22 de maio de 2017

Capítulo 38 - Túmulo de diamante

Quando Eragon acordou, seus olhos pareciam estar cheios de areia, e seu corpo, rígido. A caverna estava vazia, com exceção dos cavalos. A maca não estava mais lá, não restava nenhum sinal de Brom.
Andou até a entrada e sentou-se no arenito desgastado. Então, a bruxa Angela estava certa, havia uma morte no meu futuro, pensou, olhando para a terra de modo inexpressivo. O sol cor de topázio proporcionou um calor desértico ao começo da manhã.
Uma lágrima escorreu em seu rosto apático e evaporou sob a luz do sol, deixando uma crosta salgada na pele. Eragon fechou os olhos e absorveu o calor, esvaziando sua mente. Com uma de suas unhas, começou a arranhar o arenito de modo desinteressado. Quando olhou, viu que havia escrito: Por que eu?
Ele ainda estava no mesmo lugar quando Murtagh subiu até a caverna, carregando um par de coelhos. Sem dar uma palavra, ele sentou-se ao lado de Eragon.
— Como você está? — perguntou.
— Muito doente.
Murtagh refletiu sobre o que ele falou.
— Você vai se recuperar? — Eragon deu de ombros. Depois de alguns minutos de reflexão, Murtagh disse: — Detesto ter de perguntar isso a você neste momento, mas preciso saber... O seu Brom era “o” Brom? Aquele que ajudou a roubar um ovo de dragão do rei, que foi perseguido por todo o Império e que matou Morzan em um duelo? Ouvi você falar o nome dele e li a inscrição que fez no túmulo, mas preciso saber com certeza. Ele era o Brom?
— Era — respondeu Eragon baixinho. Uma expressão preocupada tomou conta do rosto de Murtagh. — Como sabe de tudo isso? Você fala sobre coisas que são segredo para a maior parte das pessoas. E você estava atrás dos Ra’zac na ocasião em que precisávamos de ajuda. Você é um dos Varden?
Os olhos de Murtagh viraram globos inescrutáveis.
— Estou fugindo, como você. — Havia um pesar contido nas palavras dele. — Não pertenço aos Varden ou ao Império. E também não devo satisfação a homem nenhum, exceto a mim mesmo. Quanto à minha ajuda a vocês, admito que ouvi boatos sobre um novo Cavaleiro e concluí que, se eu seguisse os Ra’zac, descobriria se os rumores eram verdadeiros.
— Achei que você queria matar os Ra’zac — disse Eragon.
Murtagh sorriu de modo cruel.
— Eu quero, mas se os tivesse matado, nunca teria encontrado vocês.
Mas Brom ainda estaria vivo... Eu queria que ele estivesse aqui. Ele saberia se Murtagh é confiável ou não. Eragon lembrou como Brom percebeu as intenções de Trevor em Daret e imaginou se poderia fazer o mesmo com Murtagh. Ele tentou entrar na mente de Murtagh, mas sua invasão foi bloqueada abruptamente por uma parede dura como ferro, que ele tentou circundar. A mente toda de Murtagh estava protegida. Como ele aprendeu a fazer isso? Brom disse que poucas pessoas, se ainda existisse alguma, poderiam manter intrusos longe de suas mentes sem treinamento apropriado. Então, quem é Murtagh para ter tal habilidade?
Pensativo e solitário, Eragon perguntou:
— Onde está Saphira?
— Eu não sei — respondeu Murtagh. — Ela me seguiu durante um tempo quando fui caçar, mas, depois, saiu voando para longe. Eu não a vejo desde antes do meio-dia. — Eragon colocou-se de pé e voltou para a caverna. Murtagh o seguiu. — O que vamos fazer agora?
— Não sei ao certo. — E também não quero falar sobre isso. Enrolou seus cobertores e os amarrou nos alforjes na sela de Cadoc. Suas costelas doíam. Murtagh foi preparar os coelhos. Enquanto Eragon arrumava as coisas em suas bolsas, ele descobriu Zar’roc. A bainha vermelha resplandecia brilhantemente.
