8 de maio de 2017

Capítulo 36

Seja educado
Quando montar bombas ou...
Splat! Virou geleia

TALVEZ EU TENHA MENCIONADO: eu não sou o deus do mar.
Tenho muitas habilidades fascinantes. No meu estado divino, sou bom em quase tudo que tento fazer. Mas, como Lester Papadopoulos, eu não era mestre em nadar debaixo d’água carregando peso, nem conseguia ficar sem oxigênio por mais tempo do que um mero mortal.
Fui seguindo pela passagem, abraçando Meg junto ao peito, meus pulmões queimando de revolta.
Primeiro, você nos enche de abelhas proféticas das sombras!, gritaram meus pulmões. Agora, nos obriga a ficar embaixo d’água! Você é uma pessoa horrível!
Eu só podia torcer para Meg sobreviver à experiência. Como ela ainda estava inconsciente, não pude avisá-la para prender a respiração. O máximo que podia fazer era tornar o trajeto o mais curto possível.
Pelo menos, a corrente estava a meu favor. A água me empurrou na direção que eu queria ir, mas, depois de seis ou sete segundos, tive certeza de que íamos morrer.
Meus ouvidos latejavam. Tateei cegamente em busca de apoios nas paredes escorregadias de pedra. As pontas dos meus dedos deviam estar esfoladas, mas o frio incapacitava meu sistema nervoso. A única dor que sentia vinha de dentro do meu peito e da minha cabeça.
Minha mente começou a pregar peças enquanto eu tentava obter mais oxigênio.
Você consegue respirar debaixo d’água!, dizia ela. Vá em frente! Vai ficar tudo bem! Estava prestes a inspirar quando reparei em um leve brilho verde acima. Ar? Radiação? Limonada? Qualquer uma dessas coisas parecia melhor do que me afogar no escuro. Bati os pés naquela direção.
Eu imaginei que estaria cercado de inimigos quando chegasse à superfície, então tentei subir ofegando e me debatendo o mínimo possível. Cuidei para que a cabeça de Meg surgisse acima da água e apertei de leve sua barriga para expelir qualquer fluido dos pulmões dela. (É para isso que servem os amigos.)
Fazer tudo isso em silêncio não foi tarefa fácil, mas assim que observei os arredores fiquei feliz de ser um ninja de ofegos baixos e poucos movimentos.
A caverna não era muito maior do que a anterior. Havia lâmpadas elétricas penduradas no teto, lançando luz verde na água. Do lado oposto, avistei uma doca cheia de barcaças de alumínio, que provavelmente serviam para acessar áreas do rio subterrâneo que, de outro modo, seriam fatais. Três blemmyae estavam agachados sobre um objeto grande que parecia dois tanques de mergulho grudados um no outro, as rachaduras cheias de massa de vidraceiro, e um monte de fios.
Se Leo Valdez tivesse elaborado tal dispositivo, poderia ser qualquer coisa, desde um mordomo robótico a um propulsor a jato. Considerando a falta de criatividade dos blemmyae, cheguei à deprimente conclusão de que eles estavam armando uma bomba.
Os únicos motivos para eles não terem reparado em nós e nos matado foram: 1) eles estavam ocupados discutindo, e 2) eles não estavam olhando na nossa direção. A visão periférica dos blemmyae compreende basicamente a área das axilas, então eles geralmente só olham para a frente. Um blemmyae usava uma calça verde-escura e uma camisa verde aberta; roupa de guarda florestal, talvez? O segundo vestia o uniforme azul da polícia de Indiana. A terceira... Ah, não. Aquele vestido florido de novo.
— Não, senhor! — gritou o policial da forma mais educada possível. — Não é aí que o fio vermelho vai, se me permite dizer.
— É claro que permito — disse o guarda florestal. — Mas estudei o desenho. Vai aí sim, porque o fio azul tem que entrar aqui. E, perdão por dizer isso, mas você é um idiota.
— Está perdoado — disse o policial, com simpatia —, mas só porque você é um idiota.
— Ah, garotos — disse a mulher. A voz era definitivamente a de Nanette, a mulher que nos recebeu no nosso primeiro dia em Indianápolis. Parecia impossível que ela tivesse se regenerado do Tártaro tão rápido depois de ser morta pela torre de besta de Josephine, mas atribuí isso à minha péssima sorte de sempre. — Não vamos discutir. Podemos ligar para o número de atendimento ao cliente e...
