8 de maio de 2017

Capítulo 31

Comece com dó
Deixe as outras notas pra
Lá. Sem mimimi

ÀS CINCO DA MANHàdo dia seguinte, na rotatória em frente à Estação Intermediária, Meg e eu encontramos Leo de pé na frente de um Mercedes vermelho brilhante. Eu não perguntei onde ele tinha arranjado o veículo. Ele também não me disse. O que ele disse foi que tínhamos que voltar em vinte e quatro horas (supondo que viveríamos por tanto tempo) e tentar não ser parados pela polícia.
Aí vai a má notícia: saindo dos limites da cidade, eu fui parado pela polícia.
Ah, que azar infeliz! O policial nos parou sem motivo algum. Tive medo de ele ser um blemmyae, mas ele não era educado o bastante.
Ele franziu a testa ao analisar minha habilitação.
— É uma carteira de motorista provisória de Nova York, garoto. O que você está fazendo dirigindo um carro assim? Onde estão seus pais e aonde você está levando essa garotinha?
Por pouco não expliquei que eu era uma deidade de quatro mil anos, um guia do Sol muito experiente, que meus pais estavam no reino celestial e que a garotinha era minha senhora semideusa.
— Ela é minha...
— Irmãzinha — disse Meg. — Ele está me levando para a aula de piano.
— Hã, é — concordei.
— E nós estamos atrasados! — Meg balançou os dedos de um jeito que não lembrava o gesto de tocar piano. — Porque meu irmão é muito burro.
O policial franziu a testa.
— Esperem aqui.
Ele andou até a viatura, talvez para checar minha carteira de motorista no sistema ou chamar apoio da SWAT.
— Seu irmão? — perguntei a Meg. — Aula de piano?
— A parte do muito burro era verdade.
O policial voltou com uma expressão confusa no rosto.
— Desculpe. — Ele devolveu minha habilitação. — Erro meu. Dirijam com segurança.
E foi isso.
Eu me perguntei o que tinha mudado na mente do policial. Talvez, quando Zeus criou minha carteira de motorista, tenha acrescentado algum feitiço que permitia que eu passasse ileso por burocracias desnecessárias como policiais em rodovias. Sem dúvida Zeus tinha ouvido que dirigir sendo mortal era perigoso.
Nós seguimos em frente, embora o incidente tenha me deixado abalado. Na rodovia 37, eu fiquei observando os carros que seguiam na direção oposta, me perguntando quais eram dirigidos por blemmyae, semideuses ou mercenários indo trabalhar no Palácio Cômodo, ansiosos para destruir meus amigos a tempo da cerimônia de nomeação.
A leste, o céu foi de ônix para carvão. Nas margens da estrada, postes de luz pintavam a paisagem de laranja-Agamedes – cercas e pastos, árvores, ravinas secas. Vez ou outra, víamos um posto de gasolina ou um oásis de Starbucks. Também passamos por outdoors que anunciavam OURO: MELHORES PREÇOS! em letras garrafais e exibiam a imagem de um homem sorridente em um terno barato muito parecido com o rei Midas.
Eu me perguntei como Litierses estava se saindo na Estação Intermediária. Quando partimos, o local borbulhava de agitação: todo mundo ajudando a montar armaduras, afiar armas e preparar armadilhas. Litierses estava ao lado de Josephine, explicando como Cômodo e suas várias tropas funcionavam. Ele só parecia parcialmente presente, como um homem com uma doença terminal aconselhando os outros pacientes sobre a melhor forma de prolongar o inevitável.
Estranhamente, eu confiava nele. Não achava que trairia Josephine, Emmie, a pequena Georgina e o resto da família improvisada e heterogênea com a qual eu tanto me preocupava. O comprometimento de Lit parecia genuíno. Ele agora odiava Cômodo mais do que qualquer um de nós. Por outro lado, seis semanas antes, eu jamais desconfiaria que Meg McCaffrey trabalhava para Nero...
