27 de maio de 2017

Capítulo 3 - Verdade entre amigos

O Conselho de Anciãos sorria triunfante, feliz por Nasuada ter feito o que eles queriam.
— Nós insistimos — afirmou Jörmundur — para o seu próprio bem e para o bem dos Varden. — O restante dos anciãos acrescentou expressões de apoio às palavras de Jörmundur, aceitas por Nasuada com sorrisos tristes. Sabrae lançou um olhar furioso sobre Eragon por ele não ter feito o mesmo.
Durante a transição, Eragon ficou observando Arya, esperava qualquer reação às suas notícias ou ao anúncio do Conselho. Nenhuma das revelações fez com que sua expressão inescrutável se alterasse. No entanto, Saphira lhe disse: Ela quer falar conosco depois.
Antes que Eragon pudesse responder, Falberd se virou para Arya.
— Será que os elfos concordarão com isso?
Ela encarou Falberd até que este se inquietasse com seu olhar penetrante, e levantou uma sobrancelha.
— Não posso falar pela minha rainha, mas não vejo nada de reprovável nisso. Nasuada tem a minha bênção.
Como ela poderia declarar o contrário, sabendo do que lhe contamos?, pensou Eragon amargamente. Estamos todos encurralados.
O comentário de Arya obviamente agradou o Conselho. Nasuada a agradeceu e fez uma pergunta para Jörmundur.
— Existe mais alguma coisa que precise ser discutida? Estou cansada.
Jörmundur balançou a cabeça.
— Faremos todos os preparativos. Prometo que você não será incomodada até o funeral.
— Mais uma vez, obrigado. Vocês poderiam sair agora? Preciso de algum tempo para pensar em como fazer para melhor honrar meu pai e servir aos Varden. Vocês me deram muito sobre o que refletir. — Nasuada estendeu seus dedos delicados sobre o tecido negro no seu colo. Umérth parecia que ia protestar pelo fato de o Conselho ter sido dispensado, mas Falberd acenou com a mão, silenciando-o.
— Claro, o que quer que lhe deixe em paz. Se você precisar de ajuda, estaremos prontos e dispostos a lhe servir. — Gesticulando para que os demais o acompanhasse, passou por Arya enquanto seguia em direção à porta.
— Eragon, por favor, você poderia ficar?
Surpreso, Eragon sentou-se novamente em sua cadeira, ignorando os olhares alertas dos conselheiros. Falberd demorou-se à porta, subitamente relutante em deixar o recinto, até que lentamente foi saindo. Arya foi a última a sair. Antes de fechar a porta, ela se voltou para Eragon, e seus olhos revelaram uma preocupação e uma apreensão antes ocultas.
Nasuada se sentou um pouco afastada de Eragon e Saphira.
— Então nos encontramos novamente, Cavaleiro. Você não me cumprimentou. Será que eu o ofendi?
— Não, Nasuada, estava relutando em falar por medo de estar sendo rude e tolo. As circunstâncias momentâneas não são adequadas para manifestações precipitadas. — A paranoia de que eles pudessem estar escutando tudo às escondidas não o deixou à vontade. Cruzando uma barreira mental, ele sondou a magia e entoou: — Atra nosu waíse vardo fra eld hórnya... Pronto, agora podemos falar sem corrermos o risco de homens, anões ou elfos nos escutarem.
A postura de Nasuada ficou mais tranquila.
— Obrigada, Eragon. Você não imagina o quanto gostei desse presente. — Suas palavras eram mais fortes e confiantes do que antes. Atrás da cadeira de Eragon, Saphira se agitava, até que, cuidadosamente, ela deu a volta na mesa para ficar de frente para Nasuada. Baixou sua enorme cabeça até que um dos seus olhos se encontrou com os olhos negros de Nasuada. O dragão a encarou durante um minuto inteiro antes de bufar suave e longamente. Diga a ela, disse Saphira, que eu lamento muito por ela e pela sua perda. Além disso, creio que sua força deve se tornar a dos Varden quando ela assumir o manto de Ajihad. Eles precisarão de um guia seguro.
Eragon repetiu as palavras, acrescentando:
— Ajihad foi um grande homem, seu nome será sempre lembrado... Há algo que eu tenho que lhe dizer. Antes de Ajihad morrer, ele me incumbiu, me ordenou, praticamente, a não deixar os Varden sucumbirem ao caos. Essas foram as suas últimas palavras. Arya também as ouviu. Eu ia manter o que ele disse em segredo por causa das implicações, mas você tem o direito de saber. Não sei exatamente o que Ajihad quis dizer, mas estou certo disso: sempre irei defender os Varden com os meus poderes. Queria que você entendesse isso, que não tenho o menor desejo de usurpar a liderança dos Varden.
