8 de maio de 2017

Capítulo 32

Vaquinha fofinha
Tão linda, quente e cruel!
Iiiih! Posso matá-la?

A PLACA DO IMPERADOR foi bem fácil de encontrar:

ADOTE UMA RODOVIA
OS PRÓXIMOS OITO QUILÔMETROS
SÃO PATROCINADOS POR:
TRIUNVIRATO S.A.

Cômodo e seus colegas podiam ser assassinos sedentos por poder buscando a dominação do mundo, mas pelo menos se preocupavam com a limpeza e a manutenção das estradas.
Uma cerca de arame farpado acompanhava a margem da via. Depois dela, uma paisagem sem nada de interessante: algumas árvores e arbustos em meio a uma campina ampla. À luz do amanhecer, o orvalho exalava vapor por cima da grama. Ao longe, atrás de um amontoado de arbustos, dois animais grandes pastavam. Eu não conseguia identificar suas formas exatas. Pareciam vacas. Eu duvidava que fossem. Não vi nenhum outro guardião, matável ou não, o que não me tranquilizou nem um pouco.
— Bem — falei para Meg. — Vamos?
Penduramos nossas coisas no ombro e saímos do carro.
Meg tirou o casaco e colocou em cima do arame farpado. Apesar das instruções da flecha para pular, nós só conseguimos dar um passo gigante e desajeitado. Eu abaixei o arame superior para Meg, mas ela não conseguiu fazer o mesmo por mim. Isso me deixou com uns rasgos constrangedores no traseiro da calça jeans.
Nós nos esgueiramos pelo campo na direção dos dois animais pastando. Eu estava encharcado de suor. O ar frio da manhã se condensava na minha pele, me fazendo sentir como se estivesse mergulhando em sopa fria, gaspacho de Apolo. (Humm, isso até que soou gostoso. Vou ter que patentear quando me tornar deus de novo.)
Nós nos agachamos atrás dos arbustos, a menos de dez metros dos animais. O amanhecer pintava o horizonte de vermelho.
Eu não sabia quanto tempo teríamos para entrar na caverna. Quando o espírito de Trofônio disse “ao amanhecer”, ele se referia ao crepúsculo náutico? Ao crepúsculo civil? Ao momento em que os faróis da carruagem do Sol ficavam visíveis pela primeira vez ou a quando a carruagem estava alta o bastante no céu para que fosse possível ler os adesivos no meu para-choque traseiro? Fosse qual fosse o caso, nós tínhamos que ir logo.
Meg ajeitou os óculos e chegou um pouquinho para o lado a fim de dar uma olhada, quando uma das criaturas levantou a cabeça por tempo suficiente para que eu vislumbrasse os chifres.
Sufoquei um grito. Segurei o pulso de Meg e a puxei de volta para trás dos arbustos. Normalmente, isso resultaria em uma mordida da parte dela, mas decidi arriscar. Estava um pouco cedo demais para eu ver minha jovem amiga ser morta.
— Não se mexa — sussurrei. — São yales.
Ela piscou um olho, depois o outro, como se meu aviso estivesse seguindo lentamente do lado esquerdo para o direito do cérebro.
— Yale? Isso não é uma universidade?
— É — murmurei. — E um dos símbolos da Universidade de Yale é o yale, mas isso não é importante. Esses monstros... — Engoli o medo, que tinha gosto de alumínio. — Os romanos os conheciam como centícoras. São absolutamente mortais. Também são atraídos por movimentos repentinos e barulhos altos. Portanto, shh.
Na verdade, mesmo quando deus, eu nunca tinha chegado tão perto de um yale. Eles eram animais ferozes e orgulhosos, extremamente territoriais e agressivos. Eu me lembrava de ter um vislumbre deles na minha visão da sala do trono de Cômodo, mas os animais eram tão raros que eu me convenci de que deviam ser outro tipo de monstro. Além do mais, não conseguia imaginar que Cômodo fosse louco o bastante para manter yales tão perto de humanos.
Eles pareciam mais iaques gigantes do que vacas. Pelo marrom desgrenhado com manchas amarelas cobria seus corpos, enquanto o da cabeça era todo amarelo. Crinas tipo de cavalo desciam pelo pescoço. Os rabos peludos eram tão compridos quanto o meu braço, e os grandes olhos de âmbar... Ah, caramba. Pelo jeito como estou descrevendo, eles quase parecem fofos. Mas garanto que não são.
As características mais proeminentes dos yales são os chifres, duas lanças brancas cintilantes de osso sulcado, absurdamente longos para o tamanho da cabeça da criatura. Eu já tinha visto aqueles chifres em ação. Muito tempo antes, durante a campanha oriental de Dioniso, o deus do vinho soltou um rebanho de yales em cima de um exército indiano de cinco mil homens. Eu me lembrava dos gritos daqueles guerreiros.
— O que fazemos? — sussurrou Meg. — Matamos eles? São meio fofos.
— Os guerreiros espartanos também são meio fofos até enfiarem um espeto em você. Mas não, nós não podemos matar yales.
— Tá, tudo bem. — Uma pausa longa, e o lado rebelde típico de Meg surgiu. — Por que não? O pelo é invulnerável às minhas espadas? Eu odeio quando isso acontece.
— Não, Meg, acho que não. O motivo de não podermos matar essas criaturas é que os yales estão na lista de monstros em risco de extinção.
— Você está inventando isso.
— Por que eu inventaria uma coisa dessas? — Eu tive que lembrar a mim mesmo de manter a voz baixa. — Ártemis monitora a situação com muito cuidado. Quando os monstros começam a sumir da memória coletiva dos mortais, eles se regeneram cada vez menos do Tártaro. Temos que deixá-los se reproduzirem e refazer a população!
Meg pareceu na dúvida.
— Aham.
— Ah, pare com isso. Você com certeza ouviu falar sobre o templo de Poseidon na Sicília. Teve que ser realocado só porque descobriram que o local era área de reprodução de uma hidra de barriga vermelha.
Meg me olhou com uma cara que sugeria que ela não tinha ouvido falar naquilo, apesar de ter aparecido nas manchetes alguns milhares de anos antes.
— De qualquer modo — insisti —, os yales são muito mais raros do que as hidras de barriga vermelha. Não sei onde Cômodo encontrou estes, mas, se nós os matássemos, todos os deuses nos amaldiçoariam, a começar pela minha irmã.
Meg olhou mais uma vez para os animais peludos pastando em paz na campina.
— Você já não está amaldiçoado pelo Rio Estige ou algo assim?
— Essa não é a questão.
— Então, o que vamos fazer?
O vento mudou de direção. De repente, eu me lembrei de outro detalhe sobre os yales. Eles tinham excelente faro.
O par levantou a cabeça simultaneamente e virou os lindos olhos âmbar na nossa direção. O yale macho berrou. Se uma buzina de nevoeiro pudesse gargarejar com enxaguatório bucal, o som seria aquele. Em seguida, os dois monstros atacaram.

