8 de maio de 2017

Capítulo 39

Durante essa luta
Fotografar, só sem flash
Ops. Foi mal. Ha-ha.

OS DEDOS DE THALIA puxaram a corda do arco. Uma gota de suor, prateada como água da lua, desceu pela lateral do rosto.
— Às suas ordens — ela me disse. — É só dizer, e eu abro um buraco bem no meio da cara desse imperador idiota.
Era uma proposta tentadora, mas eu sabia que ela não estava falando sério. Thalia sentia tanto medo quanto eu de pôr a vida de Leo e Emmie em risco... e principalmente a da pobre Georgie, que já tinha passado por tantas coisas horríveis. Era improvável que qualquer uma de nossas armas matasse um imortal como Cômodo, ainda por cima acompanhado de dois guardas. Por mais rápidos que fôssemos, não conseguiríamos salvar nossos amigos.
Josephine mexeu na submetralhadora. O macacão estava respingado de gosma, pó e sangue. O cabelo curto e grisalho brilhava por causa do suor.
— Vai ficar tudo bem, amor — murmurou ela. — Fique calma.
Eu não sabia se ela estava falando com Emmie, com Georgie ou consigo mesma.
Ao lado dela, as mãos de Calipso estavam paralisadas no ar, como se ela estivesse na frente do seu tear, pensando no que tecer. Os olhos estavam grudados em Leo. Ela balançou a cabeça de leve, talvez dizendo para ele Não seja idiota. (Ela falava isso com frequência.)
Litierses estava ao meu lado. O ferimento na perna tinha começado a sangrar de novo, encharcando as ataduras. O cabelo e as roupas estavam chamuscados, como se ele tivesse corrido por um corredor polonês de lança-chamas, a camisa parecendo um marshmallow queimado. A julgar pela lâmina ensanguentada da espada, concluí que era ele o responsável pelo novo corte na cara de Cômodo.
— Isso não vai acabar bem — murmurou Lit para mim. — Alguém tem que morrer.
— Não — falei. — Thalia, baixe o arco.
— O quê?
— Josephine, sua arma também. Por favor.
Cômodo riu.
— Sim, vocês todos deviam ouvir Lester! E, Calipso, querida, se você tentar conjurar um daqueles espíritos do vento de novo, eu vou matar seu amiguinho aqui.
Olhei para a feiticeira.
— Você conjurou um espírito?
Ela assentiu, distraída e abalada.
— Um pequeno.
— Só vamos deixar claro — gritou Leo — que eu não sou amiguinho coisa nenhuma. Nada de usar diminutivos para se referir a mim, ok? — Ele levantou os braços, embora o pescoço estivesse imobilizado por um dos guardas. — Além do mais, pessoal, está tudo bem. Tudo sob controle.
— Leo — falei, com a voz firme —, tem um bárbaro de dois metros segurando uma besta contra sua cabeça.
— É, eu sei — disse ele. — É tudo parte do plano!
Ao falar a palavra plano, ele piscou para mim de forma exagerada. Ou Leo realmente tinha um plano (improvável, pois, nas semanas em que convivemos, ele recorreu muito mais a blefes, piadas e improvisação), ou esperava que eu tivesse. O que era terrivelmente provável. Como já devo ter mencionado, as pessoas sempre cometiam esse erro. Não é porque sou deus que vou ter todas as respostas!
Cômodo levantou dois dedos.
— Albatrix, se o semideus falar de novo, você tem minha permissão para disparar nele.
O bárbaro grunhiu em concordância. Leo fechou a boca. Eu vi nos olhos dele que, mesmo sob a mira de uma besta, ele estava lutando para não soltar uma resposta ferina.
— Agora! — disse Cômodo. — Como estávamos discutindo antes de Lester chegar, eu exijo o Trono de Mnemosine. Onde está?
Graças aos deuses! O trono ainda estava escondido, o que significava que Meg tinha salvação.
Saber disso fortaleceu minha determinação.
— Você está me dizendo — perguntei — que seu grande exército cercou e invadiu este lugar e não conseguiu nem encontrar uma cadeirinha? Isso é só o que você tem agora, dois germânicos palermas e uns reféns? Que tipo de imperador você é? Agora, seu pai, Marco Aurélio... Ele, sim, era um imperador.