Olhei para minha pequena senhora. Ela estava esparramada no banco, os tênis vermelhos de cano alto apoiados no painel acima do porta-luvas, em uma posição que não parecia muito confortável. Devia ser o tipo de hábito que alguém desenvolve quando criança e depois fica relutante de abandonar quando cresce.
Ela continuava tocando piano no ar.
— Você pode acrescentar algumas pausas à sua composição — falei. — Só para dar uma variada.
— Quero fazer aula.
Eu não sabia se tinha ouvido corretamente.
— Aula de piano? Agora?
— Não agora, panaca. Mas em algum momento. Você pode me ensinar?
Que ideia apavorante! Eu gostaria de acreditar que já tinha alcançado certo status na minha carreira de deus da música para não precisar dar aulas de piano a principiantes. Se bem que Meg me pediu para lhe ensinar, não ordenou. Detectei algo de hesitante e esperançoso na voz dela, um broto verde novinho de chia surgindo. Isso me fez pensar em Leo e Calipso na noite anterior na biblioteca, falando com ternura sobre a vida normal que poderiam ter em Indiana. Era estranha a frequência com que os humanos sonhavam com o futuro. Nós, imortais, nem pensávamos nisso. Para nós, sonhar com o futuro é como olhar para o ponteiro das horas do relógio.
— Tudo bem — falei. — Isso se a gente sobreviver às aventuras desta manhã.
— Combinado.
Meg tocou uma nota final que Beethoven teria amado. E, de dentro da mochila de suprimentos, ela tirou um saco de cenouras (descascadas por mim, não precisa agradecer) e começou a mastigar alto enquanto batia as pontas dos tênis.
Porque ela era Meg.
— Agora precisamos definir nossa estratégia — sugeri. — Quando chegarmos às cavernas, vamos ter que encontrar a entrada secreta. Duvido que seja tão óbvia quanto a entrada mortal.
— Hum, tá.
— Quando você tiver eliminado os guardas que encontrarmos...
— Quando nós tivermos eliminado — corrigiu ela.
— Tanto faz. Vamos precisar procurar dois riachos próximos. Vamos ter que beber dos dois antes...
— Não me conta. — Meg levantou uma cenoura como se fosse uma batuta. — Nada de spoilers.
— Spoilers? Essa informação pode salvar nossas vidas!
— Eu não gosto de spoilers — insistiu ela. — Eu quero ser surpreendida.
— Mas...
— Não.
Apertei o volante, nervoso. Tive que me controlar para não pisar no acelerador e fazer com que voássemos em direção ao horizonte. Eu queria falar sobre a Caverna de Trofônio... não só para instruir Meg, mas para ver se eu tinha entendido os detalhes direito.
Passei a maior parte da noite em claro na biblioteca da Estação Intermediária. Li pergaminhos, revirei minha memória imperfeita, até tentei arrancar mais respostas da Flecha de Dodona e da Bola 8 Mágica de Agamedes. Obtive algumas respostas, mas o que consegui juntar só me deixou mais nervoso.
E eu gostava de falar quando estava nervoso.
Mas Meg não parecia preocupada com a tarefa à frente. Ela agia de forma tão irritante e desligada quanto na primeira vez que a vi, naquele beco em Manhattan.
Será que ela só estava bancando a corajosa? Eu achava que não. Sempre achei impressionante a capacidade que os mortais tinham de se adaptar em face de uma catástrofe. Até os humanos mais traumatizados, maltratados e surpreendidos conseguiam seguir com suas vidas. Refeições ainda eram preparadas. Trabalho ainda era feito. Aulas de piano eram começadas e cenouras eram mastigadas.
Durante quilômetros, seguimos em silêncio. Eu mal consegui ouvir uma música decente, porque o Mercedes não tinha rádio por satélite. Maldito Leo Valdez e seus veículos econômicos!
A única estação que consegui sintonizar transmitia uma coisa chamada Zoológico Matinal. Depois da minha experiência com Calipso e os grifos, eu não estava muito a fim de pensar em zoológicos.
