22 de maio de 2017

Capítulo 39 - Captura em Gil’ead

Cavalgar foi extremamente doloroso para Eragon, suas costelas quebradas evitaram que eles fossem mais rápido do que o ritmo de uma caminhada, e para ele era impossível respirar fundo sem que sentisse uma dor lancinante. Mesmo assim, recusou-se a parar. Saphira voava perto deles, sua mente estava sempre ligada à dele para passar estímulo e força.
Murtagh cavalgava confiante ao lado de Cadoc, acompanhando suavemente os movimentos do seu cavalo. Eragon observou o animal cinzento durante um tempo.
— Você tem um belo cavalo. Qual é o nome dele?
— Tornac, em homenagem ao homem que me ensinou a lutar. — Murtagh bateu de leve no lado do corpo do animal. — Eu o ganhei quando ele era apenas um potro. Você teria dificuldade para encontrar um animal mais corajoso e inteligente em toda a Alagaësia, com exceção de Saphira, claro.
— Ele é um animal magnífico — disse Eragon admirado.
Murtagh riu.
— É, mas Fogo na Neve é o único animal que já vi chegar perto dele.
Eles cobriram uma pequena distância naquele dia, contudo Eragon sentia-se feliz por estar em atividade novamente. Isso mantinha sua mente longe de assuntos mais mórbidos. Cavalgavam por uma região desabitada. A estrada para Dras-Leona ficava a vários quilômetros à esquerda. Eles contornariam a cidade por uma boa distância a caminho de Gil’ead, que ficava quase tão ao norte quanto Carvahall.
Venderam Cadoc em um pequeno vilarejo. À medida que o cavalo era levado para longe por seu novo dono, Eragon, com pesar, guardava as poucas moedas que recebeu com a venda.
Foi difícil abrir mão de Cadoc depois de atravessar metade da Alagaësia, e de deixar os Urgals para trás, montado nele.
Os dias passavam quase sem serem notados à proporção que o pequeno grupo viajava em meio ao isolamento. Eragon ficou satisfeito ao saber que ele e Murtagh tinham vários interesses em comum. Passavam horas conversando sobre técnicas de arco-e-flecha e de caçada.
Havia um assunto, entretanto, que eles evitavam debater, obedecendo a um consenso inconfesso: o passado deles. Eragon não explicou como achou Saphira, como conheceu Brom ou de onde tinha vindo.
Murtagh mantinha um silêncio parecido com relação a por que o Império o procurava. Era um acordo simples, mas dava certo.
Todavia, devido à proximidade deles, era inevitável que um descobrisse coisas sobre o outro. Eragon ficou intrigado com a familiaridade de Murtagh com a luta pelo poder e pela política no Império. Parecia saber o que cada nobre e cortesão fazia e como isso afetava as outras pessoas. Eragon ouvia com cautela, suspeitas fervilhavam em sua mente.
A primeira semana passou sem nenhum sinal dos Ra’zac, o que aplacou alguns medos de Eragon. Mesmo assim, eles se revezavam vigiando durante a noite. Eragon esperava encontrar os Urgals no caminho para Gil’ead, mas também não encontraram nenhum rastro deles. Eu achava que estes lugares remotos estariam repletos de monstros, meditou ele. Porém, não vou reclamar se tiverem ido para outra parte.
Ele não sonhou mais com a mulher. E embora tentasse visualizá-la mentalmente, via apenas uma cela vazia. Sempre que passavam por um vilarejo ou por uma cidade, investigava para ver se havia uma cadeia. Se houvesse, ele se disfarçava e a visitava, mas ela não foi encontrada. Os disfarces ficavam cada vez mais elaborados à medida que via em várias cidades cartazes, com seu nome e descrição, oferecendo uma bela quantia por sua captura.
A viagem rumo ao norte forçou-os a seguir em direção à capital, Uru’baen. Era uma área densamente povoada, o que tornava difícil passarem despercebidos. Soldados patrulhavam as estradas e guardavam as pontes. Levaram vários dias tensos e nervosos para circundá-la.
Assim que passaram por Uru’baen em segurança, eles se encontraram na borda de uma vasta planície. Era a mesma que Eragon havia cruzado depois de sair do vale Palancar, só que agora ele estava do lado oposto. Viajaram acompanhando os limites da planície e continuaram rumo ao norte, seguindo o rio Ramr.
O décimo sexto aniversário de Eragon chegou e passou durante esse tempo. Em Carvahall, uma comemoração teria sido feita para celebrar a entrada dele na idade adulta, mas, naquelas terras desconhecidas, nem chegou a mencionar o fato a Murtagh.
