largo com mais de nove metros de comprimento. A parede oposta estava pontilhada por celas similares à dele. Uma coluna de soldados marchou pelo corredor, com as espadas desembainhadas, de prontidão. Todos os homens trajavam armaduras iguais, seus rostos exibiam a mesma expressão implacável, e seus pés batiam no chão com uma precisão mecânica, nunca perdendo o compasso. O som era hipnótico. Era uma demonstração de força impressionante.
Eragon observou os soldados até ficar entediado. E foi quando notou uma abertura no meio da fileira. Uma mulher inconsciente estava sendo carregada entre dois homens corpulentos.
Seus cabelos longos e escuros como a noite, escondiam seu rosto, apesar de haver uma tira de couro amarrada em sua cabeça para manter suas madeixas para trás. Vestia uma calça e uma camisa feitas de couro escuro. Um cinto brilhante estava preso em sua cintura fina, de onde pendia uma bainha vazia em seu lado direito. Botas altas, até o joelho, cobriam suas pernas e seus pés pequenos.
A cabeça dela estava caída para o lado. Eragon suspirou, como se tivesse sido atingido no estômago. Era a mulher dos sonhos dele. Seu rosto esculpido era perfeito como uma pintura. Seu queixo arredondado, suas maçãs do rosto altas e seus cílios longos davam a ela um visual exótico. A única coisa que maculava sua beleza era um arranhão em seu maxilar, mesmo assim era a mulher mais bonita que já havia visto.
O sangue de Eragon ferveu quando olhou para ela. Alguma coisa despertou nele, algo que nunca havia sentido. Era como uma obsessão, só que mais forte, era quase uma loucura inebriante. Então, o cabelo da mulher caiu para o lado, revelando suas orelhas pontudas. Um calafrio correu pelo corpo dele. Ela era uma elfa.
Os soldados continuaram marchando, levando-a para fora do seu campo de visão. Com passos largos, surgiu um homem alto, orgulhoso, uma capa negra ondulava atrás dele. Seu rosto era mortalmente branco, seu cabelo era vermelho. Vermelho como sangue.
Quando passou pela cela de Eragon, o homem virou a cabeça e olhou diretamente para ele com olhos castanho-avermelhados. Seu lábio superior contraiu-se em um sorriso cruel, revelando seus dentes pontudos, como se tivessem sido lixados. Eragon se jogou para trás. Ele sabia o que o homem era. Ele é um Espectro! Socorro... Um Espectro! A procissão continuou, e o Espectro sumiu de vista.
Eragon caiu no chão, abraçando a si mesmo. Mesmo em seu estado inebriado, ele sabia que a presença de um Espectro significava que o mal estava solto por aquelas terras. Sempre que essas criaturas apareciam, rios de sangue corriam. O que um Espectro está fazendo aqui? Os soldados deviam tê-lo matado imediatamente! Então os pensamentos dele voltaram para a elfa, e ele voltou a ser dominado por aquelas estranhas emoções.
Eu preciso fugir. Mas com sua mente confusa, sua determinação passou rapidamente. Voltou para o catre. No momento em que o corredor ficou em silêncio, adormeceu rapidamente.
Assim que Eragon abriu os olhos, ele soube que algo estava diferente. Pensava com mais facilidade, conseguiu perceber que estava em Gil’ead. Eles cometeram um erro. As drogas estão perdendo o efeito!
Esperançoso, tentou fazer contato com Saphira e usar sua magia, mas as duas atividades ainda estavam longe de seu alcance.
Uma ponta de preocupação queimava dentro dele quando pensava se ela e Murtagh tinham conseguido fugir. Esticou os braços e olhou pela janela. A cidade estava acabando de acordar, a rua estava vazia, com exceção de dois mendigos.
Pegou a jarra de água, refletindo sobre a elfa e o Espectro. Quando começou a beber, notou que a água tinha um odor suave, como se contivesse algumas gotas de um perfume rançoso. Fazendo uma careta, colocou a jarra no chão. A droga deve estar aí. E também deve estar na comida! Lembrou que quando os Ra’zac o drogaram o efeito levou horas para passar. Se eu puder evitar comer e beber por tempo suficiente, serei capaz de usar magia. Assim, poderei resgatar a elfa... Tal pensamento o fez sorrir. Sentou-se em um canto, sonhando sobre como poderia fazer isso.
O carcereiro corpulento entrou na cela uma hora depois com uma bandeja de comida. Eragon esperou até que ele saísse e levou a bandeja até a janela. A refeição era composta apenas de pão, queijo e uma cebola, mas o cheiro fez seu estômago roncar de fome. Aceitando forçar a si mesmo a passar um dia sem comer, jogou a comida para fora da janela, na rua, esperando que ninguém tivesse notado.
Eragon estava determinado a superar os efeitos das drogas. Tinha dificuldade para se concentrar durante qualquer período de tempo, mas com o passar do dia a sua acuidade mental aumentava. Começou a lembrar-se de várias palavras da língua antiga, embora nada acontecesse quando as pronunciava. Ele queria gritar de frustração.
Quando o almoço foi entregue, jogou-o fora pela janela como fez com o café da manhã. Podia esquecer a fome, mas era a sede que mais o atormentava. Sua garganta estava ressecada. Pensamentos de água fresca torturavam-no cada vez que sua respiração secava um pouco mais sua boca e sua garganta. Mesmo assim, forçou a si mesmo a ignorar a jarra.
Esqueceu-se de seu desconforto por uma comoção no corredor. Um homem argumentava em voz alta:
— Você não pode entrar ali! As ordens foram claras: ninguém pode falar com ele!
— É mesmo? O senhor está disposto a morrer tentando me deter, capitão? — Uma voz suave o cortou. O domínio ficou claro.