Atravessamos cidades pequenas com hotéis velhos, brechós, lojas de ração e vários veículos à venda na beira da estrada. A paisagem era plana e monótona, um lugar que poderia muito bem se passar pelo antigo Peloponeso, exceto pelos postes telefônicos e outdoors. Bem, e pela estrada em si. Os gregos nunca foram bons em construir estradas. Provavelmente porque Hermes era o deus das viagens, e sempre estava mais interessado em fazer viagens fascinantes e perigosas do que em construir rodovias rápidas e seguras.
Finalmente, duas horas depois de sair de Indianápolis, o amanhecer chegou, e eu comecei a entrar em pânico.
— Estou perdido — admiti.
— Eu sabia — disse Meg.
— Não tenho culpa! Eu segui aquelas placas indicando uma tal de Casa de Deus!
Meg olhou para mim com desdém.
— A loja cristã de Bíblias pela qual a gente passou? Por que você faria isso?
— Ah, francamente! As pessoas precisam ser mais específicas sobre que deuses estão anunciando!
Meg arrotou na mão fechada.
— Encoste e pergunte à flecha. Estou ficando enjoada.
Eu não queria perguntar à flecha. Mas também não queria que Meg vomitasse as cenouras no banco de couro. Parei no acostamento e puxei o projétil profético da aljava.
— Ó, Flecha Sábia — falei. — Estamos perdidos.
EU SOUBE DISSO QUANDO TE CONHECI.
Aquela flecha tinha uma haste tão fina. Uma haste tão fácil de quebrar! Respirei fundo. Se eu destruísse o presente do Bosque de Dodona, era bem capaz de sua padroeira, minha avó hippie Reia, lançar uma maldição sobre mim, me fazendo ficar com cheiro de patchouli pela eternidade e além.
— O que eu quero dizer — falei — é que precisamos encontrar a entrada da Caverna de Trofônio. E rápido. Você pode nos direcionar para lá?
A flecha vibrou, talvez procurando conexões de wi-fi na região. Levando em conta nossa localização remota, eu temi que começasse a transmitir o Zoológico Matinal.
A ENTRADA MORTAL SE SITUA UMA LÉGUA A OESTE, entoou. PERTO DE UM GALPÃO COM TELHADO AZUL.
Por um momento, fiquei surpreso demais para falar.
— Isso foi... realmente útil.
MAS TU NÃO PODES USAR A ENTRADA MORTAL, acrescentou a flecha. ESTÁ MUITO BEM PROTEGIDA, E SERIA FATAL.
— Ah. Menos útil.
— O que ela está dizendo? — perguntou Meg.
Fiz um gesto pedindo que ela fosse paciente. (Por quê, eu não sei. Era um desejo impossível.)
— Grande Flecha, você por acaso não saberia qual é a melhor forma de entrar na caverna?
SEGUE ESTA ESTRADA PARA O OESTE. TU VERÁS UMA BARRACA COM OVOS FRESCOS SELECIONADOS.
— Sim?
ESSA BARRACA NÃO É IMPORTANTE. CONTINUA DIRIGINDO.
— Apolo. — Meg me cutucou. — O que ela está dizendo?
— Alguma coisa sobre ovos frescos.
Essa resposta pareceu satisfazê-la. Pelo menos, ela parou de me cutucar.
VAI MAIS LONGE, aconselhou a flecha. PEGA A TERCEIRA À ESQUERDA. QUANDO TU VIRES A PLACA DO IMPERADOR, TU VAIS SABER QUE É HORA DE PARAR.
— Que placa do imperador?
TU VAIS SABER QUANDO VIRES. PARA LÁ, PULA A CERCA E PROSSEGUE PARA O LOCAL DOS DOIS RIACHOS.
Dedos frios tocaram um acorde nas minhas vértebras. O local dos dois riachos... Isso, pelo menos, fazia sentido para mim. Eu queria que não fizesse.
— E depois? — perguntei.
DEPOIS TU PODES BEBER E PULAR NO ABISMO DE HORRORES. MAS, PARA FAZER ISSO, TU DEVES ENFRENTAR OS GUARDIÕES QUE NÃO PODEM SER MORTOS.
— Fantástico — falei. — Por acaso tu não tens... Por acaso você não tem mais informações sobre esses guardiões imatáveis no seu artigo da Wikipédia?
TU FAZES PIADA COMO UM PIADISTA CHEIO DAS PIADINHAS. MAS, NÃO. MEUS PODERES PROFÉTICOS NÃO VEEM ISSO. E MAIS UMA COISA.
— O quê?
DEIXA-ME NO MERCEDES. EU NÃO DESEJO MERGULHAR NA MORTE E NA ESCURIDÃO.
Eu coloquei a flecha embaixo do banco do motorista. Em seguida, relatei a conversa toda para Meg.
Ela franziu a testa.
— Guardiões imatáveis? O que isso quer dizer?
— A essa altura, Meg, qualquer palpite seu é tão bom quanto um meu. Agora vamos procurar nosso abismo de horrores, tudo bem?

