27 de maio de 2017

Capítulo 39 - Por que você luta?

O relógio de Oromis zumbia como uma vespa gigante, berrava nos ouvidos de Eragon, até ele ir buscar a bugiganga e parar o mecanismo. Seu joelho machucado havia ficado roxo, estava dolorido tanto por causa do seu ataque súbito quanto devido à Dança da Cobra e do Grou, e não podia fazer nada a não ser gemer. O pior ferimento, no entanto, estava no pressentimento de que aquela não seria a última vez em que o ferimento de Durza iria prejudicá-lo. Tal perspectiva o deixava doente, drenava sua força e sua vontade.
Tantas semanas se passaram depois das crises, disse ele, que comecei a pensar que talvez, apenas talvez, eu estivesse curado... Suponho que a pura sorte seja a única razão que explique por que estou sendo poupado há tanto tempo.
Estendendo seu pescoço, Saphira o aninhou em seu braço. Você sabe que não está sozinho, pequenino. Farei tudo que for possível para ajudar. Ele respondeu com um leve sorriso. Depois ela lhe lambeu o rosto e acrescentou: Você deve se preparar para sair.
Eu sei. Ele olhou para o chão, sem coragem para se mover, e depois se arrastou até o banheiro, onde se esfregou até ficar bem limpo e usou a magia para se barbear.
Estava se secando quando sentiu uma presença tocar sua mente.
Sem parar para pensar, Eragon começou a fortificá-la, concentrando-se numa imagem do seu dedão, expulsando tudo o mais. Até que ouviu Oromis dizer: Admirável, porém desnecessário. Traga Zar’roc consigo hoje. A presença desapareceu.
Eragon respirou de forma vacilante. Preciso ficar mais alerta, disse para Saphira. Estaria vulnerável caso ele fosse um inimigo.
Não se estiver comigo por perto.
Quando terminou sua higiene, Eragon desenganchou a membrana parede e montou em Saphira, levava Zar’roc debaixo do braço. Saphira levantou voo com uma rajada de ar, fez uma curva em direção aos rochedos de Tel’naeír. Daquele ponto extremamente privilegiado, dava para ver os danos que a tempestade havia causado a Du Weldenvarden. Nenhuma árvore havia caído em toda Ellesméra porém, mais além, onde a magia dos elfos era mais fraca, inúmeros pinheiros haviam tombado. O vento que restou fazia os galhos e as árvores que se cruzavam se esfregarem uns nos outros, produzindo um coro frágil de rangidos e suspiros. Nuvens de pólen dourado, espessas como se fossem de poeira, jorravam das árvores e das flores.
Enquanto voavam, Eragon e Saphira trocavam lembranças sobre as aulas individuais do dia anterior. Ele lhe contou o que havia aprendido sobre as formigas e a língua antiga e ela lhe falou sobre correntes de ar frias e quentes e eventos climáticos perigosos e a forma de evitá-los.
Desse modo, quando os dois aterrissaram e Oromis interrogou Eragon sobre as lições de Saphira e Glaedr interrogou Saphira sobre as de Eragon, ambos estavam aptos a responder todas as perguntas.
— Muito bem, Eragon-vodhr.
Sim. Isso mesmo, Bjartskular, acrescentou Glaedr para Saphira.
Como no dia anterior, Saphira saiu com Glaedr enquanto Eragon permaneceu no despenhadeiro, embora desta vez ele e Saphira tivessem tido o cuidado de manter seu elo mental para poderem absorver as instruções de um e de outro.
Enquanto os dragões partiam, Oromis observou:
— Sua voz está mais áspera hoje, Eragon. Você está doente?
— Minhas costas doeram novamente hoje de manhã.
— Ah. Você tem a minha solidariedade. — Ele mexeu um dedo. — Espere aqui.
Eragon ficou observando enquanto Oromis seguia a passos largos na direção de sua cabana, para depois reaparecer parecendo impetuoso e belicoso, com sua cabeleira prateada ondulando ao vento e sua espada de bronze na mão.
— Hoje — disse ele — temos que deixar o Rimgar de lado e, ao invés disso, cruzar as nossas duas espadas, Naegling e Zar’roc. Saque a sua espada e proteja o fio, como o seu primeiro mestre lhe ensinou.
Tudo que Eragon queria naquele momento era recusar o embate. No entanto, ele não tinha a intenção de quebrar seu juramento ou fraquejar na frente de Oromis. Engoliu sua tremedeira. Isso é o que significa ser um Cavaleiro, pensou.
