8 de maio de 2017

Capítulo 29

Deus de descascar
O tofu está gostoso
Mas falta ìgboyà

LITIERSES TINHA TALENTO PARA fazer amigos.
Metade das pessoas correu para matá-lo. A outra metade gritou que também queria matá-lo e que era melhor a primeira metade sair da frente.
— Seu canalha!
Hunter Kowalski arrancou Litierses da cadeira e o jogou na parede, encostando uma chave de fenda emprestada no pescoço dele.
— Sssssai pra lá! — gritou Sssssarah. — Vou engoli-lo inteiro!
— Eu devia ter arremessado esse cara na parede do prédio — rosnou Leo.
— PAREM!
Josephine atravessou o grupo, e, como já era de se esperar, as pessoas abriram caminho. Ela tirou Hunter Kowalski de cima de Litierses e fez cara feia para o homem, como se ele fosse uma carruagem com o eixo quebrado.
— Você colocou rastreadores nos nossos grifos?
Lit massageou o pescoço.
— Sim. E o plano funcionou.
— Você tem certeza de que Cômodo sabe nossa localização?
Eu geralmente evitava atrair a atenção de um grupo furioso, mas me senti compelido a falar.
— Ele está dizendo a verdade — falei. — Nós ouvimos Litierses falando com Cômodo na sala do trono. Pensei que Leo já tivesse contado isso para vocês.
— Eu? — protestou Leo. — Ei, as coisas estavam caóticas! Eu achei que você... — O visor caiu para a frente, deixando o restante da frase ininteligível.
Litierses abriu os braços, que tinham tantas cicatrizes que pareciam troncos usados para testar serras elétricas.
— Me matem se quiserem. Não vai fazer diferença. Cômodo vai destruir este lugar e todo mundo aqui dentro.
Thalia Grace pegou a faca de caça. Em vez de estripar o espadachim, ela fincou a lâmina na mesa de centro mais próxima.
— As Caçadoras de Ártemis não vão deixar isso acontecer. Nós já lutamos muitas batalhas impossíveis. Perdemos muitas irmãs, mas nunca recuamos. No verão passado, na Batalha de Old San Juan... — Ela hesitou.
Era difícil imaginar Thalia à beira das lágrimas, mas ela estava se controlando para não estragar a pose punk rock. Eu me lembrei de uma coisa que Ártemis havia me dito quando estávamos exilados juntos em Delos... que as Caçadoras dela e as Amazonas lutaram contra o gigante Orion em Porto Rico. Uma base amazona foi destruída. Muitas morreram – Caçadoras que, se não tivessem morrido em batalha, poderiam ter vivido por milênios. O Lester Papadopoulos dentro de mim achava essa ideia aterrorizante.
— Nós não vamos perder a Estação Intermediária também — continuou Thalia. — Vamos ficar ao lado de Josephine e Emmie. Nós chutamos o podex de Cômodo hoje. E vamos chutar de novo quando ele chegar aqui.
As Caçadoras aplaudiram e gritaram. Talvez eu também tenha gritado. Adoro quando heróis corajosos se voluntariam para lutar em batalhas das quais não quero participar.
Litierses balançou a cabeça.
— O que vocês viram hoje foi só uma pequena amostra da força total de Cômodo. Ele tem recursos... amplos.
Josephine grunhiu.
— Nossos amigos o deixaram no mínimo com o nariz sangrando hoje. Talvez ele não ataque amanhã. Vai precisar de tempo para se reorganizar.
Lit soltou uma gargalhada desanimada.
— Você não conhece Cômodo como eu. Vocês o deixaram furioso. Ele não vai esperar. Ele nunca espera. Amanhã cedo, vai atacar com tudo. Vai matar todos nós.
Eu queria discordar. Queria acreditar que o imperador daria meia-volta e recuaria, decidindo nos deixar em paz porque, ora, mandamos tão bem no ensaio. Talvez ele até mandasse uma caixa de bombons como pedido de desculpas.
Mas eu conhecia Cômodo. Eu me lembrava do chão do Coliseu coberto de cadáveres. Eu me lembrava das listas de execução. Eu me lembrava dos lábios salpicados de sangue rosnando para mim: Você parece meu pai. Não quero mais pensar nas consequências!
— Litierses está certo — falei. — Cômodo recebeu uma profecia do Oráculo das Sombras. Ele precisa destruir este lugar e me matar. Só assim poderá fazer a cerimônia de nomeação amanhã à tarde. O que significa que ele vai atacar de manhã. Ele não gosta muito de esperar para conseguir o que deseja.
— Nósssss poderíamosssss sssssair de fininho — sugeriu Sssssarah. — Ir embora. Nosssss essssscondermos. Viver para lutar outro dia.
O fantasma Agamedes apontou com ênfase para a dracaena, obviamente concordando com a ideia dela. A gente acaba repensando nossas escolhas quando até nossos amigos mortos estão com medo de morrer.
Josephine balançou a cabeça.
— Não vou sair de fininho coisa nenhuma. Aqui é nossa casa.
Calipso assentiu.
— E se Emmie e Jo vão ficar, nós também vamos. Elas salvaram nossas vidas. Vamos lutar até a morte por elas. Certo, Leo?
Leo levantou o visor.
— Com certeza. Se bem que já passei por essa coisa de morrer e tal, então eu preferia lutar até a morte de outra pessoa. Por exemplo, a do Incômodo...
— Leo — repreendeu Calipso.
— É, nós estamos dentro. Eles nunca vão passar por nós.
Jamie passou por uma fila de Caçadoras e foi até a frente. Apesar do tamanho, ele se movia com a mesma graça de Agamedes, quase como se flutuasse.
