8 de maio de 2017

Capítulo 38

Estação vai mal
Cômodo tem que pagar
E não em dinheiro

EU NÃO ME LEMBRO de muita coisa da viagem de volta.
Não sei bem como, mas Pêssego e seus dois amigos carregaram Meg e a mim para fora da caverna e até o Mercedes. O mais perturbador foi que os três karpoi deram um jeito de dirigir até Indianápolis enquanto Meg murmurava e tremia no banco do carona e eu grunhia no de trás.
Não me pergunte como os três karpoi conseguiram dirigir um carro. Foi um trabalho em equipe. Não sei qual usou o volante, o freio ou o acelerador. Não é o tipo de comportamento que se espera de uma fruta comestível.
Só sei que, quando recuperei quase totalmente a consciência, tínhamos entrado na cidade. Meu antebraço quebrado estava enrolado em folhas grudadas com seiva. Eu não lembrava como isso havia acontecido, mas o braço parecia melhor. Ainda doía, mas não de forma excruciante. Considerei sorte os espíritos do pêssego não terem tentado me plantar e me aguar.
Consegui me sentar ereto na hora que o Mercedes virou na Rua Capital. À nossa frente, viaturas da polícia bloqueavam a passagem. Grandes placas vermelhas em cavaletes anunciavam: EMERGÊNCIA: VAZAMENTO DE GÁS. AGRADECEMOS A PACIÊNCIA!
Vazamento de gás. Leo Valdez acertou de novo. Supondo que ainda estivesse vivo, ele esfregaria isso na nossa cara durante semanas.
Alguns quarteirões depois do bloqueio, uma coluna de fumaça preta subia mais ou menos de onde a Estação Intermediária ficava. Meu coração se partiu, doendo mais até do que o braço. Olhei para o relógio do painel do Mercedes. Fazia menos de quatro horas que tínhamos saído. Parecia uma vida, uma vida divina.
Observei o céu. Não vi dragão de bronze voando, nem grifos sempre dispostos a ajudar lutando para defender seu ninho. Se a Estação Intermediária tivesse sucumbido... Não, eu tinha que pensar positivo. Não deixaria que meus medos atraíssem mais enxames de abelhas proféticas.
— Pêssego — falei. — Preciso que você...
Olhei para a frente e quase pulei pelo teto do carro. Pêssego e os dois amigos estavam me olhando, os queixos apoiados no encosto do banco do motorista e as mãos posicionadas no melhor estilo “Não ouço, não vejo e não falo”, mas, no caso deles, acho que seria algo mais para “Não vejo, não descasco, não como”.
— Ah... sim. Oi — falei. — Por favor, preciso que vocês fiquem com Meg. Precisam protegê-la a todo custo.
Pêssego Primeiro mostrou os dentinhos afiados e rosnou:
— Pêssego.
Encarei como concordância.
— Tenho que ver como estão nossos amigos na Estação Intermediária. Se eu não voltar... — As palavras grudaram na minha garganta. — ... vocês vão ter que procurar o Trono da Memória. Colocar Meg naquela cadeira é a única forma de curar a mente dela.
Olhei para os três pares de olhos verdes brilhantes. Não conseguia saber se os karpoi entendiam o que eu estava dizendo, nem fazia ideia de como eles fariam para seguir minhas instruções. Se a batalha tivesse terminado, e o Trono da Memória tivesse sido levado ou destruído... Não. Isso era o pólen da maldita abelha afetando meus pensamentos!
— Só... cuidem dela — pedi.
Saí do carro e vomitei corajosamente na calçada. Pontinhos cor-de-rosa dançaram diante dos meus olhos. Fui me arrastando pela rua, o braço coberto de seiva e folhas, as roupas úmidas com cheiro de bosta de morcego e excremento de cobra. Não foi minha entrada em batalha mais gloriosa.
Ninguém me parou nas barricadas. Os policiais trabalhando (mortais comuns, achei) pareciam mais interessados nas telas dos smartphones do que na fumaça subindo atrás deles. Talvez a Névoa escondesse a verdadeira situação. Talvez eles tivessem concluído que, se um mendigo maltrapilho queria andar na direção de um vazamento de gás, não eram eles que iam impedir. Ou talvez eles estivessem engajados em uma batalha épica de Pokémon GO.
Avançando um quarteirão dentro da área do cordão de isolamento, vi a primeira escavadeira em chamas. Eu desconfiava que tinha sido atingida por uma mina terrestre modificada por Leo Valdez, pois, além de estar parcialmente destruída e em chamas, também estava toda grudada com adesivos de carinhas sorridentes e cheia de chantilly.
