22 de maio de 2017

Capítulo 29 - Um erro que custou caro

De manhã, Eragon e Brom pegaram seus alforjes no estábulo e prepararam-se para partir. Jeod cumprimentou Brom enquanto Helen observava tudo da porta. Com olhares sérios, os dois homens apertaram as mãos.
— Sentirei a sua falta, meu velho — disse Jeod.
— E eu, a sua — respondeu Brom rapidamente. Ele inclinou a sua cabeça branca em cumprimento e virou-se para Helen. — Obrigado pela sua hospitalidade, foi muito agradável. — O rosto dela ficou corado. Eragon achou que ela fosse dar um tapa nele, mas Brom continuou, tranquilo: — A senhora tem um bom marido, cuide bem dele. Existem poucos homens tão corajosos e determinados quanto ele. Mas não pode resistir aos tempos difíceis sem o apoio daqueles a quem ama. — Brom se curvou de novo e disse gentilmente: — Isso é apenas uma sugestão, cara senhora.
Eragon viu indignação e mágoa passarem pelo rosto de Helen. Os olhos dela faiscavam quando fechou a porta de repente. Suspirando, Jeod passou os dedos pelos cabelos. Eragon agradeceu-lhe toda a ajuda e montou em Cadoc. Depois das últimas despedidas, ele e Brom partiram.
No portão sul de Teirm, os guardas os deixaram passar sem olhá-los uma segunda vez. Quando cavalgavam sob a grande muralha da cidade, Eragon viu um movimento nas sombras. Solembum estava agachado no chão, abanando sua cauda. O menino-gato os seguiu com olhos inescrutáveis. Conforme a cidade ia ficando mais longe, Eragon perguntou:
— O que são os meninos-gato?
Brom pareceu surpreso com a pergunta.
— Por que a curiosidade repentina?
— Ouvi alguém falar neles em Teirm. Eles não são reais, são? — disse Eragon, fingindo ignorância.
— Eles são bem reais. Durante os anos de glória dos Cavaleiros, eram tão famosos quanto os dragões. Reis e elfos os tinham como companhia, embora os meninos-gato fossem livres para fazerem o que quisessem. Muito pouco se sabe sobre eles. Temo que essa raça tenha se tornado bem rara ultimamente.
— Eles podiam fazer magia? — perguntou Eragon.
— Ninguém sabe, mas eles, sem dúvida, podiam fazer coisas incomuns. Parecia que sempre sabiam o que estava acontecendo e, de alguma maneira, conseguiam se envolver. — Brom puxou o capuz para se proteger de um vento frio.
— O que é Helgrind? — perguntou Eragon, depois de parar para pensar por um momento.
— Você verá quando chegarmos a Dras-Leona.
Quando Teirm estava fora do alcance da vista, Eragon abriu sua mente e chamou:
Saphira!
A força do seu grito mental era tão grande que Cadoc, incomodado, sacudiu suas orelhas. Saphira respondeu e foi correndo até eles com toda a sua força. Eragon e Brom aguardavam quando uma mancha escura saiu de uma nuvem, então, ouviram um ruflar grave quando as asas de Saphira abriram-se.
O sol brilhava atrás das finas membranas, tornando-as translúcidas, destacando as veias escuras. Pousou causando um grande golpe de ar.
Eragon jogou as rédeas de Cadoc para Brom.
— Encontrarei você na hora do almoço.
Brom concordou com a cabeça, mas parecia preocupado.
— Divirta-se — disse ele e depois olhou para Saphira e sorriu. — É bom revê-la.
E a você também.
Eragon pulou nos ombros de Saphira e agarrou-se o mais forte possível quando ela alçou voo. Com o vento na cauda, Saphira cortava o ar.
Segure-se, ela alertou Eragon e, soltando um rosnado selvagem, foi para o alto, dando uma grande cambalhota no ar. Eragon gritou de emoção quando jogou os braços para cima, segurando-se apenas com as pernas.
Eu não sabia que podia me segurar assim sem estar preso na sela, disse ele rindo intensamente.