Meg aproveitou essa oportunidade para tossir bem alto. Não tínhamos onde nos esconder exceto embaixo d’água, e eu não estava em condições de submergir de novo.
Nanette nos viu. Sua cara/peito se contorceu em um sorriso, o batom, de um laranja intenso, brilhava como lama na luz verde.
— Ah, olhem só! Visitantes!
O guarda florestal puxou uma faca de caça. O policial pegou a arma. Mesmo com a noção de profundidade tão ruim da espécie, não era provável que ele errasse o alvo estando tão perto.
Indefeso na água, segurando uma Meg ofegante e meio inconsciente, fiz a única coisa em que consegui pensar. Gritei.
— Não nos matem!
Nanette riu.
— Ah, querido, por que não mataríamos vocês?
Olhei para a bomba feita com tanques de mergulho. Sem dúvida Leo Valdez saberia exatamente o que fazer em uma situação daquelas, mas o único conselho em que eu conseguia pensar era algo que Calipso tinha me dito no zoológico: Metade da magia é agir como se fosse funcionar. A outra metade é escolher um alvo supersticioso.
— Vocês não deveriam nos matar — anunciei —, porque eu sei onde entra o fio vermelho!
Os blemmyae sussurraram baixinho. Eles podiam ser imunes a encantos e música, mas compartilhavam da relutância dos mortais em ler as instruções e ligar para o serviço de atendimento ao cliente. A hesitação deles me deu alguns instantes para dar um tapa em Meg (delicadamente, na bochecha, só para acordá-la).
Ela se debateu e se sacudiu, o que já estava de bom tamanho para quem antes estava totalmente apagada. Examinei a caverna em busca de possíveis rotas de fuga. À nossa direita, o rio serpenteava por um túnel de teto baixo. Eu não estava mais com vontade de nadar por aquelas cavernas. À esquerda, na beirada da doca, se projetava uma rampa com corrimões. Decidi que aquela seria nossa saída para a superfície.
Infelizmente, no meio do caminho havia três humanoides superfortes com uma bomba.
Os blemmyae terminaram de conversar.
Nanette olhou para mim de novo.
— Muito bem! Por favor, diga onde entra o fio vermelho. Depois, vamos matar você da forma mais indolor possível, e podemos todos ir para casa felizes.
— Uma proposta generosa — falei. — Mas eu preciso mostrar. É difícil demais explicar daqui. Permissão para atracar?
O policial baixou a arma. Um bigode peludo cobria suas últimas costelas.
— Bom, ele pediu permissão. Foi educado.
— Humm. — Nanette passou a mão no queixo, ao mesmo tempo coçando a barriga. — Permissão concedida.
Juntar-me a três inimigos na doca era uma opção só um pouco melhor do que congelar no rio, mas fiquei feliz por tirar Meg da água.
— Obrigado — falei aos blemmyae depois que eles nos puxaram.
— De nada — disseram os três ao mesmo tempo.
— Vou só colocar minha amiga aqui... — Cambaleei na direção da rampa, me perguntando se daria para tentar sair correndo.
— Aí já está bom — avisou Nanette —, por favor e obrigada.
Não havia palavras em grego arcaico para odeio você, mulher-palhaço assustadora, mas murmurei algo parecido. Apoiei Meg na parede.
— Está me ouvindo? — sussurrei.
Os lábios dela estavam azulados. Os dentes rangiam sem parar. Os olhos estavam revirados, é só dava para ver a parte branca cheia de vasinhos vermelhos.
— Meg, por favor. Vou distrair os blemmyae, mas você precisa sair daqui. Consegue andar? Engatinhar? Qualquer coisa?
— Hum-um-um. — Meg tremeu e tossiu. — Shumma-shumma.
Desconhecia essa língua, mas supus que Meg não iria a lugar nenhum sozinha. Eu teria que fazer mais do que só distrair os blemmyae.
— Muito bem! — disse Nanette. — Por favor, nos mostre o que sabe, para podermos derrubar esta caverna em cima de vocês!
Forcei um sorriso.
— Claro. Vamos ver...
Eu me ajoelhei ao lado do dispositivo. Era tão simples que fiquei triste pelos blemmyae. Na verdade, só havia dois fios e dois receptores, tudo codificado pelas cores azul e vermelho.
Olhei para cima.
— Ah. Uma pergunta rápida. Eu estou ciente de que os blemmyae não têm um bom ouvido para música, mas...
— Não é verdade! — O guarda florestal pareceu ofendido. — Eu não tenho ouvidos, mas escuto muito bem!
Os outros dois fizeram reverências enfáticas, o equivalente a assentir para os blemmyae.
— Eu escuto muitíssimo bem — concordou Nanette.