Evocando as suas reservas, localizou o nó que ficava bem no fundo de sua mente e que o conectava ao fluxo indômito de magia. Ele o sondou e a energia o preencheu.
— Géuloth du knífr — disse ele, e uma estrela azul cintilante surgiu entre o seu polegar e o indicador, pulando de um dedo para o outro, enquanto ele os corria pela perigosa extensão de Zar’roc.
No instante em que suas espadas se cruzaram, Eragon soube que seria sobrepujado por Oromis, assim como o foi por Durza e Arya. Eragon era um espadachim humano exemplar, mas não podia competir com guerreiros cujo sangue era mais forte por causa da magia. Seu braço estava muito fraco e seus reflexos lentos demais. Ainda assim, isso não o intimidou. Lutou até o limite das suas habilidades, mesmo que, no fim, tudo não passasse de uma um treinamento.
Oromis o testou de todas as maneiras concebíveis, forçava Eragon a usar o seu arsenal de golpes, contragolpes e truques. Nada adiantou. Ele não conseguia tocar no elfo. Como último recurso, tentou alterar seu estilo de luta, que poderia desestabilizar até o veterano mais calejado. Tudo que isso lhe rendeu foi uma pancada na coxa.
— Mova os seus pés com mais rapidez — gritou Oromis. — Aquele que fica em pé como se fosse um pilar acaba morrendo na batalha. Aquele que se inclina como um bambu triunfa!
O elfo em ação era glorioso, mistura perfeita de controle e violência. Lançava-se sobre o oponente como se fosse um gato, golpeava como uma garça e retornava com a graça de uma doninha.
Lutavam há quase vinte minutos quando Oromis vacilou e suas feições se apertaram numa breve careta. Eragon reconheceu os sintomas da misteriosa enfermidade de Oromis e o atacou com Zar’roc. Era desonesto, mas Eragon estava tão frustrado que queria tirar vantagem de qualquer oportunidade, não importava o quão fosse desonesto, só para ter a satisfação de marcar Oromis pelo menos uma vez.
Zar’roc não chegou a atingir o seu alvo. Enquanto Eragon se virava, acabou se estendendo além dos limites e forçou as costas.
A dor veio sem avisar.
A última coisa que ouviu foi Saphira gritando: Eragon!
Apesar da intensidade do espasmo, Eragon permaneceu consciente durante a sua provação. Não que estivesse a par do que lhe cercava, só do fogo que queimava em sua carne e prolongava cada segundo transformando-o numa eternidade. A pior parte era que ele não podia fazer nada para acabar com seu sofrimento a não ser esperar...

... e esperar...

Eragon ficou deitado e ofegante na lama fria. Ele piscava tentando enxergar e via Oromis sentado numa almofada ao seu lado. Esforçou-se para ficar de joelhos, Eragon olhou para a sua túnica nova com um misto de arrependimento e desgosto. O tecido fino e vermelho estava sujo de lama por causa das convulsões que teve no chão. A lama se espalhava pelo seu cabelo também.
Ele podia sentir Saphira em sua mente, irradiando preocupação enquanto esperava que seu parceiro a notasse. Como você poderá continuar assim?, disse ela aflita. Isso destruirá você.
Sua apreensão minou a resistência que ainda restava em Eragon.
Antes Saphira jamais havia expressado dúvida sobre se ele iria levar a melhor antes, não em Dras-Leona, Gil’ead ou Farthen Dûr, nem em relação a nenhum dos outros perigos que ambos enfrentaram. Sua confiança havia lhe dado coragem. Sem ela, ele estava realmente temeroso.
Você deve se concentrar na sua lição, disse ele.
Devo me concentrar em você.
Deixe-me em paz! Vociferou como se fosse um animal ferido desejoso de cuidar das suas chagas em silêncio e na escuridão. Ela silenciou, deixando apenas o seu elo intacto o suficiente para que ele pudesse ficar vagamente a par dos ensinamentos de Glaedr sobre ervas que brotam depois de incêndios na floresta, que ela poderia mastigar para ajudar em sua digestão.
Eragon tirou a lama do cabelo com os dedos e depois cuspiu uma bola de sangue.
— Mordi minha língua.
Oromis acenou positivamente como se fosse esperado.
— Você precisa se restabelecer?
— Não.