— Não... Mas o rei...
— Eu falarei com o rei — interrompeu a segunda pessoa. — Agora, abra a porta.
Depois de uma pausa, chaves chacoalharam do lado de fora da cela de Eragon, que tentou adotar uma expressão lânguida. Preciso agir como se não estivesse entendendo o que está acontecendo. Não posso demonstrar surpresa, não importa o que essa pessoa diga.
A porta abriu. Prendeu a respiração quando olhou para o rosto do Espectro. Era como se estivesse olhando para uma máscara mortuária ou para um crânio polido, com uma pele esticada por cima para dar uma aparência viva.
— Saudações — disse o Espectro com um sorriso frio, revelando seus dentes lixados. — Esperei muito tempo para conhecê-lo.
— Quem... Quem é você? — perguntou Eragon, embolando as palavras.
— Ninguém muito importante — respondeu o Espectro, seus olhos castanho-avermelhados brilhavam com uma ameaça controlada. Ele sentou jogando seu manto para trás. — Meu nome não importa para uma pessoa em sua posição. E também não significaria nada para você. É em você que tenho interesse. Quem é você?
A pergunta foi imposta com um tom inocente, mas Eragon sabia que devia haver segundas intenções, uma armadilha por trás dela, porém isso conseguiu iludi-lo. Ele tentou lutar contra a pergunta durante um tempo, mas respondeu lentamente, franzindo o rosto:
— Não tenho certeza... Meu nome é Eragon, mas isso não é tudo, não é?
Os lábios finos do Espectro se esticaram de forma tensa sobre sua boca quando riu de repente:
— Não, não é. Você tem uma mente interessante, meu jovem Cavaleiro. — O Espectro inclinou-se para a frente. A pele em sua testa era fina e translúcida. — Parece que preciso ser mais direto. Qual é o seu nome?
— Era...
— Não! Esse, não! — O Espectro interrompeu-o com um gesto de sua mão. — Você não tem outro nome? Um nome que você usa raramente?
Ele quer saber o meu nome de verdade para poder me controlar!, pensou Eragon. Mas não posso dizer. Eu nem mesmo sei tal nome. Pensou rápido, tentando inventar um logro que ocultaria sua ignorância. E se eu inventar um nome? Ele hesitou – isso poderia entregá-lo facilmente – depois se apressou para criar um nome que resistiria ao escrutínio. Quando estava prestes a dizê-lo, decidiu aproveitar a chance para assustar o Espectro.
Com habilidade, trocou algumas letras, concordou com a cabeça de modo tolo e disse:
— Brom me disse uma vez. Era... — A pausa se estendeu por alguns segundos, depois o rosto dele se iluminou, como se tivesse lembrado. — Era Du Súndavar Freohr. — O qual significa, quase literalmente, “morte dos espectros”.
Um frio macabro pairou sobre a cela quando o Espectro sentou-se estarrecido, com seus olhos cobertos. Parecia estar meditando profundamente sobre o que havia descoberto. Eragon imaginou se tinha ousado demais. Esperou até que o Espectro se mexesse para perguntar ingenuamente:
— Por que você está aqui?
O Espectro olhou-o com seus olhos vermelhos emanando desprezo e sorriu.
— Para tripudiar, claro. De que adianta a vitória se não se puder aproveitá-la? — Havia confiança na voz dele, mas não parecia estar tranquilo, como se seus planos tivessem sido atrapalhados. Ele pôs-se de pé de repente. — Preciso cuidar de certos assuntos, mas enquanto eu estiver longe, gostaria que você pensasse em quem preferiria servir: a um Cavaleiro que traiu sua própria ordem ou a um homem como eu, com muita instrução sobre as artes ocultas. Quando chegar a hora de escolher, não haverá meio-termo. — Virou-se para sair, mas olhou de relance para a jarra de água de Eragon e parou, a expressão do seu rosto ficou dura como granito. — Capitão! — gritou ele de repente.
Um homem de ombros largos entrou correndo na cela, espada em punho.
— Pois não, senhor? — perguntou ele alarmado.
— Ponha esse brinquedo de lado — instruiu o Espectro. Depois, virou-se para Eragon e disse com uma voz mortífera e baixa: — O rapaz não tem bebido sua água. Por quê?
— Falei com o carcereiro mais cedo. Todos os pratos e jarras voltaram vazios.
— Muito bem — disse o Espectro, tranquilizado. — Mas certifique-se de que ele comece a beber de novo. — O Espectro inclinou-se em direção ao capitão e cochichou no ouvido dele. Eragon ouviu as últimas palavras “... uma dose extra, por precaução”. O capitão concordou com a cabeça. O Espectro voltou sua atenção para Eragon. — Conversaremos novamente amanhã, quando terei muito mais tempo disponível. Você devia saber, tenho um fascínio infindável por nomes. Gostarei muito de falar sobre o seu com muito mais detalhes.
O modo como falou fez Eragon sentir uma grande ansiedade. Assim que saíram, Eragon deitou no catre e fechou os olhos. As lições de Brom provaram seu valor agora, ele se baseou nelas para evitar que entrasse em pânico e para se tranquilizar. Tudo já foi arranjado para mim, eu só preciso tirar vantagem disso.
Os seus pensamentos foram interrompidos pelo som de soldados que se aproximavam. Apreensivo, aproximou-se da porta e viu dois soldados arrastando a elfa corredor abaixo. Quando não podia mais vê-la, Eragon jogou-se no chão e tentou usar a magia de novo. Xingamentos saíram de sua boca quando a magia escapou de seu domínio.
Olhou para a cidade e rangeu os dentes. Era apenas o meio da tarde. Inspirando de maneira que o acalmasse, tentou esperar pacientemente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)