22 de maio de 2017

Capítulo 36 - Murtagh

Durante um longo tempo, Eragon só conseguia notar a dor aguda no lado de seu corpo. Doía cada vez que ele respirava. Parecia que quem tinha sido apunhalado era ele, e não Brom. Sua noção de tempo estava distorcida, era difícil dizer se semanas haviam passado ou se apenas poucos minutos. Quando, finalmente, recobrou a consciência, abriu os olhos e olhou curiosamente para um acampamento a alguns metros de distância. Suas mãos ainda estavam amarradas, mas o efeito da droga devia ter passado, pois ele podia pensar com clareza novamente.
Saphira, você está ferida?
Não, mas você e Brom estão. Ela estava curvada em cima de Eragon, suas asas estavam abertas, de modo protetor, de cada lado.
Saphira, você não acendeu aquele fogo, não é? E você também não poderia ter se livrado daquelas correntes sozinha.
Não.
Foi o que pensei. Eragon fez um esforço para ficar de joelhos e viu um jovem sentado do outro lado da fogueira.
O estranho, vestido com roupas surradas, tinha uma expressão calma e segura. Em suas mãos estava um arco e na sua cintura pendia uma longa espada medieval. Um chifre branco com enfeites de prata repousava no colo dele, e o punho de uma adaga saía de sua bota. Seu rosto sério e seus olhos ardentes eram emoldurados por cachos de cabelos castanhos. Ele parecia ser um pouco mais velho do que Eragon e, talvez, alguns centímetros mais alto. Atrás deles, estava preso um cavalo de batalha cinzento. O estranho olhava Saphira com cautela.
— Quem é você? — perguntou Eragon, com a respiração curta.
As mãos do homem apertaram o arco com mais força.
— Murtagh. — A voz dele era baixa e controlada, mas curiosamente emotiva.
Eragon passou suas mãos por baixo das pernas, para que ficassem na sua frente. Rangeu os dentes quando sentiu uma dor aguda no lado do seu corpo.
— Por que você nos ajudou?
— Vocês não são os únicos inimigos que os Ra’zac têm. Eu estava atrás deles.
— Você sabe quem eles são?
— Sei.
Eragon concentrou-se nas cordas que prendiam seus punhos e recorreu à magia. Hesitou, consciente de que os olhos de Murtagh estavam em cima dele, depois concluiu que isso não tinha mais a menor importância.
— Jierda! — disse ele com um gemido. As cordas se arrebentaram nos pulsos dele. Ele esfregou as mãos para fazer o sangue voltar a correr.
Murtagh suspirou espantado. Eragon apoiou-se e tentou ficar em pé, mas suas costelas ardiam de dor. Caiu para trás, arfando entre seus dentes cerrados. Murtagh tentou ajudá-lo, mas Saphira parou-o com um rosnado.
— Eu poderia ter ajudado você há muito mais tempo, mas seu dragão não deixou.
— Ela é fêmea, seu nome é Saphira — disse Eragon por entre os dentes.
Agora, deixe-o passar! Não posso fazer isso sozinho. Além do mais, ele salvou nossas vidas.
Saphira rosnou de novo, mas fechou as asas e afastou-se. Murtagh olhou para ela sem rodeios quando começou a andar para a frente.
Segurou o braço de Eragon, colocando-o de pé gentilmente. Eragon gemeu de dor e teria caído se não tivesse apoio. Eles foram até a fogueira, onde Brom estava deitado de barriga para cima.
— Como ele está? — indagou Eragon.
— Mal — respondeu Murtagh, abaixando-o até o chão. — A faca entrou bem no meio das costelas. Você poderá ver como ele está em um minuto, pois antes devemos ver os danos que os Ra’zac fizeram em você. — Ele ajudou Eragon a tirar a camisa e, depois, assoviou. — Ai!
— Ai! — Eragon concordou fracamente. Um grande hematoma se estendia pelo lado esquerdo do corpo dele. A pele estava vermelha, inchada e rachada em vários pontos. Murtagh pôs a mão em cima da ferida e apertou levemente. Eragon gritou, e Saphira rosnou, dando um aviso. Murtagh olhou de relance para Saphira quando foi pegar um cobertor.
