27 de maio de 2017

Capítulo 36 - Pendurada por um fio

Abrindo as portas dos seus aposentos, Nasuada andou a passos largos até sua escrivaninha e depois caiu numa cadeira, sem olhar para o que estava à sua volta. Sua coluna estava tão rígida que seus ombros não tocavam o encosto. Ela se sentia impotente para resolver o dilema que os Varden enfrentavam. O sobe e desce do seu peito diminuiu até ficar imperceptível. Eu falhei, era. tudo no que ela conseguia pensar.
— Senhora, a sua manga!
Retirada com uma sacudidela do seu devaneio, Nasuada olhou para baixo e viu Farica batendo no seu braço direito com um pano de limpeza. Uma coluna de fumaça subia pela manga bordada. Alarmada, Nasuada se levantou da cadeira e virou o braço, tentando descobrir o que havia provocado aquela fumaceira. Sua manga e sua saia estavam se desintegrando em teias gredosas que soltavam gases ardentes.
— Tire isso daqui — disse ela.
Ela manteve o braço afastado do corpo e permaneceu firme para que Farica pudesse desamarrar sua veste. Os dedos da criada se arrastavam pelas costas de Nasuada desvairadamente, enrolando-se com os nós, até que finalmente conseguiu soltar a casca de algodão que revestia o torso de Nasuada. Assim que a veste caiu, Nasuada puxou seus braços para fora das mangas e se livrou do manto.
Ofegante, ela ficou em pé ao lado da escrivaninha, usando apenas seus chinelos e uma camisa de linho. Para seu alívio, o tecido fino e sofisticado não havia sofrido danos, embora tivesse adquirido um forte cheiro repugnante.
— Isso a queimou? — perguntou Farica. Nasuada balançou a cabeça, sem confiar em sua língua para dar uma resposta. Farica cutucou a veste com a ponta do sapato. — Que diabo foi isso?
— Uma daquelas misturas fedorentas de Orrin — disse Nasuada com uma voz áspera. — Eu a derramei em seu laboratório. — Acalmando-se com longos respiros, ela olhou triste para a veste arruinada. Ela fora tecida e dada de presente pelas mulheres anãs de Dûrgrimst Ingeitum no seu último aniversário e era uma das peças mais finas do seu guarda-roupa. Não havia nada que pudesse substituí-la, nem podia justificar a autorização para se fazer um novo vestido, considerando as dificuldades financeiras dos Varden. De algum modo terei de me virar sem ela. Farica balançou a cabeça.
— É uma desgraça perder um vestido tão bonito. — Ela contornou a escrivaninha até uma cesta com apetrechos de costura e voltou com um par de tesouras afiadas. — Podemos também tentar salvar o máximo de pano que pudermos. Vou cortar as partes que se estragaram e farei com que sejam incineradas.
Nasuada franziu a testa e andou compassadamente por toda a extensão do salão, fervendo de raiva, e por ter mais um problema na sua já esmagadora lista de preocupações.
— O que irei usar na corte agora? — perguntou ela.
A tesoura cortou o algodão macio com uma autoridade enérgica.
— Talvez a sua saia de linho.
— Ela é informal demais para usar na frente de Orrin e dos seus nobres.
— Dê-me uma chance de ajeitar esta veste, senhora. Estou certa de que poderei modificá-la e torná-la aproveitável. Na hora em que eu terminar, ela ficará duas vezes mais grandiosa do que a peça original jamais ficou.
— Não, não. Não vai dar certo. Eles simplesmente rirão de mim. Já é bem difícil exigir o respeito deles quando estou vestida de forma apropriada, e muito menos se estiver usando vestidos remendados que serão indícios de nossa pobreza.
A mulher mais velha encarou Nasuada fixa e severamente.
— Vai dar certo, contanto que você não peça desculpas pela sua aparência. Não só isso, garanto que as outras damas ficarão tão arrebatadas pela sua nova moda que acabarão imitando-a. É só esperar e ver. — Ela foi até a porta, a abriu com um rangido e deu o tecido estragado para um dos guardas que estavam lá fora. — Sua soberana quer que isso seja queimado. Faça-o em segredo e não sussurre uma só palavra sobre isso para outra alma ou terá que dar satisfação a mim. — O guarda lhe fez uma continência.
Nasuada não pôde deixar de sorrir.
— Como eu iria funcionar sem você, Farica?
— Muito bem, acredito eu.
Depois de pôr seu traje verde para caçadas — que oferecia, em função de uma saia mais leve, algum alívio para o calor do dia — , Nasuada resolveu que, muito embora estivesse irritada com Orrin, seguiria o seu conselho: daria uma pausa em sua agenda e apenas ajudaria Farica a arrancar malhas da sua veste. Ela julgou que uma tarefa repetitiva seria uma maneira excelente de focar seus pensamentos. Enquanto puxava linhas de costura conversou sobre a situação difícil dos Varden com Farica, na esperança de que a criada pudesse enxergar uma solução que havia escapado a Nasuada.