— Eu tenho uma dívida com vocês — disse ele. — Vocês me salvaram da prisão daquele psicopata. Mas estou ouvindo muito sobre nós eles. Sempre fico meio apreensivo quando as pessoas falam assim, como se todo mundo pudesse ser tão facilmente dividido em amigo e inimigo. A maioria de nós aqui nem se conhece.
O homenzarrão indicou o grupo com a mão: Caçadoras, ex-Caçadoras, um ex-deus, uma ex-titã, semideuses, uma mulher cobra, dois grifos, um fantasma decapitado. E, no andar de baixo, ainda tínhamos uma elefanta chamada Lívia. Poucas vezes vi uma coleção tão variada de defensores.
— E ainda tem esse aqui. — Jamie apontou para Litierses. Sua voz parecia o ribombar de trovões prontos para se libertarem. — Ele agora é amigo? Devo lutar lado a lado com quem me escravizou?
Hunter Kowalski brandiu a chave de fenda.
— Não deveria.
— Espere! — gritei. — Litierses pode ser útil.
Mais uma vez, eu não sabia bem por que tinha me manifestado. Aquilo prejudicava meu objetivo principal, que era permanecer sempre protegido e popular.
— Litierses conhece os planos de Cômodo. Ele sabe que tipo de forças vão nos atacar. E a vida de Litierses está em perigo, assim como a nossa.
Expliquei que Cômodo tinha mandado matá-lo e que Litierses tinha enfiado a espada no pescoço do antigo senhor.
— Issssso não me faz confiar nele — sibilou Sssssarah.
O grupo murmurou em concordância. Algumas Caçadoras se prepararam para atacar.
— Esperem! — gritou Emmie, subindo na mesa de jantar.
O cabelo comprido se soltara da trança, fios de prata caindo pelas laterais do rosto. As mãos estavam sujas de massa de pão. Por cima das roupas camufladas, ela estava usando um avental com a foto de um hambúrguer e o slogan TIRE AS MÃOS DOS MEUS GLÚTENS. Ainda assim, o brilho duro nos olhos dela me lembrou o da jovem princesa de Naxos que pulou de um penhasco com a irmã, confiando nos deuses; a princesa que decidiu que preferia morrer a viver com medo do pai bêbado e furioso. Eu nunca tinha pensado que ficar mais velha, mais grisalha e mais corpulenta fosse deixar uma pessoa mais bonita. Mas parecia ser o caso de Emmie. De pé na mesa, ela era o centro de gravidade do salão, serena e firme.
— Para quem não me conhece — começou ela —, meu nome é Hemiteia. Jo e eu cuidamos da Estação Intermediária. Nós nunca recusamos pessoas com problemas, nem antigos inimigos. — Ela indicou Litierses. — Aqui recebemos de braços abertos os rejeitados pela sociedade: órfãos e fugitivos, pessoas que sofreram abuso, foram maltratadas ou enganadas, pessoas que não se sentem à vontade em nenhum outro lugar.
Ela indicou o teto, onde o vitral refletia a luz do sol em ângulos verdes e dourados.
— Britomártis, a Senhora das Redes, nos ajudou a construir este palácio.
— Uma rede de segurança para os seus amigos — falei de repente, lembrando o que Josephine me contara. — Mas uma armadilha para os seus inimigos.
Mais uma vez, eu era o centro das atenções. Mais uma vez, não gostei. (Eu estava mesmo começando a me preocupar comigo mesmo.) Meu rosto ardeu devido ao fluxo repentino de sangue nas minhas bochechas.
— Desculpe — falei para Emmie.
Ela me encarou, séria, como se questionasse onde mirar a próxima flecha. Acho que ela ainda não tinha me perdoado por possivelmente ser o pai divino de Georgina, apesar de ter recebido a notícia havia pelo menos cinco minutos. Tudo bem, eu tinha que dar um desconto. Às vezes, uma revelação daquelas podia demorar uma hora ou mais para ser absorvida.
Ela finalmente deu o braço a torcer e disse, assentindo:
— Apolo está certo. Amanhã podemos ser atacados, mas nossos inimigos vão descobrir que a Estação Intermediária protege os seus. Cômodo não vai sair daqui vitorioso. Josephine e eu vamos lutar para defender este lugar e qualquer um debaixo do nosso teto. Se vocês quiserem ser parte da nossa família, por um dia ou para sempre, são todos bem-vindos. Todos vocês. — Ela cravou o olhar em Lit.
O rosto do espadachim ficou pálido, as cicatrizes quase desaparecendo. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas emitiu apenas um ruído engasgado. Ele deslizou na parede e começou a tremer, chorando bem baixinho.
Josephine se agachou ao lado dele. Olhou para o grupo como se perguntando Alguém ainda vai querer arranjar confusão com esse cara?
Ao meu lado, Jamie grunhiu.
— Gostei dessas mulheres — disse ele. — Elas têm ìgboyà.
Eu não sabia o que era ìgboyà. Não conseguia nem adivinhar que língua era aquela, mas gostei do jeito como Jamie pronunciou a palavra. Decidi que compraria um pouco de ìgboyà assim que possível.
— Muito bem, então. — Emmie limpou as mãos no avental. — Se alguém quiser ir embora, agora é a hora. Mas vou preparar uma marmita para quem quiser levar.
Ninguém respondeu.
— Certo — disse Emmie. — Nesse caso, todo mundo vai ter uma tarefa para fazer à tarde!