Manquei mais rápido. Vi mais escavadeiras destruídas, escombros espalhados, carros batidos e pilhas de pó de monstro, mas nenhum corpo. Isso me animou um pouco. Depois da esquina da rotatória da Union Station, ouvi o retinir de espadas à frente, e então um tiro e algo que soou como um trovão.
Nunca tinha ficado tão feliz de ouvir uma batalha acontecendo. Aquilo mostrava que nem todo mundo estava morto.
Corri. Minhas pernas exaustas gritaram em protesto. Cada vez que meus sapatos batiam no asfalto, uma dor terrível subia pelo meu antebraço.
Dobrei a esquina e me vi no meio da zona de combate. Correndo para cima de mim com um olhar assassino, havia um guerreiro semideus, um adolescente que eu nunca tinha visto, usando armadura em estilo romano por cima das roupas normais. Para minha sorte, ele já tinha apanhado muito. Os olhos estavam quase fechados de tão inchados. O peitoral de bronze, amassado como um telhado de metal depois de uma tempestade de granizo. Ele mal conseguia segurar a espada. Eu não me encontrava em condições muito melhores, mas raiva e desespero se tornaram o meu combustível.
Consegui soltar o ukulele do ombro e usá-lo para bater na cara do semideus.
Ele caiu aos meus pés.
Eu estava me sentindo muito orgulhoso do meu ato heroico até erguer o olhar. No meio da rotatória, em cima do chafariz e cercado de ciclopes, meu estudante de pós-graduação preferido, Olujime, parecia um antigo deus da guerra, balançando uma arma de bronze que se assemelhava a um taco de hóquei com o dobro de largura. Cada movimento criava filetes de eletricidade nos inimigos. Cada golpe desintegrava um ciclope.
Gostei ainda mais de Jamie. Nunca fui grande fã de ciclopes. Mesmo assim... havia algo de estranho no modo como ele usava os raios. Eu sempre conseguia reconhecer o poder de Zeus em ação. Já tinha sido acertado pelos raios dele muitas vezes. A eletricidade de Jamie era diferente: tinha um cheiro mais úmido, de ozônio, clarões de um vermelho mais escuro. Eu queria que pudéssemos conversar mais sobre isso, mas ele parecia meio ocupado.
Lutas menores aconteciam aqui e ali por toda a rotatória. Os defensores da Estação Intermediária pareciam estar em vantagem. Hunter Kowalski pulava de inimigo em inimigo, suas flechas derrubando com facilidade blemmyae, guerreiros com cabeça de cachorro e centauros selvagens. A caçadora tinha uma habilidade incrível de disparar em movimento, evitar contra-ataques e mirar nas patelas das vítimas. Como arqueiro, fiquei impressionado. Se eu ainda tivesse meus poderes divinos, a abençoaria com prêmios fabulosos como uma flecha mágica e quem sabe até um exemplar autografado da minha coletânea de maiores hits em vinil clássico.
Na entrada do hotel, Sssssarah, a dracaena, estava sentada encostada em uma caixa de correio, as pernas de cobra enroladas debaixo do corpo, o pescoço inchado do tamanho de uma bola de basquete. Corri até ela para ver se estava ferida, mas aí percebi que o caroço no pescoço dela tinha o formato de um capacete de guerra gaulês. O peito e a barriga também estavam bem volumosos.
Ela me lançou um sorriso preguiçoso.
— E aí?
— Sssssarah. Você engoliu um germânico inteiro?
— Não. — Ela arrotou. O cheiro era definitivamente de algo bárbaro, com um toque de cravo. — Bom, talvez.
— Onde estão os outros? — Eu me abaixei quando uma flecha prateada voou acima da minha cabeça, destruindo o para-brisa de um Subaru que estava próximo. — Onde está Cômodo?
Sssssarah apontou para a Estação Intermediária.
— Lá dentro, acho. Abriu caminho até o prédio, matando quem essssstivessssse pela frente.
Ela não pareceu muito preocupada, provavelmente porque estava saciada e sonolenta. A coluna de fumaça escura em que eu havia reparado antes saía de um buraco no telhado da Estação Intermediária. Tive uma visão ainda mais angustiante em seguida: caída nas telhas verdes como um pedaço de inseto grudado em papel mata-moscas, estava a asa solta de bronze de um dragão. Fúria ferveu dentro de mim. Seja a carruagem do Sol, Festus ou um ônibus escolar, ninguém se mete com meu meio de transporte.
