27 de maio de 2017

Capítulo 32 - Nos rochedos de Tel’naeír

Bum. Luminoso como um sol radiante, o dragão pairou perante Eragon e todos que estavam reunidos nos rochedos de Tel’naeír, golpeava-os com rajadas de suas poderosas asas. O corpo do dragão parecia estar pegando fogo em virtude da manhã cintilante que iluminava suas escamas douradas e cobria o solo e as árvores com raios de sol ofuscantes. Era bem maior do que Saphira, grande o bastante para ter centenas de anos de idade, e tinha, proporcionalmente, pescoço, membros e um rabo mais grossos.
Sobre seu dorso sentava-se o Cavaleiro, cujo manto era surpreendentemente branco em contraste com o brilho das escamas. Eragon caiu de joelhos, com o rosto voltado para cima. Não estou sozinho... O medo e o alívio percorreram seu interior. Não teria mais que assumir a responsabilidade pelos Varden e por Galbatorix sozinho. Aqui estava um dos guardiões do passado, renascido das profundezas do tempo para guiá-lo, um símbolo vivo e uma evidência das lendas com as quais ele havia sido criado. Aqui estava o seu mestre. Aqui estava uma lenda!
Quando o dragão se virou para aterrissar, Eragon ficou sem fôlego, a perna da criatura havia sido mutilada por uma terrível explosão, deixando um toco branco e inerte no lugar de um outrora poderoso membro. Lágrimas encheram seus olhos.
Um redemoinho de galhos e folhas secas envolveu o cume da montanha enquanto o dragão se assentava na relva de trevos-de-cheiro e dobrava suas asas. O Cavaleiro desceu cuidadosamente de sua montaria pela intacta perna direita do dragão e se aproximou de Eragon, com as mãos fechadas à sua frente. Ele era um elfo de cabelo prateado, um velho cuja idade estava além de qualquer medida, embora o único sinal dela fosse a expressão de grande compaixão e tristeza em seu rosto.
— Osthato Chetowä — disse Eragon. — O Sábio Pesaroso... Como você pediu, eu vim. — Com um susto, ele se lembrou do cerimonial e tocou os seus lábios. — Atra esterní ono thelduin.
O Cavaleiro sorriu. Segurou Eragon pelos ombros e o ergueu até que ficasse de pé, encarando-o com uma doçura que não permitiu a Eragon olhar para mais ninguém, preso à profundeza infinita dos olhos do elfo.
— Oromis é o meu nome, Eragon Matador de Espectros.
— Você sabia — sussurrou Islanzadí com uma expressão ferida que rapidamente se transformou num acesso de fúria. — Você sabia da existência de Eragon e ainda assim não me disse? Por que você me traiu, Shur’tugal?
Oromis libertou Eragon de seu olhar e se voltou para a rainha.
— Mantive o silêncio porque não tinha certeza se Eragon ou Arya sobreviveriam tempo suficiente para vir até aqui, não tinha a menor intenção de lhe dar uma esperança frágil que poderia ser frustrada a qualquer instante.
Islanzadí girou o corpo e sua capa de penas de cisne se ergueu como se fossem asas.
— Você não tinha o direito de esconder essa informação de mim! Eu poderia ter enviado guerreiros para proteger Arya, Eragon e Saphira em Farthen Dûr e escoltá-los até aqui com segurança.
Oromis sorriu com tristeza.
— Não escondi nada de você, Islanzadí, a não ser o que você já havia optado por não ver. Se tivesse rastreado o reino através de cristalomancia, como é o seu dever, teria identificado a fonte do caos que se espalhou pela Alagaësia e descobriria a verdade sobre Arya e Eragon. Que pudesse se esquecer dos Varden e dos anões na sua dor é compreensível, mas de Brom? Vinr Älfakyn? O último dos Amigos dos Elfos? Você andou cega para o mundo, Islanzadí, e relaxou no seu trono. Eu não poderia correr o risco de desviá-la ainda mais, a sujeitaria a outra perda.
A raiva de Islanzadí esgotou-se, deixando seu rosto pálido e seus ombros caídos.
— Sinto-me diminuída — sussurrou ela.
Uma nuvem de ar quente e úmido roçou Eragon enquanto o dragão dourado se curvava para examiná-lo com seus olhos brilhantes e faiscantes.
Já estamos bem apresentados, Eragon Matador de Espectros. Sou Glaedr.
Sua voz — inequivocamente masculina — ressoou e fez estremecer a mente de Eragon, como o rosnado de uma avalanche.
Tudo o que Eragon pôde fazer foi tocar em seus lábios e dizer:
— Sinto-me honrado.
Glaedr desviou sua atenção para Saphira. Ela permaneceu imóvel, com o pescoço levemente arqueado enquanto Glaedr cheirava o contorno de sua asa. Eragon viu os músculos da perna de Saphira se apertarem, alvoroçados com um tremor involuntário. Você cheira a humanos, disse Glaedr, e tudo que conhece da sua própria raça é o que os instintos a ensinaram, mas tem o coração de um verdadeiro dragão.
Durante essa troca silenciosa, Orik se apresentou a Oromis.