A expressão dele azedou. Os olhos escureceram. Eu me lembrei da vez em que um servo derramou vinho nas vestes de Cômodo. Ele ficou com a mesma expressão sombria enquanto batia no garoto com um cálice de chumbo até quase matá-lo. Eu ainda era um deus naquela época, e achei o incidente um pouco desagradável. Agora, sabia melhor como era estar do outro lado da crueldade de Cômodo.
— Eu não terminei, Lester — rosnou ele. — Admito que este maldito prédio foi mais problemático do que eu esperava. Culpo meu ex-prefeito, Alaric. Ele estava lamentavelmente despreparado. Tive que matá-lo.
— Não me diga — murmurou Litierses.
— Mas a maior parte dos meus soldados só está perdida — disse Cômodo. — Eles vão voltar.
— Perdida? — Olhei para Josephine. — Para onde foram?
Seus olhos permaneceram grudados em Emmie e Georgie, mas ela pareceu cheia de orgulho ao responder:
— Pelo que a Estação Intermediária está me dizendo — explicou ela —, metade das tropas monstruosas dele caíram em um túnel gigantesco marcado como LAVANDERIA. O resto acabou na sala da fornalha. Ninguém volta da sala da fornalha.
— Não importa! — gritou Cômodo.
— E os mercenários dele — continuou Josephine — acabaram no Centro de Convenções Indiana. Agora, estão tentando se livrar dos inúmeros corredores da Expo Casa e Jardim.
— Soldados são dispensáveis! — berrou Cômodo. Sangue escorria do novo ferimento facial, salpicando a armadura e a veste. — Seus amigos aqui não são tão facilmente substituíveis. Nem o Trono da Memória. Então, vamos fazer um acordo! Vou levar o trono. Vou matar a garota e Lester e derrubar este prédio. Foi o que a profecia me mandou fazer, e nunca discuto com oráculos! Em troca, os outros serão libertados. Não preciso deles mesmo.
— Jo. — Emmie disse o nome dela como se estivesse dando uma ordem. Talvez ela quisesse dizer: Você não pode deixá-lo vencer. Ou: Você não pode deixar Georgina morrer.
Fosse o que fosse, no rosto de Emmie eu vi aquele mesmo descaso pela vida mortal que teve quando era uma jovem princesa e se jogou do penhasco. Ela não ligava para a morte, desde que fosse nos termos dela. A luz determinada em seus olhos não se apagou em três mil anos.
Luz...
Um tremor percorreu meu corpo. Eu me lembrei de uma coisa que Marco Aurélio dizia para o filho, uma citação que depois ficou famosa em seu livro Meditações: “Pense em si mesmo como morto. Você viveu sua vida. Agora, pegue o que restou e viva direito. O que não transmite luz cria sua própria escuridão.”
Cômodo odiava esse conselho. Achava sufocante, pretensioso, impossível. O que era viver direito? Cômodo pretendia viver para sempre. Afastaria a escuridão com o rugido das plateias e o brilho do espetáculo.
Mas ele não gerava luz.
Não como a Estação Intermediária. Marco Aurélio aprovaria este lugar. Emmie e Josephine viviam direito com o tempo que tinham, criando luz para todos que apareciam por lá. Não era uma surpresa que Cômodo as odiasse. Não era uma surpresa que o imperador estivesse tão determinado a destruir aquela ameaça ao seu poder.
E Apolo, acima de tudo, era o deus da luz.
— Cômodo. — Eu me empertiguei todo, tentando ficar maior que a minha nada impressionante altura. — Este é o único acordo. Você vai soltar seus reféns. Vai sair daqui de mãos vazias e não vai voltar nunca mais.
O imperador riu.
— Isso seria mais intimidante se viesse de um deus, não de um adolescente espinhento.
Os germânicos eram treinados para ficarem impassíveis, mas não conseguiram conter os sorrisinhos de desprezo. Eles não me temiam. Agora, não havia problema nisso.
— Eu ainda sou Apolo. — Abri os braços. — Última chance de sair por vontade própria.
Detectei um brilho de dúvida nos olhos do imperador.