As portas principais do prédio da Union Station estavam escancaradas. Corri para dentro, passando por pilhas de pó de monstro e tijolos, móveis em chamas e um centauro pendurado de cabeça para baixo, chutando e choramingando em uma armadilha de rede.
Em uma escadaria, uma Caçadora de Ártemis ferida grunhia de dor enquanto uma companheira fazia uma atadura em sua perna sangrenta. Alguns metros à frente, um semideus desconhecido estava imóvel no chão. Eu me ajoelhei ao lado dele, um garoto de uns dezesseis anos, minha idade mortal. Não senti pulsação. Eu não sabia de que lado ele estava, mas isso não importava. Fosse como fosse, sua morte era uma perda terrível e desnecessária. Eu estava começando a achar que talvez as vidas dos semideuses não eram tão descartáveis quanto nós, deuses, gostávamos de acreditar.
Eu me apressei por mais corredores, confiando que a Estação Intermediária me mandaria na direção certa. Entrei na biblioteca onde me sentei na noite anterior. A cena lá dentro me atingiu como a explosão de uma das minas de Britomártis.
O corpo de um grifo estava deitado sobre a mesa. Com um soluço de horror, corri para o lado dele. A asa esquerda de Heloísa estava dobrada por cima do corpo como uma mortalha. A cabeça, inclinada em um ângulo nada natural. No chão ao redor dela, muitas armas quebradas, armaduras amassadas e pó de monstro. Ela morreu lutando contra um monte de inimigos... mas morreu.
Meus olhos arderam. Segurei sua cabeça, respirando o distinto cheiro de feno e de penas.
— Ah, Heloísa. Você me salvou. Por que não pude salvar você?
Onde estava o companheiro dela, Abelardo? O ovo estava em segurança? Eu não sabia qual pensamento era mais terrível: toda a família de grifos morta ou o pai e o bebê grifo forçados a viver com a perda arrasadora de Heloísa.
Beijei o bico dela. Mas não era possível ficar de luto naquele momento. Outros amigos ainda podiam estar precisando de ajuda.
Com energia renovada, subi uma escadaria dois degraus de cada vez.
Passei pelas portas duplas e entrei no salão principal.
Era uma cena estranhamente calma. Saía fumaça pelo buraco do telhado, subindo do loft, onde havia o chassi fumegante de uma escavadeira, inexplicavelmente de cabeça para baixo. O ninho de Abelardo e Heloísa parecia intacto, mas não havia sinal do grifo macho nem do ovo. Na área da oficina de Josephine, a cabeça cortada de Festus estava caída no chão, os olhos de rubi apagados e sem vida. Não encontrei o restante do corpo.
Sofás foram esmagados e virados. Eletrodomésticos estavam cheios de buracos de balas. O alcance do dano era de partir o coração.
Mas o problema mais sério era o impasse ao redor da mesa de jantar.
No lado mais próximo de mim estavam Josephine, Calipso, Litierses e Thalia Grace. Thalia estava com o arco na mão. Lit segurava a espada. Calipso estava com as mãos levantadas numa postura de artes marciais e Josephine segurava sua submetralhadora, Pequena Bertha.
Do outro lado da mesa estava Cômodo em pessoa, com um sorriso brilhante apesar de um corte diagonal na cara, ainda sangrando. A armadura de ouro imperial reluzia por cima da túnica roxa. Ele segurava sua arma, uma espata de ouro, de maneira despreocupada, na lateral do corpo. De cada lado dele havia guarda-costas germânicos. O bárbaro da direita estava dando um mataleão em Emmie, a outra mão encostando uma besta na cabeça dela. Georgina estava com ela, que abraçava a garotinha com força. A menina parecia ter recuperado totalmente a sanidade apenas para agora ter que enfrentar aquele novo terror.
À esquerda de Cômodo, um segundo germânico segurava Leo Valdez de um jeito parecido. Fechei as mãos, furioso.
— Vilania! Cômodo, solte-os!
— Oi, Lester! — Cômodo abriu um sorriso ainda mais largo. — Você chegou bem na hora da diversão!