— Sinceramente, isto está além de qualquer coisa que eu poderia esperar. Você é uma surpresa agradável nestes tempos tenebrosos, Cavaleiro. — Ele bateu com o punho bem no coração. — Se não for muita presunção da minha parte, vou lhe pedir uma gentileza em nome do meu rei e do meu clã, como era costume entre nossa gente.
Oromis assentiu com um aceno de cabeça.
— Irei concedê-la se estiver dentro dos limites do meu poder.
— Então me diga: Por que você permaneceu escondido durante todos esses anos? Você era extremamente necessário, Argetlam.
— Ah — disse Oromis. — Existem muitas tristezas no mundo, e uma das maiores é não ter como ajudar aqueles que sofrem. Não podia correr o risco de deixar este santuário pois, se eu tivesse morrido antes que um dos ovos de Galbatorix rompessem, então não haveria ninguém para passar os nossos segredos para o novo Cavaleiro, e seria ainda mais difícil derrotar Galbatorix.
— Esse foi o seu motivo? — botou para fora Orik. — Essas são as palavras de um covarde! Os ovos poderiam nunca ter rompido.
Todos fizeram um silêncio mortal, exceto por um leve rosnado que emanava por entre os dentes de Glaedr.
— Se você não fosse nosso convidado — disse Islanzadí —, eu o teria agredido com as minhas próprias mãos por este insulto.
Oromis estendeu as mãos.
— Não estou me sentindo ofendido. É uma reação apropriada. Entenda, Orik, que eu e Glaedr não podemos lutar. Glaedr tem a sua incapacidade, e eu — tocou a lateral de sua cabeça — também estou mutilado. Os Renegados destruíram algo dentro de mim quando fui prisioneiro deles, e ao passo que ainda posso ensinar e aprender, não posso mais controlar a magia, exceto os menores encantos. O poder me escapa, não importa o quanto eu me esforce. Seria menos do que inútil numa batalha, uma fraqueza e uma desvantagem, alguém que poderia facilmente ser capturado e manipulado. Por isso me afastei da influência de Galbatorix para o bem de muitos, muito embora ansiasse por enfrentá-lo abertamente.
— O Imperfeito Que É Perfeito — murmurou Eragon.
— Perdoe-me — disse Orik. Ele parecia surpreso.
— Não tem importância. — Oromis colocou a mão no ombro de Eragon. — Islanzadí Dröttningu, com sua licença.
— Vá — disse ela num tom enfadonho — e acabe logo com isso.
Glaedr se agachou até bem perto do chão e Oromis subiu em sua perna com agilidade para depois se ajeitar na sela que estava em seu dorso.
— Venham, Eragon e Saphira. Temos muito para conversar. — O dragão dourado pulou do penhasco e começou a voar em círculos, subindo numa corrente de ar quente.
Eragon e Orik abraçaram-se solenemente.
— Traga honra para o seu clã — disse o anão.
Enquanto Eragon montava em Saphira, era como se estivesse prestes a embarcar numa longa viagem, devia dizer adeus para aqueles que ficariam para trás. Em vez disso, o jovem simplesmente olhou para Arya e sorriu, deixando o seu fascínio e sua alegria à mostra. Ela franziu um pouco a testa, parecendo perturbada, mas logo ele sumiu, varrendo o céu por conta da impetuosidade do voo de Saphira.
Juntos, os dois dragões seguiram por alguns quilômetros até o despenhadeiro branco mais ao norte, acompanhados apenas pelo som de suas asas. Saphira voou ao lado de Glaedr. Seu entusiasmo fervilhava dentro da mente de Eragon, intensificando suas próprias emoções. Pousaram em outra clareira, situada na beira do despenhadeiro, exatamente antes da muralha de pedras expostas que já estava em processo de decomposição. Uma trilha à vista ia do precipício até a porta de uma cabana baixa erguida entre os troncos de quatro árvores, um dos quais se estendia sobre um riacho proveniente das profundezas sombrias da floresta. Glaedr não cabia em seu interior, a cabana podia facilmente ficar acomodada entre suas costelas.
— Bem-vindos à minha casa — disse Oromis enquanto desmontava com uma facilidade incomum. — Eu moro aqui, na beira dos rochedos de Tel’naeír, porque me dá a oportunidade de pensar e estudar em paz. Minha mente funciona melhor quando estou longe de Ellesméra e das distrações causadas pelas outras pessoas.
Ele sumiu dentro da cabana e depois voltou com dois banquinhos e jarros cheios de uma água limpa e fresca para si próprio e para Eragon. O rapaz tomou um gole e ficou apreciando a vasta paisagem de Du Weldenvarden, numa tentativa de ocultar a admiração e o nervosismo, enquanto esperava o elfo falar. Estou na presença de outro Cavaleiro!
Atrás dele, Saphira se agachava com os olhos fixos em Glaedr, amassando lentamente a lama entre as suas garras.
O hiato em sua conversa começou a se alongar cada vez mais. Dez minutos se passaram... meia hora... e então uma hora. Chegou ao ponto em que Eragon começou a medir o tempo que transcorria observando o movimento do sol. A princípio, sua mente fervilhava de perguntas e pensamentos, mas estes aos poucos foram diminuindo até uma calma aceitação. Bastava, para ele, ficar observando o dia. Só então Oromis se pronunciou:
— Você aprendeu bem o valor da paciência. Isso é bom.