— Muito bem. Cuide de sua espada, depois vá se lavar e siga para o tronco no meio da clareira e escute os pensamentos da floresta. Ouça, e quando não estiver mais ouvindo nada, venha me dizer o que aprendeu.
— Sim, mestre.
Assim que se sentou na tora, Eragon descobriu que seus pensamentos e emoções turbulentas atrapalhavam a concentração necessária para abrir sua mente e sentir as criaturas no vazio. Não estava mesmo interessado em fazê-lo.
Ainda assim, a condição serena dos arredores foi aos poucos fazendo diminuir o seu ressentimento, a confusão e a raiva. Aquilo não o fez feliz, mas lhe trouxe uma certa conformação. Esta é a minha sina na vida, e é melhor eu me acostumar, pois ela não está prestes a melhorar.
Quinze minutos depois, suas faculdades recuperaram sua acuidade A praxe, pois voltou a estudar a colônia de formigas vermelhas que havia descoberto no dia anterior. Também tentou perceber tudo o mais que estava acontecendo na clareira, do jeito que Oromis lhe havia instruído. Eragon avançava aos poucos. Se ele relaxasse e se permitisse absorver tudo que entrava e vinha da percepção que lhe avizinhava, milhares de imagens e sentimentos investiriam dentro de sua cabeça, sobrepondo-se uns aos outros em rápidos flashes de som e cor, toque e cheiro, dor e prazer.
A quantidade de informação era esmagadora. Por puro hábito, sua mente selecionava um assunto ou outro da torrente, excluindo todo o resto, antes de ele notar seu lapso e voltar para um estado de receptividade passiva. O ciclo se repetia de segundo em segundo.
Apesar disso, ele teve como melhorar o seu conhecimento sobre o mundo das formigas. Conseguiu a primeira pista sobre o sexo delas, quando deduziu que a formiga maior no centro do formigueiro subterrâneo estava botando ovos a cada minuto ou coisa parecida, o que fazia dela uma fêmea.
Quando acompanhou um grupo de formigas vermelhas pelo caule de sua roseira, teve uma demonstração vivida do tipo de inimigos que enfrentavam: uma coisa se lançou de debaixo de uma folha e matou uma das formigas às quais ele estava ligado. Era difícil para ele adivinhar exatamente o que era a criatura, já que as formigas só viam fragmentos do ser e ainda, colocavam mais ênfase no cheiro do que na visão. Se fossem pessoas, ele teria dito que elas foram atacadas por um monstro terrível do tamanho de um dragão, com mandíbulas tão poderosas quanto as portas levadiças e cheias de ferrões de Teirm e céleres como uma chicotada.
As formigas cercaram o monstro como se fossem cavalariços trabalhando para capturar uma montaria fugitiva. Elas se lançaram contra o oponente totalmente destemidas, beliscavam suas pernas nodosas e se afastavam um instante antes de serem pegas pela tenaz do monstro. Mais e mais formigas se juntaram à multidão. Empenhavam-se para superar o invasor, sem vacilar, mesmo quando duas foram capturadas e mortas e quando vários dos seus irmãos caíram do galho no chão abaixo.
Era uma batalha desesperada, nenhum dos lados estava disposto a ceder terreno ao adversário. Só a fuga ou a vitória salvariam os combatentes de uma morte terrível. Eragon acompanhou o combate acirrado expectativa, impressionado com a bravura e a persistência das formigas apesar dos ferimentos que poderiam incapacitar um ser humano. Seus feitos eram heróicos o suficiente para serem cantados por bardos por todo o mundo.
Eragon ficou tão absorto pela contenda que quando as formigas finalmente ganharam, ele deu um grito tão alto de felicidade que assustou os pássaros empoleirados nas árvores.
Por curiosidade, ele se concentrou, e depois andou até a roseira para ver com os seus próprios olhos o monstro vencido. O que ele viu foi uma simples aranha marrom com as pernas arqueadas sendo transportada pelas formigas até o seu ninho para servir de alimento.
Era fantástico.
Ele começou a sair, mas então percebeu que mais uma vez ignorou a miríade de outros insetos e animais que viviam na clareira. Fechou os olhos e vagou pelas mentes de várias dezenas de seres, fazia o melhor que podia para memorizar o máximo de detalhes interessantes. Era uma alternativa pobre para uma observação prolongada, mas ele estava faminto e já havia esgotado o seu horário predeterminados.
Quando Eragon se reuniu a Oromis na cabana, o elfo perguntou:
— Como foi?