No fim das contas, a única ajuda que Farica deu foi fazer a seguinte observação:
— Parece que grande parte das questões do mundo têm sua origem no ouro. Se tivéssemos ouro suficiente, poderíamos subornar Galbatorix para que largasse o seu trono negro... poderíamos até mesmo nos livrarmos de enfrentar seus homens.
Será que eu realmente esperava que alguém fosse fazer o meu trabalho por mim?, perguntou Nasuada para si própria. Eu conduzi nossa gente para esta tocaia e agora tenho de tirar todos daqui. Na intenção de abrir uma costura, ela estendeu o braço e rasgou, com a ponta de sua faca, uma franja da renda de bilros, cortando-a ao meio.
Nasuada olhou para aquele rasgo andrajoso na renda, para as pontas esfiapadas das linhas cor de pergaminho contorcidas por toda a veste, como se fossem um monte de minhocas retorcidas, e sentiu uma gargalhada histérica arranhar sua garganta na mesma hora em que uma lágrima se formava em seu olho. Será que sua sorte poderia ser pior?
A renda de bilros era a parte mais valiosa do vestido. Muito embora a renda exigisse uma certa habilidade para ser tecida, sua raridade e seu custo se devia principalmente a seu ingrediente central: quantidades vastas, abundantes, monótonas e mortais de tempo. Ela levava tanto tempo para ser produzida que se você tentasse criar um véu de renda sozinho, seu progresso não seria medido em semanas mas em meses. Onça por onça, a renda valia mais do que o ouro ou a prata.
Ela passou seus dedos pelas linhas, parou no rasgo que ela havia criado. A renda não consome tanta energia, apenas tempo. Ela detestava produzila sozinha. Energia... energia... Naquele momento, uma série de imagens reluziram em sua mente: Orrin falando em usar a magia para pesquisa, Trianna, a mulher que dirigia Du Vrangr Gata desde as mortes dos Gêmeos, ela mesma levantando os olhos para ver um dos curandeiros dos Varden enquanto ele lhe explicava os princípios da magia quando Nasuada tinha cinco ou seis anos de idade. Aquelas experiências discrepantes formavam uma corrente de raciocínio tão excessiva e inverossímil, que ela finalmente soltou a gargalhada que estava presa em sua garganta.
Farica lhe dirigiu um olhar estranho e esperou uma explicação.
De pé, Nasuada deixou metade da veste deslizar do seu colo e cair no chão.
— Traga-me Trianna neste instante. Não me importa o que esteja fazendo, traga-a aqui.
A pele em torno dos olhos de Farica se apertou, mas a criada fez uma reverência e afirmou:
— Como quiser, senhora. — E saiu pela porta reservada dos criados.
— Obrigada — sussurrou Nasuada na sala vazia. Entendeu a relutância da empregada, ela também se sentia desconfortável sempre que tinha de interagir com usuários de magia. De fato, só confiava em Eragon porque ele era um Cavaleiro — embora isso não fosse nenhuma prova de virtude, como Galbatorix havia demonstrado — e por causa do seu juramento de fidelidade, Nasuada sabia que ele jamais a trairia. Tinha medo de pensar nos poderes de mágicos e feiticeiros. A ideia de que uma pessoa aparentemente normal podia matar com uma palavra, invadir a sua mente caso ele ou ela desejassem, trapacear, mentir e roubar sem ser pego, e por outro lado desafiar a sociedade com uma quase impunidade...
Seu coração acelerou.
Como poderia fazer com que se cumprisse a lei quando um certo segmento da população possuía poderes especiais? Basicamente, a guerra dos Varden contra o Império era uma tentativa de levar à Justiça um homem que havia abusado dos seus poderes mágicos e de evitar que ele cometesse mais crimes. Toda essa dor e destruição porque ninguém tinha forças para derrotar Galbatorix. Ele não irá nem mesmo morrer depois de um período curto e normal de tempo!
Embora não gostasse de magia, Nasuada sabia que seu uso seria fundamental para depor Galbatorix e que ela não teria condições de alienar magos e feiticeiras até a vitória estar garantida. Uma vez que isso ocorresse, ela pretendia resolver o problema que tal quadro apresentava.
Uma batida forte na porta do seu aposento interrompeu seus pensamentos. Com um sorriso armado e protegendo a sua mente como lhe haviam ensinado, Nasuada disse:
— Entre! — Era importante que ela parecesse educada depois de convocar Trianna de uma maneira tão rude.
A porta se abriu com um empurrão e a feiticeira morena adentrou o salão a passos largos. Seus cachos desgrenhados se avolumavam acima de sua cabeça, pois ela havia, obviamente, se arrumado com pressa. Parecia ter acabado de se levantar da cama. Curvando-se à moda dos anões, ela perguntou:
— Você me chamou, lady?
— Sim. — Relaxada numa cadeira, Nasuada olhou Trianna da cabeça aos pés, lentamente. A feiticeira levantou o queixo enquanto era examinada por Nasuada. — Preciso saber: qual é a regra mais importante da magia?
Trianna franziu a testa.
— Que qualquer coisa que se faça com magia requer a mesma energia necessária para fazê-la sem magia.
— E o que você pode fazer só é limitado pela sua habilidade e pelo seu conhecimento da língua antiga?
— Outras restrições também se aplicam, mas em geral sim. Por que pergunta, lady? Esses são os princípios básicos da magia que, ao mesmo tempo em que não estão totalmente disseminados, estou certa de que a senhora está familiarizada.
— E estou. Gostaria de me certificar de que os entendia apropriadamente. — Sem se mover da sua cadeira, Nasuada se abaixou e ergueu a veste para que Trianna pudesse ver a renda rasgada. — Então, dentro desses limites, você deve ter como formular um encanto que consegue fabricar renda usando a magia.
Um riso de mofa desdenhoso e condescendente distorceu os lábios escuros da feiticeira.
— Du Vrangr Gata tem deveres mais importantes do que reparar as suas roupas, lady. Nossa arte não é tão comum a ponto de ser empregada para meros caprichos. Estou certa de que você descobrirá que suas costureiras e alfaiates serão mais do que capazes de atender ao seu pedido. Agora, se me dá licença, eu...
— Quieta aí, mulher — disse Nasuada num tom de voz firme. A perplexidade fez Trianna emudecer no meio da frase. — Vejo que tenho que ensinar a Du Vrangr Gata a mesma lição que ensinei ao Conselho dos Anciãos: posso ser jovem, mas não sou criança para ser tratada de forma paternalista. Estou fazendo perguntas sobre renda, porque se você puder fabricá-la rápida e facilmente usando a magia, então poderemos apoiar os Varden vendendo renda de bilros e crochê baratos por todo o Império. A própria gente de Galbatorix nos dará os fundos dos quais precisamos para sobreviver.
— Mas isso é ridículo — protestou Trianna. Até mesmo Farica parecia cética. — Você não pode pagar uma guerra com renda.
Nasuada ergueu uma sobrancelha.
— Por que não? As mulheres que de outra forma não podem comprar sua própria renda irão dar pulos de alegria pela chance de poder comprar a nossa. Todas as esposas dos fazendeiros, que anseiam por aparentar serem mais ricas do que são, quererão. Até mesmo mercadores e nobres mais abastados nos darão o seu ouro, porque nossa renda terá mais qualidade do que qualquer uma fiada ou costurada por mãos humanas. Vamos juntar uma fortuna para rivalizar com a dos anões. Quer dizer, se você for hábil o bastante para fazer o que eu quero.
Trianna jogou o seu cabelo para trás.
— Você duvida das minhas habilidades?
— Posso vir a duvidar!
Trianna hesitou e depois pegou a veste de Nasuada e estudou a tira de renda por um bom tempo. Até que finalmente ela se pronunciou:
— Talvez seja possível, mas terei de fazer alguns testes antes de ter certeza.
— Faça-os imediatamente. De agora em diante, esta é a sua atribuição mais importante. E procure um fabricante de renda experiente para lhe falar sobre os moldes.
— Sim, lady Nasuada.
Nasuada permitiu que sua voz fosse mais suave.
— Muito bem. Também quero que você selecione os membros mais brilhantes da Du Vrangr Gata e trabalhe com eles para inventar outras técnicas mágicas que possam ajudar os Varden. Essa é sua responsabilidade, não minha.
— Sim, lady Nasuada.
— Agora você está dispensada. Traga-me um relatório amanhã de manhã.
— Sim, lady Nasuada.
Satisfeita, Nasuada ficou vendo a feiticeira partir, depois fechou os olhos e se permitiu aproveitar um momento de orgulho pelo que havia conseguido. Ela sabia que nenhum homem, nem mesmo o seu pai, teria pensado em tal solução.
— Essa é a minha contribuição para os Varden — disse a si mesma enquanto desejava que Ajihad pudesse ter testemunhado tudo aquilo. Num tom de voz mais estridente, ela perguntou: — Eu a surpreendi, Farica?
— Você sempre o faz, senhora.

2 comentários:

  1. Tenho que assumir que não botava fé na Nasuada, mas essa ideia dela agora foi muito boa.
    Ganhou meu respeito

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  2. Acho que Baseada vai ser uma líder tão capaz quanto seu pai, mas eu não consigo confiar nela, assim como não confio no Murtagh.
    Tenho a impressão que os dois possam vir a trair o Eragon.

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Boa leitura :)