Eragon levou um instante para conseguir se expressar.
— Você não pode se aproximar silenciosamente de um veado se estiver com pressa.
Oromis baixou seu jarro.
— É verdade. Deixe-me ver suas mãos. Acho que elas dizem muito sobre a pessoa. — Eragon retirou suas luvas e permitiu que o elfo apertasse o seu pulso com dedos magros e secos. Ele examinou os calos do jovem e prosseguiu: — Corrija-me se eu estiver errado. Você manejou uma foice e um arado durante mais tempo do que brandiu uma espada, embora esteja acostumado com um arco.
— Sim.
— E você pouco escreveu e desenhou, talvez nunca tenha se dedicado a isso.
— Brom ensinou-me as letras em Teirm.
— Hum. Afora sua escolha de ferramentas, me parece óbvio que você tende a ser negligente e a descuidar da sua própria segurança.
— O que o faz dizer isso, Oromis-elda? — perguntou Eragon, usando a honraria mais respeitosa e formal da qual ele podia se lembrar.
— Elda não — corrigiu Oromis. — Você pode me chamar de mestre nesta língua e ebrithil na língua antiga, nada mais. E estenderá a mesma cortesia para Glaedr. Somos os seus professores, vocês são os nossos alunos, e agirão com o respeito e a deferência apropriados. — Oromis falou educadamente, mas com a autoridade de alguém que espera a mais absoluta obediência.
— Sim, mestre Oromis.
— Você também, Saphira.
Eragon podia sentir como era difícil para Saphira deixar o orgulho e lado para dizer: Sim, mestre.
Oromis acenou positivamente.
— Agora. Qualquer um que tenha tal coleção de cicatrizes foi inacreditavelmente azarado, lutou como um louco enfurecido ou procura o perigo deliberadamente. Você luta como um louco enfurecido?
— Não.
— Nem me parece azarado, muito pelo contrário. Com isso, só resta uma explicação. A não ser que você pense de forma diferente?
Eragon lembrou de suas experiências em casa e na estrada, numa tentativa de categorizar seu comportamento.
— Diria, mais exatamente, que, uma vez que me dedico a um certo projeto ou objetivo, procuro levá-lo até o fim, não importa o custo... especialmente se alguém que eu amo estiver em perigo. — Seu olhar se moveu em direção a Saphira.
— E você se dedica a projetos desafiadores?
— Gosto de ser desafiado.
— Então você sente a necessidade de enfrentar adversidades para testar as suas habilidades.
— Gosto de superar desafios, mas já encarei muito sofrimento para saber que é uma tolice tornar as coisas mais difíceis do que elas são. E tudo que eu posso fazer para sobreviver nessas circunstâncias.
— Contudo você optou por seguir os Ra’zac quando teria sido mais fácil permanecer no vale Palancar. E veio para cá.
— Era a coisa certa a fazer... Mestre.
Durante alguns minutos, ninguém falou. Eragon tentou adivinhar o que o elfo estava pensando, mas não conseguiu retirar nenhuma informação do seu semblante que mais parecia uma máscara. Finalmente, Oromis se moveu.
— Você, por acaso, ganhou alguma espécie de berloque em Tarnag, Eragon? Uma joia, armadura ou até mesmo uma moeda?
— Sim. — Eragon enfiou a mão dentro de sua túnica e puxou o colar com o pequeno martelo de prata. — Gannel fez isto para mim obedecendo ordens de Hrothgar, para impedir que qualquer um veja a mim ou Saphira por cristalomancia. Eles temiam que Galbatorix pudesse descobrir como estou... Como você sabe?
— Porque — disse Oromis — eu não podia mais senti-lo.
— Alguém tentou me observar por Sílthrim há cerca de uma semana. Foi você?
Oromis balançou a cabeça de modo afirmativo.
— Depois que observei você com Arya pela primeira vez, não tive necessidade de usar tais métodos grosseiros para encontrá-lo. Eu podia tocar a sua mente com a minha, como fiz quando você estava ferido em Farthen Dûr. — Levantando o amuleto, murmurou algumas frases na língua antiga, e depois o largou. — Ele não contém nenhum outro encanto que eu consiga detectar. Fique com ele o tempo todo, é um presente valioso. — Ele pressionou as pontas dos seus longos dedos umas contra as outras, cujas unhas eram tão arredondadas e brilhantes quanto escamas de peixe, e olhou entre os arcos que eles formavam na direção do horizonte branco.— Por que você está aqui, Eragon?
— Para completar o meu treinamento.
— E o que você acha que esse processo requer?
Eragon mudou de posição inquietamente.
— Aprender mais sobre magia e luta. Brom não teve como terminar de me ensinar tudo o que sabia.
— Magia, a arte do manejo da espada, e outras habilidades são inúteis a não ser que você saiba como e quando aplicá-las. Isso eu lhe ensinarei. No entanto, como Galbatorix já demonstrou, o poder sem direção moral é a força mais perigosa do mundo. Minha tarefa principal, então, é ajudar vocês, Eragon e Saphira, a entender que princípios os guiam, para que não façam as escolhas certas pelas razões erradas. Vocês têm de aprender mais sobre si próprios, quem são, e o que são capazes de fazer. É por isso que estão aqui.