20 comentários:

  1. Agora que Caleo pulou fora, Lester devia levar o filho de Midas com ele. Talvez ajude qndo a Meg sumir de novo

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  2. Respostas
    1. Damon Herondale(filho de Zeus)22 de setembro de 2017 00:10

      Ela não vai sumir de novo
      Ta oficialmente no Time Lester

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  3. Será? Acho que a Meg ainda vai dar muuuuuuito trabalho para o Lesrterpolo.

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  4. Carlos Daniel Souza10 de maio de 2017 20:30

    A maior piada desse livro até agora:

    "TU FAZES PIADA COMO UM PIADISTA CHEIO DAS PIADINHAS. MAS, NÃO. MEUS PODERES PROFÉTICOS NÃO VEEM ISSO. E MAIS UMA COISA.
    — O quê?
    DEIXA-ME NO MERCEDES. EU NÃO DESEJO MERGULHAR NA MORTE E NA ESCURIDÃO."

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  5. Essa flecha me lembra o Jackes, se ele falasse como a Zöe! Kkkkk.

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  6. a cada livro que passa Riordan leva seu seus personagens para um futuro.Com caleo não é diferente,acredito que depois da grande batlha que possa ocorrer no ultimo livro...vamos despedir...Gaia,cronos e depois imperalismo romano,nossos semideuses seguirão em frente...gerando uma nova geração de herois

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  7. Putos esse negocio do imperador vai acabar sendo um burguer king

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  8. — Ó, Flecha Sábia — falei. — Estamos perdidos.
    EU SOUBE DISSO QUANDO TE CONHECI.
    Aquela flecha tinha uma haste tão fina. Uma haste tão fácil de quebrar! Respirei fundo 😂😂😂

    Gostei dessa flecha

    ~MIRELLE

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  9. "TU FAZES PIADA COMO UM PIADISTA CHEIO DAS PIADINHAS"

    Rindo até ano que vem kkkkk

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  10. Nas margens da estrada, postes de luz pintavam a paisagem de laranja-Agamedes


    Olha só... O espírito ganhou até uma cor kkkkkk alaranja-agamedes, também conhecido como laranja-queijo

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  11. EU SOUBE DISSO QUANDO TE CONHECI
    kkkkkkkk

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  12. -Fantastico-falei.-por acaso tu não tens...Por acaso você não tem mais informações sobre esses guardiões imatáveis no seu artigo da Wikipédia?
    kkkk

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  13. "Tu fazes piada como um piadista cheio de piadinhas" melhor frase do livro

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  14. Eu amo essa flecha,kkk.Fico imaginando uma conversa entre ela e Jaques.Meus deuses,ia ser hilario.

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  15. — Ó, Flecha Sábia — falei. — Estamos perdidos.
    EU SOUBE DISSO QUANDO TE CONHECI

    KKHKHKKHHKHKKHKHKHHKHKHKHKH Cara essa flecha é Top!! Doeu até na alma Kkkkkkkkkkkkkkkkk

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  16. "— Ó, Flecha Sábia — falei. — Estamos perdidos.
    EU SOUBE DISSO QUANDO TE CONHECI."
    "TU FAZES PIADA COMO UM PIADISTA CHEIO DAS PIADINHAS."
    Esse devem ter sido os melhores dialogos do livro kkkkkk

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  17. Morrer ou nao morrer, eis a questão (de flecha de dodona).

    ~Filha da Sabedoria~

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  18. Damon Herondale(filho de Zeus)22 de setembro de 2017 00:13

    M.E.L.H.O.R. C.A.P.Í.T.U.L.O
    Alguém discorda?

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Boa leitura :)