Nem eu, admitiu Saphira, rindo de sua maneira peculiar. Eragon a abraçou com força, e nivelaram o voo, senhores do céu.
Ao meio-dia, as suas pernas estavam doídas por ter montado sem a sela, e suas mãos e seu rosto estavam dormentes por causa do ar gelado. As escamas de Saphira sempre eram quentes ao toque, mas ela não podia evitar que ele ficasse com frio. Quando pousaram para o almoço, enfiou as mãos nas roupas e procurou um lugar ensolarado e quente para se sentar. Enquanto ele e Brom comiam, Eragon perguntou a Saphira:
Você se importaria se eu montasse em Cadoc?
Ele havia decidido questionar Brom sobre seu passado.
Não, mas me conte o que ele disser.
Eragon não estava surpreso por Saphira saber seus planos. Era quase impossível esconder qualquer coisa dela quando estavam ligados mentalmente. Ao fim da refeição, voou para longe, enquanto ele se juntava a Brom na trilha. Depois de um tempo, Eragon fez Cadoc andar mais devagar e disse:
— Preciso falar com você. Queria fazer isso desde que chegamos a Teirm, mas decidi esperar até agora.
— Falar sobre o quê? — perguntou Brom.
Eragon fez uma pausa.
— Há muitas coisas acontecendo que não entendo. Por exemplo, quem são seus “amigos” e por que você estava se escondendo em Carvahall? Confio em você com toda a minha alma, e é por isso que ainda estou viajando a seu lado, mas preciso saber mais sobre você e o que está fazendo. O que roubou em Gil’ead? E o que é essa tal de tuatha du orothrim pela qual estou passando? Acho que depois de tudo que aconteceu, mereço uma explicação.
— Você andou nos escutando às escondidas.
— Só uma vez — revelou Eragon.
— Vejo que ainda precisa aprender boas maneiras — zangou-se Brom, puxando a barba. — O que o faz pensar que isso tudo tem a ver com você?
— Na verdade, nada — retorquiu Eragon, dando de ombros. — Mas foi apenas uma coincidência estranha você estar escondido em Carvahall quando eu achei o ovo da Saphira, além do fato de você saber tanto sobre dragões. Quanto mais penso sobre isso, menos coincidência isso me parece. Havia outras pistas que ignorei, mas, ao olhar para trás, vejo que são óbvias. Como o jeito que você reconheceu os Ra’zac e o modo como eles fugiram quando você se aproximou. E não posso deixar de imaginar se você não teve algo a ver com o aparecimento do ovo da Saphira. Há muitas coisas que não nos contou, e Saphira e eu não podemos ignorar nada que possa ser perigoso.
Rugas fundas apareceram na testa de Brom quando puxou as rédeas para fazer Fogo na Neve parar.
— Você não quer esperar? — perguntou.
Eragon balançou a cabeça teimosamente.
Brom suspirou.
— Isso não seria problema se você não fosse tão desconfiado, mas acho que você não seria digno do meu tempo se não fosse assim. — Eragon não sabia se encarava isso como um elogio. Brom acendeu seu cachimbo e, lentamente, soprou uma nuvem de fumaça para o alto. — Vou contar — disse —, mas você deve entender que não posso revelar tudo. — Eragon começou a protestar, mas Brom o cortou. — Não é a minha vontade esconder informações de você, mas não posso revelar segredos que não são meus. Há outras histórias entrelaçadas nesta narrativa. Você terá de falar com os outros envolvidos para saber do resto.
— Tudo bem. Explique o que puder — aceitou Eragon.
— Tem certeza? — perguntou Brom. — Há razões para o meu segredo. Venho tentando protegê-lo ao escondê-lo de forças que poderiam acabar com você. Assim que conhecê-las e os seus propósitos, nunca mais terá a chance de viver tranquilamente. Você terá de escolher um lado e tomar um partido. Quer realmente saber?
— Não posso viver na ignorância — disse Eragon calmamente.
— É um objetivo nobre... Muito bem: há uma grande guerra na Alagaësia entre os Varden e o Império. O conflito deles, entretanto, vai muito além de suas eventuais batalhas armadas. Eles travam uma luta titânica pelo poder... Cujo centro é você.
