27 de maio de 2017

Capítulo 33 - As vidas secretas das formigas

Assim que se afastaram de Oromis e Glaedr, Saphira disse: Eragon, existe outro dragão! Dá para acreditar?
Ele acariciou seu ombro. É maravilhoso. Bem acima de Du Weldenvarden. o único sinal de que havia alguma moradia no meio da floresta era uma ou outra coluna de fumaça que brotava da copa de uma árvore e logo sumia do céu claro.
Nunca acreditei que pudesse encontrar outro dragão, tirando Shruikan. Talvez pudéssemos recuperar os ovos que estão com Galbatorix, sim, mas minhas esperanças eram mínimas. E agora essa! Ficou se retorcendo sob o seu Cavaleiro, toda feliz. Glaedr é incrível, não? É tão velho e forte, e suas escamas são tão brilhantes. Ele deve ter o dobro, não, o triplo do meu tamanho. Você viu suas garras? Elas...
Prosseguiu falando assim durante mais alguns minutos, cada vez mais eloquente no que dizia respeito aos atributos de Glaedr. Mais fortes que suas palavras, no entanto, eram as emoções que Eragon sentia embriagando-a: ansiedade e entusiasmo juntos, o que ele só podia identificar como uma ardente adoração.
Eragon tentou contar para Saphira o que havia descoberto com Oromis — percebera que ela não havia prestado atenção em nada — mas viu que era impossível mudar de assunto. Ficou, então, sentado em silêncio nas costas do dragão, o mundo lá embaixo era um oceano verde-esmeralda, e sentiu-se o homem mais solitário existente.
De volta aos seus aposentos, Eragon decidiu recolher-se, estava muito cansado por causa dos acontecimentos do dia e das semanas de viagem. E Saphira estava mais do que contente por poder ficar sentada em sua cama, falando sobre Glaedr, enquanto ele examinava os mistérios da banheira dos elfos.
A manhã chegou e com ela veio um pacote embrulhado em papel fino contendo a navalha e o espelho que Oromis havia prometido. A lâmina havia sido feita à maneira dos elfos, por isso não precisava ser amolada nem afiada. Fazendo caretas, Eragon tomou o seu primeiro banho em água quente, e logo ergueu o espelho e se defrontou com seu semblante.
Pareço mais velho. Mais velho e cansado. Não só isso, mas suas feições haviam ficado mais angulosas, com uma ascética aparência aquilina. Ele era elfo, mas ninguém o identificaria como um humano puro-sangue o examinasse atentamente. Puxando seu cabelo para trás, ele expôs as orelhas agora afiladas em ligeiras pontas, era uma evidência a mais de como vínculo com Saphira o havia mudado. Tocou uma de suas orelhas, deixou seus dedos percorrerem aquela forma peculiar.
Era difícil aceitar aquela transformação. Muito embora soubesse que ela aconteceria — e de vez em quando aceitava bem tal perspectiva como a última confirmação de que ele era um Cavaleiro —, a realidade o deixou completamente confuso. Ressentia-se do fato de não ter nenhum controle sobre as alterações em seu corpo, contudo ao mesmo tempo estava curioso em relação ao destino deste processo. Além disso, tinha consciência de que ainda estava no meio de sua adolescência humana em todo o seu reino de mistérios e dificuldades.
Quando finalmente saberei quem e o que sou?
Ele encostou o fio da lâmina no seu rosto, como vira Garrow fazer, e a arrastou pela pele. Os pelos se soltaram, mas eram longos e desiguais. Eragon alterou o ângulo da navalha e tentou novamente, desta vez fez melhor.
Quando chegou no queixo, no entanto, a lâmina escorregou de sua mão e o cortou do canto da boca até a parte inferior do maxilar. Ele gritou e largou a navalha, tentava estancar o corte com a mão, mas fez o sangue escorrer pelo seu pescoço. Cuspindo as palavras pela boca semicerrada, ele disse:
— Waíse heill! — A dor rapidamente sumiu enquanto a magia fazia a pele se fechar, embora seu coração ainda palpitasse por causa do susto. Eragon!, gritou Saphira. Ela forçou a cabeça e os ombros para dentro do vestíbulo e usou o nariz para abrir a porta do banheiro, chamejando as narinas ao cheiro de sangue.
