22 de maio de 2017

Capítulo 32 - A sujeira de Dras-Leona

Eles almoçaram em Fasaloft, um movimentado vilarejo perto do lago. Era um lugar encantador, posicionado em uma elevação que dava vista para o espelho-d’água. Enquanto comiam no salão da estalagem, Eragon prestou atenção no que as pessoas falavam e ficou satisfeito ao não ouvir nenhum boato sobre ele e Saphira.
A trilha, agora uma estrada, piorou constantemente nos dois dias anteriores. As rodas das carroças e os cascos ferrados contribuíram para destruir a pista, tornando muitos trechos intransponíveis. O aumento de viajantes forçou Saphira a se esconder de dia e depois alcançar Brom e Eragon à noite. Durante dias eles continuaram em direção ao sul acompanhando a vasta margem do lago Leona. Eragon começou a pensar se, um dia, conseguiriam contorná-lo e ficou muito satisfeito quando encontraram dois homens que disseram que Dras-Leona estava a apenas um dia tranquilo de cavalgada à frente deles.


Eragon acordou cedo na manhã seguinte. Seus dedos agitavam-se por causa da expectativa de, finalmente, encontrar os Ra’zac.
Vocês dois devem ter cuidado, disse Saphira. Os Ra’zac podem ter espiões procurando viajantes com as suas descrições.
Faremos o melhor possível para passarmos despercebidos, garantiu a ela.
Saphira abaixou a cabeça até que os olhos deles se encontraram:
Talvez, mas saiba que não poderei ir protegê-lo como fiz com os Urgals. Estarei longe demais para poder vir em seu socorro e também não sobreviveria por muito tempo, naquelas ruas estreitas, se fosse atender os seus pedidos. Siga os conselhos de Brom nesta caçada, ele tem bom senso.
Eu sei, disse em tom melancólico.
Você irá com Brom até os Varden? Assim que os Ra’zac estiverem mortos, ele vai querer levá-lo até eles. E como Galbatorix ficará furioso por causa da morte dos Ra’zac, talvez essa seja a coisa mais sensata a fazer.
Eragon esfregou os braços.
Não quero lutar contra o Império o tempo todo como os Varden fazem. A vida é muito mais do que uma guerra constante. Teremos tempo para pensar nisso assim que os Ra’zac forem eliminados.
Não tenha tanta certeza disso, alertou-o e, em seguida, foi se esconder até a noite.
A estrada estava repleta de fazendeiros que levavam seus produtos para o mercado em Dras-Leona. Brom e Eragon foram forçados a diminuir a velocidade de sua cavalgada, pois tinham de esperar as carroças que bloqueavam a passagem.
Embora tenham visto fumaça antes do meio-dia, ainda tiveram de percorrer mais uns cinco quilômetros até a cidade ficar claramente visível. Ao contrário de Teirm, que foi planejada, Dras-Leona era uma confusão embaralhada que se espalhava até perto do lago Leona. Construções caindo aos pedaços ladeavam ruas curvas. E o coração da cidade era cercado por uma parede amarelada, suja de lama.
A vários quilômetros ao leste, uma montanha de rocha nua arranhava o céu com torres e colunas, como um navio tenebroso. Suas laterais quase verticais erguiam-se do chão como um pedaço irregular do osso da terra.
Brom apontou.
— Aquilo é Helgrind. É o motivo pelo qual Dras-Leona foi originalmente construída. As pessoas são fascinadas por aquilo, embora seja uma coisa doentia e maligna. — Ele apontou para as construções dentro das muralhas da cidade. — Devemos ir ao centro primeiro.
Enquanto caminhavam lentamente na estrada para Dras-Leona, Eragon viu que a construção mais alta na cidade era uma catedral que se avultava atrás dos muros. Era muito parecida com Helgrind, especialmente quando seus arcos e torres elevadas ficavam iluminados.
— O que eles adoram? — perguntou Eragon.
Brom fez uma expressão de desgosto.