— Acho que você está com algumas costelas quebradas. É difícil dizer, mas são pelo menos duas. Talvez, mais. Você tem sorte de não estar cuspindo sangue. — Rasgou o cobertor em várias faixas e enrolou o peito de Eragon.
Eragon voltou a vestir a camisa.
— É... Tenho sorte. — Inspirou uma pequena quantidade de ar, andou de lado até Brom e viu que Murtagh tinha cortado o lado do manto dele para pôr um curativo na ferida. Com dedos trêmulos, retirou as bandagens.
— Eu não faria isso — alertou Murtagh. — Ele pode sangrar até morrer se não ficar com elas.
Eragon ignorou-o e tirou os panos que enrolavam o corpo de Brom. O ferimento era pequeno e fino, camuflando sua profundidade. O sangue jorrava. Como ele havia aprendido quando Garrow foi ferido, uma lesão provocada pelos Ra’zac demorava a sarar.
Tirou as luvas enquanto revirava sua mente de modo frenético em busca das palavras de cura que Brom havia lhe ensinado.
Ajude-me, Saphira, implorou. Estou fraco demais para fazer isso sozinho.
Saphira agachou-se ao lado dele, fixando seu olhar em Brom.
Estou aqui, Eragon. Quando a mente dela se juntou à dele, uma força revigorada entrou em seu corpo. Eragon fez uso do poder combinado dos dois e concentrou-se nas palavras. A mão dele tremia enquanto a mantinha parada sobre a ferida.
— Waíse heill! — disse. A palma da mão dele brilhou, e a pele de Brom voltou a ficar normal, como se nunca tivesse sido cortada. Murtagh assistiu ao processo inteiro.
Tudo acabou rapidamente. Enquanto a luz desaparecia, Eragon sentou, sentindo-se mal.
Nós nunca fizemos isso antes, disse ele.
Saphira concordou com a cabeça.
Juntos, podemos realizar encantos que estão muito acima da nossa capacidade individual.
Murtagh examinou o lado do corpo de Brom e perguntou:
— Ele está completamente curado?
— Eu só posso curar o que está na superfície. Não tenho conhecimento bastante para consertar o que esteja errado por dentro. Agora, depende dele. Fiz tudo que podia. — Eragon fechou os olhos por um momento, extremamente cansado. — Parece... Que a minha cabeça está nas nuvens.
— Provavelmente, você precisa comer — disse Murtagh. — Farei uma sopa.
Enquanto Murtagh preparava a refeição, Eragon imaginava quem era aquele estranho. A espada e o arco dele eram da melhor qualidade possível, como também o chifre que ele carregava. Ou era um ladrão ou devia estar acostumado com dinheiro, muito dinheiro. Por que ele estava perseguindo os Ra’zac? O que eles fizeram para tê-lo como inimigo? Será que trabalha para os Varden?
Murtagh deu a ele uma tigela de caldo. Eragon o tomou e perguntou:
— Quanto tempo faz desde que os Ra’zac fugiram?
— Algumas horas.
— Precisamos partir antes que voltem com reforços.
— Você pode até conseguir viajar — disse Murtagh, e apontou para Brom. — Mas ele não consegue. Ninguém consegue se levantar e sair cavalgando depois de ser esfaqueado entre as costelas.
Se fizermos uma maca, você conseguirá carregar Brom com suas garras como fez com Garrow? Perguntou Eragon a Saphira.
Conseguirei, mas o pouso não será dos melhores.
Não importa, desde que você consiga.
— Saphira pode levá-lo, mas precisamos de uma maca. Você pode fazer uma? Eu não tenho forças — disse Eragon para Murtagh.
— Esperem aqui. — Murtagh saiu do acampamento, espada desembainhada. Eragon foi mancando até as suas bolsas e pegou seu arco no local onde ele havia sido jogado pelos Ra’zac. Ele o pendurou, ajeitou sua aljava e pegou Zar’roc, que estava caída nas sombras. Por último, pegou um cobertor para a maca.
