22 de maio de 2017

Capítulo 33 - A trilha do óleo

O que eu tinha em mente?, pensou Eragon de manhã. Sua cabeça latejava e sua língua estava áspera e grossa. Quando um rato passou correndo sob o piso, Eragon apertou os olhos por causa do barulho.
Como você está se sentindo?, perguntou Saphira de forma convencida. Eragon a ignorou. Um instante depois, Brom levantou-se da cama e resmungou. Mergulhou a cabeça na bacia cheia de água fria e saiu do quarto. Eragon o seguiu até o corredor.
— Aonde você vai? — perguntou ele.
— Vou me recuperar.
— Irei junto. — No bar, Eragon descobriu que o método de recuperação de Brom envolvia beber grandes quantidades de chá quente e água gelada e fazer tudo isso descer com conhaque. Quando voltaram para o quarto, Eragon sentiu que estava um pouco melhor.
Brom pôs a espada na cinta e alisou as partes amarrotadas do seu manto.
— Primeiro, precisamos fazer algumas perguntas com discrição. Quero ver se o óleo de Seithr foi entregue em Dras-Leona e qual foi o destino dele depois disso. Provavelmente, soldados ou trabalhadores estiveram envolvidos no transporte do óleo. Precisamos achar esses homens e fazer que um deles fale.
Saíram da Globo Dourado e procuraram pelos armazéns onde o óleo de Seithr poderia ter sido entregue. Perto do centro de Dras-Leona, as ruas começaram a subir em direção a um palácio de granito polido. Ele foi construído em uma elevação, de modo que estava acima de todas as construções do local, com exceção da catedral.
No pátio havia um mosaico de madrepérola, e partes das paredes eram incrustadas com ouro. Havia estátuas negras nas alcovas, segurando bastões de incenso acesos em suas mãos frias. Soldados, a postos a cada quatro metros, observavam com atenção quem passava.
— Quem mora ali? — perguntou Eragon admirado.
— Marcus Tábor, governante desta cidade. Ele responde apenas ao rei e à sua própria consciência, que não tem estado muito ativa recentemente — respondeu Brom. Eles deram a volta no palácio, olhando para as casas gradeadas e enfeitadas que o cercavam.
Ao meio-dia, não tinham descoberto nada útil, então pararam para almoçar.
— Esta cidade é grande demais para investigarmos juntos — disse Brom. — Você continuará sozinho. Encontre-me na Globo Dourado ao anoitecer. — Ele olhou fixamente para Eragon debaixo de suas grossas sobrancelhas. — Estou confiando que você não fará nenhuma burrice.
— Não farei — prometeu Eragon. Brom deu a ele algumas moedas e saiu andando na direção oposta.
Durante o resto do dia, Eragon falou com comerciantes e trabalhadores, tentando ser o mais gentil e simpático que podia. Suas perguntas levaram-no de um extremo da cidade para outro e vice-versa. Parecia que ninguém sabia nada sobre o óleo. Sempre aonde ia, a catedral olhava fixamente para ele. Era impossível escapar de suas torres altas.
Finalmente achou um homem que tinha ajudado a embarcar o óleo de Seithr e se lembrou do armazém para onde aquilo foi levado. Eragon, animado, foi olhar a edificação e voltou para a estalagem. Mais de uma hora se passou antes que Brom voltasse, caindo de cansaço.
— Você descobriu alguma coisa? — perguntou Eragon.
Brom jogou para trás seus cabelos brancos.
— Ouvi várias coisas interessantes hoje, e uma delas é que Galbatorix visitará Dras-Leona daqui a uma semana.
— O quê? — admirou-se Eragon.
Brom encostou-se na parede, as rugas em sua testa ficaram mais fundas.
— Parece que Tábor tomou liberdades demais ao usar seu poder, e Galbatorix resolveu vir aqui dar uma lição de humildade a ele. Será a primeira vez que o rei sairá de Uru’baen em mais de dez anos.
— Você acha que ele sabe alguma coisa sobre nós? — perguntou Eragon.
— É claro que ele sabe sobre nós, mas tenho certeza de que ninguém revelou a ele o lugar onde estamos. Se tivessem revelado, já estaríamos sob as garras dos Ra’zac. Contudo, isso significa que seja lá o que faremos com os Ra’zac, deve ser feito antes de Galbatorix chegar. Queremos ficar o mais longe possível dele. A única coisa a nosso favor é a certeza de os Ra’zac estarem aqui, preparando a visita dele.
— Quero pegar os Ra’zac — afirmou Eragon apertando os punhos —, mas não farei isso se tiver de lutar com o rei. Ele, provavelmente, me faria em pedaços.
Aquilo pareceu agradar Brom.
— Muito bem: cautela. E você está certo, pois não teria a menor chance contra Galbatorix. Agora, conte o que descobriu hoje. Talvez confirme o que ouvi.
Eragon deu de ombros.
— A maior parte das coisas foi besteira, mas falei com um homem que sabia para onde o óleo havia sido levado. O lugar é um velho armazém. Além disso, não descobri nada mais útil.
