27 de maio de 2017

Capítulo 34 - Debaixo da Menoa

Depois que Eragon e Saphira se despediram, voaram de volta para a sua casa na árvore com a nova sela de Saphira sacolejando entre as suas patas dianteiras. Inconscientemente, ambos gradualmente foram abrindo suas mentes e permitiram que sua conexão se alargasse e se aprofundasse.
As emoções tumultuadas de Eragon devem ter sido fortes o suficiente para que Saphira as percebesse de qualquer jeito, pois ela perguntou: O que aconteceu, então?
Uma dor palpitante começou a aumentar atrás dos seus olhos enquanto ele explicava o crime terrível que havia cometido em Farthen Dûr.
Saphira ficou igualmente horrorizada. Ele disse: Seu presente pode ajudar aquela menina, mas o que eu fiz é indesculpável e só irá feri-la.
A culpa não é só sua. Partilho do mesmo conhecimento que você tem da língua antiga e, da mesma forma, não vi o erro assim como você. Quando Eragon permaneceu em silêncio, ela acrescentou: Pelo menos as suas costas não doeram hoje. Fique grato por isso.
Ele resmungou, e não parecia disposto a sair do humor lúgubre em que estava. E o que você aprendeu neste belo dia?
Como identificar e evitar eventos climáticos perigosos. Ela fez uma pausa, aparentemente pronta para partilhar suas lembranças com o parceiro, mas ele estava muito ocupado, preocupado com a maldição, para prosseguir no interrogatório. Nem podia ele suportar a ideia de partilhar de tanta intimidade naquele momento. No momento em que ele se calou, Saphira se recolheu num silêncio taciturno.
De volta ao seu quarto, ele encontrou uma bandeja de comida perto da porta de tela, da mesma forma que na noite passada. Carregou a bandeja até a sua cama — que havia sido refeita com lençóis limpos —, se ajeitou para comer, amaldiçoando a ausência de carne. Cansado por causa do Rimgar, ele se escorou nos travesseiros e estava prestes a dar sua primeira mordida quando ouviu uma batida suave na abertura de seu aposento.
— Entre — murmurou e tomou um gole d’água.
Eragon quase ficou sufocado quando Arya atravessou o vão da porta. Ela havia trocado as roupas de couro comuns por uma túnica verde macia, apertada na cintura, e um espartilho enfeitado com pedras-da-lua. Também havia removido a costumeira faixa que usava na cabeça, permitindo que seu cabelo caísse sobre o rosto e os ombros. A maior mudança, no entanto, não estava no seu vestuário mas em sua conduta, a frágil tensão que permeava o seu comportamento desde que Eragon a viu pela primeira vez havia sumido.
Ela parecia ter finalmente relaxado.
Ele arrastou os pés no intuito de se levantar, e notou que ela estava descalça.
— Arya! Por que você está aqui?
Tocando os lábios com seus dois primeiros dedos, ela disse:
— Você pretende passar mais uma noite aqui trancafiado?
— Eu...
— Você já está em Ellesméra há três dias e ainda não viu nada da nossa cidade. Sei que você sempre quis explorá-la. Deixe logo esse cansaço de lado e me acompanhe. — Deslizando em sua direção, ela pegou Zar’roc que estava ao lado dele e o chamou com um aceno.
Ele se levantou da cama e a seguiu até o saguão, desceram pelo alçapão e pela escadaria íngreme que girava em torno do tronco espesso da árvore. No céu, as nuvens reunidas brilhavam com os últimos raios de sol, antes que ele se escondesse atrás da beira do mundo. Um pedaço da casca da árvore caiu na cabeça de Eragon, ele olhou para cima e viu Saphira se inclinando para fora de seu quarto, segurando a madeira com suas garras.
Sem abrir as asas, saltou no ar e desceu os trinta e tantos metros até o chão, aterrissando numa nuvem ensurdecedora de poeira. Também vou.
— É claro — disse Arya, como se não esperasse nada menos do que isso. Eragon franziu a testa, queria ficar sozinho com a elfa, mas não seria tão estúpido para reclamar.