Nasuada riu, ostentando alguma fragilidade.
— Mas essa liderança não é para mim, é? — Seu comedimento havia desaparecido, deixando apenas a compostura e a determinação. — Sei por que você esteve aqui antes de mim e o que o Conselho está tentando fazer. Você acha que nos anos em que servi o meu pai nós nunca nos preparamos para esta eventualidade? Esperava que o Conselho fosse fazer exatamente o que fez. E agora tudo está pronto para que eu assuma o comando dos Varden.
— Você não tem a intenção de deixar que eles a manipulem — disse Eragon espantado.
— Não. Deixe que a instrução de Ajihad continue sendo um segredo. Não seria inteligente que ela se espalhasse por aí, pois as pessoas poderiam supor que ele queria que você o sucedesse. Isso iria enfraquecer a minha autoridade e desestabilizar os Varden. Ele disse o que achava necessário para proteger os Varden. Eu teria feito o mesmo. Meu pai... — Ela vacilou por um instante. — O trabalho do meu pai não ficará inacabado, mesmo que ele me leve para o túmulo. É isso que eu quero que você, como um Cavaleiro, entenda. Todos os planos de Ajihad, todas as suas estratégias e metas são minhas agora. Não irei decepcioná-lo sendo fraca. O Império será derrubado, Galbatorix será destronado e um governo de direito será instituído.
Assim que ela terminou de falar, uma lágrima correu pelo seu rosto. Eragon a contemplou, sensível à dificuldade inerente à sua posição e reconhecendo uma profundidade de caráter que não havia percebido antes.
— E quanto a mim, Nasuada? O que devo fazer entre os Varden?
Ela o encarou.
— Você pode fazer o que quiser. Os membros do Conselho são tolos se acham que podem controlá-lo. Você é um herói para os Varden e os anões, e até mesmo os elfos irão saudar sua vitória sobre Durza assim que dela forem informados. Se você for contra o Conselho ou contra mim, seremos forçados a nos render, pois as pessoas o apoiam de todo o coração. Neste momento, você é a pessoa mais poderosa dentro dos Varden. No entanto, se aceitar a minha liderança, continuarei a traçar o caminho estabelecido por Ajihad: você irá com Arya para os elfos, será instruído por lá, e depois retornará aos Varden.
Por que ela está sendo tão honesta conosco?, perguntou Eragon. Se estiver certa, será que poderíamos rechaçar as exigências do Conselho?
Saphira levou algum tempo para responder. De qualquer maneira, é tarde demais. Você já concordou em atender aos pedidos deles. Acho que Nasuada está sendo honesta porque a magia lançada por você permite que ela o seja, e também porque espera ganhar a nossa lealdade, subtraindo-a dos anciãos.
Uma ideia veio subitamente à mente de Eragon, mas antes de partilhá-la, ele perguntou. Será que podemos confiar que ela vai se manter firme em relação ao que disse? Isso é muito importante.
Sim, disse Saphira. Ela falou com o coração.
Então Eragon compartilhou sua proposta com Saphira. Ela a aprovou, por isso ele sacou Zar’roc e andou até onde Nasuada estava. O Cavaleiro viu um lampejo de medo enquanto se aproximava, o olhar da moça se voltou para a porta, ela enfiou a mão numa dobra de seu vestido e agarrou alguma coisa. Eragon parou à sua frente e se ajoelhou, com Zar’roc nas mãos.
— Nasuada, Saphira e eu estamos aqui há pouco tempo. Mas nesse período viemos a respeitar Ajihad e agora, consequentemente, você. Você lutou por Farthen Dûr quando outros fugiram, incluindo as duas mulheres do Conselho, e nos tratou com franqueza em vez de nos enganar. Por conseguinte, lhe ofereço a minha espada... e a minha lealdade como Cavaleiro.
Eragon se pronunciou com firmeza, sabendo que jamais teria falado tão enfaticamente antes da batalha. O fato de ter visto tantos homens caindo e morrendo à sua volta mudou sua perspectiva das coisas. Resistir ao Império não era mais algo que fazia para si próprio, mas para os Varden e todas as pessoas ainda subjugadas ao regime de Galbatorix. Por mais que fosse durar, ele estava empenhado em realizar tal tarefa. Por enquanto, o melhor que podia fazer era servir. Não obstante, ele e Saphira estavam correndo um grande risco ao se comprometerem com Nasuada. O Conselho não poderia se opor, pois tudo o que Eragon havia dito era que juraria lealdade, mas não a quem. Mesmo assim, ele e Saphira não tinham nenhuma garantia de que Nasuada seria uma boa líder. É melhor jurar a um tolo honesto do que a um sábio mentiroso, concluiu Eragon.
