27 de maio de 2017

Capítulo 37 - Elva

— Senhora?... Você é necessária, senhora.
— O quê? — Relutando para se mover, Nasuada abriu os olhos e viu Jörmundur entrar no quarto. O veterano tirou seu elmo, prendeu-o na dobra do seu braço direito, e andou em sua direção, com a mão esquerda plantada no botão do punho de sua espada. Os elos de sua cota tiniram quando ele se curvou.
— Minha lady.
— Bem-vindo, Jörmundur. Como está o seu filho hoje? — Ela estava feliz por ele ter vindo. De todos os membros do Conselho de Anciãos, ele foi o que aceitou a sua liderança com mais facilidade, servindo-a com a mesma lealdade, obstinação e determinação que dispensara a Ajihad. Se todos os meus guerreiros fossem como ele, ninguém poderia nos deter.
— Sua tosse passou.
— Fico feliz em ouvir isso. Agora, o que o traz aqui?
Marcas de expressão apareceram na testa de Jörmundur. Ele passou a mão no cabelo, amarrado num rabo-de-cavalo, refreou-se e desceu a mão de volta ao lado do corpo.
— Magia, do tipo mais estranho.
— Oh?
— Você se lembra do bebê que Eragon abençoou?
— Sim. — Nasuada só a vira uma vez, mas estava bem a par das histórias exageradas sobre a criança que circulavam entre os Varden, assim como das esperanças que os Varden tinham em relação ao que a garota poderia conseguir assim que crescesse. Nasuada era mais pragmática em relação ao assunto. O que quer que a criança se tornasse, não o seria ainda por muitos anos, e a tal altura a batalha contra Galbatorix já estaria perdida ou ganha.
— Pediram-me para que eu a levasse até ela.
— Pediram? Quem? E por quê?
— Um garoto no campo de treinamento me disse que você devia visitar a criança. Disse que você acharia interessante. Ele se recusou a me o seu nome, mas tinha a aparência que aquele menino-gato da feiticeira deve ter ao se transformar em um menino, por isso pensei... Bem achei que você devia saber. — Jörmundur parecia embaraçado. — Fiz perguntas aos meus homens sobre a garota, e ouvi coisas... que ela é diferente.
— De que maneira?
Ele encolheu os ombros.
— O suficiente para acreditar que você devia fazer o que o menino-gato disse.
Nasuada franziu a testa. Ela sabia que, de acordo com velhas histórias, ignorar um menino-gato era o máximo da insensatez e normalmente leva à desgraça. No entanto, sua parceira — Angela, a herbolária — era outra usuária de magia na qual Nasuada não confiava inteiramente, ela era muito independente e imprevisível.
— Magia — disse ela, tornando-a uma maldição.
— Magia — concordou Jörmundur, embora tivesse usado a palavra para indicar medo e intimidação.
— Muito bem, vamos visitar a tal criança. Ela está dentro do castelo?
— Orrin deu a ela e ao seu tutor quartos na ala oeste do castelo.
— Leve-me até ela.
Levantando as suas anáguas, Nasuada ordenou a Farica que adiasse o resto dos compromissos do dia e depois deixou seus aposentos. Mais atrás, ouviu Jörmundur estalar os dedos enquanto orientava quatro guardas para que assumissem posições em volta dela. Alguns instantes depois, ele se posicionou ao seu lado, apontando a direção a seguir.
O calor dentro do castelo Borromeo havia aumentado ao ponto de eles sentirem que estavam presos dentro de uma fornalha gigante. O ar tremeluzia como vidro liquefeito nos peitoris das janelas.
Embora não estivesse à vontade, Nasuada sabia que lidava melhor com o calor do que a maior parte das pessoas por causa da sua pele escura. Aqueles que tinham mais dificuldade para aguentar altas temperaturas eram homens como Jörmundur e seus guardas, que tinham de usar suas armaduras o dia inteiro, mesmo que estivessem de plantão sob o incessante olhar abrasador do sol.
Nasuada ficou atenta aos cinco homens enquanto o suor se acumulava em sua pele exposta e sua respiração ficava cada vez mais debilitada. Desde que chegaram a Aberon, um grande contingente dos Varden havia desmaiado devido à insolação — dois deles morreram uma ou duas horas depois — e ela não tinha a intenção de perder mais nenhum dos seus subordinados por levá-los além de seus limites físicos.
Quando julgou que eles precisavam descansar, ela ordenou-lhes que parassem — ignorando sua objeção — e fossem pedir água a um criado.
— Não posso deixá-los tombar como garrafas de boliche.
Eles tiveram que parar mais duas vezes antes de chegar ao seu destino, uma porta oculta na parede interna do corredor. O chão ao redor estava cheio de presentes espalhados.
Jörmundur bateu e uma voz trêmula vinda de dentro perguntou:
— Quem é?
— Lady Nasuada veio ver a criança — disse ele.
— Você tem o coração sincero e firme determinação?
Desta vez, Nasuada respondeu:
— O meu coração é puro e a minha determinação é de ferro.
— Cruze o limiar da porta então e seja bem-vinda.