Andaram sob as árvores, onde a escuridão já estendia suas gavinhas a partir do interior de toras ocas — fendas escuras em pedras grandes arredondadas — e debaixo dos beirais nodoados. Aqui e acolá, uma lanterna que mais parecia uma pedra preciosa cintilava dentro das laterais das árvores ou na ponta de um galho, projetando suaves focos de luz em cada um dos lados da trilha.
Os elfos se dedicavam a várias atividades dentro e nas proximidades do raio das lanternas, geralmente sozinhos, exceto por alguns raros pares. Vários elfos se sentavam no alto das árvores, tocavam melodias doces em suas flautas pastoris, enquanto outros olhavam para o céu com expressões pacíficas — nem acordados nem adormecidos. Um dos elfos estava sentado de pernas cruzadas em frente a uma roda de oleiro que girava sem parar num ritmo constante, enquanto um vaso delicado tomava forma em suas mãos. A menina-gata, Maud, estava agachada ao seu lado no meio das sombras, observando o seu progresso. Seus olhos prateados cintilaram ao se voltarem para Eragon e Saphira. O elfo acompanhou seu olhar e acenou com a cabeça na direção deles sem parar de trabalhar.
Por entre as árvores, Eragon olhou rapidamente para um elfo — homem ou mulher, não dava para dizer — agachado sobre uma pedra no meio de um riacho, murmurando um encanto sobre a esfera de vidro que trazia em suas mãos. Ele virou o pescoço na tentativa de obter uma visão clara da cena, mas o espetáculo já havia desaparecido na escuridão.
— O que... — perguntou Eragon num tom de voz bem baixo para não incomodar ninguém — a maioria dos elfos faz para sobreviver ou como profissão?
Arya respondeu com a mesma serenidade.
— O nosso poder de magia permite que tenhamos as horas livres que desejamos. Não caçamos nem plantamos e, como resultado, passamos o dia trabalhando para dominar a fundo os nossos interesses, sejam eles quais forem. Existem pouquíssimas coisas pelas quais temos de lutar.
Atravessaram um túnel de cornisos cobertos de trepadeiras, depois adentraram o átrio fechado de uma casa que se originou de um grupo de árvores. Uma cabana sem paredes ocupava o centro do átrio, que abrigava uma forja e uma grande variedade de ferramentas. Este arsenal, Eragon percebeu, Horst jamais poderia possuir.
Uma elfa segurava uma tenaz num braseiro, ela soprava o fole com a mão direita. Com uma velocidade impressionante, ela tirou a tenaz do fogo — revelou um anel de aço incandescente preso na torquês —, prendeu o anel na ponta de um corselete incompleto de cota de malha em cima da bigorna, pegou um martelo e soldou as pontas do anel com um golpe e uma explosão de faíscas.
Só nessa hora Arya se aproximou.
— Atra esterní ono thelduin.
A elfa os encarou, tinha o pescoço e o rosto iluminados pela luz sanguínea dos carvões. Como os músculos sob sua pele, seu rosto estava marcado pelo contorno delicado de linhas de expressão — era a maior evidência da idade que Eragon já vira num elfo. Ela não respondeu a Arya, o que ele sabia que era algo descortês e ofensivo, especialmente pelo fato da filha de a rainha tê-la honrado falando primeiro.
— Rhunön-elda, eu lhe trouxe o mais novo Cavaleiro, Eragon Matador de Espectros.
— Ouvi dizer que vocês estavam mortos — disse Rhunön para Arya. A voz de Rhunön era rascante, diferente de qualquer outro elfo. Ela lembrava os velhos em Carvahall que se sentavam nas varandas de suas casas fumando cachimbos e contando histórias.
Arya sorriu.
— Quando você saiu de sua casa pela última vez, Rhunön?
— Você devia saber. Foi naquela festa do solstício de verão que me forçou a comparecer.
— Isso foi há três anos.
— Foi? — Rhunön franziu a testa e refez o braseiro debaixo da grelha. — Bem, e daí? Acho as reuniões sociais enfadonhas. Um bando de pessoas numa conversa fiada que... — Ela olhou para Arya. — Por que estamos falando nessa língua asquerosa? Suponho que você quer que eu forje uma espada para ele? Você sabe que jurei nunca mais criar instrumentos de morte outra vez, não depois daquele Cavaleiro traidor e da destruição que causou com a minha espada.