— E eu gosto de todo tipo de música! Explosões. Tiros. Motores de carro. Todos os sons são bons — disse o guarda florestal.
— Entendi — falei. — Mas minha pergunta era... seria possível que sua espécie também seja daltônica?
Eles pareceram perplexos. Examinei mais uma vez a maquiagem de Nanette, o vestido e os sapatos, e ficou claro para mim por que tantos blemmyae preferiam se disfarçar com uniformes mortais. Eram daltônicos, claro!
Só para deixar claro, não estou querendo dizer que ser daltônico ou não ter um bom ouvido para música indica falta de criatividade ou de inteligência. Longe disso! Alguns dos meus gênios criativos preferidos, de Mark Twain a Mister Rogers e William Butler Yeats, também sofriam disso.
Mas, nos blemmyae, restrições sensoriais e falta de inteligência pareciam ser parte do mesmo pacote deprimente.
— Deixa pra lá — falei. — Vamos começar. Nanette, você poderia pegar o fio vermelho, por favor?
— Já que você pediu com tanta educação... — Nanette se inclinou e pegou o fio azul.
— O outro fio vermelho — falei.
— Claro. Eu sabia!
Ela pegou o fio vermelho.
— Agora, prenda ao receptor vermelho... a este receptor. — Apontei.
Nanette fez o que eu instruí.
— Prontinho! — falei.
Ainda perplexos, os blemmyae olharam para o dispositivo.
— Mas tem outro fio — disse o policial.
— É verdade — falei, com paciência. — Vai no segundo receptor. No entanto — segurei a mão de Nanette antes que ela nos explodisse —, quando você o conectar, provavelmente vai ativar a bomba. Está vendo essa telinha aqui? Não sou nenhum Hefesto, mas suponho que seja o cronômetro. Por acaso vocês sabem de quanto tempo é a contagem regressiva?
O policial e o guarda florestal conversaram na língua monotônica e gutural dos blemmyae, que soava como duas lixadeiras elétricas falando em código morse. Olhei para Meg, que estava onde eu a tinha deixado, ainda tremendo e murmurando shumma-shumma baixinho.
O guarda florestal sorriu de um jeito satisfeito.
— Bem, senhor. Como fui o único que leu o diagrama, decidi que posso dar a resposta com segurança. O tempo é cinco segundos.
— Ah. — Algumas abelhas-fantasma subiram pelo meu pescoço. — Então, quando você conectar o fio, não vai haver tempo para sair da caverna antes que a bomba exploda.
— Exatamente! — Nanette abriu um sorriso. — O imperador foi bem claro. Se Apolo e a menina saírem da câmara do oráculo, matem os dois e derrubem a caverna com uma grande explosão!
O policial franziu a testa.
— Não, ele disse para matá-los com a grande explosão.
— Não, senhor — disse o guarda florestal. — Ele disse para causarmos a grande explosão só se fosse necessário. Podíamos matar esses dois se eles aparecessem, mas, se não... — Ele coçou o cabelo nos ombros. — Estou confuso agora. Para que era a bomba?
Fiz uma oração silenciosa agradecendo a Cômodo por ter enviado blemmyae e não germânicos para cuidar daquela tarefa. Claro que isso provavelmente significava que os germânicos estavam lutando com meus amigos na Estação Intermediária naquele momento, mas eu só conseguia lidar com uma crise catastrófica de cada vez.
— Amigos — falei. — Inimigos amigáveis, blemmyae. O que quero dizer é o seguinte: se vocês ativarem a bomba, vocês três também vão morrer. Estão preparados para isso?
O sorriso de Nanette sumiu.
— Ah. Humm...
— Já sei! — O guarda florestal balançou o dedo para mim com entusiasmo. — Por que você não conecta o fio depois que nós três sairmos?
— Não seja bobo — disse o policial. — Ele não vai se matar e matar a garota só porque pedimos. — Ele me lançou um olhar esperançoso. — Ou vai?
— Não importa — repreendeu Nanette. — O imperador mandou a gente matar Apolo e a garota. Não fazer com que eles se matassem.
Os outros murmuraram, concordando. Seguir ordens ao pé da letra era o mais importante, claro.
— Tive uma ideia! — falei, quando, na verdade, não tinha pensado em nada. Queria ter bolado um plano inteligente para derrotar os blemmyae e tirar Meg dali. Até o momento, nenhum plano inteligente tinha se materializado. Também havia a questão da minha promessa a Trofônio. Eu tinha jurado destruir o oráculo dele. Preferia fazer isso sem morrer no processo.