Vou viver, garantiu ele.
Ela ficou olhando para a água cheia de sangue. Tenha mais cuidado. Preferia você roto como um cervo novo do que decapitado por causa de um barbear rente.
Eu também. Pode sair, estou bem.
Saphira resmungou e, relutante, se retirou.
Eragon se sentou e ficou olhando para a lâmina. Até que, finalmente, murmurou:
— Pode esquecer. — Compondo-se, reviu seu vocabulário da língua antiga, selecionou algumas palavras e deixou que o encanto inventado fluísse de sua boca. Um leve jato de pó preto caiu do seu rosto e sua barba rala se desintegrou, deixando suas bochechas perfeitamente lisas.
Satisfeito, Eragon saiu e selou Saphira, que imediatamente voou e seguiu na direção dos rochedos de Tel’naeír. Aterrissaram em frente à cabana e foram recebidos por Oromis e Glaedr.
Oromis examinou a sela de Saphira. Passou o dedo por cada correia, parando nas costuras e nas fivelas, e depois avaliou que se tratava de um trabalho manual passável, considerando como e quando foi feito.
— Brom sempre foi hábil com as mãos. Use esta sela quando tiver que viajar em grande velocidade. Mas quando for permitido algum conforto — ele adentrou a cabana por um instante e reapareceu carregando uma sela densa e moldada, decorada com desenhos dourados ao longo do assento e das peças de apoio para as pernas —, use isso. Foi fabricada em Vroengard e está impregnada com tantos encantos que ela jamais irá lhe falhar nas horas de necessidade.
Eragon cambaleou com o peso da sela assim que a recebeu de Oromis. Assemelhava-se à de Brom, com uma fiada de fivelas — destinadas a imobilizar as pernas — penduradas dos dois lados. O assento profundo foi modelado no couro de uma maneira a permitir que ele pudesse voar, à vontade, por horas a fio, tanto sentado com a coluna ereta quanto deitado no pescoço de Saphira. Além disso, as correias que envolviam o peito de Saphira tinham nós e carreiras que podiam se estender para acomodar anos de crescimento. Uma série de laços largos em cada lado da cabeça da sela chamaram a atenção de Eragon. Ele perguntou qual era a sua finalidade.
Glaedr resmungou. Eles seguram os seus pulsos e braços para que você não seja morto como um rato quando Saphira fizer uma manobra complexa.
Oromis ajudou Eragon a tirar a sela que Saphira estava usando.
— Saphira, você irá com Glaedr hoje, enquanto eu ficarei aqui com Eragon.
Como você quiser, disse ela exultante. Levantando seu corpanzil dourado do chão, Glaedr voou para o norte, Saphira ia logo atrás.
Oromis não deu a Eragon muito tempo para pensar na partida de Saphira, o elfo o conduziu até um quadrado de terra bem batida, debaixo de um salgueiro, bem nos fundos da clareira. Em pé à sua frente no quadrado, Oromis disse:
— O que estou prestes a lhe mostrar é chamado de Rimgar, ou a Dança da Cobra e do Grou. É uma série de posturas que desenvolvemos a fim de preparar nossos guerreiros para o combate, embora todos os elfos as usem para manter sua forma e sua saúde. O Rimgar consiste em quatro níveis, cada um mais difícil do que o anterior. Começaremos com o primeiro
A apreensão pela tarefa que estava por vir deixou Eragon enjoado a ponto de ele mal conseguir se mover. Ele apertou os punhos e arqueou ombros, fazendo sua cicatriz nas costas se repuxar enquanto ele olhava para o espaço entre seus pés.
— Relaxe — aconselhou Oromis. Eragon abriu suas mãos num espasmo e deixou que elas pendessem na extremidade dos seus braços rígidos. — Pedi para você relaxar, Eragon. Você não pode fazer o Rimgar assim tão duro quanto um pedaço de couro cru.
— Sim, Mestre. — Eragon fez uma careta e, relutando, afrouxou os músculos e as juntas, embora um nó de tensão continuasse sensível em sua barriga.