Quando começamos?, perguntou Saphira.
Oromis começava a responder quando se enrijeceu e deixou cair seu jarro. Seu rosto ficou vermelho e os dedos se apertaram até virarem garras que se prendiam ao seu manto como se fossem carrapichos. A mudança foi assustadora e instantânea. Antes que Eragon pudesse fazer algo mais do que hesitar, o elfo havia relaxado novamente, embora seu corpo inteiro agora acusasse um certo cansaço.
Preocupado, Eragon ousou perguntar.
— Você está bem?
Um traço de deleite levantou o canto da boca de Oromis.
— Menos do que eu poderia desejar. Nós elfos nos imaginamos imortais, mas nem mesmo nós podemos escapar de certas doenças da carne, que estão além do nosso conhecimento de magia, o que não nos permite fazer algo mais do que protelá-las. Não se preocupe... não é contagioso, mas tampouco eu consigo me livrar dela. — Ele suspirou. — Passei décadas me ligando a centenas de encantos fracos e pequenos que, dispostos um sobre o outro, duplicam o efeito dos encantos que agora estão além do meu alcance. Ligo-me a eles para que possa viver tempo o suficiente para testemunhar o nascimento dos últimos dragões e fomentar a ressurreição dos Cavaleiros a partir da ruína dos nossos erros.
— Quanto tempo resta até...
Oromis levantou a sobrancelha.
— Quanto tempo resta até eu morrer? Temos tempo, mas é pequeno e precioso para você e para mim, especialmente se os Varden decidirem cobrar sua ajuda. Como resultado, respondendo à sua pergunta, Saphira, começaremos a sua instrução imediatamente, e treinaremos mais rápido do que qualquer Cavaleiro já fez ou jamais fará, pois tenho que condensar décadas de conhecimento em meses e semanas.
— Você sabe — disse Eragon, lutando contra o embaraço e a vergonha que faziam suas bochechas arderem — da minha enfermidade. — Ele abafou a última palavra, odiando a sua sonoridade. — Estou tão estropiado quanto você.
Um olhar de compaixão suavizava a expressão de Oromis, embora sua voz fosse firme.
— Eragon, você só será um aleijado caso se considere assim. Entendo como se sente, mas você deve permanecer otimista, pois uma perspectiva negativa é um obstáculo maior do que qualquer ferimento físico. Falo por experiência própria. A autopiedade não servirá a você nem a Saphira. Eu e os outros usuários de magia estudaremos a sua enfermidade para ver se podemos desenvolver uma maneira de aliviá-la mas, enquanto isso, seu treinamento prosseguirá como se não houvesse nada diferente.
As entranhas de Eragon se contraíram e ele ficou sentindo o gosto da bílis enquanto pensava nas implicações. Com certeza Oromis não me faria passar por todo aquele sofrimento novamente!
— A dor é insuportável — disse ele furiosamente. — Irá me matar. Eu...
— Não, Eragon. Ela não irá matá-lo. Isso eu sei sobre a sua maldição. No entanto, ambos temos os nossos deveres, você para com os Varden e eu para com você. Não podemos nos esquivar deles por conta de uma mera dor. Há muita coisa em risco e mal podemos nos permitir falhar. — Tudo que Eragon pôde fazer foi balançar sua cabeça enquanto o pânico ameaçava subjugá-lo. Ele tentou renegar as palavras de Oromis, mas era impossível escapar à verdade que elas continham. — Eragon. Você deve aceitar esse fardo de boa vontade. Você não tem ninguém ou nada por que esteja disposto a se sacrificar?
Seu primeiro pensamento foi para Saphira, mas ele não estava fazendo isso por ela. Nem para Nasuada. Nem mesmo para Arya. O que o impulsionava, então? Quando ele prometeu lealdade para Nasuada, o fez pelo bem de Roran e das outras pessoas que estavam presas nos domínios do Império. Mas será que elas significavam tanto para ele a ponto de fazer com que ele sofresse tanta angústia? Sim, concluiu ele. Sim, é claro, porque sou o único que tem uma chance de ajudá-los, e porque não ficarei livre da sombra de Galbatorix até que eles também estejam. E porque esse é o meu único objetivo na vida. O que mais eu faria? Ele estremeceu enquanto pronunciava a frase assustadora.
— Eu aceito em nome daqueles pelos quais luto: o povo da Alagaësia, de todas as raças, que sofreu com a brutalidade de Galbatorix. Não importa a dor, juro que estudarei com mais afinco do que qualquer outro aluno que você já teve.
Oromis assentiu solenemente com a cabeça.
— Não peço nada mais. — Ele olhou para Glaedr por um instante e prosseguiu. — Levante-se e tire a sua túnica. Deixe-me ver do que você é feito.
Espere, disse Saphira. Brom estava a par de sua existência aqui, mestre?
Eragon fez uma pausa, chocado com a possibilidade.
— É claro — disse Oromis. — Ele foi meu pupilo quando era menino em Ilirea. Fico feliz por vocês terem lhe propiciado um enterro decente, pois ele teve uma vida dura e poucos chegaram a lhe demonstrar alguma consideração. Espero que tenha encontrado a paz antes de adentrar o vazio.