— Eragon já tem uma espada — disse Arya. Ela levantou o braço e mostrou Zar’roc para a ferreira.
Rhunön pegou Zar’roc com uma expressão de encantamento. Ela acariciou a bainha avermelhada, deteve-se no símbolo negro, limpou uma sujeirinha que havia no punho e, por fim, segurou o cabo e desembainhou a espada com toda a autoridade de um guerreiro. Olhou para baixo na direção de cada um dos gumes de Zar’roc e vergou a espada entre as mãos até Eragon ficar temeroso de que ela pudesse se partir. Então, num só movimento, Rhunön girou Zar’roc por sobre a sua cabeça e a arremeteu contra a tenaz que estava em cima da bigorna, partindo-a ao meio com um som ressonante.
— Zar’roc — disse Rhunön. — Lembro-me de você. — Ela afagou a arma como uma mãe faria com seu primogênito. — Tão perfeita quanto no dia em que ficou pronta. — Rhunön lhes deu as costas e levantou os olhos na direção dos galhos entrelaçados enquanto observava as curvas do botão do punho da espada. — Passei minha vida inteira fabricando essas espadas a partir do minério bruto. Até que ele veio e as destruiu. Séculos de esforço apagados num instante. Até onde eu sei, só existiam quatro exemplos da minha arte. A espada dele, a de Oromis, e duas outras que são guardadas por famílias que os resgataram dos Wyrdfell.
Wyrdfell? Eragon ousou perguntar mentalmente para Arya.
Um outro nome para os Renegados. Rhunön se virou na direção de Eragon.
— Agora Zar’roc voltou para mim. De todas as minhas criações, esta era a que eu menos esperava segurar novamente. Como você veio a possuir a espada de Morzan?
— Ela me foi dada por Brom.
— Brom? — Ela ergueu Zar’roc. — Brom... Lembro-me de Brom. Ele me implorou para substituir a espada que havia perdido. Para falar a verdade, eu queria ajudá-lo, mas já havia feito o meu juramento. Minha recusa o fez perder a razão e o deixou enfurecido. Oromis teve de deixá-lo inconsciente antes de partir.
Eragon ouvia com interesse.
— Seu trabalho manual me serviu bem, Rhunön-elda. Eu estaria morto há muito tempo se não fosse por Zar’roc. Matei o Espectro Durza com ela.
— Foi mesmo? Então algum bem veio disso. — Embainhando Zar’roc, Rhunön a devolveu para seu dono, embora relutante, para depois se voltar na direção de Saphira. — Ah. Muito prazer, Skulblaka.
Muito prazer, Rhunön-elda.
Sem se importar de pedir permissão, Rhunön subiu no ombro de Saphira e bateu numa escama com uma das suas unhas ásperas, virando a cabeça de um lado para o outro numa tentativa de perscrutar o couro translúcido.
— Bela cor. Não é como aqueles dragões marrons, todos turvos e escurecidos. Propriamente falando, a espada de um Cavaleiro deve combinar com a cor do seu dragão, e esse azul daria uma bela espada... — Tal pensamento parecia estar exaurindo sua energia. Ela voltou para a bigorna e olhou para a tenaz destruída, como se a vontade de substituí-la a tivesse abandonado.
Eragon sentiu que seria errado terminar uma conversa tão emocionada, mas não conseguia pensar numa maneira diplomática de mudar o assunto. O corselete luzente chamou sua atenção e, enquanto o estudava, surpreendeu-se ao notar que cada anel havia sido fechado com solda. Pelo fato dos pequenos elos resfriarem tão rapidamente, sempre tinham de ser soldados antes de serem afixados à peça de malha principal, o que significava que a cota de malha de melhor qualidade — como a de Eragon — era composta de elos que eram, alternadamente, soldados e rebitados. A não ser, pelo que parecia, que o ferreiro possuísse a velocidade e a precisão de um elfo.
Eragon disse:
— Eu nunca vi nada parecido com a sua cota de malha, nem mesmo os anões. Como você tem a paciência para soldar cada elo? Por que não usa simplesmente a magia e economiza trabalho?
