8 de maio de 2017

Capítulo 35

Detesto meu filho
Baita cretino arrogante
Que oposto do pai!

EU NÃO SABIA QUE era capaz de me mover tão rápido. Não no corpo de Lester Papadopoulos, pelo menos.
Atravessei o lago e fui até Meg. Tentei desesperadamente afastar as abelhas, mas os fiapos de escuridão a envolviam, voando para dentro da boca, do nariz e das orelhas, passando até pelos dutos lacrimais. Como deus da medicina, eu teria achado isso fascinante, se não fosse tão repulsivo.
— Trofônio, pare! — implorei.
— Isso não é coisa minha — disse o espírito. — Sua amiga abriu a mente para o Oráculo das Sombras. Ela fez perguntas. Agora, está recebendo as respostas.
— Ela não fez perguntas!
— Ah, fez. A maioria sobre você, pai. O que vai acontecer com você? Para onde você deve ir? Como ela pode ajudar você? Essas são as principais preocupações na mente dela. Uma lealdade tão equivocada...
Meg começou a se debater. Eu a virei de lado, como se deve fazer quando alguém está tendo uma convulsão. Vasculhei meu cérebro. O que mais? Tirar objetos afiados das redondezas... Todas as cobras tinham ido embora, que bom. Não havia muito que eu pudesse fazer em relação às abelhas.
A pele dela estava fria, mas eu não tinha nada quente e seco com que cobri-la. O cheiro de sempre, aquele aroma leve e inexplicável de maçãs, ficou úmido como mofo. As pedrinhas dos óculos estavam completamente escuras, as lentes opacas por causa da condensação.
— Meg — falei. — Fique comigo. Se concentre na minha voz.
Ela murmurou palavras sem sentido. Com uma pontada de pânico, me dei conta de que, se ela me desse uma ordem direta em seu estado delirante, mesmo algo simples como Me deixe em paz ou Vá embora, eu seria obrigado a obedecer. Eu tinha que encontrar um jeito de ancorar a mente dela, de protegê-la do pior das visões sombrias – uma tarefa difícil para a minha consciência ainda confusa e não totalmente confiável.
Murmurei alguns cânticos de cura, velhas melodias que eu não usava havia séculos. Antes dos antibióticos, antes da aspirina, antes mesmo das ataduras esterilizadas, nós tínhamos músicas. Eu era o deus da música e da cura por um bom motivo. Nunca se deve subestimar o poder curativo da música.
A respiração de Meg ficou regular, mas o enxame de sombras ainda a envolvia, atraído pelos medos e dúvidas dela como... Bem, como abelhas por mel.
Trofônio limpou a garganta.
— Sobre o favor que você prometeu...
— Cala a boca! — cortei.
— Cala a boca — murmurou Meg, febril.
Preferi interpretar isso como apenas um eco direcionado a Trofônio, e não uma ordem de uma senhora a seu servo. Felizmente, minhas cordas vocais concordaram.
Cantei para Meg sobre a mãe dela, Deméter, a deusa capaz de curar toda a terra depois de uma seca, um incêndio ou uma inundação. Cantei sobre a misericórdia e a gentileza de Deméter, que transformou o príncipe Triptólemo em deus por causa do bem que ele tinha feito; que amamentou o bebê Demofonte por três noites, tentando torná-lo imortal; que abençoou os fabricantes de cereal dos tempos modernos, inundando o mundo com cereais de todos os tipos e sabores. Ela era uma deusa de benevolência infinita.
— Você sabe que ela ama você — falei, aninhando a cabeça de Meg no meu colo. — Ela ama todos os filhos. Veja o quanto ela se dedicava a Perséfone, apesar de aquela garota... Bom, fazer seus modos à mesa parecerem os de uma dama da alta sociedade! Hã... sem querer ofender.
Percebi que não estava mais cantando, e sim tagarelando, tentando afastar os medos de Meg com um tom de voz tranquilizador.
— Uma vez — continuei —, Deméter se casou com um deus menor da colheita, Carmanor. Você nunca deve ter ouvido falar dele. Ninguém o conhecia. Ele era uma deidade local em Creta. Rude, retrógrado, malvestido. Mas, ah, como eles se amavam. Eles tiveram um filho... o menino mais feio que você já viu. Ele não tinha qualidades que compensassem isso. Parecia um porco, todo mundo dizia. Até tinha um nome horrível: Eubulo. Parece Ebola, eu sei. Mas Deméter não dava a mínima para os insultos de todo mundo. Fez de Eubulo o deus dos bandos suínos! Só digo isso porque... Bem, nunca se sabe, Meg. Deméter tem planos para você, tenho certeza. Você não pode morrer assim. Tem muita coisa à sua espera. Deméter pode fazer de você a deusa menor dos porquinhos fofinhos!