A porta se abriu para uma passagem iluminada por uma única lanterna vermelha de anão. Não havia ninguém na porta. Enquanto prosseguia entrando, Nasuada viu que as paredes e o teto estavam cobertos com camadas de pano preto, dando ao lugar a aparência de uma caverna ou de um covil. Para a sua surpresa, o ar estava bastante frio, quase gelado, como uma noite fresca de outono. A apreensão afundou garras venenosas no seu estômago. Magia.
Uma cortina preta bloqueava o seu caminho. Ao afastá-la, Nasuada percebeu que estava no que antes fora uma sala de estar. A mobília havia sido removida, exceto por um jogo de cadeiras que havia sido empurrado para as paredes cobertas. Um castiçal feito por anões, que pouco iluminava o ambiente, estava pendurado numa ondulação do tecido pendente acima, projetava sombras esquisitas e multicoloridas em todas as direções.
Uma mulher idosa e curvada a olhava das profundezas de um dos cantos, era ladeada por Angela e pelo menino-gato, que estava em pé com seus pelos eriçados. No centro do salão, havia uma garota pálida ajoelhada, que Nasuada julgou ter entre três e quatro anos de idade. A menina comia numa travessa que estava em seu colo. Ninguém falava.
Confusa, Nasuada perguntou:
— Onde está o bebê?
A menina olhou para cima.
Nasuada ofegou assim que viu a marca do dragão brilhando na testa da criança enquanto encarava profundamente seus olhos lilases. A garota armou, com seus lábios, um sorriso terrível e astuto.
— Eu sou Elva.
Nasuada recuou sem pensar, segurando a adaga que mantinha presa ao antebraço esquerdo. Era uma voz adulta, cheia da experiência e do cinismo de um adulto. Parecia profano vindo da boca de uma criança.
— Não corra — disse Elva. — Sou sua amiga. — Ela colocou a travessa de lado, que agora estava vazia. Para a velha, ela disse: — Mais comida. — A anciã saiu correndo da sala. Então Elva bateu no chão ao seu lado. — Por favor, sente-se. Estava esperando você desde que aprendi a falar.
Ainda segurando a sua adaga, Nasuada se agachou até as pedras.
— Quando foi isso?
— Semana passada. — Elva cruzou as mãos no seu colo. Ela fixou seus olhos medonhos em Nasuada, prendendo-a no lugar, através da força sobrenatural do seu olhar. Nasuada sentia como se uma lança violeta tivesse furado o seu crânio e estivesse se mexendo dentro de sua mente, dilacerando seus pensamentos e suas memórias. Ela lutou contra o desejo de gritar.
Inclinando-se para a frente, Elva se esticou e segurou o rosto de Nasuada com uma mão macia.
— Sabe, Ajihad não poderia liderar os Varden melhor do que você. Você escolheu o caminho certo. Seu nome será louvado por séculos a fio por ter a coragem e a precaução de mudar os Varden para Surda e atacar o Império quando todo mundo achava que era uma insanidade fazê-lo.
Nasuada olhou pasmada para a garota. Como uma chave se encaixa numa fechadura, as palavras de Elva referiam-se perfeitamente aos medos mais básicos de Nasuada, as dúvidas que a mantinham acordada à noite, suando na escuridão. Uma onda involuntária de emoção a atravessou, encorajando-a com uma sensação de confiança e paz que ela não possuía desde antes da morte de Ajihad. Lágrimas de alívio irrompiam dos seus olhos e rolavam pela sua face. Era como se Elva soubesse exatamente o que dizer para confortá-la.
Nasuada a detestava por isso.
Sua euforia brigava contra seu desgosto por causa de como e de quem provocara o momento de fraqueza. Ela também não acreditava na motivação da garota.
— O que é você? — ela exigiu saber.
— Sou o que Eragon fez de mim.
— Ele a abençoou.
Os olhos temíveis e remotos ficaram enevoados por um instante enquanto Elva piscava.
— Ele não entendeu as suas ações. Desde que Eragon me enfeitiçou, sempre que vejo uma pessoa, sinto todas as dores que a perturbam ou que estão prestes a perturbá-la. Quando eu era menor, não podia reagir. Até que cresci.
— Por que iria...
— A magia no meu sangue me impulsiona a proteger as pessoas da dor... não importa o sofrimento que produz em mim ou se quero ajudar não. — Seu sorriso se retorceu amargamente. — Custa-me caro resistir à natureza.
Enquanto Nasuada digeria as implicações, ela percebeu que o aspecto perturbador de Elva era um produto derivado do sofrimento ao qual ela havia sido exposta. Nasuada estremeceu ao pensar no que a garota passou. Essa magia deve tê-la dilacerado para que ela tivesse essa compulsão e se tornasse incapaz de reagir. Embora não achasse sensato, começou a sentir alguma simpatia por Elva.
— Por que você me disse isso?