Eragon franziu a testa lentamente.
— Você também conhecia Morzan?
— Ele foi meu aprendiz antes de Brom.
— E Galbatorix?
— Fui um dos Anciãos que lhe negou outro dragão depois que o primeiro foi morto, mas não, não tive o azar de ser seu professor. Ele se certificou, pessoalmente, de caçar e assassinar cada um dos seus mentores.
Eragon queria inquirir mais, entretanto o melhor seria esperar, por isso se levantou e desatou o nó que amarrava o topo de sua túnica.
Parece, disse para Saphira, que jamais saberemos todos os segredos de Brom. Ele estremeceu enquanto tirava a túnica no ar frio e depois endireitou os ombros e levantou o peito.
Oromis o circundou e parou com uma exclamação de espanto assim que viu a cicatriz que atravessava as costas de Eragon.
— Arya e nenhum dos curandeiros dos Varden se ofereceram para remover esse vergão? Você não devia carregá-lo.
— Arya se ofereceu, mas... — Eragon fez uma pausa, incapaz de articular seus sentimentos. Finalmente, ele disse. — Ele agora é uma parte de mim, assim como a cicatriz de Murtagh é uma parte dele.
— A cicatriz de Murtagh?
— Murtagh carregava uma marca semelhante. Ela lhe foi infligida por seu pai, Morzan, ao jogar Zar’roc em cima dele quando era apenas uma criança.
Oromis o encarou seriamente durante um longo tempo antes de acenar com a cabeça e seguir em sua direção.
— Você tem uma boa quantidade de músculos e não é tão torto quanto a maior parte dos arqueiros. Você é ambidestro?
— De fato não, mas tive de aprender como lutar com a minha mão esquerda depois que quebrei meu pulso em Teirm.
— Bom. Isso fará com que economizemos algum tempo. Segure as mãos atrás das costas e levante-as o mais alto possível. — Eragon fez o que lhe foi pedido, mas a posição provocou dor em seus ombros e ele mal pôde fazer suas mãos se tocarem. — Agora incline-se para frente enquanto mantém seus joelhos retos. Tente tocar o chão. — Isso foi ainda mais difícil para Eragon, acabou curvado como um corcunda, com os braços dependurados inutilmente ao lado da cabeça, enquanto sentia pontadas nos tendões da perna que queimavam. Seus dedos ainda estavam a uns vinte ou vinte e cinco centímetros do chão. — Pelo menos você consegue se alongar sem sentir dor. Eu não esperava tanto. Você consegue fazer uma série de exercícios de flexibilidade sem se cansar muito. Sim.
Depois, Oromis se dirigiu a Saphira:
— Quero checar as suas habilidades também, dragão. — Ele lhe passou uma série de poses complexas que contorceram cada centímetro de sua sinuosa extensão de uma maneira fantástica, culminando numa série de acrobacias aéreas de um tipo que Eragon jamais vira antes. Apenas algumas coisas iam além da sua capacidade, como executar um loop para trás ao mesmo tempo em que serpenteava pelo ar.
Quando ela aterrissou, foi Glaedr que falou: Temo que tenhamos mimado os Cavaleiros. Se nossos iguais recém-nascidos fossem forçados a tomar conta de si próprios em meio à natureza — como aconteceu com você e com os nossos ancestrais — então talvez eles possuiriam a sua habilidade.
— Não — disse Oromis —, mesmo se Saphira tivesse sido criada em Vroengard usando os métodos estabelecidos, ainda assim voaria extraordinariamente. Raras vezes vi um dragão que se adaptasse de forma tão natural ao céu. — Saphira piscou, depois arrastou as asas e se mostrou ocupada limpando uma de suas garras de um jeito que deixava a sua cabeça condida. — Você tem o que melhorar, como todos sempre têm, mas pouco, muito pouco. — O elfo se sentou novamente, com as costas perfeitamente retas.
Durante as cinco horas seguintes, pelos cálculos de Eragon, Oromis sondou cada aspecto de seu saber e do de Saphira, de botânica até marcenaria, de metalurgia até medicina, embora tivesse se concentrado principalmente no conhecimento deles acerca da história e da linguagem antiga. O interrogatório deixou Eragon reconfortado, pois o lembrava de como Brom costumava sabatiná-lo durante suas longas viagens, lembrou das viagens para Teirm e Dras-Leona. Quando pararam para o almoço, Oromis convidou Eragon a entrar em sua casa, deixaram os dois dragões sozinhos. O quartel-general do elfo não tinha nada, exceto aqueles poucos bens essenciais necessários à alimentação, higiene e à busca de uma vida intelectual. Duas paredes inteiras estavam repletas de cubículos que continham centenas de pergaminhos. Ao lado da mesa, havia uma bainha de ouro pendurada — da mesma cor das escamas de Glaedr — e uma espada combinando, cuja lâmina era de um bronze iridescente.