A surpresa perpassou o rosto de Nasuada. Ela agarrou o cabo de Zar’roc e a ergueu — olhando para a lâmina carmesim — e depois colocou a ponta da espada sobre a cabeça de Eragon.
— Aceito sua lealdade com muita honra, Cavaleiro, pois você aceita todas as responsabilidades inerentes ao posto. Erga-se como meu súdito e pegue sua espada.
Eragon fez o que lhe foi ordenado. E disse:
— Agora, como minha senhora, posso lhe falar abertamente que o Conselho me fez concordar em prestar juramento aos Varden uma vez que você foi indicada. Essa era a única maneira que eu e Saphira tivemos de lográ-los.
Nasuada riu com genuíno deleite.
— Ah, vejo que você aprendeu as regras do nosso jogo. Muito bem, como meu mais novo e único súdito, você concorda em me prestar lealdade novamente, em público, quando o Conselho cobrar seu juramento?
— É claro.
— Ótimo, com isso cuidamos do Conselho. Agora, até lá, deixe-me sozinha. Tenho que fazer muitos planejamentos e preciso me preparar para o funeral... Lembre-se, Eragon, o vínculo que acabamos de criar é recíproco, sou responsável pelos seus atos assim como é necessário que você me sirva. Não me desonre.
— Nem você a mim.
Nasuada fez uma pausa, para depois encará-lo profundamente e acrescentar num tom mais suave:
— Aceite meus pêsames, Eragon. Sei que outros além de mim têm motivos para estar desolados, ao passo que perdi meu pai, você também perdeu um amigo. Gostava muito de Murtagh e me entristece saber que ele se foi... Adeus, Eragon.
Eragon acenou com a cabeça, com um gosto amargo na boca, e deixou o salão junto com Saphira. O corredor lá fora estava vazio ao longo de sua extensão cinzenta. Eragon colocou as mãos nos quadris, jogou a cabeça para trás e soltou o ar. O dia mal havia começado, no entanto sentia-se exausto por conta de todas as emoções que fluíram nele. Saphira o cutucou com o focinho e disse: Por aqui. Sem mais explicações, ela seguiu pelo lado direito do túnel. Suas garras polidas batiam no chão duro.
Eragon franziu a testa, mas a seguiu. Para onde estamos indo? Não houve resposta. Saphira, por favor. Ela simplesmente sacudiu a cauda.
Resignado por ter que esperar, ele disse: As coisas certamente mudaram para nos. Nunca sei o que posso esperar de um dia para o outro... exceto tristeza e derramamento de sangue.
Nem tudo é ruim, repreendeu ela. Nós tivemos uma grande vitória. Ela deveria ser celebrada, não lamentada.
Isso não ajuda, tendo de lidar com esse outro contra senso.
Ela bufou furiosa. Um filete de fogo saiu de suas narinas, chamuscando o ombro de Eragon. Ele pulou para trás, deu um grito e vociferou uma série de imprecações.
Epa, disse Saphira, balançando a cabeça para afastar a fumaça.
Epa! Você quase me tostou!
Não esperava que isso fosse acontecer. Sempre me esqueço que o fogo irá sair se eu não prestar atenção. Imagine se, toda vez em que você levantasse o braço, raios caíssem no chão. Seria fácil fazer um movimento sem prestar atenção e destruir algo de forma involuntária.
Você tem razão... Desculpe por ter reclamado de você.
Sua pálpebra ossuda deu um estalido ao dar uma piscadela. Não tem problema. O que eu estava tentando lhe dizer é que nem mesmo Nasuada pode forçá-lo afazer nada.
Mas eu lhe dei minha palavra como Cavaleiro!
Talvez, mas se eu tiver que violá-la em nome da sua segurança ou para fazer a coisa certa, não hesitarei. É um fardo que eu posso carregar facilmente. Por estar unida a você, minha honra está vinculada a seu compromisso, mas como indivíduo, não estou presa a isso. Se for necessário, irei raptá-lo. Qualquer desobediência então não seria culpa sua.
A coisa não deve chegar a esse ponto. Se tivermos que nos valer desses truques para fazer o que é certo, então Nasuada e os Varden terão perdido toda a sua integridade.
Saphira parou. Eles estavam perante a arcada esculpida da biblioteca de Tronjheim. O salão grande e silencioso parecia vazio, embora as fileiras de estantes consecutivas entremeadas com colunas pudessem esconder muita gente. Lanternas vertiam uma luz suave pelas paredes cobertas por pergaminhos, e iluminavam os nichos de leitura ao longo de suas bases.
