8 de maio de 2017

Capítulo 34

Meg ganha um solo
Espanta toda a plateia
Mandou bem, McCaffrey

— APOLO, CANTE! — gritou Meg.
Não existem palavras mais eficientes para me fazer parar. Eu amava que me pedissem para cantar!
Eu estava na metade do lago das cobras, mergulhado até a cintura numa sopa de macarrão reptiliano, mas me virei e olhei para a garota de pé na boca do túnel. Devo ter deixado os animais agitados quando passei. Eles sibilavam, indo de um lado para o outro, as cabecinhas bonitinhas deslizando na superfície, as bocas brancas abertas. (Ah, entendi! Por isso aquelas cobras eram chamadas de boca-de-algodão!)
Muitas estavam indo na direção de Meg, parecendo farejar seus tênis para decidir se iam ou não se juntar a ela no parapeito. Meg ficava se apoiando na ponta de um pé e depois do outro, como se não estivesse muito animada com aquela ideia.
— Você disse cante? — perguntei.
— Disse! — A voz dela estava aguda. — Enfeitice as cobras! Faça com que se afastem!
Eu não entendia o que ela queria dizer. Quando eu cantava, minha plateia se aproximava. Quem era essa garota Meg, afinal? Pelo jeito, ela estava me confundindo com São Patrício. (Aliás, ele era um cara legal, mas, quando se tratava de cantar, sua voz era terrível. As lendas não costumam mencionar que ele expulsou as cobras da Irlanda com sua versão horrenda de “Te Deum”.)
— Cante aquela música do ninho das formigas! — pediu ela.
Ninho das Formigas? Eu me lembrava de cantar com o Rat Pack e com o A Flock of Seagulls, mas não com o Ninho das Formigas. Eu nem me lembrava de ter feito parte de um grupo com esse nome.
No entanto, entendi por que Megan/Peg/Meg podia estar nervosa. Aquelas cobras de água eram venenosas. Assim como os yales, podiam ser agressivas quando seu território era invadido.
Mas Meg estava na boca do túnel, não tinha entrado no território delas. Por que estava nervosa? Olhei para baixo. Centenas de víboras me rodeavam, exibindo as boquinhas fofas com os dentinhos afiados. Elas se deslocavam lentamente na água gelada, ou talvez só estivessem impressionadas com a minha presença: o alegre, carismático e encantador sei lá qual era o meu nome! Mas elas pareciam estar sibilando muito mesmo.
— Ah! — Ri quando percebi a situação. — Você está preocupada comigo! Estou prestes a morrer!
Tive um impulso vago de fazer alguma coisa. Correr? Dançar? O que foi mesmo que Meg tinha sugerido?
Antes que eu pudesse decidir, Meg começou a cantar.
A voz dela era fraca e desafinada, mas reconheci a melodia. Tinha quase certeza de que eu a tinha composto.
Sempre que alguém começa uma música em público, há um momento de hesitação. Transeuntes param para ouvir, tentando discernir o que estão ouvindo e entender por que uma pessoa qualquer no meio da multidão decidiu cantar para eles. Conforme a voz irregular de Meg foi ecoando pela caverna, as cobras sentiram as vibrações. Mais cabecinhas do tamanho de um polegar apareceram na superfície. Mais bocas brancas se abriram, como se estivessem tentando sentir o gosto da música.
Em volta da minha cintura, a nuvem de serpentes agitadas perdeu densidade quando elas voltaram sua atenção para Meg.
Ela cantou sobre perda e arrependimento. É... eu me lembrava vagamente de ter cantado essa música. Eu estava andando pelos túneis do ninho dos myrmekos, despejando minha tristeza, abrindo meu coração enquanto procurava Meg. Na música, assumi responsabilidade pelas mortes dos meus maiores amores, Dafne e Jacinto. Os nomes me atingiram como estilhaços de uma janela quebrada.
Meg repetiu minha performance, mas com uma letra diferente. Ela estava inventando os próprios versos. Conforme as cobras se reuniam aos seus pés, sua voz se tornava mais forte, mais segura. Ela ainda estava desafinando, mas cantava com uma convicção de partir o coração, a música tão triste e verdadeira quanto a minha.
— É culpa minha — cantou ela. — Seu sangue nas minhas mãos. A rosa esmagada que não consegui salvar.