Na almofada interna da porta, localizada bem no centro da madeira, havia um painel plano com um palmo de altura e dois de largura. Nele estava pintada uma cidade bela e muito alta edificada sobre uma escarpa e capturada pela luz rosada de uma lua cheia ascendente. A face lunar repleta de buracos era dividida em duas partes pela linha do horizonte e parecia estar acomodada no chão como um domo maculado tão grande quanto uma montanha. O quadro era tão claro e perfeitamente detalhado, que Eragon a princípio o tomou como uma janela mágica, foi só quando notou ser a imagem de fato estática que pôde aceitá-la como uma peça de arte.
— Onde é isso? — perguntou.
As feições oblíquas de Oromis se contraíram por um instante.
— Você faria bem se memorizasse esse cenário, Eragon, pois lá está o centro da sua desgraça. Você vê o que foi outrora a nossa cidade de Ilirea. Ela foi incendiada e abandonada durante a Du Fyrn Skulblaka e se tornou a capital do reino Broddring e agora é a cidade tenebrosa de Uru’baen. Eu fiz essa fairth na noite em que eu e os outros fomos forçados a abandonar nossos lares antes de Galbatorix chegar.
— Você pintou essa... fairth?
— Não foi bem assim. Uma fairth é uma imagem fixada por magia sobre uma lousa plana quadrada e polida, que é preparada antes com várias camadas de pigmentos. O cenário que está gravado naquela porta é exatamente como Ilirea se apresentava a mim no momento em que fiz meu encanto.
— E — perguntou Eragon, incapaz de interromper o turbilhão de perguntas — o que era o reino Broddring?
Os olhos de Oromis se arregalaram com espanto.
— Você não sabe? — Eragon balançou negativamente a cabeça. — Como pode não saber? Considerando as suas circunstâncias e o medo que Galbatorix inflige à sua gente, posso entender que você tenha sido criado na escuridão, ignorando a sua herança. Mas não posso crer que Brom tenha relaxado tanto com sua instrução a ponto de negligenciar assuntos que até mesmo os elfos e anões mais novos dominam. Os filhos dos Varden poderiam me falar muito mais sobre o passado.
— Brom estava mais preocupado em me manter vivo do que em falar sobre pessoas mortas — retrucou Eragon.
Tal afirmação deixou Oromis em silêncio. Até que, finalmente, ele disse:
— Perdoe-me. Eu não tinha a intenção de contestar a decisão de Brom, o problema é que sou impaciente além de qualquer medida, temos tão pouco tempo, e cada coisa nova que você tem de aprender reduz aquilo que estava programado para você aperfeiçoar durante a sua estada aqui. — Ele abriu uma série de armários escondidos no interior da parede curva e retirou pãezinhos e travessas com frutas, os quais enfileirou sobre a mesa. Parou por um momento sobre a comida, com os olhos fechados, antes de começar a comer. — O reino Broddring era a terra dos humanos antes da queda dos Cavaleiros. Depois que Galbatorix matou Vrael, voou sobre Ilirea com os Renegados e depôs o rei Angrenost, tomou o seu trono e seus títulos para si próprio. O reino Broddring, então, converteu-se no núcleo das conquistas de Galbatorix. Ele anexou Vroengard e outras terras ao leste e ao sul aos seus domínios, criando o Império com o qual você está familiarizado. Tecnicamente, o reino Broddring ainda existe, embora, a essa altura, duvido que seja muito mais do que um nome em decretos reais.
Temendo que fosse importunar o elfo com mais indagações, Eragon se concentrou em sua comida. No entanto, seu rosto deve tê-lo traído, pois Oromis disse:
— Você me lembra Brom quando o escolhi para ser o meu aprendiz. Ele era mais jovem do que você, tinha apenas dez anos, mas tinha uma curiosidade tão grande quanto a sua. Duvido muito ter ouvido dele, ao longo de um ano, algo além de como, o quê, quando e, acima de tudo, por quê. Não se sinta acanhado para perguntar aquilo que se aloja dentro do seu coração.
— Quero saber tanta coisa — sussurrou Eragon. — Quem é você? De onde você vem?... De onde veio Brom? Como era Morzan? Como, o quê, quando, por quê? E quero saber tudo sobre Vroengard e os Cavaleiros. Talvez então o meu próprio caminho fique mais claro.
O silêncio caiu sobre ambos, enquanto Oromis abria meticulosamente uma amora-preta, arrancando um gomo de cada vez.
Quando o último glóbulo desapareceu no meio dos seus lábios cor de vinho, ele esfregou as mãos — “polindo as palmas”, como Garrow costumava dizer — e afirmou:
— Guarde então algumas informações sobre mim: nasci há alguns séculos em nossa cidade de Luthivíra, situada na floresta perto do lago Tüdosten. Aos vinte anos de idade, como todas as crianças elfas, fui apresentado aos ovos que os dragões haviam dado para os Cavaleiros, e Glaedr saiu da casca para mim. Fomos treinados como Cavaleiros e, durante quase um século, viajamos por todo o mundo, fazendo a vontade de Vrael. Finalmente, chegou o dia que julgamos apropriado para nos aposentarmos e passarmos nossa experiência para a geração seguinte, por isso assumimos uma posição em Ilirea e começamos a treinar novos Cavaleiros, um ou dois de cada vez, até Galbatorix nos destruir.
— E Brom?
