27 de maio de 2017

Capítulo 31 - Êxodo

Uma muralha de fumaça engoliu Roran assim que ele entrou no Sete Roldanas, a taverna de Morn. Parou embaixo dos chifres de Urgal que estavam presos acima da porta e deixou seus olhos se adaptarem ao interior embaçado.
— Olá? — gritou.
A porta para os quartos dos fundos se abriu com um estrondo enquanto Tara vinha lentamente na frente, seguida por Morn. Ambos encararam Roran emburrados. Tara plantou os punhos carnudos nos quadris e perguntou:
— O que você quer aqui?
Roran a encarou por um instante, tentando determinar a origem de sua animosidade.
— Vocês já decidiram se atravessarão a Espinha comigo?
— Isso não lhe diz respeito — vociferou Tara.
Diz sim. No entanto, ele se conteve e disse:
— Sejam quais forem as suas intenções, e se estiverem indo, Elain gostaria de saber se há lugar sobrando nas suas bagagens para alguns itens, ou se vocês estão precisando de espaço para levar alguma coisa. Ela tem...
— Espaço a mais! — irrompeu Morn. Ele apontou para uma muralha atrás do bar, onde havia tonéis de carvalho enfileirados. — Eu tenho, envoltos em palha, doze barris da mais clara cerveja de inverno, que têm sido mantidos na mais perfeita temperatura durante os últimos cinco meses. Faziam parte do último lote de Quimby! O que devo fazer com eles? Ou com meus barris de cerveja leve e escura? Se eu os abandonar, os soldados os consumirão em uma semana, ou irão furá-los com pregos e derramar a bebida no chão, onde as únicas criaturas que as degustarão serão as larvas e os vermes. Oh! — Morn se sentou e apertou as mãos, balançando a cabeça. — Doze anos de trabalho! Desde que meu pai morreu, eu toco a taverna do mesmo jeito que ele, dia a dia. E então vêm você e Eragon e causam todo esse problema. Isso... — Ele parou, respirando com dificuldade, e secou o rosto molhado com a barra da manga.
— Está vendo? — perguntou Tara. Ela colocou o braço em volta de Morn e apontou para Roran. — Quem deu licença para você agitar Carvahall com suas palavras bonitas? Se partirmos, como o meu pobre marido vai ganhar a vida? Ele não pode levar seu negócio a tiracolo como Horst ou Gedric. Não pode se agachar num campo vazio e cultivá-lo como você! Impossível! Todos irão e ficaremos aqui morrendo de fome. Ou então iremos e mesmo assim morreremos de fome. Você nos arruinou!
Roran desviou os olhos de seu rosto furioso e ruborizado, se voltou para a expressão mais perturbada de Morn e depois se virou e abriu a porta. Ele fez uma pausa na soleira e disse num tom de voz baixo:
— Sempre considerei vocês meus amigos. Eu não os deixaria serem mortos pelo Império. — Assim que saiu puxou seu manto e o apertou em torno de si, e saiu rapidamente da taverna, meditando no caminho.
No poço de Fisk, parou para beber água e logo Birgit apareceu. Ela o viu lutando para virar a manivela com apenas uma das mãos, então tomou para si a tarefa e içou o balde cheio d’água, o qual lhe passou sem dar um gole sequer. Ele bebeu o líquido gelado e disse:
— Fico feliz que vocês estejam vindo. — E lhe devolveu o balde. Birgit o observou.
— Reconheço a força que o impulsiona, Roran, pois ela também me impele, ambos queremos encontrar os Ra’zac. Assim que o fizermos, você me compensará a morte de Quimby. Nunca se esqueça disso. — Ela empurrou o balde para dentro do poço novamente e o deixou cair solto, enquanto a manivela girava de forma desenfreada. Um segundo depois, ecoou pelo poço o som oco de um esguicho de água.
Roran sorriu enquanto a via se afastando. Estava mais feliz do que perturbado com a sua declaração, sabia que mesmo se mais alguém em Carvahall fosse abandonar a causa ou morresse, Birgit ainda o ajudaria a caçar os Ra’zac. Depois, no entanto — se é que existia um depois —, ele teria de pagar seu preço ou matá-la. Essa era a única maneira de resolver tais questões.
Lá pela noite, Horst e seus filhos haviam voltado para casa, carregando dois pequenos pacotes envoltos em oleado.
— Isso é tudo? — perguntou Elain. Horst respondeu afirmativamente, colocou os pacotes em cima da mesa da cozinha e os abriu, expondo quatro martelos, três pinças, um torno, um fole de tamanho médio e uma bigorna de um quilo e 300 gramas.
Assim que os cinco se sentaram para jantar, Albriech e Baldor conversaram sobre as várias pessoas que viram fazendo preparativos secretos. Roran escutou a tudo atentamente, tentando guardar quem havia estado burros para quem, quem não demonstrou a intenção de partir e quem talvez precisasse de ajuda para poder partir.
— O maior problema — disse Baldor — é a comida. Só podemos carregar até um certo limite, e será bastante difícil caçar o suficiente na Espinha para alimentar duzentas ou trezentas pessoas.
— Hum. — Horst balançou o dedo, com a boca cheia de grãos de feijão e depois engoliu. — Caça não vai dar certo. Temos que levar nossos rebanhos conosco. Combinados, temos carneiros e bodes suficientes para alimentar todos nós por um mês ou mais.
Roran ergueu sua faca.
— Lobos.
— Estou mais preocupado em impedir que os animais fiquem vagando pela floresta — respondeu Horst. — Arrebanhá-los será uma tarefa à toa.