— Mestre, eu poderia ficar escutando noite e dia durante os próximos vinte anos e ainda assim não saberia de tudo que se passa na floresta.
Oromis levantou uma das sobrancelhas.
— Você fez progressos. — Depois que Eragon descreveu o que havia testemunhado, Oromis se pronunciou. — Mas ainda temo que não seja o suficiente. Você deve se esforçar mais, Eragon. Sei que pode. Você é inteligente e persistente, e possui potencial para ser um grande Cavaleiro. Por mais difícil que seja, você deve aprender a esquecer os seus problemas e se concentrar totalmente na tarefa que tem à mão. Encontre a paz dentro de si próprio e deixe que seus atos partam dela.
— Estou fazendo o melhor que posso.
— Não, isso não é o melhor que você pode. Reconheceremos o melhor de você quando ele emergir. — Ele fez uma pausa depois de pensar mais um pouco. — Talvez valesse a pena você ter um colega estudante para com ele competir. Então poderíamos ver o seu melhor... Vou pensar no assunto.
Do seu guarda-louças, Oromis tirou um pão assado ainda quente, uma jarra de madeira com manteiga de avelã — que os elfos usavam no lugar da manteiga propriamente dita — e um par de tigelas que ele encheu com uma concha de um ensopado de vegetais fervente numa panela pendurada acima de um braseiro na lareira do canto da sala. Eragon olhou para o ensopado com repugnância, ele já não aguentava mais a comida dos elfos. O rapaz ansiava por carne, peixe ou ave, algo substancioso no qual ele pudesse afundar os dentes, não esse cortejo interminável de plantas.
— Mestre — acrescentou Eragon para se distrair —, por que você me faz meditar? É para que eu entenda os animais e os insetos ou há mais outro motivo?
— Você consegue pensar num outro motivo? — Oromis suspirou quando Eragon balançou negativamente a cabeça. — As coisas sempre são assim com os meus alunos novos, especialmente com os humanos, a mente é a última parte que eles treinam ou usam, é subvalorizada. Pergunte-os sobre como manejar a espada que listarão cada golpe que deram num duelo há um mês, e depois peça a eles para resolver um problema ou fazer uma declaração coerente e... bem, eu teria sorte se recebesse mais do que um olhar estupefato de volta. Você ainda é novo no mundo da necromancia... como a magia é propriamente chamada... mas você deve começar a considerar todas as suas implicações.
— Como assim?
— Imagine por um instante que você é Galbatorix, que tem todos os vastos recursos sob seu comando. Supondo que os Varden acabaram com o seu exército de Urgals com a ajuda de um Cavaleiro de Dragão rival, certamente educado pelo menos em parte, por um dos seus mais perigosos e implacáveis inimigos, Brom. Você também está a par de que seus inimigos estão se concentrando em Surda para uma possível invasão. Assim, qual seria a maneira mais fácil de lidar com todas essas várias ameaças, exceto começar você mesmo a batalha?
Eragon mexia o seu ensopado até esfriar enquanto pensava na questão.
— Me parece — disse ele lentamente — que a maneira mais fácil seria treinar uma tropa de mágicos... eles não precisariam ser tão poderosos assim... forçá-los a me jurar lealdade na língua antiga, e então fazê-los se infiltrar em Surda, sabotar os esforços dos Varden, envenenar poços e assassinar Nasuada, o rei Orrin e os outros líderes da resistência.
— E por que Galbatorix ainda não fez isso?
— Porque, até agora, Surda possui uma importância desprezível para ele e porque os Varden já estão em Farthen Dûr há décadas, onde podiam examinar a mente de todo recém-chegado para sondar alguma traição, coisa que não podem fazer em Surda, já que suas fronteiras e sua população são muito grandes.
— Essas também são as minhas conclusões — disse Oromis. — A não ser que Galbatorix desista do seu covil em Urû’baen, o maior perigo que vocês estarão propensos a encontrar, durante a campanha dos Varden, virá dos mágicos aliados. Você sabe tão bem quanto eu como é difícil se proteger da magia, especialmente se o seu oponente jurou na língua antiga que iria matá-lo, não importa a que custo. Em vez de tentar conquistar sua mente antes, tal inimigo irá simplesmente evocar um encanto para destruí-lo, muito embora — no instante que antecede a sua destruição —você ainda esteja livre para retaliar. No entanto, você não pode abater o seu assassino se não souber quem é ele ou onde está.