Com quase seis meses de idade, Saphira estava muito maior. Suas asas eram enormes. Cada centímetro delas era necessário para levantar seu corpo musculoso e seus ossos pesados. As presas, que saíam de sua mandíbula, eram quase tão grossas quanto o punho de Eragon, suas pontas eram tão afiadas quanto Zar’roc.
Finalmente, chegou o dia em que Eragon tirou as faixas que enrolavam seu corpo pela última vez. As costelas estavam completamente curadas, deixando-o apenas com uma pequena cicatriz onde a bota do Ra’zac havia cortado sua pele. Com Saphira olhando, ele esticou-se lentamente e, depois, com mais vigor quando não havia mais dor. Flexionou os músculos satisfeito. Em outras épocas, teria sorrido, mas depois da morte de Brom, tais expressões não surgiam facilmente.
Colocou sua túnica e voltou para perto da pequena fogueira que haviam feito. Murtagh sentou-se ao lado dela, cortando um pedaço de madeira. Eragon desembainhou Zar’roc. Murtagh ficou tenso, embora seu rosto permanecesse calmo.
— Agora que estou forte o bastante, você gostaria de treinar esgrima? — perguntou Eragon.
Murtagh jogou a madeira para o lado.
— Com espadas afiadas? Nós nos mataríamos.
— Venha cá, me dê a sua espada — disse Eragon.
Murtagh hesitou, mas acabou entregando sua comprida espada. Eragon anulou o fio da arma com magia, do modo como Brom havia ensinado. Enquanto Murtagh examinava a lâmina, Eragon disse:
— Posso desfazer isso quando terminarmos.
Murtagh verificou o peso de sua arma. Satisfeito, ele disse:
— Está boa. — Eragon protegeu o fio de Zar’roc, agachou-se e girou-a em direção ao ombro de Murtagh. As espadas encontraram-se em pleno ar. Eragon afastou-se dando um golpe floreado e reagiu depressa quando Murtagh desviou um golpe, afastando-se graciosamente.
Ele é rápido, pensou Eragon.
Eles lutavam, para frente e para trás, um tentando acertar o outro.
Depois de uma série de golpes particularmente intensa, Murtagh começou a rir. Além de ser impossível para qualquer um deles ganhar vantagem sobre o outro, suas forças eram tão equilibradas que eles se cansaram ao mesmo tempo. Reconhecendo com sorrisos suas habilidades mútuas, lutaram até que seus braços ficassem pesados e o suor escorresse por seus corpos.
Finalmente, Eragon gritou:
— Chega, basta! — Murtagh parou um golpe em pleno ar e sentou-se ofegante. Eragon cambaleou até sentar-se no chão, o peito dele subia e descia. Nenhum de seus combates com Brom foi tão intenso.
Enquanto inalava o ar a golfadas, Murtagh exclamou:
— Você é incrível! Pratico esgrima a vida toda, mas nunca enfrentei alguém como você. Você poderia ser o mestre das armas do rei se quisesse.
— Você é tão bom quanto eu — observou Eragon, ainda ofegante. — O homem que ensinou você a lutar, Tornac, poderia fazer fortuna se abrisse uma escola de esgrima. As pessoas viriam de todas as partes da Alagaësia para aprender com ele.
— Ele morreu — disse Murtagh brevemente.
— Sinto muito.
Dessa forma, lutar ao anoitecer tornou-se um costume deles, o que os mantinha em forma, como um par de espadas idênticas. Tendo a saúde de volta, Eragon voltou a treinar magia. Murtagh demonstrou-se curioso quanto ao assunto, e logo revelou que conhecia uma quantidade surpreendente de informações sobre como a magia funcionava, embora não conhecesse detalhes precisos e não pudesse realizar atos de magia.
Sempre que Eragon treinava falar na língua antiga, Murtagh ouvia em silêncio, perguntando ocasionalmente o que determinada palavra significava.


Nos arredores de Gil’ead, pararam os cavalos lado a lado. Demoraram quase um mês para chegar lá, período no qual a primavera finalmente eliminou os resquícios do inverno. Eragon sentiu que passou por modificações durante a viagem, ficando mais forte e mais calmo.
Ele ainda pensava muito em Brom e falava sobre ele com Saphira, mas, na maior parte do tempo, tentava não trazer à tona lembranças tristes.
