22 de maio de 2017

Capítulo 37 - O legado de um Cavaleiro

Acorde, Eragon. Ele se mexeu e resmungou. Preciso da sua ajuda. Há algo errado! Eragon tentou ignorar a voz e quis voltar a dormir. Levante!
Vá embora, reclamou ele.
Eragon! Um grito ressoou na caverna. Ele levantou-se de repente, tateando à procura de seu arco. Saphira estava curvada em cima de Brom, que tinha rolado para fora da laje e estava caído no chão da caverna. O rosto dele estava contorcido por causa da dor, seus punhos estavam cerrados. Eragon foi correndo para perto dele, temendo o pior.
— Ajude-me a colocá-lo direito. Ele vai se machucar! — gritou para Murtagh, agarrando os braços de Brom. Ele sentiu uma forte dor no lado do corpo quando o ancião começou a espasmar. Juntos, contiveram Brom até que a convulsão dele passasse. Depois, voltaram a colocá-lo cuidadosamente na laje.
Eragon tocou a testa de Brom. A pele estava tão quente que o calor podia ser sentido a quase três centímetros de distância.
— Traga água e panos — disse ele, preocupado. Murtagh trouxe o que ele pediu, e Eragon, gentilmente, umedeceu o rosto de Brom, tentando baixar a temperatura. Quando a caverna ficou em silêncio novamente, ele notou que o sol brilhava do lado de fora.
Quanto tempo nós dormimos?, perguntou a Saphira.
Um bocado. Fiquei observando Brom durante a maior parte do tempo que vocês dormiram. Ele estava bem até um minuto atrás quando começou a se debater. Acordei você assim que ele caiu no chão.
Ele esticou-se, estremecendo porque suas costelas causaram uma dor aguda. Uma mão, de repente, agarrou o ombro dele. Os olhos de Brom abriram-se de uma vez e ele fixou o olhar em Eragon.
— Você! — suspirou ele. — Traga-me o odre de vinho!
— Brom? — exclamou Eragon feliz por ouvi-lo falar. — Você não devia beber vinho, isso só vai fazer você piorar.
— Traga logo, rapaz... Apenas traga... — suspirou Brom. A mão dele caiu do ombro de Eragon.
— Volto já, espere. — Eragon foi correndo em direção aos alforjes e revirou-os freneticamente. — Não estou conseguindo achar! — gritou ele, olhando em volta desesperadamente.
— Aqui, tome o meu — disse Murtagh, oferecendo uma bolsa de couro.
Eragon pegou-a e voltou para Brom.
— Já estou com o vinho — disse ele se ajoelhando. Murtagh retirou-se para a entrada da caverna para que eles pudessem ter privacidade.
As palavras seguintes de Brom foram fracas e vagas.
— Ótimo... — Ele moveu os braços fracamente. — Agora... Lave a minha mão direita com o vinho.
— O quê...? — Eragon começou a perguntar.
— Sem perguntas! Não tenho tempo. — Intrigado, Eragon abriu o odre e jogou o líquido na mão de Brom. Esfregou-o na pele do ancião, espalhando-o entre os dedos e nas costas da mão. — Mais — resmungou Brom. Eragon jogou mais vinho na mão dele. Esfregou vigorosamente até que um corante marrom começou a escorrer da palma da mão de Brom, então parou. Eragon ficou boquiaberto devido à surpresa. Havia uma gedwëy ignasia na palma de Brom.
— Você é um Cavaleiro? — perguntou incrédulo.
Um sorriso dolorido cintilou no rosto de Brom.
— Uma vez, isso foi verdade... Mas agora não é mais. Quando eu era jovem... Mais jovem do que você é agora, fui escolhido... Escolhido pelos Cavaleiros para entrar para a ordem deles. Enquanto eles me treinavam, me tornei amigo de outro aprendiz... Morzan, antes de ele virar um Renegado. — Eragon suspirou, pois isso havia acontecido há mais de cem anos. — Mas, depois, ele nos traiu com Galbatorix... E na luta em Dorú Areaba, a cidade de Vroengard, meu jovem dragão foi morto. Também era uma fêmea, e o nome dela... Era Saphira.
— Por que você não me contou isso antes? — perguntou Eragon docemente.
Brom riu.
— Porque... Não havia necessidade. — Ele parou. A respiração estava pesada, e suas mãos cerradas. — Eu sou velho, Eragon... Muito velho. Embora meu dragão tenha sido morto, minha vida estendeu-se mais do que a da maioria das pessoas. Você não sabe como é chegar à minha idade, olhar para trás e perceber que não se lembra de muita coisa que passou. E, depois, olhar para a frente e saber que ainda lhe restam tantos anos... Depois de todo esse tempo, eu ainda choro a perda da minha Saphira... E odeio Galbatorix pelo o que ele tirou de mim. — Seus olhos febris perfuraram Eragon quando ele disse furiosamente: — Não deixe que isso aconteça com você. Não deixe! Guarde Saphira com a sua vida, pois sem ela a vida não vale ser vivida.