* * *

Eu me lembrei de mais fatos interessantes sobre yales. (Se eu não estivesse prestes a morrer, seria capaz de narrar um documentário.) Para animais tão grandes, sua velocidade é impressionante.
E os chifres! Quando os yales atacam, os chifres tremem como antenas de inseto, ou, talvez mais precisamente, lanças de cavaleiros medievais, que adoravam colocar essas criaturas nos escudos heráldicos. Os chifres também giram, os sulcos fazendo um movimento de saca-rolhas só para perfurar melhor nossos corpos.
Eu queria poder filmar esses animais majestosos. Teria conseguido milhões de curtidas no DeusTube! Mas, se você já foi atacado por dois iaques lanosos e pintados com lanças duplas na cabeça, entende que operar uma câmera nessas circunstâncias é difícil.
Meg me empurrou e me tirou do caminho dos animais quando eles partiram para cima dos arbustos. O chifre esquerdo do macho roçou na minha panturrilha, cortando a calça jeans. (Estava sendo um péssimo dia para minha calça jeans.)
— Árvores! — gritou Meg.
Ela segurou minha mão e me puxou para os carvalhos mais próximos. Felizmente, os yales não eram tão rápidos em dar meia-volta quanto eram em atacar. Eles galoparam em um arco amplo enquanto Meg e eu nos escondemos.
— Eles não parecem mais tão fofos — observou Meg. — Tem certeza de que a gente não pode matar esses troços?
— Não pode!
Avaliei meu repertório limitado de habilidades. Eu cantava e tocava ukulele, mas todo mundo sabia que os yales não tinham um bom ouvido para música. Meu arco e flecha não serviriam de nada. Eu podia tentar apenas ferir os animais, mas, com a minha sorte, acabaria matando-os por acidente. Eu estava sem seringas de amônia, sem paredes de tijolo, sem elefantes e sem explosões de força divina. Restava só meu carisma natural, do qual eu achava que os yales não iam gostar.
Os animais se aproximaram devagar. Provavelmente, estavam confusos sobre como nos matar com aquelas árvores no caminho. Os yales eram agressivos, mas não caçadores. Se alguém entrasse no território deles, atacavam. Os invasores morriam ou fugiam. Problema resolvido. Eles não estavam acostumados a intrusos que brincavam de ficar fora do alcance.
Contornamos os carvalhos, tentando ficar atrás dos animais.
— Yales legais — cantei. — Yales excelentes.
Eles não pareceram impressionados.
Então eu vi algo quase trinta metros além dos animais: na grama alta havia um amontoado de pedras, cada uma do tamanho de uma máquina de lavar roupa. Nada muito importante, mas meus ouvidos apurados captaram o som de água corrente.
Apontei as pedras para Meg.
— A entrada da caverna deve ser ali.
Ela enrugou o nariz.
— Então corremos até lá e pulamos?
— Não! — gritei. — Deve haver dois riachos. Temos que parar e beber deles. E a caverna em si... Duvido que vá ser uma descida fácil. Precisamos de tempo para encontrar um jeito seguro de descer. Se pularmos, podemos morrer.
— Esses harvards não vão nos dar tempo para fazer isso.
— Yales.
— Tanto faz — disse ela, roubando minha fala. — Quanto você acha que aquelas coisas pesam?
— Muito.
Ela pareceu inserir este dado em uma calculadora mental.
— Tudo bem. Se prepare.
— Para o quê?
— Nada de spoilers.
— Odeio você.
Meg esticou as mãos. Ao redor dos yales, a grama começou a crescer numa velocidade impressionante, trançando-se em cordas verdes grossas que se enrolaram nas pernas dos animais. As criaturas se debateram e berraram como buzinas de nevoeiro engasgadas, mas a grama continuou aumentando, subindo pelos flancos, envolvendo os corpos enormes.