— Então, às vezes, não é necessário assumir o controle da mente do seu oponente?
— Às vezes, mas é um risco que deve ser evitado. — Oromis fez uma pausa para tomar algumas colheradas de ensopado. — Agora, já nos dirigindo ao âmago da questão, como você se defenderá de inimigos anônimos resistentes a quaisquer precauções físicas e capazes de assassinar seu oponente com uma simples palavra murmurada?
— Não vejo como, a não ser que... — Eragon hesitou e depois sorriu. — A não ser que eu estivesse a par da consciência de todas as pessoas em torno de mim. Daí eu poderia sentir se elas quisessem me causar algum mal.
Oromis parecia satisfeito com a resposta.
— Isso mesmo, Eragon-finiarel. E esta é a resposta para a sua pergunta. Suas meditações condicionam a sua mente para descobrir e explorar falhas no armamento mental dos seus inimigos, não importa o quanto elas sejam pequenas.
— Mas será que um outro usuário de magia não ficaria sabendo que eu toquei a sua mente?
— Sim, eles saberiam, mas a maior parte das pessoas não. Quanto aos mágicos, eles saberão, temerão e protegerão suas mentes de você por causa do medo, assim você saberá quem são eles.
— Não é perigoso deixar a sua consciência desprotegida? Se você for atacado mentalmente, será facilmente dominado.
— É menos perigoso do que ficar cego para o mundo.
Eragon acenou com a cabeça. Ele batia com sua colher na tigela num intervalo de tempo constante, elaborou seus pensamentos e disse:
— Parece errado.
— Oh? Explique-se.
— E quanto à privacidade das pessoas? Brom me ensinou a nunca invadir a mente de alguém a não ser que seja absolutamente necessário... Acho que não estou à vontade com a ideia de invadir os segredos das pessoas... segredos que elas têm todo o direito de guardar para si próprias. — Ele levantou a cabeça. — Por que Brom não me falou sobre isso se era tão importante? Por que ele mesmo não me treinou para fazer isso?
— Brom lhe falou — disse Oromis — o que era apropriado lhe dizer naquelas circunstâncias. Mergulhar no poço de mentes pode se tornar um vício para aqueles que têm uma personalidade maliciosa ou o gosto pelo poder. Isso não foi ensinado para futuros Cavaleiros – embora façamos com que eles meditem como você faz no seu treinamento – até nos convencermos de que eles já estavam maduros o suficiente para resistir à tentação. É uma invasão de privacidade, e você aprende muitas coisas que nunca quis saber. No entanto, isso é para o seu próprio bem e para o bem dos Varden. Posso dizer por experiência própria, e por ter observado outros Cavaleiros experimentando a mesma sensação, que isso, acima de tudo, irá ajudá-lo a entender o que move as pessoas. E compreensão gera solidariedade e compaixão, mesmo que seja pelo mendigo mais pobre da cidade mais pobre da Alagaësia.
Os dois ficaram quietos por um instante, comendo, até que Oromis perguntou:
— Você pode me dizer qual é a ferramenta mental mais importante que uma pessoa pode possuir?
Era uma pergunta séria e Eragon ficou pensando por um bom tempo antes de se aventurar a dizer:
— Determinação.
Oromis partiu o pão ao meio com seus dedos longos e brancos.
— Posso entender por que você chegou a essa conclusão... a determinação lhe serviu bem nas suas aventuras... mas não. Refiro-me a ferramenta mais necessária para que se possa escolher a melhor rota de ação em qualquer situação que é apresentada. A determinação é tão comum entre homens que são tolos e estúpidos como o é entre os mais brilhantes intelectos. Então, não, a determinação não pode ser o que estamos procurando.
Desta vez,, Eragon tratou da questão como se fosse uma charada, contando o número de palavras, sussurrando-as em voz alta para ver se rimavam, e por outro lado examinando-as para descobrir algum significado oculto. O problema era que ele não passava de um adivinho medíocre, que nunca ficou muito bem colocado nos concursos anuais de charadas em Carvahall. Pensava de forma literal e mal podia decifrar charadas desconhecidas, era um legado da formação prática de Garrow.
— Sabedoria — finalmente disse Eragon. — A sabedoria é a ferramenta mais importante que uma pessoa pode possuir.
— Um bom chute, porém, mais uma vez, não. A resposta é lógica. Ou, para colocar de outra maneira, a capacidade de raciocinar analiticamente. Caso seja aplicada apropriadamente, ela pode superar qualquer falta de sabedoria, que a pessoa ganha através da idade e da experiência.