Era impossível saber se ela estava me ouvindo. Os olhos se moviam debaixo das pálpebras fechadas como se ela tivesse entrado num estágio profundo de sono. Ela não estava mais se debatendo tanto. Ou eu estava imaginando coisas? Eu estava tremendo muito, de frio ou medo, era difícil ter certeza.
Trofônio bufou.
— Ela entrou em transe profundo. Não é necessariamente um bom sinal. Ela ainda pode morrer.
Eu dei as costas para ele.
— Meg, não escute Trofônio. Ele só sabe de medo e dor. Está tentando nos fazer perder a esperança.
— Esperança — disse o espírito. — Palavra interessante. Eu já tive esperança uma vez, de que meu pai pudesse agir como um pai. Superei esse sentimento depois de alguns séculos morto.
— Não me culpe por você ter roubado o tesouro do rei! — rosnei. — Você está aqui porque você fez besteira.
— Eu orei para você!
— Bom, talvez você não tenha orado para a coisa certa na hora certa! — gritei. — Ore por sabedoria antes de fazer alguma burrice! Não ore para que eu salve você depois de seguir seus piores instintos!
As abelhas voaram em volta de mim e zumbiram com raiva, mas não me atacaram. Eu me recusei a alimentá-las com medo. A única coisa que importava no momento era me manter controlado, ancorado, pelo bem de Meg.
— Eu estou aqui. — Afastei o cabelo molhado da testa dela. — Você não está sozinha.
— A rosa morreu — choramingou ela, em transe.
Senti como se uma daquelas serpentes tivesse se contorcido no meu peito e estivesse devorando meu coração, uma artéria de cada vez.
— Meg, a flor é só uma parte da planta. Flores voltam a crescer. Você tem raízes profundas. Tem caules fortes. Você tem... Seu rosto está verde. — Eu me virei para Trofônio. — Por que o rosto dela está verde?
— Interessante. — Ele parecia qualquer coisa, menos interessado. — Talvez ela esteja morrendo.
Ele inclinou a cabeça, como se ouvisse alguma coisa ao longe.
— Ah. Aqui estão eles, esperando você.
— O quê? Quem?
— Os servos do imperador. Blemmyae. — Trofônio apontou para o outro lado do lago. — Um túnel por baixo da água bem ali, está vendo? Ele leva ao resto do sistema de cavernas, a parte conhecida pelos mortais. Os blemmyae aprenderam que não devem vir até esta câmara, mas estão esperando você do outro lado. Você só vai poder fugir daqui se passar por ali.
— Então é o que nós vamos fazer.
— Tenho minhas dúvidas — disse Trofônio. — Mesmo que sua jovem amiga sobreviva, os blemmyae estão com explosivos à sua espera.
O QUÊ?
— Ah, Cômodo deve ter dito para eles usarem os explosivos como último recurso. Ele gosta de me ter como vidente pessoal. Manda os homens dele aqui de tempos em tempos, eles saem meio mortos e loucos, mas o imperador recebe vislumbres gratuitos do futuro. É uma maravilha. Mas ele prefere destruir este oráculo a permitir que você escape vivo.
Eu estava perplexo demais para responder. Trofônio soltou outra gargalhada.
— Não fique tão desanimado, Apolo. O lado bom é que não importa se Meg vai morrer aqui, porque ela vai morrer de qualquer jeito! Olha, ela está espumando pela boca agora. Essa é sempre a parte mais divertida.
Meg estava mesmo cuspindo espuma branca. Na minha opinião médica mais do que embasada, isso raramente era bom sinal.
Segurei o rosto dela.
— Meg, me escute. — A escuridão girava ao redor dela, fazendo minha pele formigar. — Estou aqui. Sou Apolo, o deus da cura. Você não vai morrer.
Meg não gostava de receber ordens. Eu sabia disso. Ela se contorceu e espumou, tossindo palavras aleatórias como cavalo, palavras cruzadas, trevos, raízes. Também não era um bom sinal, medicamente falando.
Minha cantoria não funcionou. Ser assertivo não funcionou. Só conseguia pensar em mais um remédio, uma técnica antiga para retirar veneno e espíritos do mal. A prática não era mais indicada pela maioria das associações médicas, mas eu me lembrei do limerique do Bosque de Dodona, o verso que mais me fez perder o sono: a morte e loucura forçado.
Era agora.
Eu me aproximei do rosto de Meg, como fazia quando ensinava respiração boca a boca no treinamento de primeiros socorros do Acampamento Júpiter. (Aqueles semideuses romanos idiotas estavam sempre se afogando.)
— Peço desculpas por isso.