Ele não esperava tamanha explosão de entusiasmo como a que animou Rhunön. Ela balançou seu cabelo curto e afirmou:
— E me roubar todo o prazer de realizar essa tarefa? Ora, todos os outros elfos e eu poderíamos usar a magia para satisfazer nossos desejos... alguns o fazem. Mas, dessa forma, qual o sentido que há na vida? Como você preencheria o seu tempo? Diga-me.
— Não sei — confessou ele.
— Indo atrás daquilo que você mais ama. Quando você pode ter tudo o que quer pronunciando umas poucas palavras, a meta não significa mais nada, só a jornada. É uma grande lição. Você enfrentará o mesmo dilema um dia, se viver tempo suficiente... Agora vão embora! Já estou cansada desta conversa. — Com isso, Rhunön puxou a tampa da fornalha, pegou uma tenaz nova e enfiou um anel no meio do carvão enquanto trabalhava nos foles com intensidade e concentração.
— Rhunön-elda — disse Arya —, lembre-se: voltarei aqui na noite do Agaetí Blödhren. — Sua única resposta foi um resmungo.
O repicar rítmico do aço no aço, tão solitário quando o grito de uma ave moribunda no meio da noite, os acompanhou enquanto voltavam pelo túnel de cornisos e retomavam a trilha. Atrás deles, Rhunön não passava de uma figura negra curvada sobre o brilho de sua fornalha.
— Ela fez as espadas de todos os Cavaleiros? — perguntou Eragon. — Cada uma das últimas?
— Essas e mais. É a maior ferreira que já existiu. Achei que você devia conhecê-la, para o seu bem e o dela.
— Obrigado.
Ela é sempre tão áspera?, perguntou Saphira. Arya riu.
— Sempre. Para ela, nada importa a não ser o seu trabalho e ela é famosa por ser impaciente com qualquer coisa... ou qualquer um... que interfira nele. Porém, suas excentricidades são bem toleradas, por causa de seus feitos e de sua habilidade incrível.
Enquanto ela falava, Eragon tentou decifrar o significado de Agaetí Blodhren. Ele estava certo de que blödh significava sangue e, consequentemente blöhdren era juramento de sangue, mas jamais ouvira falar de agaetí.
— Celebração — explicou Arya quando ele perguntou. — Fazemos uma Celebração do Juramento de Sangue uma vez a cada século para honrar o nosso pacto com os dragões. Vocês dois tem sorte de estar aqui neste momento, porque o evento está muito próximo... — Suas sobrancelhas inclinadas se uniram enquanto ela franzia a testa. — O destino de fato armou uma coincidência auspiciosa.
Ela surpreendeu Eragon ao levá-los cada vez mais para dentro de Du Weldenvarden, caminhavam nas trilhas enredadas por arbustos de urtigas e groselheiras, até as luzes ao redor sumirem e eles adentrarem a selva agitada. Na escuridão, Eragon precisou da visão noturna de Saphira para não se perder. As árvores robustas tinham mais largura, se amontoavam cada vez mais, e ameaçavam formar uma barreira impenetrável. Quando parecia impossível ir mais longe, a floresta acabou e os três entraram numa clareira banhada pela luz da lua crescente já baixa no céu a leste.
Um pinheiro solitário estava no meio da clareira. Não era mais alto do que outros da mesma espécie, era mais espesso do que cem árvores normais juntas, em comparação, estas pareciam tão insignificantes quanto mudas levadas pelo vento. Um manto de raízes irradiava-se do tronco pesado da árvore, cobria o solo com veios revestidos de casca, fazia com que toda a floresta parecesse fluir da árvore, como se fosse o próprio centro de Du Weldenvarden. A árvore ocupava uma posição de destaque sobre a floresta qual uma matriarca benevolente a proteger seus habitantes sob o abrigo dos seus galhos.
— Debaixo da Menoa — sussurrou Arya. — Celebramos o Agaetí Blödhren sob a sua sombra.
Um formigamento tomou o corpo de Eragon assim que ele reconheceu o nome. Depois que Angela previu o seu futuro em Teirm, Solembum veio a ele e disse: quando chegar a hora e você precisar de uma arma, olhe embaixo das raízes da árvore Menoa. Depois, quando tudo parecer perdido e o seu poder não for suficiente, vá até a pedra de Kuthian e diga o seu nome para abrir o cofre das Almas. Eragon não podia imaginar que tipo de arma poderia estar enterrada embaixo da árvore, nem como faria para encontrá-la.