— Eu? — indagou Eragon descrente. — Isso é impossível. Não tenho nada a ver com nenhum deles.
— Ainda não — disse Brom. — Mas a sua existência é o foco das batalhas. Os Varden e o Império lutam para dominar esta terra ou o seu povo. O objetivo deles é controlar a próxima geração de Cavaleiros, da qual você é o primeiro. Quem controlar esses Cavaleiros, será o indiscutível senhor de Alagaësia.
Eragon tentou absorver as afirmações de Brom. Parecia incompreensível que tantas pessoas estivessem interessadas nele e em Saphira. Ninguém além de Brom achava que ele era importante. A ideia de o Império e os Varden estarem lutando por causa dele era algo abstrato demais para que entendesse tudo completamente. Objeções formaram-se rápido na sua mente.
— Mas todos os Cavaleiros foram mortos, exceto pelos Renegados, que se juntaram a Galbatorix. E pelo que sei, até esses já morreram. E você me disse no Carvahall que ninguém sabia se ainda havia dragões em Alagaësia.
— Eu menti sobre os dragões — afirmou Brom sem rodeios. — Embora os Cavaleiros não existam mais, ainda restam três ovos de dragões, todos eles estão sob a posse de Galbatorix. Na verdade, agora só restam dois, já que Saphira nasceu. O rei pegou os três ovos durante sua última grande batalha com os Cavaleiros.
— Então, logo haverá dois novos Cavaleiros leais ao rei? — perguntou Eragon, sentindo-se triste.
— Exatamente — confirmou Brom. — Há uma corrida fatídica em andamento. Galbatorix tenta achar desesperadamente as pessoas para quem os ovos eclodirão, enquanto os Varden tentam de toda maneira matar os candidatos ou roubar os ovos.
— Mas de onde veio o ovo da Saphira? Como alguém conseguiu roubá-lo do rei? E por que você sabe disso tudo? — perguntou Eragon confuso.
— Perguntas demais — riu Brom amargamente. — Há outro capítulo nisso tudo, algo que aconteceu muito antes de você nascer. Na época, eu era um pouco mais jovem, mas, talvez, não tão sábio. Eu odiava o Império, por questões que prefiro guardar para mim mesmo, e queria prejudicá-lo de todas as maneiras possíveis. Meu fervor me levou até um estudioso, Jeod, que alegava ter descoberto um livro que mostrava uma passagem secreta para o castelo de Galbatorix. Ansioso, levei Jeod até os Varden, que são os meus “amigos”, e eles bolaram um plano para roubar os ovos.
Os Varden!
— Entretanto, algo deu errado, e nosso ladrão pegou apenas um ovo. Por algum motivo, fugiu com o ovo e não voltou para os Varden. Quando ele não foi encontrado, Jeod e eu fomos enviados para trazê-lo e o ovo de volta.
Os olhos de Brom ficaram distantes, e ele falou com uma voz estranha.
— Esse foi o começo de uma das maiores buscas da história. Nós corremos contra os Ra’zac e Morzan, o último dos Renegados e o melhor servo do rei.
— Morzan! — interrompeu Eragon. — Mas foi ele que entregou os Cavaleiros a Galbatorix! E isso aconteceu há muito tempo! Morzan devia ser muito velho.
Ficou perturbado ao se lembrar de quanto tempo os Cavaleiros viviam.
— E daí? — perguntou Brom erguendo uma sobrancelha. — Sim, ele era velho, porém era forte e cruel. Foi um dos primeiros seguidores do rei e, de longe, o mais leal. Como já havia corrido sangue entre nós antes, a corrida pelo ovo tornou-se uma batalha pessoal. Quando ele foi localizado em Gil’ead, corri para lá e lutei com Morzan pela sua posse. Foi uma luta terrível, mas, no final, eu o matei. Durante o conflito, fui separado de Jeod. Não havia tempo para procurá-lo, então peguei o ovo e o entreguei aos Varden, que me pediram para treinar quem se tornaria o novo Cavaleiro. Concordei e decidi me esconder em Carvahall, onde eu já havia estado várias vezes antes, até que os Varden fizessem contato. Eu nunca fui convocado.