Apertei o nariz de Meg e encostei a boca na dela. Tive uma sensação gosmenta e desagradável, bem parecida com o que eu imaginava que Poseidon sentiu quando percebeu que estava beijando a Górgona Medusa.
Nada me deteria. Em vez de expirar, eu inspirei, sugando a escuridão dos pulmões de Meg.
Talvez, em algum momento da sua vida, água tenha entrado pelo seu nariz. Imagine a sensação, só que com veneno de abelha e ácido em vez de água. Pois é. A dor quase me fez desmaiar, uma nuvem tóxica de horror subindo pelas minhas cavidades nasais, descendo pela garganta e indo até o peito. Senti abelhas fantasmagóricas ricocheteando pelo meu sistema respiratório, tentando lançar seus ferrões durante a passagem.
Prendi a respiração, determinado a deixar o máximo possível de escuridão longe de Meg pelo máximo de tempo que eu conseguisse. Eu dividiria esse peso com ela, mesmo que me matasse.
Minha mente deslizou pelas lembranças de Meg.
Eu era uma garotinha assustada, tremendo nos degraus da biblioteca, olhando para o corpo do meu pai assassinado. A rosa que ele tinha me dado estava esmagada e morta. As pétalas estavam espalhadas pelos ferimentos que o Besta fez na barriga dele.
O Besta fez aquilo. Eu não tinha dúvida. Nero tinha me avisado várias vezes.
Papai havia jurado que a rosa nunca morreria. Eu nunca teria que me preocupar com espinhos. Ele disse que a flor era presente da minha mãe, uma mulher que nunca vi.
Mas a rosa estava morta. Papai estava morto. Minha vida não era nada além de espinhos.
Nero colocou a mão no meu ombro.
— Sinto muito, Meg.
Os olhos dele estavam tristes, mas a voz havia sido tomada pela decepção. Isso só comprovava minhas suspeitas. A morte de papai era minha culpa. Eu devia ter treinado mais, tido modos melhores, não ter protestado quando Nero me disse para brigar com as crianças maiores... e com os animais que eu não queria matar.
Eu tinha aborrecido o Besta.
Chorei, com ódio de mim mesma. Nero me abraçou. Escondi o rosto na roupa roxa dele, sentindo a colônia doce e enjoativa. Era um aroma que não lembrava tanto flores, e sim um cheiro velho, ressecado e decadente. Eu não sabia ao certo como conhecia esse cheiro, mas ele me inundou com um sentimento familiar de impotência e terror. Nero era tudo que eu tinha. Eu não tinha flores de verdade, um pai de verdade, uma mãe de verdade. Não era digna dessas coisas. Tinha que me agarrar ao que eu tinha.
De repente, as mentes unidas, Meg e eu desabamos no Caos primordial: o miasma do qual as Parcas teciam o futuro, traçando o destino de forma aleatória.
A mente de ninguém deveria ser exposta a tal poder. Mesmo quando era deus, eu temia chegar perto demais dos limites do Caos.
Era o mesmo tipo de perigo que os mortais corriam quando pediam para ver a forma verdadeira de um deus, uma pira ardente e terrível de pura possibilidade. Ver uma coisa assim podia vaporizar humanos, transformá-los em sal ou pó.
Protegi Meg do miasma da melhor maneira que pude, envolvendo a mente dela com a minha em uma espécie de abraço, mas nós dois ouvimos as vozes agudas.
Cavalo branco veloz, sussurraram elas. O falante das palavras cruzadas. Terras fatais arrasadas.
E mais: frases ditas rápido demais, sobrepostas demais para fazer sentido. Meus olhos começaram a arder. As abelhas consumiram meus pulmões. Mas eu continuei prendendo a respiração. Vi um rio enevoado ao longe, o próprio Estige. A deusa sombria me chamou da margem, me convidando a atravessar. Eu seria imortal de novo, ao menos do jeito como as almas humanas eram imortais depois da morte. Podia passar para os Campos de Punição. Eu não merecia ser punido pelos meus muitos crimes?
Infelizmente, Meg sentia a mesma coisa. A culpa a puxava para baixo. Ela não acreditava que merecia sobreviver.
O que nos salvou foi um pensamento simultâneo:
Não posso desistir. Apolo precisa de mim. Meg precisa de mim.
Aguentei mais um pouco, depois mais um pouco. Então não consegui aguentar mais. Eu expirei e expeli o veneno da profecia. Ofegando por ar fresco, desabei ao lado de Meg na pedra fria e úmida. Lentamente, o mundo voltou a seu estado sólido. As vozes sumiram. A nuvem de abelhas fantasmagóricas desapareceu.
Eu me apoiei nos cotovelos. Encostei os dedos no pescoço de Meg. A pulsação estava leve e fraca, mas minha amiga não estava morta.