— Junte os seus pés e estenda os braços ao longo do corpo. Olhe para a frente. Agora respire fundo e levante os braços por sobre a cabeça de modo que as palmas das mãos se encontrem... Isso, assim. Expire e curve-se para baixo o mais rápido que puder, ponha as palmas da mão no chão, respire novamente... e pule para trás. Bom. Inspire e erga-se, olhando na direção do céu... e expire, levantando os quadris até formar um triângulo. Inspire pela parte de trás da garganta... e expire. Inspire... e expire. Inspire...
Para completo desafogo de Eragon, as posições se mostraram suficientemente fáceis, não inflamaram a dor nas costas, contudo eram desafiadoras o bastante para que o suor gotejasse em sua testa e ele arfasse. O jovem se viu sorrindo de alegria e de alívio. Sua cautela evaporou e ele fluía pelas posições — em sua maioria elas sobrepujavam sua flexibilidade — agora tinha mais energia e confiança do que possuía desde antes da batalha em Farthen Dûr. Talvez eu tenha me curado!
Oromis fez o Rimgar com ele, demonstrando um nível de força e flexibilidade que impressionou Eragon, especialmente para alguém com tanta idade. O elfo conseguia encostar a testa nos dedos dos pés. Ao longo do exercício, Oromis permaneceu impecavelmente composto, como se estivesse apenas passeando por um jardim. Suas instruções eram mais calmas e pacientes do que as de Brom, embora fossem totalmente firmes. Nenhuma desatenção seria permitida.
— Vamos limpar o suor dos nossos corpos — disse Oromis quando ambos terminaram.
Enquanto iam para o riacho ao lado da casa, rapidamente tiraram as roupas. Eragon ficou olhando discretamente para o elfo, curioso para saber como era a sua aparência despido. Oromis era muito magro, contudo seus músculos eram perfeitamente definidos, gravados debaixo de sua pele como as linhas proeminentes de uma xilogravura. Não crescia nenhum pelo no seu peito ou nas pernas, nem mesmo na virilha. Seu corpo parecia quase esquisito para Eragon, comparado aos dos homens que ele estava acostumado a ver em Carvahall — embora tivesse uma certa elegância refinada, como a de um gato selvagem.
Quando ambos estavam limpos, Oromis levou Eragon para o interior de Du Weldenvarden, até uma clareira cercada por árvores escuras, projetadas para dentro, que ocultavam o céu atrás de galhos e véus de líquen emaranhados. Seus pés se afundavam no musgo acima dos tornozelos. Tudo estava silencioso à volta deles.
Apontando para uma tora branca cujo topo era liso e polido, de uns três metros de comprimento, posicionada no meio da clareira, Oromis disse:
— Sente-se aqui. — Eragon fez o que ele mandou. — Cruze as suas pernas e feche os olhos. — O mundo ficou escuro em torno dele. Da sua direita, ouviu Oromis sussurrar. — Abra a sua mente, Eragon. Abra a sua mente e ouça o mundo à sua volta, os pensamentos de cada ser desta clareira, das formigas nas árvores aos vermes no chão. Ouça até conseguir escutar a todos e entender seu propósito e sua natureza. Ouça e, quando não conseguir escutar mais nada, venha me dizer o que aprendeu.
Depois disso a floresta ficou em silêncio.
Sem saber ao certo se Oromis havia saído, Eragon tentou reduzir as barreiras em volta da sua mente e se ampliar usando sua consciência, como fez quando tentava contatar Saphira a uma grande distância. No início, apenas um vácuo o cercava, até que clarões de luz e ondas de calor começaram a aparecer na escuridão, aumentaram até ele estar sentado no meio de uma galáxia em turbilhão, cada ponto brilhante representava uma vida. Sempre que ele havia entrado em contato com outros seres usando a mente, como Cadoc, Fogo na Neve ou Solembum, focava sempre naquele com quem queria se comunicar. Mas isso... aqui era como se ele tivesse se mantido surdo no meio de uma multidão e agora pudesse ouvir toda a conversa girando à sua volta.