26 comentários:

  1. Como assim destruiram Festus e mataram a Heloisa?
    Ninguém mexe com o meu dragão favorito ou com um grifo

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    1. Que vontade de ir lá pessoalmente pra matar eles, vingar Festus e Heloisa

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  2. TIRE SUAS MÃOS IMUNDAS DO MEU LEO, GOSTOSO PRA DEDEU!! Esse Jaime me faz ficar tão curiosa sobre outras mitologias.

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    1. Corrigindo: ...LEO, MAGRELO PRA DEDEU!

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  3. cara so eu acho q o tio rick possivelmente pode fazer um livro de jaime futuramente?

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  4. Ninguém​ mexe com o meu Dragão de olhos vermelhos fovorito. Eu no lugar do Apolo teria batido tanso no Cômodo que ele iria desejar morrer de novo.

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  5. Nããããããão Heloisa!!!!!!! Não me deixa!

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  6. a diferença que o Apolo sente nos raios de Jamie me faz pensar em Thor, desde que ele falou sobre o lugar que ele vem, ja me remete aos nordicos... quem sabe ele não seja outra conexão com Magnus, sei la.. estou só pensando, cá com meus botões....

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    1. Ele é da Nigéria, talvez seja filho de Iansã??

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    2. ele é da Nigéria,tem o simbolo de dois machados, usa esse poder dos raios, ele é filho de xangô.

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  7. Ninguém mata meu grifo decapita meu dragão e ameaça meu LEO VALDEZ

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  8. Sabe eu até gostava do estilo louco do Comodo, respeitava no minimo. Afinal, um dia o infeliz foi digno do amor do Apolo. Mas meu amigo, tu não meche com o Festus e com os grifos, isso não se faz! Quero ver esse homem morto e quero a cabeça dele enfeitando a entrada de qualquer castelo!

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  9. Acho que Jamie é filho de Xangô, pelas descrições que Apolo deu e pelo seu poder...

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    1. Sendo eu, adepto e praticante do candomblé, creio que seja mais provável que Jamie seja filho de Oyá/Yansã. Ela e Xangô são os deuses/orixás africanos da tempestade, mas os raios pertencem a ela, Xangô é dono do trovão.

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    2. Seria demais se Rick fizesse algum livro falando dos Orixás!

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  10. AAH FESTUS AAH OS GRIFOS AAAH TIRA A MÃO DO MEU LEO VALDEZ

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  11. Na área da oficina de Josephine, a cabeça cortada de Festus estava caída no chão, os olhos de rubi apagados e sem vida. Não encontrei o restante do corpo.
    FESTUS ------;

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    1. Né 💔 essa parte quebrou o meu coração

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  12. MDS N SEI O Q MAIS ME COiSA
    SE É O JAIME FILHO DE OYÁ
    SE É O FDP DO CÔMODO TER MATADO OS GRIFOS
    OU SE É O FESTUS

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  13. Ah, Festus T_T Pobre Heloísa T_T Leeeeo!!
    Tio Rick, pare de partir meu coração. Já quero morrer de chorar aqui :(

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  14. E la vai o tio rick fazer a gente entrar e depressao de novo........ Cara ele é muito bom nisso...... T-T T-T T-T :,( :,(

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Boa leitura :)