Ziguezagueando por entre as estantes, Saphira o levou até um nicho, onde Arya estava. Eragon fez uma pausa para estudá-la. Ela parecia muito mais agitada do que jamais a vira, embora isso só se manifestasse na tensão dos seus movimentos. Ao contrário de antes, ela usava sua espada com um gracioso rabo-de-rato. Uma das mãos estava apoiada no cabo. Eragon sentou-se do lado oposto da mesa de mármore. Saphira se posicionou entre os dois, onde nem um nem outro podia escapar a seu olhar.
— O que você fez? — perguntou Arya com uma hostilidade inesperada.
— Como assim?
Ela levantou o queixo.
— O que você prometeu aos Varden? O que você fez?
A última parte da pergunta chegou a Eragon mentalmente. Ele percebeu o quão perto a elfa estava de perder o controle. Um certo medo o afligiu.
— Só fizemos o que tinha de ser feito. Sou ignorante em relação aos costumes dos elfos, por isso, se minhas atitudes a ofenderam, peço desculpas. Não há motivos para ficar furiosa.
— Tolo! Você não sabe nada sobre mim. Passei sete décadas representando minha rainha por aqui. E por quinze anos guardei o ovo de Saphira entre os Varden e os elfos. Em todo esse tempo, lutei para garantir que os Varden tivessem líderes sábios e fortes o bastante para resistir a Galbatorix e respeitar os nossos desejos. Brom me ajudou forjando o acordo relativo ao novo Cavaleiro... você. Ajihad estava comprometido em mantê-lo como força independente para não prejudicar o equilíbrio do poder. Agora eu o vejo lado a lado com o Conselho de Anciãos, por vontade própria ou não, para controlar Nasuada! Você destruiu uma vida inteira de trabalho! O que você fez?
Espantado, Eragon deixou todas as evasivas de lado. Com palavras curtas e claras, explicou por que havia concordado com as exigências do Conselho e como ele e Saphira tentaram enfraquecê-los.
Quando ele terminou, Arya declarou:
— Era isso?
— Era isso. — Setenta anos. Embora soubesse que as vidas dos elfos eram extraordinariamente longas, ele nunca suspeitara que Arya fosse velha assim, e tão mais velha, porque ela parecia uma mulher de vinte e poucos anos. O único sinal de senilidade em seu rosto sem rugas eram os olhos verdes-esmeralda... profundos, astutos e frequentemente solenes.
Arya se recostou, enquanto o observava atentamente.
— Sua atitude não é a que eu desejava, mas é melhor do que eu esperava. Fui indelicada, Saphira... e você... entendem mais do que eu pensava. Seu compromisso será aceito pelos elfos, embora você jamais possa esquecer sua dívida para conosco por causa de Saphira. Não haveria Cavaleiros sem os nossos esforços.
— A dívida está gravada no meu sangue e na palma da minha mão — afirmou Eragon. No silêncio que se seguiu, ele começou a pensar num novo tópico, ansioso para prolongar sua conversa e, quem sabe, aprender mais sobre ela. — Você já está longe de casa há tanto tempo, não sente saudades de Ellesméra? Ou você viveu em outro lugar?
— Ellesméra foi, e sempre deverá ser, o meu lar — disse ela, olhando para o nada. — Não vou à casa da minha família desde que parti para me juntar aos Varden, quando as paredes e as janelas estavam cobertas com as primeiras flores da primavera. As vezes que voltei foram apenas estadas passageiras, lembranças que tendem a desaparecer.
Ele notou, mais uma vez, que ela recendia à folha de pinheiro moída. Era um aroma lânguido e apimentado que ativava seus sentidos e refrescava sua mente.
— Deve ser difícil viver no meio de todos esses anões e humanos sem mais ninguém da sua espécie.
Ela levantou a cabeça.
— Você fala dos humanos como se não fosse um.
— Talvez... — hesitou ele —, talvez eu seja uma outra coisa, uma mistura de duas raças. Saphira vive dentro de mim da mesma forma que eu vivo dentro dela. Compartilhamos sentimentos, sensações, pensamentos, mesmo quando somos mais uma mente do que duas. — Saphira concordou abaixando a cabeça por um instante, quase batendo na mesa com seu focinho.
— É assim que deve ser — disse Arya. — Um pacto mais antigo e poderoso do que vocês podem imaginar os liga. Você jamais entenderá de verdade o que significa ser um Cavaleiro até seu treinamento estar completo. Mas isso terá de ficar para depois do funeral. Por ora, que as estrelas zelem por você.
Dito isso ela partiu, adentrando as profundezas sombrias da biblioteca. Eragon pestanejou. O problema está em mim ou todo mundo está nervoso hoje? Como Arya – num momento está furiosa e no seguinte está me abençoando!
Ninguém ficará à vontade até as coisas voltarem ao normal.
Defina o que é normal.

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Boa leitura :)