8 de maio de 2017

Capítulo 37

Fruta preferida?
Espero que não seja uva
Nem maçã nem figo

POBRE NANETTE.
Eu me pergunto o que passou pela mente dela quando se deu conta de que, mesmo debaixo d’água, cinco segundos ainda duravam exatamente cinco segundos. Quando o dispositivo explodiu, eu a imaginei borbulhando um último xingamento terrível, algo como Ah, que cocô.
Eu até sentiria pena da blemmyae, se ela não estivesse tramando a minha morte. A caverna tremeu. Pedaços de estalactite desabaram no lago e bateram nos cascos das barcaças. Um jato de ar irrompeu da água, agitando a doca e espalhando pela caverna um cheiro de batom de tangerina.
O policial e o guarda florestal franziram a testa para mim.
— Você explodiu Nanette. Isso não foi educado.
— Esperem! — gritei. — Ela ainda deve estar nadando de volta. É um túnel comprido.
Isso me fez ganhar mais uns três ou quatro segundos, durante os quais minha mente não conseguiu bolar nenhum plano de fuga inteligente. Bom, pelo menos eu esperava que a morte de Nanette não tivesse sido em vão. Torcia para que a explosão tivesse destruído a Caverna do Oráculo, como Trofônio queria, mas não dava para ter certeza.
Meg ainda estava apenas parcialmente consciente, murmurando e tremendo. Eu tinha que levá-la de volta à Estação Intermediária e colocá-la no Trono da Memória o mais rápido possível, mas antes tinha que me livrar dos blemmyae. Minhas mãos estavam dormentes demais para eu usar o arco ou o ukulele. Eu queria ter alguma outra arma, até mesmo um lenço mágico brasileiro que pudesse sacudir na cara dos inimigos. Ah, se uma onda de força divina se espalhasse pelo meu corpo!
O guarda florestal suspirou, já sem paciência.
— Tudo bem, Apolo. Prefere que a gente pisoteie ou desmembre você? É justo deixar você escolher.
— Que educado — falei. E ofeguei. — Ah, meus deuses! Olhem aquilo ali!
Você precisa me perdoar, querido leitor. Sei que esse método de distração é o truque mais batido que existe. Na verdade, é tão velho que já era usado antes mesmo de os rolos de papiro serem inventados, e foi registrado pela primeira vez em tabuletas de argila na Mesopotâmia. Mas os blemmyae caíram.
Para eles, “olhar aquilo ali” era algo que levava tempo. Não conseguiam dar uma olhadinha de relance. Não conseguiam virar a cabeça sem virar o corpo todo, então tinham que fazer um movimento de cento e oitenta graus.
Eu não tinha outro truque em mente. Só sabia que precisava salvar Meg e sair dali. Outro tremor sacudiu a caverna novamente, desequilibrando os blemmyae, e aproveitei para aumentar minha vantagem e chutar o guarda florestal para dentro do lago. Exatamente naquele momento, um pedaço do teto se soltou e despencou em cima dele, em uma tempestade de detritos. O guarda florestal desapareceu no lago, debaixo da espuma revolta.
Só consegui ficar olhando, abismado. Tinha quase certeza de que eu não tinha feito o teto rachar e desabar. Pura sorte? Ou talvez o espírito de Trofônio tivesse me concedido um último favor ressentido por ter destruído a caverna dele. Esmagar uma pessoa em uma chuva de pedras parecia o tipo de favor que ele concederia.
O outro blemmyae não viu o que tinha acabado de acontecer e estava completamente perdido. Ele se virou para mim, uma expressão perplexa no rosto peitoral.
— Não tem nada ali, Apolo... Espere. Para onde foi meu amigo?
— Hã? — perguntei. — Que amigo?
Seu bigode impressionante deu um tremelique.
— Eduardo. O guarda florestal.
Eu me fiz de desentendido.
— Um guarda florestal? Aqui?
— Sim, ele estava aqui agora mesmo.
— Não vi nenhum guarda por aqui, não.
A caverna tremeu de novo. Infelizmente, nenhum pedaço prestativo se soltou do teto para esmagar meu último inimigo.
— Bem — disse o policial —, talvez ele tenha precisado ir embora. Se me permite, agora terei que matar você eu mesmo. Ordens são ordens.
— Ah, sim, mas primeiro...
O policial não ia cair na minha lábia outra vez. Ele segurou meu braço, esmagando vários ossos no processo. Eu gritei. Meus joelhos se dobraram.
— Deixe a garota ir embora — supliquei em meio à dor. — Me mate logo e deixe-a ir.
Fiquei bem surpreso com a minha atitude. Aquelas não eram as últimas palavras que eu tinha programado. Caso estivesse à beira da morte, torcia para ter tempo de compor uma balada com meus feitos gloriosos, uma balada muito longa. Mas ali estava eu, no final da minha vida, implorando não por mim, mas por Meg McCaffrey.