Você vê alguma coisa?, perguntou para Saphira.
Não, mas duvido que as palavras de Solembum façam algum sentido antes da nossa necessidade se tornar clara.
Eragon falou para Arya sobre ambas as partes do conselho do menino-gato, embora — como havia feito com Ajihad e Islanzadí — tivesse mantido segredo sobre a profecia de Angela por causa de sua natureza pessoal, e porque temia que ela pudesse levar Arya a perceber sua atração pela elfa.
Quando ele terminou, Arya disse:
— Meninos-gato raramente oferecem ajuda e, quando o fazem, não é coisa para ser ignorada. Até onde sei, não há nenhuma arma escondida aqui, nem mesmo em lendas ou canções. Quanto à pedra de Kuthian... nome ecoa na minha cabeça como a voz de um sonho meio esquecido, familiar porém esquisito. Já o ouvi antes, embora não consiga me lembrar de onde.
Enquanto se aproximavam da Menoa, a atenção de Eragon foi desviada para a turba de formigas que se arrastavam sobre as raízes. Tudo o que dava para ver dos insetos eram leves manchas negras, mas as tarefas que lhe foram dadas por Oromis o haviam deixado sensível para as vidas à sua volta, e ele podia sentir as consciências primitivas das formigas com sua mente. Baixou suas defesas e permitiu que sua consciência se expandisse, tocou levemente Saphira e Arya, e depois se expandiu para além das duas para ver o que mais vivia na clareira.
Com uma rapidez inesperada, encontrou uma entidade imensa, um ser sensitivo de uma natureza que, de tão colossal, não dava para medir os limites de sua mente. Até mesmo o vasto intelecto de Oromis, com o qual Eragon esteve em contato em Farthen Dûr, era pequeno em comparação a essa presença. O próprio ar parecia zumbir com a energia e a força que emanavam... da árvore!
A fonte era inconfundível.
Deliberada e inexoravelmente, os pensamentos da árvore se moviam num compasso medido, tão lento quanto efeito da pressão do gelo sobre o granito. Ela não dava a menor importância para a presença de Eragon nem, como ele tinha certeza, de nenhum indivíduo em particular. Estava totalmente voltada para os assuntos das coisas que cresciam e floresciam sob a luz do sol, para o matacão, o lírio, a prímula noturna, a dedaleira sedosa e a mostarda amarela bem alta, ao lado da macieira silvestre com suas flores da cor da púrpura.
— Está acordada! — exclamou Eragon, tão chocado que deu a falar. — Quer dizer... ela é inteligente. — Ele sabia que Saphira sentia a mesma coisa, ela levantou a cabeça na direção da Menoa, como se estivesse escudo, depois voou para um dos seus galhos, que eram tão largos quanto a estrada de Carvahall para Therinsford. Lá ela ficou empoleirada, com rabo pendurado livremente, acenando sua ponta de um lado para o outro, muito graciosamente. Era uma visão das mais estranhas, um dragão numa árvore, tanto que Eragon quase caiu na gargalhada.
— E claro que ela está acordada — disse Arya. Sua voz era baixa e suave no meio do ar noturno. — Posso lhe contar a história da Menoa?
— Sim, eu gostaria de ouvir.
Um clarão branco riscou o céu, como se fosse um espectro, e se substanciou ao lado de Saphira na forma de Blagden. Os ombros estreitos e o pescoço torto do corvo lhe deram a aparência de um sovina se aquecendo com o resplendor de uma pilha de ouro. O corvo levantou sua cabeça descorada e deu seu grito agourento: Wyrda!!