* * *

Ela me fez descascar cenouras.
Sinceramente, uma invasão se aproximava, e eu, o antigo deus da música, fiquei preso na cozinha preparando salada. Eu deveria estar andando por aí com o ukulele, animando todo mundo com minhas músicas e meu carisma, não descascando vegetais!
O lado bom foi que as Caçadoras de Ártemis tiveram que limpar os currais de gado, então talvez houvesse certa justiça no cosmos.
Quando o jantar ficou pronto, todo mundo se espalhou pelo salão principal para comer. Josephine se sentou com Litierses em um canto, falando com ele devagar e calmamente, como se estivesse lidando com um pitbull que sofreu nas mãos de um dono cruel. A maioria das Caçadoras ficou sentada nos ninhos dos grifos, com as pernas balançando na beirada enquanto observavam o salão abaixo. Pelos sussurros e expressões sérias, imaginei que elas estivessem falando sobre a melhor forma de matar um grande número de inimigos no dia seguinte.
Hunter Kowalski se ofereceu para ficar com Georgina. A garotinha dormia profundamente desde a experiência traumática no Trono da Memória, mas a Caçadora queria estar lá caso ela acordasse. Emmie concordou e agradeceu, mas só depois de me lançar um olhar acusatório que dizia Não estou vendo você se oferecer para ficar com sua filha a noite toda. Ah, francamente. Até parece que eu sou o primeiro deus que esqueceu que teve uma filha que depois foi levada por um fantasma decapitado para ser criada por duas mulheres em Indianápolis!
Descobri que os dois semideuses que fizeram greve de fome, irmãos chamados Deacon e Stan, eram residentes da Estação Intermediária havia um ano. Agora os dois descansavam na enfermaria e recebiam néctar na veia. Sssssarah pegou uma cesta de ovos e saiu rastejando para passar a noite na sauna. Jamie comeu com alguns dos outros prisioneiros nos sofás, o que não fez com que eu me sentisse nem um pouco deixado de lado, não mesmo, que isso.
Isso me deixou à mesa de jantar com Meg (novidade!), Leo, Calipso, Emmie e Thalia Grace. Emmie ficava olhando para o outro lado da sala, para Josephine e Litierses.
— Nosso novo amigo, Litierses... — Ela pareceu incrivelmente sincera ao dizer a palavra amigo. — Eu conversei com ele mais cedo. Ele me ajudou a bater o sorvete e me contou muitas coisas sobre o exército que vamos enfrentar amanhã.
— Tem sorvete? — perguntei.
Eu tinha um talento natural para me concentrar no que realmente importava.
— Mais tarde — prometeu Emmie, embora o tom dela me dissesse que eu talvez não ganhasse nada. — É de baunilha. Nós íamos colocar pêssegos congelados, mas... — Ela olhou para Meg. — Achamos que talvez fosse de mau gosto.
Meg estava ocupada demais enfiando refogado de tofu na boca para responder.
— De qualquer modo — continuou Emmie —, Litierses acha que enfrentaremos algumas dezenas de mercenários mortais e de semideuses do Lar Imperial, algumas centenas de cinocéfalos variados e outros monstros, além das hordas habituais de blemmyae disfarçados de policiais, bombeiros e operários.
— Ah, que bom — disse Thalia Grace. — A galera de sempre.
Emmie deu de ombros.
— Cômodo quer derrubar a Union Station. Vai forjar uma evacuação de emergência para os mortais não notarem nada.
— Vazamento de gás — supôs Leo. — Quase sempre é vazamento de gás.
Calipso catou os pedaços de cenoura da salada, o que encarei como uma ofensa pessoal.
— Então, qual é nossa desvantagem? Dez para um? Vinte para um?
— Vai ser mole — disse Leo. — Eu cuido dos primeiros duzentos sozinho, e depois, se eu me cansar...