— Meu dia foi um pouco mais produtivo do que o seu. Descobri a mesma coisa que você, então fui ao armazém e conversei com os trabalhadores. Não precisei falar muito para saber que os tonéis de óleo de Seithr são sempre levados do armazém para o palácio.
— E, depois disso, voltou para cá — concluiu Eragon.
— Não, nada disso! Não me interrompa. Depois, fui ao palácio e consegui entrar no quarto dos empregados fingindo ser um bardo. Durante várias horas, andei por lá, distraindo as camareiras e outras pessoas com poemas e músicas, sem deixar de fazer perguntas. — Brom, lentamente, encheu seu cachimbo de fumo. — As coisas que os empregados descobrem são incríveis. Você sabia que um dos condes tem três amantes e que todas vivem na mesma ala do palácio? — Ele balançou a cabeça e acendeu o cachimbo. — Além dessas curiosidades engraçadas, me disseram, por acidente, para onde o óleo é levado do palácio.
— E é para... — quis saber Eragon impaciente.
Brom tragou seu cachimbo e soltou um anel de fumaça.
— Para fora da cidade, é claro. Em toda lua cheia, dois escravos são enviados para a base de Helgrind com provisões para durar um mês. Sempre que o óleo de Seithr chega a Dras-Leona, eles o enviam com provisões. Os escravos nunca mais são vistos. E a única vez em que alguém os seguiu, essa pessoa também desapareceu.
— Pensei que os Cavaleiros tinham acabado com a escravidão — disse Eragon.
— Infelizmente, isso voltou a ser praticado no reinado deste rei.
— Então, os Ra’zac estão em Helgrind — arriscou Eragon pensando na montanha de pedra.
— Lá ou em algum lugar próximo.
— Se eles estiverem em Helgrind, estarão embaixo, protegidos por paredes e portas grossas de pedra, ou no alto, onde só as suas montarias aladas ou Saphira podem chegar. Seja em cima ou embaixo, o esconderijo deles, sem dúvida, estará camuflado. — Ele parou para pensar por um momento. — Se Saphira e eu voarmos em volta de Helgrind, é certo que os Ra’zac nos verão, sem falar em todas as pessoas de Dras-Leona.
— Isso é um problema — concordou Brom.
Eragon fez uma cara feia.
— E se tomarmos o lugar daqueles dois escravos? A lua cheia não está longe. Isso nos daria a oportunidade perfeita de chegar perto dos Ra’zac.
Brom puxava sua barba pensativo.
— Isso será muito arriscado. Se os escravos são mortos a distância, estaremos encrencados. Não poderemos ferir os Ra’zac se não pudermos vê-los.
— E não sabemos se os escravos são mortos — destacou Eragon.
— Tenho certeza de que são — disse Brom, com uma expressão séria no rosto. Então, os olhos dele brilharam, e soltou outro anel de fumaça. — Ainda assim, é uma ideia tentadora. Se deixarmos Saphira escondida por perto e... — A voz dele sumiu. — Pode dar certo, mas teremos de agir rápido. Com o rei chegando, não temos muito tempo.
— Vamos até Helgrind para examinar o lugar? É melhor ver o local de dia para não sermos surpreendidos em nenhuma emboscada.
Brom apontou para o seu cajado.
— Isso pode ser feito depois. Amanhã, voltarei ao palácio e verei como poderemos substituir os escravos. Mas tenho de tomar cuidado para não levantar suspeitas. Eu poderia ser descoberto facilmente por espiões e cortesãos que sabem sobre os Ra’zac.
— Não acredito que nós os encontramos — disse Eragon baixinho. Uma imagem do seu tio morto e da fazenda queimada passou pela sua cabeça. Ele fechou a boca com força.
— A parte mais difícil ainda está por vir, mas, sim, fizemos progresso — afirmou Brom. — Se a sorte nos sorrir, logo você terá a sua vingança, e os Varden estarão livres de um inimigo perigoso. O que acontecerá depois disso dependerá de você.
Eragon abriu sua mente e, contente, contou tudo a Saphira:
Achamos o esconderijo dos Ra’zac!
Onde?
Ele explicou rapidamente o que haviam descoberto.
Helgrind, meditou ela. É um lugar perfeito para eles.
Eragon concordou.
Quando acabarmos o que temos para fazer aqui, talvez pudéssemos visitar Carvahall.
O que você quer? Perguntou ela, ficando amarga de repente. Voltar para a sua vida antiga? Você sabe que isso não acontecerá, então pare de ficar desejando isso! Em certo momento, terá de decidir que partido tomar. Você se esconderá pelo resto da vida ou ajudará os Varden? São as únicas opções que lhe restam, a não ser que se una a Galbatorix, o que eu nunca aceitaria.
Gentilmente, ele disse:
Se devo escolher, entregarei meu destino aos Varden, como você sabe muito bem.
É, mas, às vezes, você precisa se ouvir falando isso. Ela o deixou para meditar sobre suas palavras.

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