Os blemmyae esperaram educadamente que eu continuasse. Tentei canalizar a bravata de Calipso.
(Ah, deuses, por favor, nunca contem para ela que a usei como inspiração.)
— É verdade que vocês têm que nos matar. Eu entendo! Mas tenho uma solução que vai alcançar todos os seus objetivos: uma grande explosão, a destruição do oráculo, a nossa morte e vocês saírem dessa vivos.
Nanette assentiu.
— Esse último é um bônus, sem dúvida.
— Tem um túnel subterrâneo bem ali... — Expliquei que Meg e eu nadamos da câmara de Trofônio por ele. — Para destruir efetivamente a sala do oráculo, vocês não podem armar a bomba aqui. Alguém teria que nadar com o dispositivo até o fundo do túnel, ativar o timer lá e nadar de volta. Eu não sou forte o bastante, mas um blemmyae poderia fazer isso com facilidade.
O policial franziu a testa.
— Mas cinco segundos... é tempo suficiente?
— Ah — falei —, mas todo mundo sabe que, debaixo d’água, cronômetros demoram o dobro de tempo, então vocês teriam dez segundos, na verdade.
Nanette piscou.
— Tem certeza disso?
O guarda florestal a cutucou com o cotovelo.
— Ele disse que todo mundo sabe disso. Não seja mal-educada!
O policial coçou o bigode com o cano da arma, o que devia ser contra os protocolos de segurança do departamento.
— Eu ainda não entendi bem por que temos que destruir o oráculo. Por que não podemos matar vocês dois, digamos... com esta arma... e deixar o oráculo em paz?
Suspirei.
— Se ao menos fosse possível! Mas, meu amigo, não é seguro. Essa garota e eu entramos e saímos com nossa profecia, não foi? Isso quer dizer que outros invasores podem fazer o mesmo. O imperador devia estar falando sobre isso quando mandou vocês causarem uma grande explosão. Vocês não querem ter que voltar aqui com uma bomba cada vez que alguém invadir, querem?
O policial pareceu apavorado.
— Minha nossa, não!
— E deixar o oráculo intacto, neste lugar que mortais obviamente visitam como se fosse um ponto turístico... Bom, isso é um perigo! Não explodir a caverna do oráculo seria muito descortês da nossa parte — falei.
— Hummm. — Os três blemmyae assentiram/se curvaram com sinceridade.
— Mas — disse Nanette —, se você estiver tentando nos enganar... e peço desculpas por levantar essa possibilidade...
— Não, não. Eu entendo perfeitamente. Que tal isto: preparem a bomba. Se vocês voltarem em segurança e a caverna explodir no momento correto, vocês podem fazer a cortesia de nos matar de forma rápida e indolor. Se alguma coisa der errado...
— Nós podemos arrancar seus membros! — sugeriu o policial.
— E esmagar seus corpos até virarem geleia! — acrescentou o guarda florestal. — Que ideia maravilhosa. Obrigado!
Tentei manter meu nervosismo sob controle.
— Disponham.
Nanette observou a bomba, talvez sentindo que havia algo de errado com meu plano. Graças aos deuses, ela não notou nada, ou foi educada demais para mencionar suas reservas.
— Bem — disse ela por fim —, sendo assim, já volto!
Ela pegou os tanques e pulou na água, o que me deu alguns maravilhosos segundos para elaborar um plano para evitar ser esmagado até virar geleia. Finalmente, as coisas estavam melhorando!

6 comentários:

  1. Esse plano é tão Annabeth <3 Lábia, estratégia, enrolação. Saudade de Sabidinha.

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    1. OK, foi inteligente... Mas não ouse comparar a Annie a esse burro q é o Lester 😂😂

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  2. Eu racho o bico com esses monstros

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  3. Eu estava tentando comer enquanto lia esse capítulo, meu zeus não acredito que esses vão se tornar meus monstros favoritos, apenas por serem engraçados ALKSLKSD
    ~ Filha de Zeus

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  4. — Ah. Uma pergunta rápida. Eu estou ciente de que os blemmyae não têm um bom ouvido para música, mas...
    — Não é verdade! — O guarda florestal pareceu ofendido. — Eu não tenho ouvidos, mas escuto muito bem!

    EIS A QUESTÃO! Como eles escutam se n tem ouvido ??

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Boa leitura :)