Fiquei perplexo por ela ter tamanha poesia dentro de si. Era óbvio que as cobras também ficaram. Elas se balançavam aos pés de Meg, formando uma multidão, iguais aos fãs do Pink Floyd no clássico show da banda em um palco flutuante em Veneza, em 1989. Não sei bem por quê, mas eu me lembrava desse show perfeitamente.
Um segundo atrasado, eu percebi que era um milagre ainda não ter sido picado e morto. O que eu estava fazendo no meio do lago? Só a música de Meg estava me mantendo vivo, a voz destoante, bonita e encantadora prendendo a atenção de milhares de víboras.
Como elas, eu queria ficar parado ouvindo. Mas uma sensação de inquietação crescia dentro de mim. Aquela caverna... o Oráculo de Trofônio. Alguma coisa me dizia que ali não era um bom lugar para desnudar sua alma.
— Meg — sussurrei. — Pare.
Pelo visto, ela não conseguia me ouvir.
Agora, a caverna toda parecia concentrada na sua voz. As paredes de pedra brilhavam. Sombras oscilavam, como se dançassem. As estalactites cintilantes apontavam para Meg como ponteiros de bússola.
Ela cantou sobre ter me traído, sobre ter voltado para a casa de Nero, sobre sucumbir ao medo do Besta...
— Não — falei, um pouco mais alto. — Não, Meg!
Tarde demais. A magia da caverna captou a música dela, amplificando a voz cem vezes. A câmara se encheu com o som de pura dor. O lago se agitou quando serpentes em pânico submergiram e fugiram, passando pelas minhas pernas em uma corrente forte.
Talvez elas tivessem fugido por um canal escondido. Talvez tivessem se dissolvido. Eu só sabia que a pequena ilha de pedra no centro da caverna ficou vazia de repente, e eu era o único ser vivo que restava no lago.
E Meg continuou cantando. Parecia que sua voz saía do corpo à força, como se um punho gigante e invisível estivesse espremendo a garota como um daqueles brinquedos com apito. Luzes e sombras piscavam nas paredes da caverna, formando imagens fantasmagóricas para ilustrar a letra da música.
Em uma cena, um homem de meia-idade se agachava e sorria, como se olhando para uma criança. Ele tinha cabelo escuro e encaracolado como o meu (eu quis dizer de Lester), um nariz largo cheio de sardas e olhos suaves e gentis. Ele estendeu uma rosa vermelha.
— Da sua mãe — sussurrou ele, um refrão da música de Meg. — Essa rosa nunca vai murchar, querida. Você nunca vai precisar se preocupar com espinhos.
A mão gorducha de uma criança apareceu na visão, pegando a flor. Eu desconfiava que era uma das primeiras lembranças de Meg, da qual mal tinha consciência. Ela pegou a rosa, e as pétalas se abriram em uma flor fantástica. O cabo envolveu carinhosamente o pulso de Meg. Ela deu um gritinho de alegria.
Uma visão diferente: o imperador Nero com seu terno roxo, se ajoelhando para olhar nos olhos de Meg. Ele sorriu de um jeito que podia ser confundido com gentileza se você não o conhecesse. O queixo duplo se projetava da barba fina, como a tira de um capacete. Anéis com pedras cintilavam nos dedos gordos.
— Você vai ser uma menina boazinha, não vai? — Ele apertou o ombro de Meg com força demais. — Seu papai teve que ir embora. Talvez, se for boazinha, você o veja de novo. Você não gostaria disso?
A versão mais nova de Meg assentiu. Não sei muito bem como, mas senti que ela tinha uns cinco anos. Imaginei seus pensamentos e suas emoções se enroscando dentro dela, formando uma casca protetora grossa.
Outra cena surgiu. Em frente à Biblioteca Pública de Nova York, em Midtown, o cadáver de um homem caído nos degraus de mármore. Uma das mãos estava espalmada sobre a barriga, que lembrava um campo de batalha horrendo, cheio de trincheiras vermelhas onde havia talvez cortes de faca ou das garras de um predador enorme.
A polícia andava ao redor, fazendo anotações, tirando fotos, contendo os curiosos com uma fita amarela. Mas eles abriram passagem para duas pessoas: Nero, com um terno roxo diferente, mas a mesma barba horrenda e os anéis, e Meg, agora com uns seis anos, horrorizada, pálida, relutante. Ela viu o corpo e começou a chorar. Tentou se virar, mas Nero colocou a mão pesada no ombro dela para segurá-la no lugar.