Subitamente sentiu-se vulnerável, estava completamente exposto ao mundo. Qualquer um ou qualquer coisa que se aproximasse dele e de sua mente poderia controlá-lo. Ele se retesou inconscientemente, retraindo-se, e sua consciência da multidão sumiu. Lembrando-se de uma das lições de Oromis, Eragon diminuiu sua respiração e controlou o movimento dos seus pulmões até que relaxasse o suficiente para reabrir sua mente.
De todas as vidas que podia sentir, a maioria era, sem dúvida, de insetos A quantidade surpreendeu. Dezenas de milhares se espalhavam por uns trinta centímetros quadrados de musgo, enquanto milhões se multiplicavam por toda a pequena clareira e multidões incontáveis estavam mais além. Sua abundância, de fato, assustou Eragon. Ele sempre soube que os humanos eram raros e viviam sitiados na Alagaësia, mas jamais poderia imaginar que existiam em número tão menor do que o de insetos.
Um dos poucos insetos com o quais ele estava familiarizado, e que Oromis também havia mencionado eram as formigas vermelhas. Eragon concentrou sua atenção nas filas que marchavam pelo chão e subiam pelo caule e galhos de uma roseira selvagem. O que ele pôde perceber não podia ser descrito como pensamentos — seus cérebros eram muito primitivos — eram instintos: o instinto de encontrar comida e evitar ferimentos, o instinto de defender o seu território, o instinto de copular. Ao examinar os instintos das formigas, ele pôde começar a decifrar o comportamento delas.
Ficou fascinado ao descobrir que — exceto alguns poucos espécimes que faziam expedições além das fronteiras de seu território — as formigas sabiam exatamente para onde estavam indo. Ele não tinha como determinar que mecanismo as guiava, mas seguiam por trajetos claramente definidos, do ninho para a comida e de volta para casa.
Sua fonte de alimento era outra surpresa. Como ele esperava, as formigas matavam e se alimentavam de outros insetos, mas grande parte dos seus esforços estavam dirigidos para a cultura de... de algo que vivia na roseira. Seja qual fosse tal forma de vida, estava no limite para que Eragon pudesse senti-la. Ele focou toda a sua força nela, numa tentativa de identificá-la e satisfazer sua curiosidade.
A resposta era tão simples que ele riu alto quando a compreendeu: pulgões. As formigas pastoravam para os pulgões, conduzindo-os e protegendo-os, assim como extraíam alimento deles ao massagear seus estômagos com as pontas das antenas. Eragon mal podia acreditar. Quanto mais ficava observando, mais se convencia de que estava certo.
Ele rastreou as formigas debaixo da terra, dentro de seu manancial complexo de labirintos e estudou como elas cuidavam de um certo membro de sua espécie que era muito maior do que uma formiga normal. No entanto, não tinha condições de determinar as intenções do inseto, tudo que podia ver eram servos aglomerados à sua volta, rodeando-o, e removendo as partículas de matéria que ele produzia em intervalos regulares.
Depois de um tempo, Eragon concluiu que havia recolhido todas as informações que podia das formigas — a não ser que estivesse disposto a ficar ali sentado durante o resto do dia — e estava prestes a voltar para o seu corpo, quando um esquilo pulou dentro da clareira. Sua aparição foi como uma rajada de luz, harmonizado que estava com os insetos. Atordoado, ele foi assolado pela torrente de sensações e sentimentos vindos do animal. O esquilo sentiu o cheiro da floresta com o seu focinho, sentiu a casca da árvore sob suas garras crispadas e o ar sibilar em consequência do balanço do rabo erguido e emplumado. Comparado a uma formiga, ele ardia de tanta energia e possuía uma inteligência inquestionável.
De repente, pulou para um outro galho e desapareceu de sua consciência.
A floresta parecia muito mais escura e tranquila do que antes quando Eragon abriu os olhos. Respirou bem fundo e olhou em volta, percebeu o valor, pela primeira vez, da quantidade de vida existente no mundo. Depois de desdobrar e estender suas pernas cheias de câimbras, andou até a roseira.