Eu adoraria levar o crédito pelo que aconteceu em seguida. Gostaria de pensar que meu nobre gesto de sacrifício provou meu valor e invocou nossos espíritos salvadores direto do plano etéreo.
Mas era mais provável que eles já estivessem na área procurando Meg e ouviram meu grito de dor.
Com um grito de batalha de gelar o sangue, três karpoi correram pelo túnel e voaram no policial, avançando bem na cara dele.
O policial cambaleou pela doca, os três espíritos do pêssego uivando, arranhando e mordendo como um bando de piranhas aladas com sabor de fruta... O que, pensando bem, não é nem um pouco parecido com uma piranha.
— Por favor, saiam! — berrou o policial. — Por favor e obrigado!
Os karpoi não estavam preocupados com boas maneiras. Depois de mais vinte segundos de pesseguice selvagem, o policial foi reduzido a uma pilha de cinzas de monstro, tecido rasgado e fios de bigode.
karpos do meio cuspiu uma coisa que um dia podia ter sido a arma do policial e bateu as asas folhosas. Deduzi que era nosso amigo, o famoso Pêssego, porque os olhos dele brilhavam com mais crueldade, e a fralda parecia mais pesada e mais perigosa.
Eu aninhei meu braço quebrado.
— Obrigado, Pêssego! Não sei como posso...
Ele me ignorou e voou até Meg. Chorando, acariciou o cabelo dela.
Os outros dois karpoi me observaram com uma intensidade faminta nos olhos.
— Pêssego? — choraminguei. — Você pode dizer para eles que sou amigo? Por favor?
Pêssego estava aos prantos, inconsolável. Ele pegou um pouco de terra e esfregou nas pernas de Meg, como se estivesse plantando uma muda.
— Pêssego! — chamei de novo. — Posso ajudá-la, mas preciso levá-la de volta para a Estação Intermediária. O Trono da Memória...
Uma onda de náusea fez o mundo se inclinar e girar. Minha visão ficou verde.
Quando recuperei o foco, vi Pêssego e os outros dois karpoi lado a lado, me encarando.
— Pêssego? — perguntou Pêssego.
— Sim — grunhi. — Nós precisamos levar a Meg para Indianápolis o quanto antes. Se você e seus amigos... Hã, acho que não fomos apresentados. Sou Apolo.
Pêssego apontou para o amigo da direita.
— Pêssego. — E para o bebê demônio da esquerda. — Pêssego.
— Entendi. — Tentei pensar. A dor se alastrava do meu braço até o queixo. — Agora, escutem, eu... eu tenho um carro. Um Mercedes vermelho, está aqui perto. Se eu conseguir chegar lá, posso levar Meg até... até...
Olhei para o antebraço quebrado. Estava ficando com uns tons lindos de roxo e laranja, como um pôr do sol no Egeu. Percebi que não ia dirigir para lugar algum.
Minha mente começou a afundar em um mar de dor debaixo daquele lindo pôr do sol.
— Volto em um minuto — murmurei.
E desmaiei.

14 comentários:

  1. desmaio digno de jason grace

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    1. Extremamente digno de Jason Grace!

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    2. Com certeza kkkk

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    3. Eu entendi a referencia

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    4. Chegara o dia em que pararemos de entender a referencia, mas este dia não é hoje

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  2. Diria que foi um desmaio... Graceoso.

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    1. Aí meus deuses kkkkkkkkkkkk

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  3. Sim — grunhi. — Nós precisamos levar a Meg para Indianápolis o quanto antes. Se você e seus amigos... Hã, acho que não fomos apresentados. Sou Apolo.
    Pêssego apontou para o amigo da direita.
    — Pêssego. — E para o bebê demônio da esquerda. — Pêssego.
    — Entendi. —
    Melhores nomes 😎

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  4. Selo de aprovação Jason Grace

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  5. ele queria um lenço magico brasileiro meus deuses do olimpo que desmaio Jason aprovaria

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  6. Eu queria um lenco para esfregar nos inimigos... VAI PAULO!! VAI BRASIL!!!!!!

    ~Filha de Atena~

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Boa leitura :)