— O que você vai fazer... me matar? Ao contrário de você, Lester, eu sou imortal. Não posso morrer.
— Eu não preciso matar você. — Fui até a beirada da mesa de jantar. — Olhe para mim com atenção. Não reconhece minha natureza divina, velho amigo?
Cômodo sibilou.
— Reconheço o traidor que me estrangulou na banheira. Reconheço o suposto deus que me prometeu bênçãos e me abandonou! — Sua voz tremia de dor, que ele tentou esconder atrás de uma careta arrogante. — Só vejo um adolescente flácido com pele oleosa. E que também precisa urgentemente cortar o cabelo.
— Meus amigos — falei para os outros —, quero que vocês desviem o olhar. Estou prestes a revelar minha verdadeira forma divina.
Como não eram bobos nem nada, Leo e Emmie fecharam bem os olhos. Emmie cobriu o rosto de Georgina com a mão. Eu esperava que os amigos ao meu lado na mesa de jantar fizessem o mesmo. Precisava acreditar que eles confiavam em mim, apesar dos meus fracassos, apesar da minha aparência.
Cômodo fez um ruído de deboche.
— Você está molhado e sujo de cocô de morcego, Lester. É um moleque patético que foi arrastado pela escuridão. Essa escuridão ainda está na sua mente. Vejo o medo nos seus olhos. Essa é sua verdadeira forma, Apolo! Você é uma fraude.
Apolo. Ele me chamou pelo meu nome.
Embora ele tentasse disfarçar, vi o terror e o choque em seus olhos. Pensei no que Trofônio tinha me contado: Cômodo mandava criados à caverna para obter respostas, mas nunca ia ele mesmo. Por mais que precisasse do Oráculo das Sombras, ele temia o que o lugar podia revelar, de quais dos seus medos mais profundos o enxame de abelhas se alimentaria.
Eu sobrevivi a uma jornada que ele jamais ousaria fazer.
— Vejam — falei.
Cômodo e seus homens poderiam ter afastado o olhar. Mas não fizeram isso. Em seu orgulho e desprezo, eles aceitaram meu desafio.
Meu corpo se aqueceu, cada partícula se acendendo em uma reação em cadeia. Como a lâmpada mais poderosa do mundo, enchi a sala de brilho. Eu me tornei pura luz.
Durou só um microssegundo. E os gritos começaram. Os germânicos recuaram, as bestas disparando loucamente. Uma flecha zuniu ao lado da cabeça de Leo e se fincou no sofá. A outra se despedaçou no chão, com farpas deslizando pelo piso.
Melodramático como sempre, Cômodo levou as mãos aos olhos e gritou:
— MEUS OLHOS!
Minha força sumiu. Eu me apoiei na mesa para não cair.
— Podem olhar — falei para os meus amigos.
Leo se soltou do germânico. Correu até Emmie e Georgina, e os três se afastaram enquanto Cômodo e seus homens, agora cegos, cambaleavam e uivavam, fumaça saindo das órbitas oculares.
Onde antes estavam os captores e reféns, havia silhuetas queimadas no piso. Os detalhes nas paredes de tijolos agora pareciam em altíssima definição. A capa do sofá mais próximo, antes vinho, estava rosa. A veste roxa de Cômodo também ficou mais clara e adquiriu um tom fraco de malva.
Eu me virei para meus amigos. As roupas deles também tinham mudado de cor, e a parte da frente do cabelo tinha mechas mais claras, mas todos mantiveram sabiamente os olhos fechados.
Thalia me observou, impressionada.
— O que aconteceu? Por que você está torrado?
Olhei para baixo. Era verdade: minha pele estava escura como um tronco de árvore. Meu gesso de folha e seiva tinha se queimado, deixando meu braço totalmente cicatrizado. Até que gostei do resultado, embora esperasse voltar a ser deus antes de descobrir que tipos horríveis de câncer de pele provoquei em mim mesmo. Tardiamente, percebi o tamanho do perigo que corri. Eu tinha conseguido revelar minha verdadeira forma divina. Tornei-me pura luz. Apolo burro! Apolo incrível, maravilhoso e burro! Esse corpo mortal não foi feito para canalizar um poder daqueles. Tive sorte de não ter queimado na mesma hora como uma lâmpada antiga.