Roran passou o dia seguinte ajudando a quem quer que fosse, falando pouco e geralmente permitindo que as pessoas o vissem trabalhando pelo bem do vilarejo. Mais tarde naquela noite, caiu na cama exausto, porém esperançoso.


A chegada do amanhecer trespassou os sonhos de Roran e o despertou com uma significativa sensação de expectativa. Ele se levantou e desceu a escada na ponta dos pés, depois saiu da casa e olhou para as montanhas, consumido pelo silêncio da manhã. Sua respiração formava uma coluna branca no ar, mas ele se sentia quente por dentro, pois seu coração carregava medo e ansiedade.
Depois de um rápido café da manhã, Horst trouxe os cavalos para a parte da frente de sua casa, lá Roran ajudou Albriech e Baldor a carregálos com alforjes e mais pacotes de suprimentos. Em seguida, Roran pegou a sua própria saca e chiou quando a alça de couro pendurada no ombro apertou o seu ferimento.
Horst fechou a porta de casa. Continuou segurando a maçaneta de aço por um instante, depois pegou a mão de Elain e disse:
— Vamos.
Enquanto andavam por Carvahall, Roran viu famílias melancólicas reunidas em frente às suas casas com pilhas de pertences e animais domésticos se queixando. Viu carneiros e cães com sacas amarradas nas costas, crianças montadas em burros e com os olhos cheios de lágrimas, carroças amarradas a cavalos com engradados cheios de galinhas agitadas penduradas nas laterais. Viu os frutos do seu sucesso, e não sabia se devia rir ou chorar.
Eles pararam na extremidade norte de Carvahall e esperaram para ver quem iria acompanhá-los. Um minuto se passou e logo Birgit se aproximou, vinha pela lateral, acompanhada por Nolfavrell e seus irmãos mais novos. Birgit cumprimentou Horst e Elain, e esperou. Ridley e sua família chegaram atravessando as matas, conduziam mais de cem ovelhas vindo do lado leste do vale Palancar.
— Imaginei que fosse melhor deixá-los fora de Carvahall — gritou Ridley sobrepondo-se aos animais.
— Pensou bem! — respondeu Horst.
Em seguida vieram Delwin, Lenna e seus cinco filhos, Orval e sua família, Loring com seus filhos, Calitha e Thane — que deu um largo sorriso para Roran — e o clã de Kiselt. As mulheres que haviam enviuvado há pouco, como Nolla, se agruparam em volta de Birgit. Antes de o sol iluminar os picos das montanhas, a maior parte do vilarejo já havia se agrupado ao longo da muralha. Mas nem todo mundo.
Morn, Tara e alguns outros ainda estavam por aparecer e, quando Ivor chegou, não carregava nenhum suprimento.
— Você ficará — observou Roran. Ele deu um passo para o lado desviando-se de um grupo de bodes impacientes que Gertrude tentava segurar.
— Sim — afirmou Ivor, deixando escapar a palavra numa confissão extenuada. Ele estremeceu e cruzou os braços magros em busca de calor, para depois encarar o sol que nascia, levantando a cabeça como se quisesse pegar os raios transparentes. — Svart se recusou a partir. Eê! Fazer com que ele entre na Espinha é como obrigá-lo a agir contra a sua natureza. Alguém tem que cuidar dele e, como eu não tenho filhos, então... — Ele encolheu os ombros. — De qualquer maneira, duvido que eu conseguisse desistir da fazenda.
— O que você fará quando os soldados chegarem?
— Vou enfrentá-los de um jeito que eles jamais esquecerão.
Roran riu com a voz rouca e bateu no braço de Ivor, fazendo o melhor possível para ignorar o destino impronunciável que, ambos sabiam, esperava todos que ficassem.
Um homem magro e de meia-idade, Ethlbert, marchou até a beira do comboio e gritou:
— Vocês são todos uns idiotas! — Com um murmúrio nefasto, as pessoas se viraram para olhar na direção de seu acusador. — Consegui conservar a minha paz no meio de toda essa loucura, mas não seguirei um lunático com uma conversa fiada! Se as suas palavras não os tivessem cegado, veriam que ele os está levando à destruição! Bem, eu não irei! Correrei riscos passando às escondidas pelos soldados para me refugiar em Therinsford. Eles ainda são gente decente e não os bárbaros que vocês encontrarão em Surda. — Cuspiu no chão, girou nos calcanhares e saiu batendo os pés.