Murtagh voltou com dois troncos de árvores jovens. Colocou-os lado a lado no chão e passou o cobertor entre as traves. Depois que prendeu Brom cuidadosamente na maca improvisada, Saphira agarrou os troncos e, laboriosamente, levantou voo.
— Nunca pensei que fosse ver uma coisa assim — disse Murtagh, com um tom de estranheza na voz.
Enquanto Saphira desaparecia no céu escuro, Eragon foi mancando até Cadoc e montou, dolorosamente, na sela.
— Obrigado por ter nos ajudado. Agora, você deve partir. Fique o mais longe possível de nós. Você estará em perigo se o Império achá-lo conosco. Não podemos protegê-lo, e não quero que nada de mau aconteça a você por nossa causa.
— Belo discurso — disse Murtagh, apagando a fogueira. — Mas aonde vocês irão? Há algum lugar por perto onde possam descansar em segurança?
— Não — admitiu Eragon.
Os olhos de Murtagh brilharam quando viu o punho da espada.
— Nesse caso, acho que vou acompanhá-los até estarem fora de perigo. Não tenho lugar melhor aonde ir. Além disso, se ficar com vocês, poderei golpear os Ra’zac novamente mais cedo do que se estivesse sozinho. Coisas interessantes acontecem perto de um Cavaleiro.
Eragon hesitou, pois não tinha certeza se devia aceitar a ajuda de um completo estranho. Contudo, ele não estava nem um pouco satisfeito ao saber que estava fraco demais para discutir esse assunto. Se Murtagh não for confiável, Saphira pode colocá-lo para correr.
— Se quiser, pode vir conosco.
Ele deu de ombros.
Murtagh concordou com a cabeça e montou seu cavalo de batalha cinzento. Eragon pegou as rédeas de Fogo na Neve e começou a cavalgar para longe do acampamento, avançando na vastidão do campo. Uma meia-lua provia uma luz fraca, e ele sabia que aquilo facilitaria o trabalho dos Ra’zac quanto a localizá-los.
Embora Eragon quisesse interrogar mais Murtagh, ficou em silêncio, poupando suas energias para a cavalgada. Perto do amanhecer, Saphira disse:
Eu preciso parar. Minhas asas estão cansadas, e Brom precisa receber cuidados. Descobri um bom lugar para ficarmos, ele fica a uns quatro quilômetros à frente de onde vocês estão.
Encontraram-na sentada na base de uma grande formação de arenito, que se elevava em curva do chão, como uma grande colina, com as laterais repletas de cavernas de vários tamanhos. Havia abóbadas similares espalhadas por todo aquele local. Saphira parecia estar satisfeita consigo mesma.
Achei uma caverna que não pode ser vista do chão. Ela é grande o bastante para todos nós, incluindo os cavalos. Sigam-me. Ela virou-se e começou a escalar o arenito, suas garras afiadas penetravam na rocha. Os cavalos tiveram dificuldade, pois seus cascos com ferraduras não conseguiam ter aderência no arenito. Eragon e Murtagh tiveram de puxar e empurrar os animais durante quase uma hora até que conseguissem chegar ao local escondido.
A caverna tinha uns trinta metros de comprimento e mais de seis metros de largura, entretanto tinha uma entrada estreita que os protegeria do mau tempo e dos olhos dos curiosos. A escuridão tomava conta da extremidade posterior, cobrindo as paredes como se fosse mantas de lã negra e macia.
— Esplêndido — disse Murtagh. — Vou pegar lenha para fazer uma fogueira.
Eragon foi correndo até Brom. Saphira o havia posto em uma pequena laje de pedra no fundo da caverna. Eragon segurou a mão fraca de Brom e olhou ansioso seu rosto escabroso.
Depois de alguns minutos, suspirou e aproximou-se da fogueira que Murtagh tinha acendido. Comeram em silêncio, depois tentaram dar água a Brom, mas o ancião não quis beber. Frustrados, esticaram seus cobertores e dormiram.

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