Desembainhou a espada... Pesou-a em suas mãos.
Nunca havia carregado Zar’roc na cinta e nunca a usou em combate, exceto quando treinava com Brom, pois ele não queria que as pessoas a vissem. Mas isto não preocupava mais Eragon. Os Ra’zac ficaram surpresos e assustados com a espada. Isso parecia uma razão mais do que suficiente para que ele usasse aquela arma. Sentindo um calafrio, pegou seu arco e pôs Zar’roc na cintura.
A partir deste momento, viverei segundo as leis da espada. Que o mundo inteiro veja quem eu sou. Não tenho medo. Agora, sou um Cavaleiro, total e completamente.
Mexeu nas bolsas de Brom, mas achou apenas roupas, alguns poucos itens esquisitos e uma pequena bolsa de moedas. Eragon pegou o mapa da Alagaësia, colocou as bolsas de lado e agachou-se perto do fogo. Murtagh apertou os olhos quando desviou o olhar do coelho que ele estava tirando a pele.
— Essa espada. Posso vê-la? — perguntou ele, limpando as mãos.
Eragon hesitou, relutando a entregar a arma por um momento que fosse, mas acabou concordando com a cabeça. Murtagh examinou o símbolo na lâmina atentamente. O rosto dele ficou com uma expressão extremamente séria.
— Onde você arranjou isto?
— Brom me deu. Por quê?
Murtagh devolveu a espada com grosseria para Eragon e cruzou os braços zangado. Ele ficou com a respiração ofegante.
— Essa espada — disse ele cheio de emoção — já foi tão conhecida quanto o seu dono. O último Cavaleiro a empunhá-la foi Morzan, um homem bruto e selvagem. Achei que você fosse inimigo do Império, porém vejo-o carregando uma das armas sangrentas dos Renegados!
Eragon olhou chocado para Zar’roc. Percebeu que Brom devia ter pegado a arma de Morzan depois da luta em Gil’ead.
— Brom nunca me contou de onde ela veio — disse ele com sinceridade. — Eu não tinha ideia de que era de Morzan.
— Ele nunca contou isso a você? — perguntou Murtagh com um toque de descrença na voz. Eragon balançou a cabeça. — Isso é estranho. Não consigo pensar em nenhum motivo para que não tenha revelado isso a você.
— Eu também não. Contudo, ele guardava muitos segredos — disse Eragon. Ele não se sentiu tranquilo ao empunhar a espada do homem que traiu os Cavaleiros com Galbatorix. Esta espada já deve, provavelmente, ter matado vários Cavaleiros em seu tempo, pensou com repulsa. E, pior, dragões! — Mesmo assim vou usá-la. Não tenho uma espada inteiramente minha. Até obter uma, usarei Zar’roc.
Murtagh recuou quando Eragon pronunciou o nome dela.
— A escolha é sua — disse ele. Murtagh voltou a tirar a pele do coelho, mantendo o olhar fixo para baixo.
Quando a refeição estava pronta, Eragon comeu lentamente, embora estivesse com muita fome. A comida quente fê-lo sentir-se melhor. Enquanto raspavam seus pratos, ele disse:
— Terei de vender meu cavalo.
— Por que não vender o de Brom? — perguntou Murtagh. Parecia que ele havia superado o seu mau humor.
— Fogo na Neve? Porque Brom prometeu cuidar dele. Já que ele... Não está mais por perto, farei isso por ele.
Murtagh colocou sua tigela no colo.
— Se é isso que você quer, tenho certeza de que nós podemos encontrar um comprador em alguma cidade ou vilarejo.
— Nós? — perguntou Eragon.
Murtagh olhou para ele de lado de um modo calculista.
