8 de maio de 2017

Capítulo 33

Me afogo e congelo
Bolinhos para as serpentes?
Vamos nessa, Batman

MEG E EU DESPENCAMOS pela escuridão, nossa corda desenrolando conforme quicávamos em pedra após pedra, minhas roupas e minha pele sofrendo arranhões brutais.
Fiz o que qualquer um faria: gritei.
— IUPIIIII!
A corda se esticou mais ainda, aplicando em mim a manobra de Heimlich com tanta violência que quase cuspi o apêndice. Meg grunhiu de surpresa e acabou me soltando. Ela mergulhou ainda mais fundo no breu. Um momento depois, ouvi um splash vindo de baixo.
— Foi divertido! De novo! — Ri, pendurado no vazio.
O nó se soltou na minha cintura, e eu caí na água gelada.
Foi graças ao meu estado delirante que eu não me afoguei imediatamente. Não senti necessidade de lutar, de me debater, nem de ofegar. Só flutuei, achando tudo aquilo hilário. Os goles que tomei de Lete e de Mnemosine batalhavam na minha mente. Eu não conseguia me lembrar do meu próprio nome, o que achei extremamente engraçado, mas conseguia relembrar com perfeita clareza os pontos amarelos nos olhos de serpente de Píton quando ele afundou os dentes nos meus bíceps imortais um milênio antes.
Sob a água escura, não era para eu estar vendo nada. Mesmo assim, imagens flutuavam à minha frente. Talvez meus globos oculares só estivessem congelando.
Vi meu pai, Zeus, sentado em uma cadeira de treliça ao lado de uma piscina infinita na beirada de um terraço. Depois da piscina, um mar azul se prolongava até o horizonte. A cena tinha mais a ver com Poseidon, mas eu conhecia aquele lugar: era o apartamento de luxo da minha mãe na Flórida. (Sim, eu tinha uma mãe imortal que se aposentou e foi morar na Flórida. Fazer o quê?)
Leto estava ajoelhada ao lado de Zeus, as mãos unidas em súplica. Os braços cor de bronze contrastavam com o vestido branco. O cabelo comprido e dourado ziguezagueava pelas costas em uma ondulação elaborada.
— Por favor, meu senhor! — implorava ela. — Ele é seu filho. Aprendeu a lição!
— Ainda não — resmungou Zeus. — O verdadeiro teste ainda está por vir.
Eu ri e acenei.
— Oi, mãe! Oi, pai!
Como eu estava debaixo d’água e muito provavelmente tendo uma alucinação, eles não deveriam ter me ouvido. Mesmo assim, Zeus me encarou e fez cara feia.
A cena evaporou. Eu me deparei com um imortal diferente.
Flutuando à minha frente havia uma deusa sombria, o cabelo de ébano ondulando na corrente fria, o vestido se espalhando ao redor como fumaça vulcânica. O rosto era delicado e sublime, o batom, a sombra e o rímel aplicados com eficiência em tons de meia-noite. Os olhos brilhavam com ódio absoluto.
Adorei vê-la ali.
— Oi, Estige!
Os olhos de obsidiana se estreitaram.
— Você. Violador de juramentos. Não pense que eu esqueci.
— Mas eu esqueci! — falei. — Quem eu sou mesmo?
Eu estava falando sério. Sabia que ela era Estige, a deusa do rio mais importante do Mundo Inferior. Eu sabia que ela era a mais poderosa de todas as ninfas aquáticas, filha mais velha do titã do mar, Oceano. Eu sabia que ela me odiava, o que não me causava espanto, já que ela também era a deusa do ódio.
Mas eu não tinha a menor ideia de quem eu era nem o que fiz para ser objeto da animosidade dela.
— Sabia que estou me afogando agora?
Aquilo foi tão hilário que comecei a rir com um fluxo de bolhas.
— Vou cobrar a dívida — rosnou Estige. — Você vai PAGAR por suas promessas quebradas.
— Tudo bem! — concordei. — Quanto?
Ela sibilou de irritação.
— Vamos deixar isso para depois. Volte à sua missão idiota!
A deusa sumiu. Alguém me segurou pela nuca, me tirou da água e me jogou em uma superfície dura de pedra.
Minha salvadora era uma garotinha de uns doze anos. Pingava água do seu vestido verde esfarrapado. Arranhões sangrentos cobriam seus braços. A calça jeans e os tênis de cano alto estavam cobertos de lama.
O mais assustador era que as pedrinhas nos cantos dos óculos de gatinho não estavam só cintilando, e sim emitindo luz própria, ainda que bem fraquinha. Percebi que eu só conseguia enxergar a garota por causa daquelas pequenas constelações perto dos olhos dela.
— Você não me é estranha — grunhi. — Peg, não é? Ou Megan?
