22 de maio de 2017

Capítulo 30 - Visão da perfeição

Eragon contorceu-se embaixo das cobertas, relutando em abrir os olhos. Cochilou e um pensamento impreciso tomou conta de sua mente... Como eu cheguei aqui? Confuso, apertou os cobertores com mais força e sentiu algo duro em seu braço direito.
Tentou mexer o pulso, mas sentiu uma dor aguda. Os Urgals! Ele sentou-se de repente.
Estava em uma pequena clareira vazia, exceto por uma fogueirinha que esquentava uma panela cheia de cozido. Um esquilo rangia os dentes em um galho. O arco e a aljava estavam ao lado das cobertas.
A tentativa de ficar em pé obrigou-o a fazer uma cara feia, pois seus músculos estavam fracos e doloridos. Havia uma pesada tala em seu braço direito ferido.
Onde está todo mundo?, pensou, desolado. Tentou chamar Saphira, mas para seu temor, não conseguiu senti-la. Uma fome descomunal tomou conta dele, então comeu o cozido. Ainda faminto, procurou os alforjes, tentando achar um pedaço de pão. Mas nem os alforjes nem os cavalos estavam na clareira. Sei que deve haver um bom motivo para tudo isso, pensou, suprimindo um ímpeto de desconforto.
Andou em volta da clareira, mas voltou às suas cobertas e as enrolou. Sem nada melhor a fazer, sentou, recostando-se em uma árvore, e ficou vendo as nuvens no céu. Horas se passaram, mas Brom e Saphira não apareceram. Espero que não haja nada errado.
Conforme a tarde se arrastava, Eragon foi ficando entediado e começou a explorar a floresta que o cercava. Quando ficou cansado, foi repousar embaixo de uma árvore sempre-verde, que se inclinava sobre uma pedra que tinha uma depressão cheia de água de orvalho.
Eragon olhou fixamente para a água e lembrou as instruções de Brom quanto a ver o futuro em superfícies cristalinas. Talvez eu possa ver onde Saphira está. Brom disse que fazer isso requer muita energia, mas eu sou mais forte do que ele... Eragon respirou fundo e fechou os olhos. Em sua mente, formou uma imagem de Saphira, tornando-a a mais real possível. Aquilo era mais desgastante do que ele esperava.
Então, ele disse:
— Draumr kópa! — E olhou fixamente para a água.
A superfície ficou completamente lisa, congelada por uma força invisível. Os reflexos desapareceram e a água ficou bem clara. Nela, brilhava uma imagem de Saphira. O ambiente que a cercava era completamente branco, mas Eragon podia ver que ela estava voando. Brom estava sentado nas costas dela, a barba dele voava ao vento e havia uma espada em seus joelhos.
Eragon, exausto, deixou a imagem desaparecer. Pelo menos, eles estão bem. Deu a si mesmo alguns minutos para se recuperar e voltou a inclinar-se sobre a água. Roran, como vai você? Em sua mente, viu o primo claramente. Por impulso, invocou a magia e pronunciou as palavras.
A água ficou imóvel e a imagem se formou em sua superfície. Roran apareceu, sentado em uma cadeira invisível. Como Saphira, o ambiente que o cercava era branco. Havia novas rugas no rosto de Roran, mais do que nunca, ele estava parecido com Garrow. Eragon segurou a imagem o máximo que podia. Será que Roran está em Therinsford? Certamente ele está em um lugar onde eu nunca estive.
O esforço causado pelo uso da magia formou gotas de suor em sua testa. Ele suspirou e por um longo tempo ficou satisfeito em apenas ficar sentado. Depois, uma ideia absurda tomou conta dele. E se eu tentasse visualizar algo que criei na minha imaginação ou que vi em um sonho? Ele sorriu. Talvez visse o que a minha própria consciência produziu.