O Cavaleiro se agachou e examinou os galhos e os ramos. Com certeza havia pulgões e seus guardiões vermelhos vigilantes. E perto da base da planta estava o monte de folhas de pinheiro que marcavam a entrada do formigueiro. Era estranho vê-la com seus próprios olhos, nada nela denunciava as sutis e numerosas interações das quais ele agora estava a par.
Absorto em seus pensamentos, Eragon voltou para a clareira, imaginando o que ele poderia estar esmagando sob os seus pés a cada passo. Quando emergiu do abrigo das árvores, ficou assustado ao ver o quanto o sol havia descido. Eu devo ter ficado ali sentado por pelo menos umas três horas.
Ele encontrou Oromis na cabana, escrevendo com uma pena de ganso. O elfo terminou seu bilhete, secou o bico da pena, tampou sua tinta e perguntou:
— E o que você ouviu, Eragon?
Eragon estava ansioso para partilhar. Enquanto descrevia a sua experiência, ouviu sua voz se erguer com entusiasmo acerca dos detalhes da sociedade das formigas. Recontou tudo de que podia se lembrar, ate a observação mais minuciosa e inconsequente, orgulhoso das informações que havia recolhido.
Quando terminou, Oromis levantou uma sobrancelha.
— Isso é tudo?
— Eu... — O desânimo se apossou de Eragon enquanto ele percebia que, de algum modo, não havia entendido direito o exercício. — Sim, Ebrithil.
— E os outros organismos na terra e no ar? Você pode me dizer o que eles estavam fazendo enquanto as suas formigas conduziam seus rebanhos?
— Não, Ebrithil.
— Nisso reside o seu erro. Você deve ficar consciente de todas as coisas igualmente e não fechar os olhos a fim de se concentrar num assunto em particular. Essa é uma lição essencial e, até que a aprenda a fundo, você meditará na tora uma hora por dia.
— Como saberei que aprendi?
— Quando você puder olhar para um e saber de todos.
Oromis gesticulou para que Eragon se juntasse a ele na mesa e depois colocou uma folha de papel em branco à sua frente, junto com uma pena e um frasco de tinta.
— Até agora você não se comprometeu a utilizar seu conhecimento incompleto da língua antiga. Não que todos nós conheçamos todas as palavras da língua, mas você deve se familiarizar com a sua gramática e estrutura para que não morra por causa de um verbo colocado de maneira inadequada ou um erro semelhante. Não espero que você fale a nossa língua como um elfo... isso levaria a vida inteira... mas espero que alcance uma competência inconsciente. Quer dizer, você deve ser capaz de usá-la sem se esforçar.
“Além disso, você deve aprender a ler e escrever na língua antiga. Isso não só o ajudará a memorizar palavras, trata-se de uma habilidade essencial caso precise fazer um encanto especialmente longo e não esteja confiando em sua memória, caso encontre um encanto anotado e queira usá-lo. Cada raça desenvolveu seu sistema próprio de escrita na língua antiga. Os anões usam seu alfabeto rúnico, assim como os humanos. No entanto, são apenas técnicas provisórias, incapazes de expressar as verdadeiras sutilezas da língua assim como nosso Liduen Kvaedhí, o Roteiro Poético. O Liduen Kvaedhí foi desenvolvido para ser o mais elegante, bonito e preciso possível. Ele é composto de quarenta e dois caracteres rentes que representam vários sons. Esses caracteres podem ser combinados num número quase infinito de glifos que representam tanto palavras individuais quanto frases inteiras. O símbolo no seu anel é um desses glifos. O símbolo em Zar’roc é outro... Vamos começar: Quais são os sons básicos de vogais na língua antiga?”
— O quê?
A ignorância de Eragon acerca dos fundamentos da língua antiga ficou rapidamente aparente. Quando ele viajou com Brom, o velho contador de histórias se concentrara em fazer com que Eragon memorizasse listas de palavras das quais ele poderia precisar para sobreviver, assim como aperfeiçoar sua pronúncia. Nessas duas áreas ele se sobressaiu, mas não conseguia nem explicar a diferença entre um artigo definido e um indefinido. Se as lacunas em sua educação frustraram Oromis, o elfo não o demonstrou através de palavras e atitudes, mas trabalhou com persistência para preenchê-las.