— Brom veio de uma família de iluminadores em Kuasta. Sua mãe chamava-se Nelda e seu pai, Holcomb. Kuasta está tão isolada do resto da Alagaësia pela Espinha que se tornou um lugar peculiar, cheio de costumes e superstições estranhos. Quando ele ainda era novo em Ilirea, Brom costumava bater em portas três vezes antes de entrar ou deixar um recinto. Os estudantes humanos caçoaram dele até que resolveu abandonar a pratica junto com alguns dos seus outros hábitos.
“Morzan foi o meu maior fracasso. Brom o idolatrava. Nunca saiu do seu lado, nunca o contradisse e jamais acreditou que pudesse superar Morzan numa aventura qualquer. Morzan, tenho vergonha de admitir, pois estava dentro do meu alcance detê-lo, estava a par disso e tirava vantagem da devoção de Brom de centenas de maneiras diferentes. Foi ficando tão orgulhoso e cruel que pensei em separá-lo de Brom. Mas antes que eu pudesse fazê-lo, Morzan ajudou Galbatorix a roubar um dragão Shruikan, recém-nascido, para substituir o que Galbatorix havia perdido ajudou a matar o Cavaleiro daquele dragão no processo. Morzan e Galbatorix, então, fugiram juntos, selando o nosso destino. Você não pode começar a perceber o efeito que a traição de Morzan provocou em Brom sem antes entender a profundidade da afeição que ele tinha pelo colega.
“E quando Galbatorix finalmente se revelou e os Renegados mataram o dragão de Brom, este projetou toda a sua raiva e dor naquele que julgava ser o responsável pela destruição do seu mundo: Morzan.”
Oromis fez uma pausa, com uma expressão solene no rosto.
— Você sabe por que o fim do dragão, ou do Cavaleiro, normalmente causa a morte do parceiro sobrevivente?
— Posso imaginar — respondeu Eragon. Ele tremeu ao pensar.
— A dor já é um choque imenso, embora nem sempre seja suficiente, mas o que realmente causa danos é sentir que parte da sua mente e da sua identidade morrem. Quando isso aconteceu com Brom, temi por um tempo que ele enlouquecesse. Depois que fui capturado e escapei, trouxe-o para Ellesméra por segurança, mas ele se recusou a ficar, e resolveu marchar com o nosso exército para a planície de Ilirea, onde o rei Evandar foi assassinado.
“A confusão àquela altura era indescritível. Galbatorix estava ocupado consolidando o seu poder, os anões estavam recolhidos, o sudoeste era uma massa em guerra enquanto os humanos se rebelavam e lutavam para criar Surda, e havíamos acabado de perder o nosso rei. Movido pelo desejo de vingança, Brom tentou se aproveitar do estado de desordem. Juntou muitos daqueles que haviam sido exilados, libertou outros que haviam sido aprisionados, e junto com esses formou os Varden. Ele os liderou durante alguns anos e depois entregou a posição a uma outra pessoa para prosseguir no seu principal intento, que era provocar a ruína de Morzan. Brom matou, pessoalmente, três dos Renegados, incluindo Morzan, e foi responsável indireto pelas mortes de outros cinco. Raramente sentiu-se feliz durante sua vida, mas era um bom Cavaleiro e um bom homem, e sinto-me honrado por tê-lo conhecido.”
— Nunca ouvi seu nome associado às mortes dos Renegados — contestou Eragon.
— Galbatorix não quis divulgar o fato de que ainda existia alguém capaz de matar os seus servos. Grande parte do seu poder reside na invulnerabilidade aparente.
Mais uma vez, Eragon foi forçado a rever seu conceito sobre Brom, do contador de histórias, que Eragon supôs que ele fosse a princípio, ao cavaleiro e mágico com o qual havia viajado, ao Cavaleiro que finalmente lhe foi revelado ser e, agora, ao ativista, líder revolucionário e assassino. Era difícil conciliar todos esses papéis. Sinto-me como se mal o conhecesse. Gostaria que tivéssemos a chance de conversar sobre tudo isso pelo menos uma vez.
— Ele era um bom homem — concordou Eragon.
O jovem Cavaleiro olhou para fora através de uma das janelas redondas de frente para a beira do penhasco que permitiam ao calor da tarde se espalhar pela sala. Ele observou Saphira, notando como ela agia com Glaedr, parecendo ao mesmo tempo tímida e reservada. Num dado instante, ela serpeava para examinar alguns recantos na clareira, e no seguinte arrastava as asas e avançava sutilmente em direção ao dragão maior, balançando a cabeça de um lado para o outro, com a ponta da cauda se contraindo como se estivesse prestes a se lançar sobre um veado. Para Eragon, lembrava uma gatinha tentando seduzir um macho mais velho para brincar, só que Glaedr permanecia impassível a todas as suas maquinações. Saphira, chamou ele. Ela respondeu com um palpitar distraído dos seus pensamentos, quase não reconhecendo-o. Saphira, responda-me.
O quê?
Sei que você está excitada, mas não faça papel de boba.
Você fez papel de bobo diversas vezes, retrucou ela.
Sua resposta foi tão inesperada que o deixou atordoado. Era o tipo de observação casualmente cruel que os humanos normalmente faziam, mas que ele jamais esperava que fosse um dia ouvir dela. Finalmente conseguiu se pronunciar. Assim não nos ajudamos. Ela resmungou e fechou sua mente, embora ele ainda conseguisse sentir um resquício das emoções da parceira conectando-os.