Aquela era uma ideia atraente demais para ser deixada de lado. Ajoelhou-se perto da água mais uma vez. O que eu devo procurar? Pensou em algumas coisas, mas descartou todas elas quando se lembrou do sonho sobre a mulher na cadeia.
Depois de fixar a cena na mente, Eragon pronunciou as palavras e observou a água com atenção. Esperou, mas nada aconteceu. Decepcionado, estava prestes a liberar a magia quando uma escuridão pesada rodopiou na água, cobrindo sua superfície. A imagem de uma vela solitária brilhava no escuro, iluminando uma cela de pedra. A mulher no seu sonho estava sobre um catre em um dos cantos do lugar.
Levantou a cabeça, seus cabelos pretos caíram para trás, e olhou fixamente, direto para Eragon. Ele ficou imóvel, a força do olhar o manteve no lugar. Calafrios percorreram sua espinha quando seus olhos se encontraram. A mulher tremeu e caiu fracamente.
A água clareou. Eragon jogou-se para trás, ofegante.
— Isso é impossível! — Ela não devia ser real. Eu só sonhei com ela! Como ela poderia saber que eu estava olhando para ela? E como eu poderia ter visto um calabouço que nunca vi na vida? Balançou a cabeça, pensando se algum dos seus outros sonhos também foram visões.
A batida rítmica das asas de Saphira interrompeu seus pensamentos. Eragon voltou correndo para a clareira, chegando no momento em que Saphira pousava. Brom estava montado em seu dorso, como Eragon havia visto, só que sua espada agora estava muito ensanguentada. O rosto de Brom estava retorcido, as pontas de sua barba estavam pintadas de vermelho.
— O que aconteceu? — perguntou Eragon temendo que Brom estivesse ferido.
— O que aconteceu? — esbravejou o velho. — Estou tentando consertar a besteira que você fez! — Ele cortou o ar com a sua espada, jogando uma trilha de sangue durante a sua trajetória. — Você sabe o que fez com aquele truquezinho? Sabe?
— Evitei que os Urgals pegassem você — disse Eragon, sentindo um peso no estômago.
— Isso — reclamou Brom — mas aquele ato de magia quase o matou! Você está dormindo há dois dias! Havia doze Urgals. Doze! Mas isso não evitou que você tentasse jogar todos eles até Teirm, não é? O que você estava pensando? Jogar uma pedra com força na cabeça de cada um deles seria o certo a fazer. Mas, não, você queria deixá-los inconscientes para que pudessem fugir depois. Passei os últimos dois dias caçando todos eles. Mesmo com a Saphira, três escaparam!
— Eu não queria matá-los — disse Eragon, sentindo-se diminuído.
— Mas não teve esse problema em Yazuac.
— Lá eu não tive escolha, não sabia controlar a magia. Desta vez, parecia... Um exagero.
— Um exagero! — gritou Brom. — Não seria um exagero, pois eles não teriam a mesma misericórdia com você. E, por que, por que você se mostrou a eles?
— Você disse que eles tinham achado as pegadas de Saphira. Não faria diferença se me vissem — Eragon defendeu-se.
Brom enfiou sua espada na terra e disparou:
— Eu disse que eles provavelmente tinham achado as pegadas dela. Não sabíamos com certeza. Podiam achar que seguiam alguns viajantes erráticos. Mas como eles acharão isso agora? Afinal, você pousou bem na frente deles! E como você os deixou viver, devem estar correndo pelos campos contando um monte de histórias fantásticas! Elas podem chegar até o Império! — Ele jogou as mãos para o ar. — Você não merece ser chamado de Cavaleiro depois dessa, rapaz. — Brom arrancou sua espada do chão e foi andando pesadamente até a fogueira. Pegou um trapo dentro do seu manto e, zangado, começou a limpar a lâmina.
Eragon estava chocado. Tentou pedir um conselho a Saphira, mas tudo o que ela dizia era:
Fale com Brom.
Hesitante, Eragon caminhou até a fogueira e perguntou:
— Ajudaria se dissesse que eu sinto muito?
