27 de maio de 2017

Capítulo 38 - Ressurgimento

Uma violenta rajada de vento fez Eragon acordar. Os cobertores se agitavam sobre ele e uma tempestade rasgava o seu quarto, lançava seus pertences pelos ares e fazia as lanternas baterem nas paredes. Lá fora, o céu era negro e as nuvens formavam uma massa espessa.
Saphira observava como Eragon cambaleava, lutava para manter o equilíbrio e a árvore balançava como um navio no oceano. Ele abaixou a cabeça para se proteger da ventania e seguiu contornando o quarto, agarrado à parede até alcançar o portal em forma de lágrima, através do qual a tempestade uivava.
Eragon olhou para além do piso suspenso, para o chão lá embaixo, que parecia balançar de um lado para o outro. Ele tentou ignorar a agitação em seu estômago.
Tateando, ele encontrou a beira da membrana de pano embutida na madeira para cobrir a abertura. Ele se preparou para saltar de um lado do vão para o outro apoiado pelo pano. Se escorregasse, nada o impediria de cair sobre as raízes da árvore.
Espere, disse Saphira.
Ela se afastou do pedestal baixo onde estava dormindo e estendeu seu rabo ao lado dele, para que pudesse usá-lo como um corrimão. Segurando o pano apenas com a mão direita, o que exigiu toda a sua força, Eragon usou as saliências do rabo de Saphira para atravessar a extensão do portal. Assim que chegou à outra extremidade, agarrou o pano com ambas as mãos e pressionou sua extremidade dentro do sulco que o mantinha preso.
O quarto ficou em silêncio.
A membrana inchou para dentro sob a força da natureza furiosa, mas resistia. Eragon a cutucou com o dedo. O tecido estava tão esticado quanto a pele de um tambor.
É incrível o que os elfos conseguem fazer, disse ele. Saphira levantou a cabeça e a manteve suspensa, de modo que ficou encostada no teto enquanto ela escutava. É melhor você fechar a sala de estudos, ela está sendo destruída.
Enquanto ele seguia na direção da escada, a árvore balançou e sua perna se dobrou, fazendo-o cair pesadamente sobre um dos joelhos.
— Maldição — rosnou o Cavaleiro.
A sala de estudos era um redemoinho de papéis e penas, que se moviam pelo ar como se tivessem vida. Ele mergulhou no aguaceiro com os braços envolvendo a cabeça. Parecia que estava recebendo uma saraivada de pedras quando as pontas das penas o atingiam.
Eragon se esforçou para fechar o portal superior sem a ajuda de Saphira. No momento em que o fez, a dor — infindável e desnorteante dor — rasgou suas costas.
Ele gritou uma vez e ficou rouco por causa da intensidade do berro. Viu luzes vermelhas e amarelas até ficar tudo escuro quando ele caiu para o lado. Lá de baixo, ele ouviu Saphira urrando de frustração, a escadaria era muito pequena e, lá fora, o vento era muito feroz para que ela o alcançasse. Sua conexão com a parceira sumiu. E ele se rendeu à escuridão que o esperava como uma forma de se libertar de sua agonia.


Um gosto amargo enchia a boca de Eragon quando acordou. Não soube precisar quanto tempo ficara deitado no chão, mas os músculos em seus braços e pernas estavam retesados por ele ter permanecido curvado na forma de uma bola compacta. A tempestade ainda investia contra a árvore, vinha acompanhada por uma chuva ensurdecedora que se equiparava a um martelar dentro de sua cabeça.
Saphira...?
Estou aqui. Você pode descer?
Vou tentar.
Ele estava fraco demais para ficar em pé no piso inclinado, por isso resolveu rastejar até a escada e deslizou por um degrau de cada vez, estremecendo a cada impacto. No meio da descida, encontrou Saphira, que enfiou a cabeça e o pescoço escada acima o mais que pôde, entalhando a madeira na sua fúria.
Pequenino. Ela pôs a língua para fora e pegou em sua mão com sua ponta áspera. Ele sorriu. Depois, ela arqueou o pescoço e tentou recuar, mas sem sucesso.
O que há de errado?
Estou presa.
Você está... Ele não pôde evitar, dava gargalhadas apesar da dor. A situação era muito absurda.
Ela rosnava e erguia seu corpo inteiro, balançando a árvore com seu esforço e derrubando-o. Até que ela perdeu as forças, ofegante. Ora, não fique sentado e rindo como uma raposa idiota. Ajude-me!
Esforçando-se para não rir, ele colocou o pé em seu nariz e empurrou com toda a força enquanto Saphira se revirava e se contorcia na tentativa de se libertar.
Levou mais de dez minutos até ela conseguir. Só então foi que Eragon viu a extensão dos danos na escadaria. Ele deu um suspiro. As escamas do dragão haviam rasgado a casca da árvore e destruíram as formas delicadas entalhadas na madeira.
Opa, disse Saphira.
Pelo menos foi você que o fez, não eu. Os elfos devem lhe perdoar. Eles cantariam canções românticas dos anões dia e noite se você lhes pedisse.
Ele se juntou a Saphira em sua plataforma e se aconchegou nas escamas lisas da sua barriga, escutando o quanto a tempestade rugia acima de ambos. A proteção na janela ficava translúcida sempre que um relâmpago pulsava na forma de fragmentos de luz recortados.
Que horas você acha que são?
Algumas horas antes do nosso encontro obrigatório com Oromis. Vá em frente, durma e tente se recuperar. Ficarei de guarda.
Foi exatamente isso que ele fez, apesar da agitação que se espalhava por toda a árvore.

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