— Leo, chega. — Calipso franziu a testa para Emmie, como quem pede desculpas. — Ele faz mais piadinhas quando está nervoso. Também faz piadinhas piores.
— Eu não faço ideia do que você está falando.
Leo usou dois pedaços de cenoura como presas e rosnou.
Meg quase se engasgou com a comida.
Thalia soltou um longo suspiro.
— Ah, sim. Vai ser uma batalha divertida. Emmie, como está o seu estoque de flechas? Vou precisar de uma aljava inteira só para disparar em Leo.
Emmie sorriu.
— Temos muitas armas. E, graças a Leo e Josephine, as defesas da Estação Intermediária nunca estiveram tão fortes.
— De nada! — Leo cuspiu os pedaços de cenoura. — Eu também gostaria de mencionar o dragão gigante de bronze ali no canto, supondo que eu consiga terminar os ajustes hoje à noite. Ele ainda não está cem por cento.
Em outras situações, eu acharia o dragão de bronze gigante bem tranquilizador, mesmo que estivesse só setenta e cinco por cento, mas não gostei da proporção de vinte para um. Os gritos sedentos de sangue da plateia da arena ainda ressoavam nos meus ouvidos.
— Calipso, e a sua magia? — falei. — Voltou?
A frustração que tomou conta do rosto dela foi bem familiar. Era a mesma expressão que eu fazia quando pensava em todas as coisas divinas maravilhosas que eu não podia mais fazer.
— Só alguns surtos — respondeu ela. — Hoje de manhã, movi uma xícara de café pela bancada.
— É — disse Leo —, mas fez isso de um jeito incrível.
Calipso deu um tapa nele.
— Josephine diz que vai levar um tempo. Depois que a gente... — Ela hesitou. — Depois que a gente sobreviver à batalha de amanhã.
Tive a sensação de que não era aquilo que ela pretendia dizer. Leo e Emmie trocaram um olhar conspiratório. Preferi não insistir no assunto. No momento, a única conspiração em que eu estava interessado era a que me levaria de volta ao Monte Olimpo e restabeleceria a minha divindade antes do café da manhã do dia seguinte.
— Nós vamos conseguir — decretei.
Meg engoliu o restante da comida. Em seguida, exibiu seus modos refinados de sempre soltando um arroto e limpando a boca com o antebraço.
— Não eu e você, Lester. Nós não vamos estar aqui.
A salada do almoço começou a se revirar no meu estômago.
— Mas...
— A profecia, pateta. Primeira luz, lembra?
— É, mas se a Estação Intermediária for atacada... nós não devíamos estar aqui para ajudar?
Nunca pensei que uma pergunta daquelas partiria de mim. Quando eu era deus, teria adorado deixar os heróis mortais à própria sorte, se defendendo sozinhos. Teria feito pipoca e assistido ao banho de sangue de longe, no Monte Olimpo, ou talvez só visto os melhores momentos depois.
Mas, como Lester, eu me sentia obrigado a defender aquelas pessoas: a minha querida Emmie, a rude Josephine e a não tão pequena Georgina, que podia ou não ser minha filha. Thalia e as Caçadoras, Jamie da Tanga Adorável, os pais grifos orgulhosos no andar de cima, a excelente elefanta embaixo, até o detestável Litierses... Eu queria estar ao lado deles.
Você deve estar se perguntando por que eu ainda não tinha me dado conta do conflito de horários que minha obrigação causaria — procurar a Caverna de Trofônio na primeira luz me impediria de ficar na Estação Intermediária. Em minha defesa, só posso dizer que os deuses podem dividir sua essência em muitas manifestações ao mesmo tempo. Nós não somos muito bons em organização do tempo.
— Meg está certa — disse Emmie. — Trofônio convocou vocês. Conseguir a sua profecia pode ser a única forma de impedir que a profecia do imperador se realize.