— Graças às Três Parcas — murmurei.
Pela primeira vez, eu estava falando sério. Se Cloto, Láquesis e Átropos estivessem na minha frente naquela hora, eu teria dado um beijo nos narizes verruguentos delas.
Na ilha, Trofônio suspirou.
— Ah, que pena. A garota talvez fique insana pelo resto da vida. Já é alguma coisa.
Olhei com raiva para meu filho falecido.
Consolo?
— É. — Ele inclinou a cabeça etérea, escutando novamente. — É melhor você se apressar. Vai ter que carregar a garota pelo túnel debaixo da água, então acho que vocês dois podem se afogar. Ou os blemmyae podem matar vocês do outro lado. Mas, se isso não acontecer, eu quero aquele favor.
Eu ri. Depois do meu mergulho no Caos, não foi um som bonito.
— Você ainda espera um favor? Depois de atacar uma garota indefesa?
— Por dar a você sua profecia — corrigiu Trofônio. — É toda sua, supondo que você consiga extraí-la da garota no Trono da Memória, claro. Agora, meu favor, como você prometeu: destrua esta caverna.
Veja bem... eu tinha acabado de voltar do miasma da pura profecia, mas ainda assim fui pego de surpresa por aquele pedido.
— Como é que é?
— O local é exposto demais — disse Trofônio. — Seus aliados da Estação Intermediária nunca vão conseguir defendê-lo do Triunvirato. Os imperadores vão continuar atacando. Não quero mais ser usado por Cômodo. É melhor que o oráculo seja destruído.
Eu me perguntei se Zeus concordaria. Sempre achei que meu pai quisesse que eu restaurasse todos os oráculos antigos, para só então eu poder recuperar minha divindade. Não sabia se destruir a Caverna de Trofônio seria um plano B aceitável. Por outro lado, se Zeus queria que as coisas fossem feitas de uma maneira específica, deveria ter me dado instruções mais claras.
— Mas, Trofônio... O que vai acontecer com você?
Ele deu de ombros.
— Talvez meu oráculo reapareça em outro lugar daqui a alguns séculos, em circunstâncias melhores, em um local mais seguro. Talvez isso lhe dê tempo para se tornar um pai melhor.
Eu estava começando a considerar seriamente atender ao pedido dele.
— Como eu destruo este lugar?
— Eu talvez tenha mencionado que os blemmyae têm explosivos na caverna ao lado. Se eles não usarem, você tem que usar.
— E Agamedes? Ele também vai desaparecer?
Faíscas surgiram no corpo do espírito. Tristeza, talvez?
— Depois de um tempo — disse Trofônio. — Diga para Agamedes... Diga que o amo e que lamento que esse tenha sido nosso destino. É mais do que recebi de você.
Sua coluna de escuridão giratória começou a se desenrolar.
— Espere! — gritei. — E Georgina? Onde Agamedes a encontrou? Ela é minha filha?
A gargalhada de Trofônio ecoou fracamente pela caverna.
— Ah. Considere esse mistério meu último presente para você, pai. Espero que deixe você louco!
E então sumiu.
Fiquei sentado no chão, perplexo e arrasado. Não me sentia fisicamente machucado, mas percebi que era possível ser ferido de muitas formas naquele buraco cheio de cobras, mesmo que nenhuma delas chegasse perto de você. Havia outros tipos de veneno.
A caverna ribombou, criando ondulações no lago. Eu não sabia o que aquilo queria dizer, mas nós não podíamos ficar. Segurei Meg nos braços e entrei na água.

8 comentários:

  1. uau, esse capitulo foi impolganti

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  2. Incrivel!
    Como apolo mudou! Era uma pessoa muito egoista. Agora ele realmente se importa pelas pessoas, ele detestava meg no começo do oraculo oculto e eu acredito que ele a ama como um irmao,eu tambem gosto muito de meg uma personagem incrivel e espontanea.

    Karina gosto muito do seu blog e eu o leio ha muitos anos.
    Obrigado por ter postado esse livro!
    Eu o estou relendo, é muito bom!

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  3. Só tenho uma coisa a dizer:
    U-A-U

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  4. Own... Amei o capitulo ❤Apolo seu peste desgraçado... Quem diria que tem um Coração!

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  5. Apolo, apesar de ser um péssimo deus, se tornou uma pessoa melhor (ele era péssimo, mas sempre foi meu favorito haha) <3

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Boa leitura :)