— Vá — disse Meg.
Corri.
Trinta metros nunca pareceram tão longe.
Na metade do caminho até as pedras, olhei para trás. Meg estava tropeçando, o rosto brilhando de suor. Ela devia estar usando toda sua força para manter os yales presos. Os animais puxavam e giravam os chifres, cortando a grama, puxando, com toda a força, para se livrar da relva.
Cheguei à pilha de pedras. Como tinha desconfiado, um dos rochedos tinha duas fendas, uma do lado da outra, cada uma dando origem a um riacho, como se Poseidon tivesse passado ali e rachado a pedra com seu tridente: quero água quente aqui e água fria aqui. Uma fonte gorgolejava um líquido de um branco diluído, da cor de leite desnatado. O outro era preto como tinta de lula. Eles corriam juntos em um caminho cheio de musgo antes de sumir no chão lamacento.
Depois dos riachos, uma fenda profunda ziguezagueava entre as pedras maiores, um talho na terra de três metros de largura que não deixava dúvidas da presença das cavernas abaixo. Na beirada do abismo, uma corda estava enrolada e presa a um pitom de ferro.
Meg cambaleou na minha direção.
— Anda logo. — Ela ofegou. — Pula.
Atrás dela, os yales se soltavam aos poucos das amarras de grama.
— Nós temos que beber — falei para ela. — Mnemosine, a Fonte da Memória, é preta. Lete, a Fonte do Esquecimento, é branca. Se bebermos das duas ao mesmo tempo, o efeito de uma neutraliza o da outra e prepara nossas mentes...
— Não me importo. — O rosto de Meg estava branco como as águas de Lete. — Vá você.
— Mas você tem que ir comigo! Foi o que o oráculo disse! Além do mais, você não vai estar em condições de se defender.
— Tudo bem — grunhiu ela. — Beba!
Afundei uma das mãos em concha na água de Mnemosine e a outra na de Lete. Bebi as duas simultaneamente. Não tinham gosto; senti só um frio intenso e entorpecente, do tipo que dói tanto que você só sente a dor bem depois.
Meu cérebro começou a rodar e girar como um chifre de yale. Meus pés pareciam balões de hélio.
Meg enfrentava dificuldades em amarrar a corda na minha cintura. Por algum motivo, achei isso hilário.
— Sua vez — falei, rindo. — Beba, beba!
Meg fez uma careta.
— E perder a cabeça? Acho que não.
— Mas que bobinha! Se você não se preparar para o oráculo...
Na campina, os yales se soltaram e arrancaram uma área ampla de grama do chão.
— Não dá tempo!
Meg pulou e me agarrou pela cintura. Como a boa amiga que era, ela me empurrou no abismo sombrio abaixo.

7 comentários:

  1. Vai dar merda vai dar merda, vai dar merda vai dar merda vai

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  2. Caramba ela entrou na carverna sem beber, simto cheiro de "Vai da merda" no ar

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  3. "Deus tube" = kami tube referência até a dbs😂😂

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  4. A MEG NÃO PODE MORRER!!!
    SE ELA FICAR LOUCA E NÃO RESISTIR EU VOU ATÉ OS EUA E FAÇO O TIO RICK FAZER UMA VOLTA INCRÍVEL DA MEG, DA ZOE E DA BIANCA E VAI SER I N C R I V E L!!!!😭😤

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  5. — Esses harvards não vão nos dar tempo para fazer isso.
    — Yales.
    — Tanto faz — disse ela, roubando minha fala. — Quanto você acha que aquelas coisas pesam?

    Ri muuito kkk

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Boa leitura :)