Brom suspirou e embainhou sua espada.
— Não, não ajudaria. Seus sentimentos não podem mudar o que aconteceu. — Ele golpeou o peito de Eragon com seu dedo. — Você fez escolhas muito ruins que podem ter repercussões perigosas. Sem falar que você quase morreu. Morreu, Eragon! A partir de agora, você terá de pensar. Há um motivo pelo qual nascemos com um cérebro e não com pedras na cabeça.
Eragon concordou, envergonhado.
— Mas não é tão ruim quanto você pensa, os Urgals já sabiam da minha existência. Tinham ordens para me capturar.
A surpresa arregalou os olhos de Brom. Ele enfiou seu cachimbo apagado na boca.
— Não, não é tão ruim quanto eu pensava. É pior! Saphira me disse que você falou com os Urgals, mas ela não mencionou isso.
As palavras saíam desordenadas da boca de Eragon quando descreveu rapidamente o confronto a Brom.
— Então, eles têm uma espécie de líder agora, não é? — perguntou Brom.
Eragon concordou com a cabeça.
— E você desafiou os desejos dele, o insultou e atacou seus soldados? — Brom balançou a cabeça. — Eu pensava que isso não poderia ficar pior. Se os Urgals tivessem morrido, suas ofensas não seriam ouvidas, mas agora serão impossíveis de serem ignoradas. Parabéns, você agora é inimigo de uma das criaturas mais poderosas da Alagaësia.
— Tudo bem, eu errei — assumiu Eragon com tristeza.
— Sim, errou — concordou Brom com olhos faiscantes. — Mas, contudo, o que me preocupa é quem será o líder dos Urgals.
Tremendo, Eragon perguntou baixinho:
— E o que acontecerá agora?
Houve uma pausa desconfortável.
— O seu braço levará, pelo menos, algumas semanas para ficar bom. Empregarei bem esse tempo implantando um pouco de bom senso na sua cabeça. Suponho que tenho uma parte de culpa nisso tudo. Só venho ensinando a você como fazer as coisas, mas não como deveria fazê-las. É preciso ter prudência, algo que você não tem. Toda a magia em Alagaësia não vai ajudá-lo se você não souber como usá-la.
— Mas ainda vamos para Dras-Leona, não é? — perguntou Eragon.
Brom levantou os olhos.
— Sim, podemos continuar procurando os Ra’zac, mas mesmo se os acharmos, não adiantará nada se você não estiver curado. — Ele começou a desselar Saphira. — Está se sentindo capaz de cavalgar?
— Acho que sim.
— Ótimo, então podemos percorrer alguns quilômetros hoje.
— Onde estão Cadoc e Fogo na Neve?
Brom apontou para o lado.
— Mais ali embaixo. Eu os prendi onde havia grama. — Eragon preparou-se para partir e seguiu Brom até os cavalos.
Saphira disse enfaticamente:
Se você tivesse me dito o que pretendia fazer, nada disso teria acontecido. Eu teria dito que seria uma má ideia não matar os Urgals. Só concordei com o que você pediu porque presumi que era mais ou menos razoável!
Não quero falar sobre isso.
Como queira, disse ela, torcendo o nariz.
Enquanto cavalgavam, todos os montes e depressões na trilha faziam Eragon ranger os dentes de dor. Se ele estivesse sozinho, já teria parado. Com Brom presente, não ousou reclamar. Além disso, Brom começou a desafiá-lo com situações difíceis envolvendo Urgals, magia e Saphira. As lutas imaginárias eram muitas e variadas. Às vezes, um Espectro ou outros dragões eram incluídos. Eragon descobriu que era possível torturar corpo e a mente ao mesmo tempo. Respondeu errado à maior parte das questões e ficou ainda mais frustrado.
Quando pararam para dormir, Brom resmungou de modo ríspido:
— Isso já é um começo. — Eragon sabia que ele estava decepcionado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)