Cômodo berrou. Segurou-se na primeira coisa que conseguiu encontrar, que por acaso era um de seus germânicos, e levantou o bárbaro cego acima da cabeça.
— Vou destruir todos vocês!
Ele jogou o bárbaro na direção do som da voz de Thalia. Como todos nós ainda enxergávamos, nos dispersamos com facilidade e evitamos virar pinos de boliche. O germânico bateu na parede oposta com tanta força que se desfez em uma explosão de pó amarelo, deixando uma linda declaração expressionista abstrata nos tijolos.
— Não preciso de olhos para matar vocês!
Cômodo golpeou para cima com a espada, cortando um pedaço da mesa de jantar.
— Cômodo — avisei —, você vai embora desta cidade e nunca vai voltar, ou vou tirar mais do que sua visão.
Ele partiu para cima de mim. Dei um passo para o lado. Thalia disparou uma flecha, mas Cômodo estava indo rápido demais. A flecha acertou o segundo germânico, que grunhiu de surpresa, caiu de joelhos e virou pó.
Cômodo tropeçou em uma cadeira e caiu de cara no tapete da sala. Não me entendam mal: nunca é legal se divertir com as dificuldades de alguém que não enxerga, mas, naquele caso específico, não consegui evitar. Se alguém merecia cair de cara no chão, esse alguém era o imperador Cômodo.
— Você vai embora — falei novamente. — E nunca mais vai voltar. Seu reinado em Indianápolis chegou ao fim.
— É Comodianápolis!
Com dificuldade, ele se levantou. A armadura tinha novas marcas. O corte no rosto não estava ficando mais bonito. Um bonequinho feito de hastes aveludadas, geralmente usadas para limpar cachimbos, talvez um brinquedo feito por Georgina, se agarrara à barba densa do imperador como um alpinista.
— Você não ganhou nada, Apolo — rosnou ele. — Você não tem ideia do que está sendo preparado para os seus amigos no Leste e no Oeste! Eles vão morrer. Todos eles!
Leo Valdez suspirou.
— Tudo bem, pessoal. Isso foi divertido, mas vou derreter a cara dele agora, tá?
— Espere — disse Litierses.
O espadachim avançou para cima do antigo senhor.
— Cômodo, vá enquanto ainda pode.
— Você só é o que é por causa de mim, garoto — disse o imperador. — Salvei você da obscuridade. Fui um segundo pai. Dei um objetivo para você!
— Um segundo pai ainda pior do que o primeiro — disse Lit. — E encontrei um novo objetivo.
Cômodo atacou, balançando a espada loucamente.
Lit o enfrentou. Seguiu na direção da oficina de Josephine.
— Aqui, Novo Hércules.
Cômodo mordeu a isca e correu na direção da voz de Lit.
Lit se abaixou e bateu com a lâmina no traseiro do imperador.
— Caminho errado, sire.
O imperador tropeçou na estação de soldagem de Josephine, depois recuou até uma serra circular que, felizmente para ele, estava desligada na hora.
Litierses se posicionou ao lado do vitral gigantesco. Percebi seu plano na hora em que gritou:
— Aqui, Cômodo!
O imperador uivou e atacou. Lit saiu do caminho. Cômodo correu direto para a janela. Talvez conseguisse parar, mas, no último segundo, Calipso balançou as mãos. Um sopro de vento impulsionou Cômodo para a frente. O Novo Hércules, o deus-imperador de Roma, estilhaçou o vidro e caiu no abismo.

3 comentários:

  1. Achei só um poiquinho de apelação ele ter um sirto divino como no outro livro. Mas como Filha de Atena, tenho um fraco por estratégia. Aora alguém poderia por gentileza SALVAR A FILHA DE DEMÉTER À BEIRA DA MORTE. Embora eu ache difícil ela morrer, está ligada a Apolo até o fim da jornada.

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    1. acho q ele consegue poderes divinos todas as vezes quando pensa em alguem primeiro do q ele, por isso ele so tem surtos divinos quando precisa ajudar seus amigos

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Boa leitura :)