— Quero que veja isso. — A voz dele transbordava de solidariedade falsa. — Lamento tanto, minha querida. O Besta... — Ele suspirou, como se a cena trágica fosse inevitável. — Preciso que você seja mais aplicada nos seus estudos, entende? Deve fazer tudo que o mestre espadachim disser. Partiria meu coração se mais alguma coisa acontecesse, algo até pior do que isso. Olhe. Grave na memória.
Os olhos de Meg se encheram de lágrimas. Ela se aproximou do pai morto. Na outra mão dele havia o cabo de uma rosa. As pétalas esmagadas estavam espalhadas sobre a barriga, quase invisíveis em meio ao sangue. Ela berrou: “Papai! Me ajudem!”. A polícia não prestou atenção a ela. A multidão agiu como se ela não existisse. Só Nero estava ao seu lado.
No fim, ela se virou para ele, escondeu o rosto no terno e chorou descontroladamente. Sombras piscaram com mais rapidez nas paredes da caverna. A música de Meg começou a reverberar, se partindo em ondas aleatórias de barulho. O lago perturbava-se ao meu redor. Na pequena ilha de pedra, a escuridão aumentou, jorrando para cima como uma fonte, formando o contorno de um homem.
— Meg, pare de cantar! — gritei.
Com um soluço final, ela caiu de joelhos, o rosto coberto de lágrimas. Então caiu de lado, grunhindo, a voz como uma lixa sendo amassada. As pedras nos óculos ainda cintilavam, mas com um tom azulado, como se todo o calor tivesse sido removido delas.
Eu queria mais do que qualquer coisa correr para junto de Meg. O efeito da água dos riachos da Memória e do Esquecimento já tinha passado. Eu conhecia Meg McCaffrey. Queria consolá-la.
Mas também sabia que o perigo que ela corria não chegara ao fim.
Olhei para a ilha. O espectro parecia só um pouco com um ser humano, composto de sombras e fractais de luz. Imagens da letra da música de Meg piscavam e sumiam no corpo dele. Ele tinha uma aura mais assustadora do que o escudo de égide de Thalia, ondas de terror que ameaçavam arrancar o autocontrole do meu corpo.
— Trofônio! — gritei. — Deixa ela em paz!
A forma dele ganhou mais foco: o cabelo escuro lustroso, o rosto orgulhoso. Ao seu redor voava um enxame de abelhas-fantasma, suas criaturas sagradas, pequenas manchas de escuridão.
— Apolo. — A voz dele ressoava grave e severa, como aconteceu quando ele se manifestou por Georgina no Trono da Memória. — Esperei muito tempo, Pai.
— Por favor, meu filho. — Juntei as mãos. — Meg não é sua requerente. Sou eu!
Trofônio olhou para a jovem McCaffrey, agora encolhida e trêmula na borda da pedra.
— Se ela não é minha requerente, por que me chamou cantando os próprios sofrimentos? Ela tem muitas perguntas sem resposta. Eu poderia fazer isso. Só que o preço seria a sanidade dela.
— Não! Ela estava... Ela estava tentando me proteger. — Engasguei com as palavras. — Ela é minha amiga. Não bebeu das fontes. Eu bebi. Eu sou o requerente do seu oráculo sagrado. Me leve no lugar dela!
A gargalhada de Trofônio foi um som horrível... digno de um espírito que morava na escuridão com milhares de cobras venenosas.
— Me leve no lugar dela — repetiu ele. — O mesmo pedido que fiz quando meu irmão Agamedes ficou preso no túnel, o peito esmagado, a vida se esvaindo. Você me ouviu naquela ocasião, Pai?
Minha boca ficou seca.
— Não puna a garota por um erro meu.
As abelhas-fantasma de Trofônio voaram em uma nuvem mais ampla, zumbindo furiosamente na minha cara.
— Você sabe por quanto tempo eu vaguei pelo mundo mortal depois de matar meu irmão, Apolo? Depois de cortar a cabeça dele, com minhas mãos ainda cobertas de sangue, eu cambaleei pela selva durante semanas, meses. Implorei para a terra me engolir e acabar com minha infelicidade. Consegui parte do meu desejo.
Ele fez um gesto indicando o lugar em que estávamos.
— Eu moro na escuridão agora porque sou seu filho. Vejo o futuro porque sou seu filho. Toda a minha dor e loucura... Por que eu não deveria compartilhar isso com os que procuram minha ajuda? E você? Ajuda as pessoas sem cobrar nada por isso?