Num certo ponto durante a lição, Eragon comentou:
— Nunca precisei de muitas palavras nos meus encantos, Brom disse que era um dom eu poder fazer tanto só com brisingr. O máximo que já disse na língua antiga foram os diálogos mentais com Arya e a bênção que dei a uma órfã em Farthen Dûr.
— Você abençoou uma criança na língua antiga? — perguntou Oromis, subitamente alerta. — Lembra-se de como verbalizou essa bênção?
— Sim.
— Recite-a para mim. — Eragon o fez, e um olhar de puro horror engolfou Oromis. Ele exclamou: — Você usou skölir Tem certeza? Não foi sköliro?
Eragon franziu a testa.
— Não, skölir. Por que não devia ter usado tal palavra? Skölir significa protegido, “...e que você seja protegido contra a desgraça.” Foi uma boa bênção.
— Isso não foi uma bênção, e sim uma maldição. — Oromis estava mais agitado do que em todas as vezes anteriores que Eragon o vira. — O sufixo o forma o pretérito perfeito de verbos que terminam com r e i. Sköliro significa protegido, mas skölir significa escudo. O que você disse foi: “Que a sorte e a felicidade o acompanhem e que você possa ser um escudo de desgraça.” Ao invés de proteger essa criança dos caprichos das venetas do destino, você a condenou a ser uma vítima dos outros, a absorver a desgraça e o sofrimento deles de modo que possam viver em paz.
Não, não! Não pode ser! Eragon rechaçou tal possibilidade.
— O efeito que um encanto possui não é apenas determinado pelo sentido da palavra, mas também pela sua intenção, e eu não tive a intenção de lhe causar mal...
— Você não pode negar a natureza inerente a uma palavra. Pode distorcê-la. Pode guiá-la. Mas não contradizer sua definição para indicar exatamente o sentido oposto. — Oromis apertou os dedos e olhou para a mesa, seus lábios estavam reduzidos a uma linha branca e reta. — Vou acreditar que você não quis causar mal, caso contrário me recusaria a continuar orientando-o. Se você foi honesto e seu coração foi puro, então essa bênção pode ter provocado menos mal do que temo, embora saiba que ela ainda virá a ser o núcleo de mais dor que qualquer um de nós poderia desejar.
Uma tremedeira violenta se apossou de Eragon enquanto ele percebia o que havia feito com a vida da criança.
— Isso não apagará o meu erro — disse ele — mas talvez o alivie, Saphira marcou a testa da menina, assim como ela marcou a palma da minha mão com a gedwëy ignasia.
Pela primeira vez em sua vida, Eragon testemunhou o emudecer de um elfo. Os olhos cinzentos de Oromis se arregalaram, sua boca se abriu, e ele apertou os braços da cadeira até a madeira gemer em protesto.
— Alguém que carrega o sinal dos Cavaleiros, contudo ainda não é um Cavaleiro — murmurou ele. — Em todos os meus anos de vida, jamais encontrei ninguém como vocês dois. Cada decisão que tomam parece ter um impacto que vai muito além do que qualquer um poderia antecipar. Vocês mudam o mundo com seus caprichos.
— Isso é bom ou mau?
— Nem uma coisa nem outra, simplesmente é. Onde está a criança agora?
Eragon levou um instante para se recompor com seus pensamentos.
— Com os Varden, em Farthen Dûr ou Surda. Você acha que a marca de Saphira irá ajudá-la?
— Não sei — disse Oromis. — Não há precedente a que eu possa recorrer em busca desse sábio esclarecimento.
— Deve haver maneiras de remover essa bênção, de anular um encanto. — Eragon estava quase implorando.
— Há sim. Mas para que elas tenham o máximo de eficácia, você é que deve aplicá-las, e não pode se isentar disso. Mesmo nas melhores circunstancias, resquícios da sua magia irão assombrar essa garota para todo o sempre. Tal é o poder da língua antiga. — Ele fez uma pausa. — Vejo que você entende a gravidade da situação, por isso vou dizer isso uma vez só: toda a responsabilidade pelo destino dessa garota é sua e, por causa do seu erro, e sua incumbência ajudá-la caso apareça a oportunidade. Pela lei dos Cavaleiros, ela é, com certeza, a sua vergonha, como se ela fosse sua filha bastarda, uma desgraça entre os humanos, se eu me lembro corretamente.