— O que aconteceu foi o seguinte: outrora uma mulher vivia lá, Linnëa, nos anos de vinhos e temperos, antes da nossa guerra com os dragões e antes de nos tornarmos tão imortais quanto quaisquer seres ainda compostos de carne vulnerável podem ser. Linnëa havia envelhecido sem o conforto de um parceiro ou de filhos, nem sentia a necessidade de buscá-los, preferia ocupar-se com a arte de cantar para as plantas, ela era mestra. Quer dizer, ela o fez até um homem jovem vir à sua porta e seduzi-la com palavras amorosas. Sua afeição despertou uma parte de Linnëa que ela jamais suspeitou que existisse, um desejo ardente de experimentar as coisas que havia sacrificado sem saber. Uma segunda chance era uma oportunidade muito grande para que ela ignorasse. Largou seu trabalho e se dedicou ao jovem e, durante um tempo, foram felizes.
“Mas o rapaz era jovem demais e começou a desejar uma parceira cuja idade estivesse mais próxima da sua. Seus olhos caíram sobre uma jovem mulher, ele a cortejou e conquistou. E, durante um tempo, eles dois também foram felizes. Quando Linnëa descobriu que fora rejeitada, desprezada e abandonada, acabou enlouquecendo de tristeza. O jovem cometeu o pior pecado, lhe deu uma amostra da plenitude na vida e depois a arrancou sem pensar em nada mais do que um galo pensa quando deixa uma galinha e passa a flertar com outra. Ela o encontrou com a tal mulher e, em sua fúria, o apunhalou até a morte.
“Linnëa sabia que cometera um crime. Também sabia que, mesmo se fosse inocentada do assassinato, não poderia retornar à sua existência anterior. A vida havia perdido toda a alegria. Por isso ela foi até a árvore mais antiga de Du Weldenvarden, encostou seu corpo nela e começou a cantar para entrar em seu interior, abandonava assim toda a fidelidade a própria raça. Durante três dias e três noites ela cantou e, quando terminou, ela e suas amadas plantas haviam se tornado uma só. E, desde então, por todo o milênio, ela tem vigiado a floresta... Foi assim que a Menoa foi criada.”
Depois que concluiu sua história, Arya se sentou ao lado de Eragon o topo de uma enorme raiz, a uns três metros e meio do chão. Eragon bateu com o calcanhar na árvore e ficou se perguntando se Arya havia contado a história com a intenção de lhe dar um aviso, ou se ela não passava de um conto inocente.
Sua dúvida aumentou e deu lugar à incerteza quando ela perguntou:
— Você acha que o jovem deve ser culpado pela tragédia?
— Acho — respondeu, sabendo que uma resposta grosseira poderia colocá-la contra ele — que o que ele fez foi cruel... e que Linnëa reagiu violentamente. Ambos erraram.
Arya o encarou, até ele se sentir forçado a evitar seu olhar.
— Eles não serviam um para o outro.
Eragon começou a discordar, mas depois se deteve. Ela tinha razão. E o manipulara para que ele admitisse em voz alta, e o fizesse para ela.
— Talvez — admitiu.
O silêncio formou-se entre ambos, como a areia que se empilhava em cima de uma muralha, nenhum dos dois estava disposto a romper. O zumbido agudo das cigarras ecoou da beira da clareira. Finalmente ele disse:
— O fato de estar em casa parece lhe fazer bem.
— Faz mesmo. — Com uma naturalidade inconsciente, ela se curvou e pegou um galho fino que havia caído da Menoa e começou a trançar as folhas pontiagudas delineando uma pequena cesta.
O sangue quente subiu até o rosto de Eragon enquanto a observava. Ele esperava que a lua não estivesse brilhante o suficiente para revelar que suas bochechas estavam matizadas de tão rubras.
— Onde... onde você vive? Você e Islanzadí têm um palácio ou um castelo...?
— Moramos no castelo Tialdarí, uma construção ancestral da nossa família, que fica na zona oeste de Ellesméra. Adoraria mostrar nossa casa para você.
— Ah. — Uma pergunta simples subitamente invadiu os pensamentos confusos de Eragon, afastando o seu embaraço. — Arya, você tem irmãos? — Ela balançou negativamente a cabeça. — Então você é a única herdeira do trono dos elfos?
— É claro. Por que você pergunta? — Ela parecia estupefata com a curiosidade do rapaz.
— Não entendo por que permitiram que você se tornasse uma embaixadora dos Varden e dos anões, e que transportasse o ovo de Saphira daqui até Tronjheim. É uma missão perigosa demais para uma princesa, quanto mais para a sucessora da rainha.