De longe podiam ver que a cidade era um lugar rude e bárbaro, repleta de casas feitas de troncos e de cães excessivamente ladradores. Havia uma fortaleza de pedra de formato irregular no centro. O ar era nebuloso, repleto de uma fumaça azul. O lugar parecia mais um posto comercial temporário do que uma cidade permanente. A uns oito quilômetros mais além, via-se o desenho brumoso do lago Isenstar.
Decidiram acampar a três quilômetros de distância da cidade, por segurança. Enquanto o jantar cozinhava, Murtagh disse:
— Não sei se você deve entrar em Gil’ead.
— Por quê? Posso me disfarçar muito bem — argumentou Eragon. — E Dormnad vai querer ver a gedwëy ignasia como prova de que sou um Cavaleiro de verdade.
— Talvez — disse Murtagh. — Mas o Império quer você muito mais do que eu. Se eu for capturado, poderei dar um jeito e fugir. Mas se você for preso, eles vão levá-lo ao rei. Você terá uma morte lenta sob tortura, a não ser que se junte a ele. Além disso, Gil’ead é um dos maiores pontos de reunião do exército. Aquelas não são apenas casas, também servem de base militar. Entrar lá seria como se entregar ao rei em uma bandeja de prata.
Eragon pediu a opinião de Saphira. Ela enrolou a cauda em volta das pernas do rapaz e deitou-se perto dele.
Você não devia ter me perguntado, ele está com razão. Há certas palavras que posso dar a ele que convencerão Dormnad de que Murtagh está falando a verdade. E ele está certo, se alguém deve se arriscar a ser capturado, deve ser ele, pois conseguiria sobreviver à prisão.
Eragon fez uma expressão de insatisfação no rosto.
Não gosto de deixá-lo correr perigo por nossa causa.
— Tudo bem, você pode ir — disse ele relutante. — Mas, se algo der errado, irei atrás de você.
Murtagh riu.
— Isso daria uma bela lenda: como um Cavaleiro solitário derrotou o exército do rei sem nenhuma ajuda. — Ele riu de novo e ficou em pé. — Há algo que eu deva saber antes de partir?
— Não devíamos descansar e esperar até amanhã? — perguntou Eragon visando cautela.
— Por quê? Quanto mais ficarmos aqui, maiores serão as chances de sermos descobertos. Se esse Dormnad pode levá-lo aos Varden, ele deve ser encontrado o mais rápido possível. Nenhum de nós deve ficar mais de alguns dias perto de Gil’ead.
Novamente a sabedoria flui da boca dele, comentou Saphira friamente. Ela disse a Eragon o que devia ser dito a Dormnad, e ele passou a informação a Murtagh.
— Muito bem — disse Murtagh, ajeitando sua espada. — A não ser que haja problema, voltarei daqui a algumas horas. Deixe um pouco de comida para mim. — Com um aceno de mão, ele montou em Tornac com um pulo e começou a cavalgar. Eragon sentou-se perto da fogueira, batendo de modo apreensivo no cabo de Zar’roc.
As horas passavam, mas Murtagh não voltava. Eragon andava em volta da fogueira, com Zar’roc nas mãos, enquanto Saphira observava Gil’ead com atenção. Somente os olhos dela moviam-se. Nenhum dos dois expressava suas preocupações, embora Eragon discretamente se preparasse para partir, caso um destacamento de soldados deixasse a cidade e se dirigisse ao acampamento deles.
Olhe, disse Saphira de repente.
Eragon virou-se para Gil’ead, alerta. Viu a distância um cavaleiro sair da cidade e galopar de modo frenético para o acampamento deles.
Não gosto disso, disse ele enquanto montava em Saphira. Prepare-se para voar.
Estou preparada para fazer muito mais do que isso.
Quando o homem se aproximou, Eragon reconheceu Murtagh curvado em cima de Tornac. Parecia que ninguém o perseguia, mas ele não diminuiu seu passo frenético. Entrou no acampamento galopando e pulou para o chão, desembainhando sua espada.
— O que há de errado? — perguntou Eragon.
Murtagh fechou o rosto.
— Alguém de Gil’ead me seguiu?
— Nós não vimos ninguém.
— Ótimo. Então, deixe-me comer antes de explicar. Estou morrendo de fome. — Pegou depressa uma tigela e começou a comer com entusiasmo. Depois de algumas mordidas, falou com a boca cheia: — Dormnad concordou em nos encontrar fora de Gil’ead assim que o sol nascer amanhã. Se ele se convencer de que você é realmente um Cavaleiro e de que isso não é uma armadilha, levará você aos Varden.
— E onde devemos encontrá-lo? — perguntou Eragon.
Murtagh apontou para o oeste.
— Em uma pequena colina do outro lado da estrada.