Eragon franziu a testa.
— Sim, mas ter um bom coração não é mais importante do que a lógica? A lógica pura pode levá-lo a tirar conclusões que são eticamente erradas. Ao passo que se tiver moral e for justo, isso lhe garantirá não vir a agir de forma vergonhosa.
Um sorriso fino como uma navalha fez os lábios de Oromis se curvarem.
— Você está confundindo as coisas. Tudo o que eu queria era saber qual é a ferramenta mais útil que uma pessoa pode ter, independente de ela ser má ou boa. Concordo que é importante ter uma natureza virtuosa, mas eu também discutiria isso se você tivesse que escolher entre dar a um homem um caráter nobre ou ensiná-lo a pensar claramente, você faria melhor em ensiná-lo a pensar claramente. Muitos problemas neste mundo são causados por homens nobres de mentes obscuras.
“A história nos mostra inúmeros exemplos de pessoas convencidas de que estavam fazendo a coisa certa e cometeram crimes terríveis por causa disso. Tenha em mente, Eragon, que ninguém pensa em si próprio como um vilão, e poucos tomam decisões que julgam ser erradas. Uma pessoa pode não gostar de sua escolha, mas a defenderá o tempo todo porque, mesmo nas piores circunstâncias, acredita que é a melhor opção disponível no momento.
“Por iniciativa própria, ser uma pessoa decente não é garantia de que você agirá bem, o que nos traz de volta à única proteção que temos contra demagogos, malandros e as loucuras das multidões, e o nosso guia mais seguro para superar os obstáculos incertos que enfrentamos ao longo da vida: o pensamento claro e razoável. A lógica jamais falhará com você, a não ser que você não saiba – ou ignore deliberadamente – as consequências dos seus feitos.”
— Se os elfos são tão lógicos — disse Eragon —, então todos vocês devem concordar no que deve ser feito em qualquer situação.
— Raramente — asseverou Oromis. — Como todas as raças, aderimos a uma ampla gama de princípios e, como resultado, normalmente chegamos a conclusões divergentes, mesmo em situações idênticas. Conclusões que, devo acrescentar, são lógicas de acordo com o ponto de vista de cada pessoa. E embora gostaria que as coisas fossem de outro jeito, nem todos os elfos treinaram suas mentes de forma apropriada.
— Como você pretende me ensinar essa lógica?
Oromis deu um largo sorriso.
— Através do método mais antigo e eficiente: debatendo. Irei lhe fazer uma pergunta e então você responderá e defenderá sua posição. — Ele esperou enquanto Eragon enchia sua tigela novamente com o ensopado. — Por exemplo, por que você luta contra o Império?
A súbita mudança de tópico pegou Eragon desprevenido. Ele tinha a sensação de que Oromis apenas agora falava o pretendia abordar o tempo todo.
— Como já disse antes, para ajudar aqueles que sofrem com o domínio de Galbatorix e, em segundo lugar, por causa de uma vingança pessoal.
— Então você luta por razões humanitárias?
— O que você quer dizer?
— Que você luta para ajudar as pessoas que Galbatorix maltratou e evitar que ele prossiga com isso.
— Exatamente — disse Eragon.
— Ah, então me responda isso, meu jovem Cavaleiro: Será que a sua guerra contra Galbatorix não causará mais dor do que evitará? A maioria das pessoas no Império tem vidas normal e produtiva, elas permanecem livres da loucura do rei. Como você pode justificar uma invasão às suas terras, a destruição de seus lares e a morte de seus filhos e filhas?
Eragon ficou pasmo e atordoado por Oromis ter coragem de fazer tal pergunta — Galbatorix era mau — e nenhuma resposta fácil lhe vinha à mente. Ele sabia que estava do lado certo, mas como poderia provar?
— Você não acredita que Galbatorix deveria ser destronado?
— Essa não é a pergunta.
— Porém você tem de acreditar — insistiu Eragon. — Veja o que ele fez com os Cavaleiros.
Molhando um pedaço de pão no ensopado, Oromis voltou a comer deixando Eragon se irritar em silêncio. Quando terminou, Oromis cruzou as mãos sobre o seu colo e perguntou:
— Eu o decepcionei?
— Sim, decepcionou.
— Entendo. Muito bem, continue a refletir sobre a questão até encontrar uma resposta. Espero que seja uma bem convincente.

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