— Você não quer ficar aqui por muito tempo. Se os Ra’zac estiverem por perto, o túmulo de Brom será como um farol. — Eragon não havia pensado nisso. — E as suas costelas vão demorar para ficarem boas. Sei que pode se defender usando magia, mas precisa de um companheiro que possa levantar coisas pesadas e usar uma espada. Estou pedindo para viajar com você, pelo menos, por enquanto. Mas devo alertá-lo, o Império está à minha procura. É certo que algum sangue será derramado.
Eragon riu fracamente e viu-se chorando porque doía muito. Assim que recuperou o fôlego, disse:
— Não me importo se um exército inteiro estiver à sua procura. Você está certo. Eu realmente preciso de ajuda. Ficarei feliz se tiver você ao meu lado, entretanto devo falar com Saphira primeiro. Mas eu preciso alertar você, Galbatorix pode mandar um exército inteiro atrás de mim. Você não estará mais seguro junto a mim e Saphira do que se estivesse sozinho.
— Eu sei disso — respondeu Murtagh com um sorriso ligeiro. — Mas, mesmo assim, isso não me fará mudar de ideia.
— Ótimo — sorriu Eragon com gratidão.
Enquanto conversavam, Saphira entrou engatinhando na caverna e cumprimentou Eragon. Ela ficou feliz ao vê-lo, mas havia grande tristeza em seus pensamentos e palavras. Ela deitou sua grande cabeça azul no chão e perguntou:
Você está bem de novo?
Ainda não.
Sinto saudade do velho.
Eu também... Nunca suspeitei que ele fosse um Cavaleiro. Brom! Ele era realmente muito velho, tão velho quanto os Renegados. Tudo o que me ensinou sobre magia, ele deve ter aprendido com os próprios Cavaleiros.
Saphira virou-se levemente.
Eu soube o que ele era no momento em que ele me tocou na sua fazenda.
E por que você não me disse? Por quê?
Ele me pediu para que eu não contasse, respondeu simplesmente. Eragon decidiu não levar esse assunto à frente. Saphira nunca teve a intenção de magoá-lo.
Brom guardou mais de um segredo, disse. Depois falou sobre Zar’roc e a reação de Murtagh quanto a ela. Agora, entendo por que Brom não me falou sobre as origens de Zar’roc quando ele a deu para mim. Se tivesse falado, eu, provavelmente, teria fugido para longe na primeira oportunidade.
Você bem que podia se livrar dessa espada, disse ela com desgosto. Sei que é uma espada singular, mas acho que você ficaria melhor com uma espada normal do que com a arma sanguinária de Morzan.
Talvez. Saphira, qual será o nosso caminho agora? Murtagh se ofereceu para ir conosco. Não conheço o passado dele, mas ele parece honesto. Será que devemos procurar os Varden agora? Só que não sei como achá-los. Brom nunca nos contou.
Ele me disse, revelou Saphira.
Eragon ficou zangado.
Por que ele confiou todo esse conhecimento a você e não a mim?
As escamas dela rasparam na rocha seca quando ela se colocou em pé acima dele, seus olhos estavam com um ar solene.
Depois que deixamos Teirm e fomos atacados pelos Urgals, Brom me contou muitas coisas, algumas das quais só mencionarei quando forem necessárias. Ele estava preocupado com a própria morte e com o que aconteceria com você depois disso. Um segredo que ele me revelou foi o nome de um homem, Dormnad, que mora em Gil’ead. Ele pode nos ajudar a encontrar os Varden. Brom também queria que você soubesse que, de todas as pessoas na Alagaësia, ele achava que você era a mais capaz para herdar o legado dos Cavaleiros.
As lágrimas encheram os olhos de Eragon. Esse foi o maior elogio que ele poderia ter recebido de Brom.
Essa é uma responsabilidade que eu exercerei honrosamente.
Ótimo.
Então, vamos a Gil’ead, afirmou Eragon, sentindo a força e a determinação voltando a ele. E quanto a Murtagh? Você acha que ele deve vir conosco?
Devemos a vida a ele, disse Saphira. Mas, mesmo sem essa dívida, ele viu tanto você quanto a mim. Devemos mantê-lo por perto para que não forneça ao Império nossa localização e nossa descrição, por vontade própria ou não.