Eu era o deus das profecias, e até eu estava começando a odiar profecias. Olhei para o espírito de Agamedes, pairando perto da escada. Pensei na última mensagem da Bola 8 Mágica. Nós não podemos ficar. Ele se referia aos defensores da Estação Intermediária? Ou a Meg e a mim? Ou a uma coisa totalmente diferente? Eu estava tão frustrado que queria pegar aquela bola e tacar na cabeça inexistente dele.
— Isso é bom, Apolo — disse Thalia. — Se Cômodo vier para cima de nós com tudo, é bem provável que não haja quase ninguém protegendo o Oráculo. Vai ser sua melhor chance de entrar.
— É — disse Leo. — Além do mais, talvez você volte a tempo de lutar conosco! Ou, você sabe, todo mundo morra e não faça diferença.
— Ah, agora estou me sentindo bem melhor — resmunguei. — Que problemas Meg e eu poderíamos encontrar, não é verdade?
— Pois é — concordou Meg.
Ela não parecia nem um pouco preocupada. Só podia ser falta de imaginação. Eu conseguia pensar em todos os tipos de destinos horríveis que poderiam acontecer com duas pessoas entrando na caverna perigosa de um espírito apavorante e hostil. Eu preferiria lutar com um monte de blemmyae em escavadeiras. Até consideraria descascar mais cenouras.
Quando eu estava recolhendo os pratos, Emmie segurou meu braço.
— Só me diga uma coisa — pediu ela. — Foi vingança?
Olhei para ela.
— O que... foi vingança?
— Georgina — murmurou ela. — Porque eu... você sabe, abri mão do seu presente da imortalidade. Ela foi... — A mulher apertou bem os lábios, como se não confiasse neles para dizer mais nada.
Eu não sabia que podia me sentir tão mal. Odeio isso no coração mortal. Parece ter uma capacidade infinita de ficar mais pesado.
— Querida Emmie — falei. — Eu nunca faria isso. Nem nos meus piores dias, quando estou destruindo nações com flechas carregadas de doenças ou montando listas de músicas bregas para o karaokê do Olimpo, eu nunca me vingaria dessa forma. Juro para você: eu não fazia ideia de que você estava aqui, nem de que tinha abandonado as Caçadoras, nem de que Georgina existia, nem de... Na verdade, eu não fazia ideia de nada. E sinto muito.
Para o meu alívio, um sorriso leve surgiu no rosto dela.
— Eu consigo acreditar nisso, pelo menos.
— Que eu sinto muito?
— Não — disse ela. — Que você não fazia ideia de nada.
— Ah... Então está tudo bem?
Ela pensou.
— Por enquanto. Mas quando Georgie se recuperar... nós vamos conversar mais.
Eu assenti, embora achasse que minha lista de tarefas desagradáveis já estava bem cheia.
— Muito bem, então. — Eu suspirei. — Acho melhor eu descansar um pouco e talvez começar a compor um novo haicai de morte.

6 comentários:

  1. To imaginando eles se armando pra guerra ao som de AC/DC

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    1. The Pretty Reckless

      - Carol, filha de Nêmesis

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  2. Por mais que eu ja tenha shippado caleo a relação deles não parece saudável. ...

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    1. não é q nao seja saudavel mas no momento eles estão sob muito estresse e falando a verdade a relação deles é muito nova ainda eles precisam de tempo pra amadurecer como casal

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    2. Nossa pareceu minha psicóloga

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  3. A gente acaba repensando nossas escolhas quando até nossos amigos mortos estão com medo de morrer.


    O momento em q vc percebe q a situação está difícil... Aguenta aí Apolo

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Boa leitura :)