— Achava que você devia saber quem e o que sou. — Elva fez uma pausa e o fogo no seu olhar se intensificou. — E que irei lutar por você sempre que puder. Use-me como usaria um assassino... escondido, no escuro, e sem piedade. — Ela gargalhou num tom de voz alto e indiferente. — Você se pergunta por quê, dá para ver. Porque, a não ser que essa guerra termine, mais cedo ao invés de mais tarde, ela me deixará louca. Já é muito difícil lidar com as agonias da vida cotidiana sem ter que confrontar as atrocidades da batalha. Use-me para acabar com ela e garantirei que sua vida seja tão feliz quanto nenhum humano já teve o privilégio de experimentar.
Naquele momento, a anciã voltou apressada para o salão, curvou-se na direção de Elva e lhe deu uma nova bandeja de comida. Foi um alívio físico para Nasuada quando Elva olhou para baixo e atacou uma perna de carneiro, empurrando a carne para dentro da boca com ambas as mãos. Ela comeu com a intensidade voraz de um lobo esfomeado, demonstrando uma completa falta de decoro. Com seus olhos violeta escondidos e sua marca do dragão coberta pela franja negra, ela mais uma vez parecia não ser nada além de uma criança inocente.
Nasuada esperou até que Elva não tivesse mais nada a falar. Então a um aceno de Angela, ela acompanhou a herbolária até uma porta lateral, deixando a garota pálida sentada sozinha no meio do salão escuro e coberto de panos, como se fosse um feto medonho aninhado em seu ventre, esperando o momento certo para sair.
Angela se certificou de que a porta estava fechada e sussurrou:
— Tudo o que ela faz é comer e comer. Não podemos saciar seu apetite com as rações que temos no momento. Você pode...
— Ela será alimentada. Vocês não precisam se preocupar com isso.
Nasuada esfregou os braços, tentando erradicar a lembrança daqueles olhos horríveis e medonhos.
— Obrigada.
— Isso já aconteceu com mais alguém?
Angela balançou a cabeça até seu cabelo ondulado tocar de leve nos seus ombros.
— Não, em toda a história da magia. Tentei traçar o seu futuro, mas ele é um pântano sem esperança – palavra adorável, pântano – pois sua vida interage com muitas outras.
— Ela é perigosa?
— Todos somos perigosos.
— Você sabe o que eu quero dizer.
Angela encolheu os ombros.
— Ela é mais perigosa do que alguns e menos do que outros. A pessoa que ela está mais propensa a matar, no entanto, é ela mesma. Se ela encontrar alguém que está prestes a se ferir e o encanto de Eragon a pegar desprevenida, então ela ficará no lugar da pessoa condenada. É por isso que ela fica trancada a maior parte do tempo.
— Com quanta antecedência ela pode prever acontecimentos?
— Duas ou três horas, no máximo.
Recostando-se na parede, Nasuada pensou na mais nova complicação em sua vida. Elva podia ser uma arma potente se fosse usada corretamente. Através dela, posso discernir os problemas e as fraquezas dos meus oponentes, assim como o que irá agradá-los e torná-los suscetíveis aos meus desejos. Numa emergência, a garota também poderia agir como um guarda infalível, se um dos Varden, Eragon ou Saphira, tivesse que ser protegido. Ela não pode ficar sozinha. Preciso de alguém para vigiá-la. Alguém que entenda de magia e esteja suficientemente satisfeito com sua própria identidade para resistir à influência de Elva... e que eu possa acreditar que será confiável e honesta. Ela descartou Trianna imediatamente.
Nasuada olhou para Angela. Embora ela tivesse muita cautela para lidar com a herbolária, ela sabia que Angela havia ajudado os Varden em questões da maior delicadeza e importância — como na cura de Eragon — e não pediu nada em troca. Nasuada não conseguia pensar em mais ninguém que tivesse tempo, inclinação e habilidade para cuidar de Elva.
— Sei — afirmou Nasuada — que isso é muita arrogância da minha parte, pois você não está sob o meu controle e eu conheço muito pouco da sua vida ou de seus deveres, mas preciso lhe pedir.
— Prossiga. — Angela fez um aceno com a mão.
Nasuada hesitou, embaraçada, mas depois prosseguiu.
— Você estaria disposta a vigiar Elva por mim? Eu necessito...
— É claro! Vou ficar com os meus dois olhos grudados nela, se eu puder passar sem eles. É um grande prazer ter a oportunidade de poder estudá-la mais a fundo.
— Você terá que me fazer relatórios — avisou Nasuada.
— O dardo envenenado escondido dentro da torta de passas. Bem, suponho que eu possa lidar com isso.
— Tenho a sua palavra então?
— Tem a minha palavra.
Aliviada, Nasuada deu um suspiro e afundou na cadeira que estava mais próxima.
— Oh, que confusão. Que situação complicada. Como suserana de Eragon, sou responsável por suas façanhas, mas jamais poderia imaginar que ele fosse fazer algo tão horrível quanto isso. É algo que mancha a minha honra assim como mancha a dele.
Uma reverberação de estampidos agudos encheu a sala enquanto Angela estalava os nós dos dedos.
— Sim, eu pretendo falar com ele sobre esse assunto, assim que voltar de Ellesméra.
Sua expressão era tão feroz que deixou Nasuada alarmada.
— Bem, não o machuque. Nós precisamos dele.
— Não machucarei... certamente.

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