Minhas pernas cederam. Caí de joelhos, a água gelada batendo no queixo.
— Por favor, Trofônio. Sou mortal agora. Cobre seu preço de mim, não dela!
— A garota já se ofereceu! Ela se abriu para mim, me falou dos seus maiores medos e arrependimentos.
— Não! Não, ela não bebeu das duas fontes. A mente dela não está preparada. Ela vai morrer!
Imagens surgiram na forma escura de Trofônio como flashes: Meg coberta de gosma na toca das formigas, Meg entre mim e Litierses, a espada dele detida pelas lâminas douradas cruzadas dela; Meg me abraçando com força enquanto saíamos no nosso grifo do Zoológico de Indianápolis.
— Ela é importante para você — disse o oráculo. — Você daria sua vida em troca da dela?
Tive dificuldade em compreender a pergunta. Dar minha vida? Em qualquer momento dos meus quatro mil anos de existência, minha resposta teria sido um enfático Não! Você está maluco? Ninguém devia abrir mão da vida nunca. A vida é importante! O objetivo das minhas missões no mundo mortal, encontrar e proteger todos os oráculos antigos, era justamente recuperar minha imortalidade e não ter que pensar em perguntas horríveis assim!
Mas... pensei em Emmie e Josephine renunciando à imortalidade uma pela outra. Pensei em Calipso abrindo mão do lar, dos poderes e da vida eterna por uma chance de andar pelo mundo, descobrir o que era o amor e possivelmente apreciar as maravilhas de uma escola de ensino médio em Indiana.
— Sim — foi o que me vi dizendo. — Sim, eu morreria para salvar Meg McCaffrey.
Trofônio riu, um som úmido e furioso como o movimento das víboras na água.
— Muito bem! Então prometa que vai me conceder um desejo. O que quer que eu peça, você vai fazer.
— S-seu desejo?
Eu não era mais deus. Trofônio sabia disso. Mesmo que pudesse conceder desejos, eu me recordava de uma conversa bem recente com a deusa Estige sobre os perigos de fazer juramentos que eu não poderia cumprir.
Mas que escolha eu tinha?
— Sim — falei. — Eu prometo. O que você pedir. Então temos um acordo? Você vai me levar no lugar da garota?
— Bem, eu não prometi nada em troca! — O espírito ficou preto como petróleo. — Só queria arrancar essa promessa de você. O destino da garota já está decidido.
Ele esticou os braços, expelindo milhões de abelhas fantasmagóricas malignas. Meg gritou de terror quando o enxame a envolveu.

14 comentários:

  1. OMG!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  2. O Apolo só tem filho problematico. Menos o will claro

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    1. A Kayla e o Austin também

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  3. Pena que não é o Deus da psicologia. Os filhos seriam uma senhora clientela!😎

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  4. Lala filha de Apolo14 de maio de 2017 15:56

    Cada irmão bosta que eu tenho

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  5. poseidon tem filhos piorea

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  6. Não culpem trofonio
    Apolo não é um exemplo paterno
    Postei e saí correndo

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    1. Concordo q apolo como todos os deuses ñ é um bom pai mas trofonio se meteu naquela enrascada porque quis

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    2. Apolo é doido, arrogante e provavelmente não lembra de metade dos filhos vivos e mortos. Mas o Trambolho foi roubar porque quis, assim como o irmão, o Apolo não tinha nenhuma obrigação de passar a mão na cabeça do filho quando o mesmo se fudeu bonito.

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  7. AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH
    S. O. S. A MEG DEFINITIVAMENTE NÃO PODE MORRER!!!

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  8. AÍ MEUS DEUSES MEG NAAAAAAO
    — Sim — foi o que me vi dizendo. — Sim, eu morreria para salvar Meg McCaffrey
    Que lindo :')

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Boa leitura :)