— As orações vão para Helgrind. Eles praticam uma religião cruel, pois bebem sangue humano e fazem oferendas de carne humana. Os sacerdotes quase sempre carecem de partes do corpo, pois acreditam que quanto mais carne e ossos abandonam, menos ficam presos ao mundo mortal. Passam grande parte do tempo debatendo sobre qual dos três picos de Helgrind é o mais alto, sobre qual deles é o mais importante e se o quarto, que é o menor, devia ser incluído na adoração deles.
— Isso é horrível — disse Eragon, tremendo.
— É — concordou Brom fechando o rosto. — Mas nunca diga isso a um dos seus seguidores. Logo, você perderá uma de suas mãos como “penitência”.
Nos enormes portões de Dras-Leona, guiavam seus cavalos no meio de uma multidão de pessoas. Dez soldados estavam posicionados em cada um dos lados dos portões, examinando o povo aleatoriamente.
Eragon e Brom entraram na cidade sem maiores incidentes.
As casas dentro das muralhas da cidade eram altas e finas para compensar a falta de espaço. As mais próximas da muralha ficavam encostadas nela. A maioria das casas ficava em cima das ruas estreitas e sinuosas, encobrindo o céu, tornando difícil dizer se era noite ou dia. Quase todas as construções eram feitas com a mesma madeira marrom-escura, o que escurecia a cidade ainda mais. O ar cheirava mal como um esgoto, as ruas eram imundas.
Um grupo de crianças maltrapilhas corria por entre as casas, brigando por causa de pedaços de pão. Mendigos deformados agachavam-se perto dos portões de entrada, pedindo dinheiro. Seus clamores por auxílio pareciam um coro dos condenados. Não tratamos nem os animais desse jeito, pensou Eragon, de olhos bem abertos, com raiva.
— Eu não ficarei aqui — disse ele, revoltando-se com aquela visão.
— A situação melhora mais para o interior da cidade — afirmou Brom. — Agora, precisamos encontrar uma estalagem e bolar uma estratégia. Dras-Leona pode ser um lugar perigoso até para os mais cautelosos. Não quero ficar nas ruas mais do que o necessário.
Avançaram para dentro de Dras-Leona, deixando a sórdida entrada para trás. Ao chegarem às partes mais ricas da cidade, Eragon pensou: Como essas pessoas podem viver em paz quando o sofrimento ao redor delas é tão óbvio?
Acharam acomodações na Globo Dourado, que era uma estalagem barata, mas não decrépita. Uma cama estreita estava espremida contra uma das paredes do cômodo, tendo ao seu lado uma mesa bamba e uma bacia. Eragon deu uma olhada no colchão e disse:
— Vou dormir no chão. Deve haver naquela coisa insetos bastante para me devorarem vivo.
— Bem, não quero privá-los de uma refeição — disse Brom, jogando suas bolsas no colchão. Eragon colocou as suas no chão e tirou seu arco.
— E agora? — perguntou ele.
— Vamos procurar comida e cerveja. Depois disso, dormir. Amanhã, podemos começar a procurar pelos Ra’zac. — Antes de saírem do quarto, Brom alertou: — Não importa o que aconteça, tenha cuidado para não soltar a língua. Teremos de partir imediatamente se formos descobertos.
A comida da estalagem era suportável, mas a cerveja era excelente. Quando voltaram cambaleantes para o quarto, a cabeça de Eragon zumbia prazerosamente.
Desenrolou seus cobertores no chão e jogou-se embaixo deles enquanto Brom despencava na cama. Pouco antes de dormir, Eragon fez contato com Saphira:
Ficaremos aqui durante alguns dias, mas não serão tantos quanto em Teirm. Quando descobrirmos onde os Ra’zac estão, você poderá nos ajudar a pegá-los. Falarei com você de manhã. Não estou pensando claramente agora.
Você andou bebendo, veio o pensamento acusador. Eragon ponderou sobre isso por um instante e teve de concordar que ela estava absolutamente correta. A reprovação era clara, mas tudo o que ela disse foi: Não sentirei inveja de você pela manhã.
Não, resmungou Eragon, mas Brom sentirá. Ele bebeu duas vezes mais do que eu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)