— Então, como o ovo da Saphira apareceu na Espinha? Foi outro ovo roubado do rei? — quis saber Eragon.
Brom resmungou:
— Seria difícil isso acontecer. Ele guarda os dois últimos com tanto afinco que seria suicídio tentar roubá-los. Não, Saphira foi roubada dos Varden, e acho que sei como. Para protegê-lo, seu guardião deve ter tentado mandá-lo para mim usando magia. Os Varden não fizeram contato comigo para explicar como perderam o ovo, então suspeito que os mensageiros foram interceptados pelo Império, e os Ra’zac foram enviados no lugar deles. Tenho certeza de que estão ansiosos para me achar, pois consegui estragar vários planos que eles tinham.
— Então, os Ra’zac não sabiam nada sobre mim quando chegaram em Carvahall — disse Eragon, pasmado.
— Exatamente — respondeu Brom. — Se aquele idiota do Sloan tivesse mantido o bico fechado, talvez não descobrissem nada sobre você. Os eventos poderiam ter sido bem diferentes. De certa forma, devo agradecer a você o fato de ainda estar vivo. Se os Ra’zac não tivessem ficado preocupados com você, poderiam ter me pegado desprevenido, e esse teria sido o fim de Brom, o contador de histórias. A única razão de terem fugido é que sou mais forte do que eles dois, especialmente durante o dia. Deviam ter planejado me pegar durante a noite, quando me interrogariam sobre o ovo.
— Você mandou uma mensagem para os Varden falando sobre mim?
— Mandei. Sei que eles vão querer que eu leve você a eles o mais rápido possível.
— Mas você não vai levar, não é?
Brom balançou a cabeça.
— Não vou.
— Por quê? Ficar com os Varden deve ser mais seguro do que perseguir os Ra’zac, especialmente para um novo Cavaleiro.
Brom bufou e olhou para Eragon com afeto:
— Os Varden são pessoas perigosas. Se você for até eles, ficará envolvido em suas politicagens e tramas. Os líderes poderiam mandá-lo em várias missões só para chamar a atenção, mesmo que ainda não estivesse preparado para elas. Quero que você esteja muito bem preparado antes de chegar perto dos Varden. Pelo menos, enquanto estivermos perseguindo os Ra’zac, não preciso me preocupar se alguém poderá envenenar a água que você beberá. Esse é o menor dos males. E — disse ele com um sorriso — ficará feliz enquanto eu o estiver treinando... Tuatha du orothrim é apenas um estágio no seu treinamento. Eu o ajudarei a achar, e talvez até a matar, os Ra’zac, pois eles são tão meus inimigos quanto seus. Mas depois você terá de fazer uma escolha.
— Que será...? — perguntou Eragon desconfiado.
— Se juntar ou não aos Varden — disse Brom. — Se você matar os Ra’zac, as únicas alternativas para escapar da ira de Galbatorix serão: procurar a ajuda dos Varden; fugir para Surda; ou implorar a misericórdia do rei e juntar-se a ele. Mesmo que não mate os Ra’zac, no final você terá que fazer essa escolha.
Eragon sabia que a melhor maneira de ganhar proteção seria se juntar aos Varden, mas ele não queria passar a vida inteira lutando contra o Império como eles faziam. Ponderou sobre os comentários de Brom, tentando considerá-los sob todos os aspectos.
— Você ainda não me explicou como sabe tanto sobre dragões.
— Não expliquei, não é mesmo? — disse Brom com um sorriso maroto no rosto. — Isso terá de esperar outra oportunidade.
Por que eu? Eragon perguntava a si mesmo. O que fez dele tão especial para que se tornasse um Cavaleiro?
— Você conheceu a minha mãe? — indagou de repente.
Brom ficou com uma expressão séria.
— Sim, conheci.
— Como ela era?
O velho suspirou.
— Ela era cheia de dignidade e orgulho, como Garrow. No final das contas, essa foi a causa de sua ruína, mas era um de seus maiores dons... Ela sempre ajudava os pobres e os menos afortunados, não importava qual era sua situação.