Ele concordou com ela e contou sobre o seu sonho.
O que eu vi me perturbou. Sinto que o tempo está se esgotando para ela. Algo terrível vai acontecer em breve. Ela está correndo perigo mortal, estou certo disso. Mas não sei como encontrá-la! Ela pode estar em qualquer lugar.
O que o seu coração diz? Perguntou Saphira.
Meu coração morreu há bem pouco tempo, respondeu Eragon com um toque de humor negro. Entretanto, acho que devemos ir para o norte, para Gil’ead. Com um pouco de sorte, essa mulher pode estar presa em uma das cidades ou vilarejos no nosso caminho. Temo que meu próximo sonho com ela mostre uma cova. Eu não suportaria isso.
Por quê?
Não sei ao certo, respondeu ele, dando de ombros. O caso é que quando eu a vejo, sinto como se ela fosse preciosa e que não deveria ser perdida... É muito estranho. Saphira abriu sua boca comprida e riu silenciosamente, suas presas brilhavam. O que foi? Disparou Eragon. Ela balançou a cabeça e afastou-se caminhando silenciosamente.
Eragon resmungou consigo mesmo e comunicou a Murtagh o que haviam decidido. Murtagh disse:
— Se vocês acharem esse Dormnad e forem para os Varden, eu os deixarei. Encontrar os Varden seria tão perigoso para mim quanto entrar desarmado em Uru’baen com uma fanfarra de trompetes anunciando a minha chegada.
— Não vamos nos separar tão cedo — disse Eragon. — O caminho é muito longo até Gil’ead. — A voz dele falhou levemente, e ele semicerrou os olhos ao sol para distrair a si mesmo. — Devemos partir antes que o dia avance mais.
— Você está forte o bastante para viajar? — perguntou Murtagh, franzindo o rosto.
— Preciso fazer algo ou vou enlouquecer — disse Eragon bruscamente. — Praticar esgrima, fazer magias ou ficar sentado girando os polegares não são boas opções no momento. Então, escolho cavalgar.
Apagaram o fogo, arrumaram suas coisas e levaram os cavalos para fora da caverna. Eragon deu as rédeas de Cadoc e de Fogo na Neve para Murtagh dizendo:
— Pode ir. Já vou descer. — Murtagh começou a lenta descida a partir da caverna.
Eragon escalou o monte de arenito com dificuldade, descansando quando a dor no lado do seu corpo tornava inviável respirar. Quando chegou ao topo, viu que Saphira já estava lá. Eles ficaram juntos na frente do túmulo de Brom e prestaram suas últimas homenagens.
Não acredito que ele se foi... Para sempre. Quando Eragon se virou para descer, Saphira esticou seu longo pescoço e tocou o túmulo com a ponta do nariz. Os lados do corpo dela vibraram ao mesmo tempo em que um zumbido baixo encheu o ar.
O arenito em volta do nariz dela brilhava com a cor de orvalho dourado, ficando cada vez mais claro devido às luzes prateadas dançantes. Eragon olhou admirado enquanto formações como galhos de diamante branco se contorciam sobre a superfície do túmulo, formando uma teia de belas filigranas. Sombras brilhantes eram projetadas no chão, refletindo uma gama de raios de cores cintilantes, que se modificavam freneticamente conforme o arenito se transformava. Soltando um bufo de satisfação, Saphira deu um passo atrás e examinou sua obra.
O mausoléu, de momentos antes esculpido no arenito se transformou em um cofre reluzente feito de pedras preciosas, sob o qual o rosto intocado de Brom podia ser visto. Eragon admirou com saudade o ancião, que parecia estar dormindo.
O que você fez?, perguntou a Saphira com admiração.
Eu dei a ele o único presente que podia dar. Agora, o tempo não irá destruí-lo. Ele poderá descansar em paz eternamente.
Obrigado. Eragon colocou a mão no lado do corpo dela. E partiram juntos.

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