— Você quer dizer que é perigosa demais para uma mulher humana. Já lhe disse antes que não sou uma das suas fêmeas indefesas. O que você não percebe é que vemos nossos monarcas de uma maneira diferente de vocês ou dos anões. Para nós, a maior responsabilidade de um rei ou de uma rainha é servir ao seu povo sempre e quando for possível. Se isso significa que seremos privados da nossa vida, aceitaremos bem a oportunidade de provar nossa devoção, como dizem os anões, ao lar, à linhagem e à honra. Se eu tivesse morrido no cumprimento do meu dever, um sucessor substituto teria sido escolhido entre nossas várias Casas. Mesmo agora eu não seria obrigada a me tornar rainha se julgasse a perspectiva desagradável. Não escolhemos líderes que não estão dispostos a se devotar sinceramente ao seu dever. — Ela hesitou e depois abraçou os joelhos contra o peito, apoiando seu queixo sobre ambos. — Tive muitos anos para aprofundar esse assunto com a minha mãe. — Durante um minuto, o bzzzz das cigarras continuou inalterado no meio da clareira. Até que ela perguntou: — Como vão os seus estudos com Oromis?
Eragon resmungava enquanto seu mau humor voltava pelas lembranças desagradáveis, azedando um pouco o prazer de estar com Arya. Tudo que ele queria fazer era rastejar até sua cama, ir dormir e se esquecer daquele dia.
— Oromis-elda — disse ele, elaborando cada palavra dentro da boca antes de deixá-la escapar — é bastante radical.
Ele estremeceu quando ela agarrou seu braço com uma força exagerada.
— O que foi que deu errado?
Tentou soltar a mão da elfa.
— Nada.
— Viajei com você tempo o suficiente para saber quando você está feliz, furioso... ou magoado. Aconteceu alguma coisa entre você e Oromis? Se tiver acontecido, você tem que me dizer para que possa ser retificado o mais rápido possível. Ou foram as suas costas? Nós poderíamos...
— Não tem a ver com o meu treinamento! — Apesar do seu ressentimento, Eragon notou que ela parecia estar genuinamente preocupada, o que o deixou feliz. — Pergunte a Saphira. Ela pode lhe dizer.
— Quero ouvir de você — disse a elfa calmamente.
Os músculos no maxilar de Eragon se contraíam trincando seus dentes. Num tom de voz baixo, apenas um sussurro, ele descreveu, a principio como havia falhado em sua meditação na clareira, e depois falou sobre o incidente que envenenava seu coração como uma víbora enrolada no seu peito: sua bênção.
Arya soltou seu braço e agarrou a raiz da Menoa, como se quisesse se firmar.
— Barzûl. — A imprecação dos anões o deixou alarmado, ele jamais a ouvira usar palavras profanas antes, e esta era especialmente adequada, pois significava desgraça. — Sabia do seu gesto em Farthen Dûr, com certeza, mas jamais pensei... Jamais suspeitava que tal coisa pudesse ocorrer. Rogo pelo seu perdão, Eragon, por ter forçado você a deixar o seu quarto esta noite. Não compreendi o seu desconforto. Você deve querer ficar sozinho.
— Não — disse ele. — Não, eu estou gostando da sua companhia e das coisas que você me mostrou. — Ele lhe dirigiu um sorriso e, depois de algum tempo, ela sorriu de volta. Juntos, os dois se acomodaram tímida e silenciosamente, ainda na base da velha árvore, e ficaram vendo a lua cruzar a floresta serena antes de se esconder atrás das nuvens. — Só fico pensando no que vai acontecer com a criança.
Bem acima de suas cabeças, Blagden agitou suas penas brancas como ossos e gritou:
— Wyrda!

4 comentários:

  1. Não sei se é só comigo, mas eu começo a ficar impaciente quando os dois tão mt afim um do outro e ficam enrolando. Pelo amor dos dragões, se peguem logo!!

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  2. Não é só vc, eu não aguento mais...

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  3. Não é só vc, eu não aguento mais. segundo livro e nada.

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  4. Só eu shippo o Eragon com o Murtagh?


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Boa leitura :)