— Você a conhecia bem? — quis saber Eragon surpreso.
— Bem o bastante para sentir sua falta quando partiu.
Enquanto Cadoc andava pesadamente, Eragon tentou se lembrar de quando pensava que Brom era apenas um velhote que contava histórias. Pela primeira vez, Eragon entendeu como ele era desinformado.
Contou a Saphira o que ficou sabendo. Ela ficou intrigada com as revelações de Brom, mas horrorizou-se ao pensar que foi uma das posses de Galbatorix. Finalmente, ela disse:
Você não está feliz por não ter ficado em Carvahall? Pense em todas as experiências interessantes que teria perdido!
Eragon suspirou fingindo agonia.
Quando pararam naquele dia, Eragon foi buscar água enquanto Brom fazia o jantar. Ele esfregava suas mãos para esquentá-las no momento em que entrou em um grande círculo, seguindo o som de um riacho ou de uma fonte. Estava sombrio e úmido entre as árvores.
Achou um riacho afastado do acampamento. Agachou-se na margem e observou a água cair em cima das pedras molhando a ponta de seus dedos. A água gelada da montanha escorreu em volta de sua pele, deixando-a dormente. Não importa o que aconteça conosco ou com qualquer outra pessoa, pensou Eragon. Ele tremeu e ficou em pé.
Uma pegada diferente do outro lado da margem chamou a sua atenção. Tinha uma forma incomum e era muito grande. Curioso, saltou da margem para cima de um banco de areia. Ao pousar, seu pé atingiu um monte de musgos. Agarrou um galho para tentar se equilibrar, mas este quebrou, e Eragon esticou o braço para aparar sua queda. Sentiu seu pulso direito quebrar ao bater no chão. A dor subiu lancinante por seu braço.
Uma sequência contínua de xingamentos saiu de trás de seus dentes cerrados, pois ele tentava não berrar. Sem ver direito por causa da dor, ele se enrolou no chão, protegendo o braço.
Eragon! Ele ouviu o grito assustado de Saphira. O que aconteceu?
Quebrei o pulso... Fiz uma besteira... Caí.
Estou indo, disse Saphira.
Não... Eu posso voltar. Não... venha, As árvores estão juntas demais para você abrir as asas.
Ela enviou a Eragon uma breve imagem dela dizimando a floresta para chegar até ele e disse: Rápido.
Gemendo, ficou em pé, cambaleante. A pegada estava impressa fundo no solo a poucos metros de distância. Era a marca de uma bota pesada, Eragon lembrou imediatamente das pegadas que cercavam a pilha de corpos em Yazuac.
— Urgal — ele falou com raiva, desejando que Zar’roc estivesse com ele, pois não podia usar o arco com apenas uma das mãos. Ele jogou a cabeça para cima e gritou com a mente:
Saphira! Urgals! Mantenha Brom em segurança.
Eragon voltou a pular por cima do riacho e correu de volta ao acampamento, sacando a sua faca de caça. Ele viu inimigos em potencial atrás de todos os arbustos. Espero que seja só um Urgal. Ele entrou correndo no acampamento, abaixando-se quando a cauda de Saphira passou por cima da cabeça dele.
— Pare, sou eu! — gritou ele.
Opa! Disse Saphira. Suas asas estavam dobradas na frente do peito, como uma parede.
— Opa? — Eragon resmungou, correndo até ela. — Você poderia ter me matado! Onde está Brom?
— Estou bem aqui — a voz de Brom soou depressa atrás das asas de Saphira. — Quer mandar esse dragão maluco me soltar? Ela não quer me ouvir.
— Solte-o — ordenou Eragon irritado. — Você não contou a ele?
Não, disse ela envergonhada. Você apenas me disse para mantê-lo em segurança. Ergueu as asas e Brom, zangado, deu um passo à frente.
— Achei uma pegada de Urgal. E está fresca.
Brom ficou sério imediatamente.
— Sele os cavalos. Vamos partir. — Ele apagou o fogo, mas Eragon não se mexeu. — O que houve com o seu braço?