— Você não devia falar desse jeito. Nada vai acontecer com ela — disse Eragon, preocupado.
Brom virou sua cabeça para o lado.
— Talvez eu esteja divagando. — O olhar dele passou cegamente por Murtagh, depois se concentrou em Eragon. A voz de Brom ficou mais forte. — Eragon! Eu não vou durar muito tempo. Esta... Esta é uma ferida fatal, ela está drenando as minhas forças. Não tenho energia para combatê-la... Antes que eu parta, você quer a minha bênção?
— Tudo vai acabar bem — disse Eragon, com lágrimas nos olhos. — Você não precisa fazer isso.
— As coisas são assim... Eu devo. Você quer a minha bênção? — Eragon abaixou a cabeça e fez um sinal de aceitação, sobrepujado. Brom encostou uma mão trêmula na testa do rapaz. — Então, eu a dou. Que os anos vindouros tragam-lhe muitas felicidades. — Ele fez um gesto para Eragon chegar mais perto. Muito silenciosamente, sussurrou sete palavras da língua antiga e depois, ainda mais baixo, disse ao rapaz o que elas significavam. — Isso é tudo que eu posso dar a você... Use-as somente em grande necessidade. — Brom, cegamente, virou os olhos para o teto. — E agora... — murmurou — para a maior aventura de todas...
Chorando, Eragon segurou a mão dele, confortando-o da melhor maneira que podia. Sua vigília era resoluta e constante, não foi interrompida nem para comer ou beber. Conforme as horas passavam, uma palidez cinzenta avançava lentamente sobre o corpo de Brom, os olhos dele escureciam devagar. Suas mãos foram ficando geladas, e o ar em volta dele ganhou uma aparência sombria. Sem poder fazer nada para ajudar, Eragon podia apenas ficar olhando a lesão produzida pelos Ra’zac cobrando o seu preço.
A noite estava no começo e as sombras, compridas, quando o corpo de Brom, de repente, ficou rígido. Eragon chamou o nome dele e gritou, pedindo a ajuda de Murtagh, mas eles não podiam fazer mais nada. Enquanto um silêncio sombrio sufocava a caverna, Brom fixou seus olhos firmemente nos de Eragon.
Depois, a satisfação encheu o rosto do ancião e um leve sussurro escapou de seus lábios. E foi assim que Brom, o contador de histórias, morreu.
Com dedos trêmulos, Eragon fechou os olhos de Brom e pôs-se de pé. Saphira ergueu a cabeça atrás dele e rosnou de modo pesaroso para o alto, demonstrando seu lamento. As lágrimas rolavam no rosto de Eragon ao mesmo tempo em que uma sensação horrível de perda tomava conta dele. Com muito esforço, ele disse:
— Nós temos de enterrá-lo.
— Podemos ser vistos — alertou Murtagh.
— Não me importo!
Murtagh hesitou, mas depois carregou o corpo de Brom para fora da caverna, junto com a espada e o cajado dele. Saphira os seguiu.
— Para o topo — disse Eragon duramente, apontando para o cume da colina de arenito.
— Mas não podemos cavar na pedra sólida — protestou Murtagh.
— Eu posso.
Eragon subiu até o cume liso, fazendo um grande esforço por causa de suas costelas. Lá, Murtagh deitou Brom na pedra.
Eragon enxugou os olhos e fixou seu olhar na pedra de arenito.
Enquanto fazia gestos com uma das mãos, ele disse:
— Moi stenr!
A pedra formou pequenas ondas. Ela se mexia como água, forman do uma depressão do comprimento de um corpo no topo da colina. Moldando o arenito como barro molhado, ele levantou paredes, que chegavam à altura da cintura, em volta da cova.
Colocaram Brom dentro do cofre de arenito inacabado, juntamente com seu cajado e sua espada. Dando um passo atrás, novamente Eragon deu forma à pedra usando magia. Ela se fundiu sobre o rosto imóvel de Brom e fluiu para cima, formando um pináculo lapidado. Como tributo final, Eragon escreveu runas na pedra:

AQUI JAZ BROM
Que era um dos Cavaleiros de Dragões
E como um pai para mim.
Que seu nome viva em glória.

Depois, abaixou a cabeça e chorou copiosamente. Ele ficou em pé como uma estátua viva até a noite, quando a luz deixou de iluminar a terra.
Naquela noite, sonhou com a mulher aprisionada novamente.
Ele sabia que havia algo errado com ela. A respiração era irregular, e ela tremia... mas ele não sabia se era de frio ou de dor. Na semi-escuridão da cela, a única coisa claramente iluminada era a mão dela, que pendia pela beira do catre. Um líquido escuro pingava da ponta dos dedos. Eragon sabia que era sangue.

2 comentários:

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