Temendo que Ethlbert pudesse convencer outros a desistir de tudo, Roran olhou a multidão e ficou aliviado ao não ver nada além de murmúrios nervosos. Ainda assim, ele não queria perder tempo e dar às pessoas uma chance de mudar de ideia. E perguntou a Horst em voz baixa:
— Quanto tempo devemos esperar?
— Albriech, você e Baldor deem uma volta por aí e vejam se tem mais alguém vindo. Caso contrário, partiremos.
Os irmãos partiram depressa em direções opostas.
Meia hora mais tarde, Baldor voltou com Fisk, Isold e o cavalo que haviam pego emprestado. Largando seu marido, Isold correu em direção a Horst, afastando todos que estavam em seu caminho, esquecendo-se que grande parte do seu cabelo havia se soltado do coque e se salientava na forma de uns tufos estranhos. Ela parou, respirando com dificuldade.
— Lamento termos demorado tanto, mas Fisk teve problemas para fechar a loja. Ele não conseguia escolher que plainas ou formões devia levar. — Ela riu num tom estridente, quase histérico. — Era como se eu estivesse vendo um gato cercado por ratos, tentando decidir qual deles perseguiria. Primeiro este, depois aquele.
Um sorriso torto fez os lábios de Horst se apertarem.
— Entendo perfeitamente.
Roran se esforçou para avistar Albriech, mas foi em vão. E apertou os dentes.
— Onde ele está?
Horst bateu em seu ombro.
— Bem ali, acredito eu.
Albriech avançou entre as casas com três barris de cerveja amarrados nas suas costas e um olhar aflito que era hilário o bastante para fazer Baldor e vários outros caírem na gargalhada. Ao lado de Albriech andavam Morn e Tara, que cambaleavam por causa do peso das suas enormes sacas, assim como o burro e os dois bodes que eles puxavam. Para a surpresa de Roran, os animais carregavam ainda mais barris.
— Eles não vão aguentar nem um quilômetro — disse Roran, cada vez mais furioso com a tolice do casal. — E eles não possuem comida suficiente. Será que estão esperando que os alimentemos ou...
Com uma risadinha, Horst o interrompeu.
— Eu não me preocuparia com a comida. A cerveja de Morn será boa para elevar a moral da turma, e isso vale mais do que umas poucas refeições. Você vai ver.
Assim que Albriech se livrou dos barris, Roran perguntou a ele e a seu irmão:
— Esses são todos? — Quando responderam afirmativamente, Roran disse um palavrão e deu um soco na coxa. Tirando Ivor, três famílias estavam determinadas a ficar no vale Palancar: as de Ethlbert, Parr e Knute.
Não posso forçá-los a vir. Ele suspirou.
— Tudo bem. Não há mais sentido em esperar.
O alvoroço se espalhou pela população, o momento finalmente havia chegado. Horst e cinco outros homens abriram a muralha de árvores, e colocaram tábuas em cima da trincheira para que as pessoas e os animais pudessem atravessá-la.
Horst gesticulou.
— Acho que você devia ir na frente, Roran.
— Espere! — Fisk correu e, com um orgulho evidente, deu para Roran um bastão negro de madeira de espinheiro, com um metro e oitenta de comprimento e um nó de raízes polidas no topo, além de uma virola de aço azulado que se afilava até virar um ferrão áspero na base. — Eu o fiz na noite passada — disse o carpinteiro. — Achei que você poderia precisar de algo assim.
Roran passou sua mão direita pela madeira, maravilhado com sua maciez.
— Não poderia querer algo melhor. Você é um mestre... Obrigado. — Fisk sorriu e se afastou.
Consciente do fato de que estava sendo observado por toda a multidão, Roran encarou as montanhas e as cataratas Igualda. Seu ombro latejava sob a alça de couro. Para trás ficaram a ossada de seu pai e tudo que ele conhecera na vida. A sua frente estavam os picos recortados que se avolumavam em direção ao céu pálido e bloqueavam seu caminho e sua vontade. Ele não seria impedido. E não iria olhar para trás.
Katrina.
Levantando o queixo, Roran começou o caminho. Seu bastão batia nas tábuas pesadas enquanto ele atravessava a trincheira e saía de Carvahall, liderando os moradores selva adentro.

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Boa leitura :)