— Meu pulso está quebrado — disse ele cambaleante.
Brom xingou e selou Cadoc. Ele ajudou Eragon a montar e disse:
— Teremos de pôr uma tala no seu braço o mais rápido possível. Tente não mover seu pulso até então. — Eragon segurou as rédeas com força com a mão esquerda.
Brom disse a Saphira:
— Está quase escuro. Você poderia voar na nossa frente. Se os Urgals aparecerem, pensarão duas vezes em atacar com você por perto.
É melhor que pensem assim ou nunca mais pensarão de novo, comentou Saphira ao decolar.
A luz desaparecia rapidamente, e os cavalos estavam cansados, mas eles davam esporeadas nos animais sem trégua. O pulso de Eragon, inchado e vermelho, continuava a latejar. A quase dois quilômetros do acampamento, Brom parou.
— Ouça — alertou ele.
Eragon ouviu o chamado fraco de uma trombeta de caça atrás deles. Quando ela se silenciou, o pânico tomou conta dele.
— Eles devem ter achado onde estávamos — disse Brom — e, provavelmente, as pegadas de Saphira. Eles vão nos perseguir agora. Não é da natureza deles deixar uma presa escapar. — Depois, duas trombetas soaram.
Elas estavam mais perto. Um calafrio percorreu o corpo de Eragon.
— Nossa única chance é fugir — sugeriu Brom. Ele levantou a cabeça para o céu e seu rosto ficou pálido ao chamar Saphira.
Ela surgiu no meio do céu escuro e pousou.
— Deixe Cadoc. Vá com ela. Você ficará em segurança — ordenou Brom.
— Mas e você? — protestou Eragon.
— Eu ficarei bem. Agora, vá! — Sem energia para discutir, Eragon montou em Saphira enquanto Brom fez Fogo na Neve disparar com uma chicotada e cavalgou para longe com Cadoc. Saphira voou atrás dele, batendo as asas acima dos cavalos galopantes.
Eragon agarrou-se a Saphira da melhor maneira que podia, ele apertava os olhos cada vez que os movimentos dela empurravam seu pulso. As trombetas soavam bem perto, causando uma nova onda de pavor. Brom atravessava os arbustos, levando os cavalos aos seus limites. As trombetas tocaram em uníssono bem atrás dele, depois, ficaram em silêncio.
Os minutos passaram. Onde estão os Urgals?, pensou Eragon. Uma trombeta soou, desta vez, distante. Suspirou aliviado, encostando-se no pescoço de Saphira, enquanto, no chão, Brom diminuía o passo do seu galope.
Essa foi perto, constatou Eragon.
Foi, mas não podemos parar até... Saphira foi interrompida quando uma trombeta soou bem embaixo deles. Eragon pulou surpreso, e Brom recomeçou a sua retirada frenética. Urgals chifrudos, gritando com vozes loucas, movimentavam-se a cavalo em alta velocidade na trilha, ganhando terreno rapidamente.
Estavam quase à vista de Brom, o velho não poderia correr mais do que eles.
Precisamos fazer alguma coisa, exclamou Eragon.
O quê?
Pouse na frente dos Urgals!
Você perdeu o juízo? Disse Saphira.
Pouse! Sei o que estou fazendo! Ordenou Eragon. Não temos tempo para mais nada. Eles vão alcançar Brom!
Tudo bem. Saphira passou a frente dos Urgals, fez a volta e preparou para pousar na trilha. Eragon concentrou-se para ter acesso ao seu poder e sentiu a resistência familiar na mente dele que o separava da magia. Ele não tentou usá-la ainda. Um músculo pulava em seu pescoço.
Enquanto os Urgals marchavam na trilha, ele gritou:
— Agora!
Saphira, de modo abrupto, fechou as asas e desceu direto de cima das árvores, pousando na trilha, produzindo uma chuva de terra e pedras.