Ela franziu a testa, quase tão ameaçadora quanto a deusa Estige.
— Você não está de brincadeira com a minha cara, está?
— Não!
Abri um sorrisão, apesar de estar encharcado e tremendo. Me ocorreu que provavelmente eu entraria em choque hipotérmico. Listei todos os sintomas: tremor, tontura, confusão, batimentos cardíacos disparados, náusea, cansaço... Uau, assim eu ia longe!
Se ao menos eu conseguisse lembrar meu nome. Achei que tivesse dois. Um era Lester? Ah, caramba. Que horrível! O outro começava com A. Alfred? Humm. Não. Isso faria da garotinha o Batman, e não me parecia certo.
— Meu nome é Meg — disse ela.
— Sim! Sim, claro. Obrigado. E eu sou...
— Um idiota.
— Humm. Não... Ah! Foi uma piada!
— Não exatamente. Mas seu nome é Apolo.
— Certo! E estamos aqui por causa do Oráculo de Trofônio.
Ela inclinou a cabeça, posicionando a constelação em seus óculos em outra casa astrológica.
— Você não consegue se lembrar dos nossos nomes, mas consegue se lembrar disso?
— Estranho, não é? — Eu me sentei com dificuldade. Meus dedos tinham ficado azuis, o que não devia ser um bom sinal. — Eu me lembro dos passos para fazer um requerimento ao Oráculo! Primeiro, bebemos das fontes de Lete e de Mnemosine. Já fiz isso, não fiz? É por isso que me sinto tão estranho.
— É. — Meg torceu a saia para tirar a água. — Precisamos nos mexer, senão vamos morrer congelados.
— Tudo bem! — Com a ajuda dela, fiquei de pé. — Depois de beber das fontes, descemos para uma caverna. Ah! Estamos aqui! Depois, entramos nas profundezas dela. Humm. Por ali!
Na verdade, só havia um caminho.
Quinze metros acima, um trecho estreito de luz do dia penetrava a fresta pela qual caímos. A corda estava pendurada fora do nosso alcance. Não sairíamos pelo mesmo lugar por onde entramos. À esquerda, uma grande pedra se projetava. Na metade dela, uma cachoeira jorrava de uma fissura, caindo na piscina aos nossos pés. À direita, a água formava um rio escuro e corria por um túnel estreito. A saliência onde estávamos seguia junto ao rio, larga o bastante para andar, supondo que não escorregássemos, caíssemos e nos afogássemos.
— Muito bem, então!
Eu fui na frente, acompanhando o riacho.
Quando chegamos a uma curva, o parapeito de pedra estreitou. O teto foi ficando mais baixo, e em determinado momento já estávamos quase engatinhando. Atrás de mim, Meg respirava em baforadas trêmulas, a expiração tão alta que ecoava mais do que o ruído da correnteza.
Foi difícil se mover e formar pensamentos racionais ao mesmo tempo. Era como tocar vários ritmos em uma bateria. Minhas baquetas tinham que se mover em padrões completamente diferentes dos meus pés nos pedais do bumbo e do chimbal. Um pequeno erro, e minha batida frenética de jazz viraria uma polca soturna.
Eu parei e me virei para Meg.
— Bolinho de mel?
Na luz pálida das pedras dos óculos, foi difícil interpretar a expressão dela.
— Espero que você não esteja se referindo a mim.
— Não, nós precisamos de bolinhos de mel. Você trouxe, ou fui eu?
Bati nos meus bolsos encharcados. Só senti chaves de carro e uma carteira. Eu tinha uma aljava, um arco e um ukulele nas costas (ah, um ukulele! Maravilha!), mas era bem improvável que eu tivesse guardado doces em um instrumento de cordas.
Meg franziu a testa.
— Você nunca falou nada sobre bolinhos de mel.
— Mas eu acabei de me lembrar! Nós precisamos deles para as cobras!
— Cobras. — Meg desenvolveu um tique facial que não parecia estar relacionado à hipotermia. — Por que haveria cobras aqui?
— Boa pergunta! Só sei que temos que dar bolinhos de mel para agradá-las. Então... nós esquecemos os bolinhos?
— Você nunca falou nada sobre bolinhos!
— Ah, que pena. Tem alguma coisa que possamos usar no lugar? Oreo, talvez?
Meg balançou a cabeça.
— Não temos Oreo.
— Humm. Tudo bem. Acho que vamos ter que improvisar.
Ela olhou com apreensão para o túnel.
— Você me mostra como improvisar com essas cobras. Eu vou atrás.
Isso me pareceu uma ideia esplêndida. Segui em frente com um sorriso no rosto, menos onde o teto do túnel ficava baixo demais. Nesses casos, segui agachado com um sorriso no rosto.