Eragon voltou a si para encontrar os olhos cinzentos de Oromis voltados intensamente em sua direção. O olhar do elfo era tão perceptivo que Eragon estava certo de que seu tutor entendeu o que havia acontecido.
Eragon forçou um sorriso e acenou em direção a Saphira.
— Muito embora estejamos ligados, jamais consigo prever o que ela fará. Quanto mais aprendo sobre ela, mais percebo como somos diferentes.
Então Oromis fez a sua primeira afirmação realmente sábia, segundo a avaliação de Eragon.
— Aqueles que nós amamos são normalmente os seres mais estranhos para nós. — O elfo hesitou. — Ela é muito jovem, assim como você. Eu e Glaedr levamos décadas até conhecermos totalmente um ao outro. O vínculo de um Cavaleiro com o seu dragão é igual a qualquer outro relacionamento... ou seja, um trabalho em desenvolvimento. Você confia nela?
— Com a minha vida.
— E ela confia em você?
— Sim.
— Então seja condescendente. Você foi criado como órfão. Ela foi criada acreditando que era o último espécime vivo de toda a sua raça. E acabou de descobrir que estava errada. Não fique surpreso se levar mais alguns meses para ela parar de importunar Glaedr e voltar novamente sua atenção para você.
Eragon ficou segurando um mirtilo entre o polegar e o indicador, seu apetite havia desaparecido.
— Por que os elfos não comem carne?
— Por que deveríamos? — Oromis segurou um morango e ficou girando-o de modo que a luz refletisse sua casca cheia de covinhas e iluminasse os pelos finíssimos. — Tudo de que precisamos e desejamos nós extraímos das plantas, incluindo a nossa alimentação. Seria uma barbaridade fazer os animais sofrerem para que pudéssemos ter pratos adicionais sobre a mesa... Nossa opção lhe fará mais sentido em breve.
Eragon franziu a testa. Ele sempre comera carne e não pensava em se alimentar apenas de frutas e vegetais enquanto estivesse em Ellesméra.
— Você não sente falta do gosto?
— Não se pode sentir falta daquilo que nunca se teve.
— E quanto a Glaedr? Ele não pode se alimentar só de grama.
— Não, mas nem ele inflige dor desnecessariamente. Cada um de nós faz o melhor que pode com o que nos é dado. Você não pode deixar de ser quem é ou o que nasceu para ser.
— E Islanzadí? Sua capa foi feita com penas de cisne.
— Penas soltas se acumulam ao longo de muitos anos. Nenhum pássaro foi morto para que fosse feita sua vestimenta.


Terminaram a refeição e Eragon ajudou Oromis a limpar os pratos com areia. Enquanto o elfo os empilhava no guarda-louças, perguntou:
— Você tomou banho hoje de manhã? — A pergunta surpreendeu Eragon, que respondeu negativamente. — Por favor, faça-o amanhã e todo dia de hoje em diante.
— Todo dia! A água é fria demais para isso. Vou pegar uma febre.
Oromis o encarou de um jeito indefinível.
— Então faça-a ficar mais quente.
Agora era a vez de Eragon ficar desconfiado.
— Não tenho poder suficiente para esquentar um rio inteiro com magia — protestou.
A casa ecoou as gargalhadas de Oromis. Lá fora, Glaedr balançou sua cabeça em direção à janela, olhou para o elfo, e depois retornou para a posição em que estava antes.
— Suponho que você tenha explorado os seus aposentos na noite passada. — Eragon acenou positivamente. — E viu um quartinho com uma depressão no chão?
— Achei que fosse para lavar roupas ou lençóis.
— É para você se lavar. Há duas mangueiras escondidas ao lado, na parede que fica acima do buraco. Abra-as que você poderá se banhar com água de qualquer temperatura. Além disso — ele apontou para o queixo de Eragon —, enquanto for meu aluno, espero que você se barbeie até ficar com uma barba mais cheia, se for essa a sua vontade, e não fique parecendo uma árvore com metade das folhas arrancadas. Elfos não se barbeiam, mas encontrarei uma navalha e um espelho para lhe mandar.
Com o orgulho mais do que abalado, Eragon concordou. Assim que os dois saíram, Oromis olhou para Glaedr e o dragão disse: Resolvemos adotar um plano de estudo para Saphira e você.
O elfo disse:
— Vocês começarão...
... uma hora depois do nascer do sol amanhã, na hora do Lírio Vermelho. Retornem para cá nesse horário.
— E traga a sela que Brom fez para você, Saphira — prosseguiu Oromis. — Façam o que quiserem até lá, Ellesméra possui muitas maravilhas para os forasteiros, se vocês desejarem vê-las.
— Vou me lembrar disso — afirmou Eragon, curvando a cabeça. — Antes de ir, mestre, gostaria de agradecê-lo por ter me ajudado em Tronjheim depois que eu matei o Espectro. Duvido que tivesse sobrevivido sem o seu auxílio. Estou em débito.
Ambos estamos em débito, acrescentou Saphira. Oromis sorriu levemente e inclinou a cabeça.

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