Os Urgals gritaram assustados e puxaram as rédeas dos seus cavalos. Os animais ficaram com as pernas duras e bateram uns nos outros, mas os Urgals se ajeitaram rapidamente para encarar Saphira com as armas expostas. O ódio ficou estampado em seus rostos quando olharam fixamente para ela. Havia doze deles, eram animais feios e zombeteiros. Eragon pensou por que não fugiram. Achou que a visão de Saphira iria assustá-los, fazendo-os correr para longe. Por que estão esperando? Eles vão nos atacar ou não?
Ficou chocado quando o maior Urgal se aproximou dele e disse cuspindo:
— O nosso chefe quer falar com você, humano! — O monstro falou com uma voz grave e gutural.
É uma armadilha! Alertou Saphira antes que Eragon pudesse falar qualquer coisa. Não lhe dê ouvidos.
Pelo menos, vamos ver o que ele tem a dizer, argumentou Eragon curioso, mas extremamente cauteloso.
— Quem é o seu chefe? — perguntou Eragon.
O Urgal olhou com desdém.
— O nome dele não deve ser dito a alguém tão inferior quanto você. Ele governa o céu e domina a terra. Você não é nada mais do que uma formiga desgarrada para ele. Porém, ele decretou que você deve ser levado até ele, vivo. Fique grato por ter sido digno de tal graça!
— Eu nunca irei com você ou com nenhum de meus inimigos! — declarou Eragon, lembrando-se de Yazuac. — Não importa que você sirva um Espectro, um Urgal ou algum outro inimigo do qual eu nunca tenha ouvido falar, não tenho nenhuma vontade de conversar com ele.
— Esse será um grave erro — rosnou o Urgal, mostrando as presas. — Não há como fugir dele. No final, você ficará perante o nosso chefe. Se resistir, ele encherá os seus dias com agonia.
Eragon pensou em quem teria o poder de unir os Urgals sob uma só bandeira. Será que havia uma terceira força à solta na terra, junto com o Império e os Varden?
— Guarde a sua oferta e diga ao seu chefe que pouco me importa se os corvos comerem as entranhas dele!
A raiva correu entre os Urgals. O líder uivou, rangendo os dentes.
— Então, vamos levá-lo arrastado até ele! — Ele fez um gesto com o braço, e os Urgals avançaram para cima de Saphira.
Levantando a mão direita, Eragon gritou:
— Jierda!
Não! Berrou Saphira, mas já era tarde demais.
Os monstros tropeçaram quando a palma da mão de Eragon brilhou.
Raios de luz emanavam da mão dele, atingindo cada um deles no estômago. Os Urgals foram jogados para o alto, contra as árvores, caindo desmaiados no chão.
A fadiga, de repente, exauriu as forças de Eragon, e ele tombou do dorso de Saphira. Sua mente estava nebulosa e obscura. Quando Saphira se curvou sobre ele, Eragon percebeu que podia ter ido longe demais. A energia necessária para levantar e arremessar doze Urgals foi gigantesca. O medo tomou conta dele quando ele tentava se manter consciente.
Pelo canto do olho, viu um dos Urgals ficar em pé, cambaleante, empunhando a espada. Eragon tentou avisar Saphira, mas estava fraco demais.
Não... Pensou ele com fraqueza. O Urgal arrastou-se em direção a Saphira até passar da cauda dela. Depois, ergueu a espada para atingi-la no pescoço.
Não!...
Saphira girou em volta do monstro, rugindo de modo selvagem. Suas garras cortaram-no em uma velocidade incrível. Sangue espirrou por toda parte quando o Urgal foi dividido em dois. Saphira fechou as mandíbulas com força, produzindo um estalo, determinada, e voltou para Eragon. Envolveu gentilmente suas garras ensanguentadas no tronco dele, soltou um rosnado e pulou para o alto. A noite virou um borrão repleto de dor. O som hipnótico das asas de Saphira fizeram-no entrar em um transe escuro: para cima, para baixo, para cima, para baixo, para cima, para baixo...
Quando finalmente Saphira pousou, Eragon, vagamente consciente, ouviu Brom conversando com ela. Não entendeu o que disseram, mas uma decisão deve ter sido tomada, pois Saphira alçou voo de novo.
Seu torpor rendeu-se ao sono, cobrindo-o como um cobertor macio.

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