Apesar de escorregar para dentro do rio algumas vezes, de bater a cabeça em algumas estalactites e de me engasgar com o cheiro acre de cocô de morcego, eu não senti angústia nenhuma. Minhas pernas pareciam flutuar. Meu cérebro sacudia dentro do crânio, se ajeitando com a facilidade de um giroscópio.
Coisas de que eu me lembrava: eu tive uma visão de Leto. Ela estava tentando convencer Zeus a me perdoar. Isso foi tão fofo! Também tive uma visão da deusa Estige. Ela estava furiosa... Foi hilário! E, por algum motivo, eu conseguia me lembrar de cada nota que Stevie Ray Vaughan tocou em “Texas Flood”. Que música incrível!
Coisas de que eu não conseguia me lembrar: eu não tinha uma irmã gêmea? O nome dela era... Lesterina? Alfreda? Nenhum dos dois parecia certo. Além do mais, por que Zeus estava com raiva de mim? E por que Estige estava com raiva de mim? Além disso, quem era aquela garota atrás de mim, com os óculos de pedras cintilantes, e por que ela não tinha bolinhos de mel?
Meus pensamentos podiam estar confusos, mas meus sentidos estavam mais apurados do que nunca. No túnel à nossa frente, lufadas de ar mais quente batiam no meu rosto. Os sons do rio se dissiparam, os ecos ficando mais graves e mais suaves, como se a água estivesse se espalhando em uma caverna maior. Um novo cheiro agrediu minhas narinas, um odor mais seco e mais ácido do que cocô de morcego. Ah, sim... pele e excremento de réptil.
Eu parei.
— Já sei por quê!
Eu sorri para Peggy... Megan... não, Meg.
Ela fez cara feia.
— Sabe por que o quê?
— Por que cobras! — falei. — Você me perguntou por que encontraríamos cobras, não foi? Ou foi outra pessoa? As cobras são simbólicas! Representam a sabedoria profética das profundezas da terra, assim como os pássaros simbolizam a sabedoria profética dos céus.
— Aham.
— Então, cobras são atraídas por oráculos! Principalmente os que ficam em cavernas!
— Tipo aquela cobra monstruosa que ouvimos no Labirinto, Píton?
Achei aquela referência ligeiramente perturbadora. Eu tinha certeza de que sabia quem era Píton alguns minutos antes. Agora, não fazia a menor ideia. Me veio à mente o nome Monty Python. Era isso mesmo? Eu não achava que o monstro e eu nos tratávamos pelo primeiro nome.
— Bom, sim, acho que é isso — falei. — As cobras devem estar logo à frente! É por isso que precisamos de bolinhos de mel. Você tem alguns, não tem?
— Não, eu...
— Excelente!
Segui em frente.
Como eu desconfiava, o túnel se alargou em uma câmara ampla. Um lago cobria toda a área, que devia ter cerca de vinte metros de diâmetro, exceto por uma pequena ilha de pedra no centro. Acima de nós, o teto abobadado estava cheio de estalactites, como candelabros pretos. Cobrindo a ilha e a superfície da água havia uma camada de serpentes em movimento, como espaguete deixado em água fervente por tempo demais. Lindas criaturas. Milhares delas.
— Ta-dá! — exclamei.
Meg não pareceu compartilhar do meu entusiasmo. Ela voltou para o túnel.
— Apolo... você precisaria de um zilhão de bolinhos de mel para tantas cobras.
— Ah, mas, sabe, nós temos que chegar àquela ilha no centro. É onde vamos receber nossa profecia.
— Mas, se entrarmos na água, as cobras não vão nos matar?
— Provavelmente! — Sorri. — Vamos descobrir!
Pulei no lago.

8 comentários:

  1. Eu acho que tinha alguma droga no meio da água daqueles rios, só pode kkkkkkk

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  2. Tem lsd nessa água bicho

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  3. essas drogas ele pegou comigo!!!!alguem quer também???

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  4. "Era uma vez Apolo"

    "Mas espera, se ele era um Deus imortal como ele morreu"

    "Quando Zeus o puniu o tornado mortal, ele ficou doidão e pulou em um lago de cobras:)"



    Uma história q a gente ouve td dia...kkkkk

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  5. Apolo chapado, melhor versão dele kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk AAAAaah Leto implorando pra Zeus perdoar o filhote tão fofo <3 Só acho que ele precisa beber mais dessas águas mágicas, reclama bem menos de tudo.

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Boa leitura :)