— E o que aconteceu?
Murtagh colocou mais uma colherada de comida em sua tigela.
— Uma coisa simples, mas é muito perigosa exatamente por isso. Fui visto na rua por uma pessoa que me conhece. Fiz a única coisa que podia fazer e saí correndo. Mas era tarde demais, pois ele me reconheceu.
Não foi algo bom, mas Eragon não tinha noção da gravidade da situação.
— Como não conheço seu amigo, devo perguntar: ele vai contar isso a alguém?
Murtagh deu uma risada contida.
— Se você o tivesse encontrado, essa pergunta não precisaria de resposta. A língua dele não tem limites, sua boca fica aberta o tempo todo, vomitando tudo o que passa pela cabeça. A questão não é se ele vai contar isso às pessoas, mas para quem ele vai contar. Se o que ele falar chegar aos ouvidos errados, estaremos encrencados.
— Duvido que enviarão soldados para procurá-lo no escuro — destacou Eragon. — Podemos, pelo menos, contar que estaremos em segurança até o sol raiar, e, depois disso, se tudo der certo, partiremos com Dormnad.
Murtagh sacudiu a cabeça.
— Não, só você vai acompanhá-lo. Como já disse antes, não irei até os Varden.
Eragon olhou triste para ele, pois queria que Murtagh ficasse. Eles ficaram amigos durante suas viagens, e ele não queria que essa amizade acabasse. Começou a protestar, mas Saphira aconselhou-o a se calar e disse gentilmente:
Espere até amanhã. A hora não é apropriada.
Tudo bem, disse mal-humorado. Conversaram até as estrelas brilharem no céu, depois foram dormir enquanto Saphira fazia o primeiro turno como vigia.
Eragon acordou duas horas antes do amanhecer, a palma da mão dele formigava. Tudo estava tranquilo e silencioso, mas alguma coisa chamava a sua atenção, como uma coceira em sua mente. Agarrou Zar’roc e ficou em pé, tendo o cuidado de não fazer barulho algum. Saphira olhou para ele curiosa, seus grandes olhos brilhavam.
O que foi, perguntou ela.
Não sei, respondeu Eragon. Ele não viu nada errado.
Saphira farejou o ar curiosamente. Ela sibilou um pouco e ergueu a cabeça.
Sinto o cheiro de cavalos por perto, mas eles não estão se movendo. Exalam um odor desconhecido.
Eragon foi rastejando até Murtagh e balançou o ombro dele. Murtagh acordou assustado, sacou depressa uma adaga debaixo de suas cobertas e olhou para Eragon confuso. Eragon fez um gesto para que ele não fizesse barulho, sussurrando:
— Há cavalos por perto.
Sem dar uma palavra, Murtagh sacou sua espada. Eles se posicionaram silenciosamente um de cada lado de Saphira, preparando-se para um ataque. Enquanto esperavam, a estrela da manhã começou a surgir no oriente. Um esquilo fez um barulho.
Então um rosnado furioso vindo de trás fez Eragon virar-se, erguendo sua espada. Um grande Urgal estava em pé à beira do acampamento deles, empunhando uma picareta que tinha uma ponta amedrontadora. De onde ele veio? Não vimos as pegadas em nenhum lugar! Pensou Eragon. O Urgal rugiu e balançou sua arma, mas não atacou.
Brisingr! — gritou Eragon, golpeando-o com magia.
O rosto do Urgal contorceu-se apavorado no momento em que ele explodiu com um lampejo de uma luz azulada. Sangue espirrou em cima de Eragon, e uma massa marrom voou pelos ares. Atrás dele, Saphira deu um alarme e recuou. Eragon virou-se. Enquanto ele estava ocupado com o primeiro Urgal, um bando deles veio correndo do outro lado. Mas que truque estúpido no qual cair!
Houve um barulho alto de aço chocando-se quando Murtagh atacou os Urgals. Eragon tentou se juntar a ele, mas foi barrado por quatro dos monstros. O primeiro jogou a espada em direção ao ombro dele.
Desviou-se do golpe e matou o Urgal com magia. Ele acertou o segundo na garganta girando Zar’roc freneticamente e perfurou o coração do terceiro. Ao fazer isso, o quarto correu para cima dele, balançando uma pesada clava.
Eragon viu que ele se aproximava e tentou erguer a espada para bloquear a clava, mas demorou um segundo além do que podia. Conforme ela descia em direção a sua cabeça, ele gritou:
— Voe Saphira!
Uma explosão de luz encheu seus olhos e ele perdeu a consciência.

4 comentários:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)