— Sim — sussurrou Eragon. — Entendo. Entendo que forcei um bebê indefeso a seguir um certo destino sem lhe dar escolha.
Será que alguém pode ser verdadeiramente bom se nunca teve a oportunidade de agir de forma errada? Fiz dela uma escrava. Ele também sabia que se tivesse sido aprisionado da mesma maneira, sem ter dado permissão, odiaria seu carcereiro com todas as fibras do seu ser.
— Então não iremos mais falar disso.
— Sim, Ebrithil.


Eragon ainda se sentia subjugado, até deprimido, ao final do dia. Mal olhou para cima quando ambos saíram da cabana para encontrar Saphira e Glaedr que retornavam. As árvores balançaram devido à fúria da ventania criada pelas asas dos dois dragões. Saphira parecia orgulhosa de si, ela curvou seu pescoço e se empinou na direção de Eragon, abrindo seus lábios com um sorriso lupino.
Uma pedra rachou sob o peso de Glaedr enquanto o velho dragão voltou um dos seus olhos gigantes — tão grande quanto uma travessa de jantar — para Eragon e perguntou: Quais são as regras número três para o caso de se avistar correntes de ar descendentes, e as regras número cinco para escapar delas?
Surpreso com tal devaneio, Eragon só conseguiu piscar em silêncio.
— Não sei.
Então Oromis confrontou Saphira e perguntou:
— Que seres as formigas criam e como fazem para extrair comida delas?
Eu não saberia, declarou Saphira. Ela parecia afrontada. Um brilho de raiva se apossou dos olhos de Oromis, que cruzou os braços, embora sua expressão permanecesse calma.
— Depois de tudo que vocês dois fizeram juntos, eu pensei que haviam aprendido a lição fundamental de um Shur’tgal: partilhar tudo com o seu parceiro. Você cortaria o seu braço direito? Você voaria só com uma asa? Nunca. Então por que ignorariam o vínculo que os liga? Ao fazê-lo, vocês rejeitam o seu maior dom e a vantagem que possuem sobre qualquer oponente. Vocês não só deviam falar mentalmente um com o outro, como misturar suas consciências até agir e pensar como um só. Espero que ambos saibam o que cada um de vocês aprendeu.
— E quanto a nossa privacidade? — alegou Eragon.
Privacidade?, disse Glaedr. Guardem seus pensamentos para si próprios Ao saírem daqui, se isso lhes agrada, mas enquanto formos os seus tutores, vocês não terão privacidade.
Eragon olhou para Saphira, sentindo-se pior do que antes. Ela evitou o seu olhar, depois bateu o pé e o encarou diretamente. O quê?
Eles têm razão. Temos sido negligentes.
Não é minha culpa.
Não disse que foi. No entanto, ela havia adivinhado a sua opinião. Ele se ressentia da atenção que ela dispensava para Glaedr, o que fez os dois se afastarem. Faremos melhor, não?
É claro!, vociferou Saphira.
Ela se negou a pedir desculpas a Oromis e Glaedr e deixou a tarefa para Eragon.
— Não os decepcionaremos novamente.
— Usem de cautela para não fazê-lo. Vocês serão testados amanhã acerca do que o outro aprendeu. — Oromis mostrou uma bugiganga redonda de madeira que estava na palma de sua mão. — Desde que vocês tenham o cuidado de girá-lo regularmente, este dispositivo os acordará na hora certa toda manhã. Voltem aqui assim que tiverem se banhado e alimentado.
A bugiganga era surpreendentemente pesada. Eragon percebeu quando a pegou. Do tamanho de uma noz, havia sido entalhada com espirais profundas em volta de um botão forjado à imagem de uma rosa musgosa.
Ele virou o botão experimentalmente e ouviu três estalidos enquanto uma engrenagem avançava.
— Obrigado — disse ele.

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