8 de maio de 2017

Capítulo 28

Arrotos fedidos
Espere. O quê?
Mas de onde você veio?

NO FIM DAS CONTAS, entrar com um elefante na Estação Intermediária não foi tão difícil quanto eu havia esperado.
Eu tinha até imaginado a cena: nós tentando fazer Lívia escalar uma escada ou alugando um helicóptero para jogá-la pela escotilha no telhado direito nos ninhos dos grifos. Mas assim que nós chegamos à lateral do prédio, os tijolos rolaram e se rearrumaram, criando uma passagem em arco e uma rampa com declive suave.
Lívia entrou sem hesitar. No final do corredor, encontramos um abrigo perfeito para elefantes, com pé-direito alto, pilhas enormes de feno, janelas basculantes para deixar o sol entrar, um riacho serpenteando pelo meio do aposento e uma televisão de tela grande ligada no Canal Elefante da TV Hefesto, exibindo Os verdadeiros elefantes das savanas africanas. (Eu não sabia que a TV Hefesto tinha esse canal. Devia estar incluído no pacote premium, que eu não assinava.) Melhor de tudo, não havia nenhum gladiador nem armadura de elefante à vista.
Lívia bufou em aprovação.
— Fico feliz de você gostar, minha amiga. — Eu desci, seguido de Thalia. — Agora, divirta-se enquanto vamos procurar nossas anfitriãs.
Lívia entrou no riacho e rolou de lado, usando a tromba para se banhar. Fiquei tentado a me juntar a ela, mas tinha coisas menos agradáveis a resolver.
— Venha — disse Thalia. — Eu sei o caminho.
Eu não imaginava como ela o conhecia. A Estação Intermediária mudava tanto que parecia impossível alguém aprender a se deslocar ali dentro. Mas, fiel à palavra, Thalia me levou por vários lances de escadas, por um ginásio que eu nunca tinha visto, até o salão principal, onde havia um grupo de pessoas reunidas.
Josephine e Emmie estavam ajoelhadas na frente do sofá onde Georgina tremia, chorava e ria. Emmie tentou fazer a garotinha beber água. Jo limpou o rosto de Georgie com uma toalha. Ao lado delas vi o Trono de Mnemosine, mas não dava para saber se já tinham tentado usá-lo. Georgie não parecia melhor.
Na oficina de Josephine, Leo estava dentro do peitoral de Festus, operando um maçarico. O dragão tinha se encolhido o máximo possível, mas ainda ocupava um terço do aposento. A lateral da caixa torácica fora aberta como o capô de um caminhão. As pernas de Leo ficavam para fora, com fagulhas chovendo no chão ao redor dele. Festus não parecia incomodado com essa cirurgia invasiva. No fundo da garganta, ronronava em um tom baixo e metálico.
Calipso dava a impressão de estar totalmente recuperada do passeio ao zoológico do dia anterior. Ia de um lado para o outro da sala, levando comida, bebida e suprimentos médicos para os prisioneiros resgatados. Algumas das pessoas que libertamos ficaram bem à vontade e se serviram na despensa, remexendo em armários com tanta familiaridade que desconfiei que tinham morado na Estação Intermediária antes de serem capturados.
Os dois garotos esqueléticos estavam sentados à mesa de jantar, tentando ir devagar enquanto mastigavam pedaços de pão fresco. Hunter Kowalski, a garota de cabelo prateado, se juntara às outras Caçadoras de Ártemis, murmurando e lançando olhares desconfiados para Litierses. Ele estava sentado em uma espreguiçadeira no canto, virado para a parede, a perna ferida já com curativo.
Sssssarah, a dracaena, tinha descoberto o caminho para a cozinha. Ela estava em frente à bancada, segurando uma cesta de ovos frescos do galinheiro, engolindo um ovo inteiro atrás do outro.
O Alto, Bonito & Jamie se encontrava no ninho dos grifos, fazendo amizade com Heloísa e Abelardo. Os animais deixaram que ele coçasse embaixo de seus bicos, um sinal de grande confiança, ainda mais porque eles estavam protegendo um ovo no ninho (e sem dúvida com medo de Sssssarah comê-lo). Infelizmente, Jamie tinha vestido roupas. Ele agora usava um terno caramelo e deixara a camisa aberta no colarinho. Eu não sabia onde ele tinha arranjado uma roupa tão arrumadinha que coubesse naquele corpanzil. Talvez a Estação Intermediária oferecesse roupas com a mesma facilidade com que oferecia hábitats de elefante.
Os outros prisioneiros libertados andavam pela sala, beliscando pão e queijo, olhando impressionados para o teto de vitral e às vezes fazendo caretas diante de barulhos altos, o que era completamente normal para quem estava sofrendo de Transtorno de Estresse Pós-Cômodo. O descabeçado Agamedes flutuava entre os recém-chegados, oferecendo a Bola 8 Mágica, o que acho que era a versão dele de jogar conversa fora.
Meg McCaffrey usava outro vestido verde com calça jeans, o que estragou seu visual de sinal de trânsito usual. Ela se aproximou, deu um soco no meu braço e parou do meu lado, como se estivéssemos esperando um ônibus.
— Por que você me bateu?
— Estava dizendo oi.
— Ah... Meg, esta é Thalia Grace.
Eu me perguntei se Meg também ia cumprimentá-la com um soco, mas a menina apenas esticou a mão e apertou a de Thalia.
— Oi.
Thalia sorriu.
— É um prazer, Meg. Ouvi falar que você é ótima com espadas.
Os olhos de Meg se estreitaram por trás dos óculos sujos.
— Onde você ouviu isso?
— Lady Ártemis anda observando você. Ela fica de olho em todas as jovens guerreiras promissoras.
— Ah, não — falei. — Pode dizer para minha amada irmã desistir. Meg é minha companheira semideusa.
— Senhora — corrigiu Meg.
— Dá no mesmo.
Thalia riu.
— Bom, se vocês me dão licença, é melhor eu dar uma olhada nas minhas Caçadoras antes que elas matem Litierses.
A tenente se afastou.
— Falando nisso... — Meg apontou para o filho machucado de Midas. — Por que você trouxe esse cara para cá?
Litierses não tinha se movido. Encarava a parede, de costas para as pessoas, como se as convidasse para uma apunhalada básica. Mesmo do outro lado da sala, era possível notar que ondas de desespero e derrota irradiavam dele.
— Você mesma disse — falei para Meg. — Tudo que é vivo merece uma chance de crescer.
— Humpf. Sementes de chia não trabalham para imperadores malvados. Não tentam matar seus amigos.
Percebi que Pêssego não estava em lugar algum.
— Seu karpos está bem?
— Está. Ele vai passar um tempinho fora... — Ela fez um gesto vago no ar, que indicava a terra mágica para onde os espíritos do pêssego vão quando não estão devorando os inimigos ou gritando PÊSSEGO! — Você confia mesmo em Lit?
O tom de Meg foi duro, mas seu lábio inferior tremeu. Ela levantou o queixo como se estivesse se preparando para um soco. Sua expressão era a mesma que estampou o rosto de Litierses quando o imperador o traiu, a mesma que a da deusa Deméter quando, séculos atrás, ela estava diante do trono de Zeus, a voz cheia de dor e descrença: Você vai mesmo deixar Hades se safar de ter sequestrado minha filha Perséfone?
Meg perguntava se nós podíamos confiar em Litierses. Mas a verdadeira pergunta dela era bem maior: ela podia confiar em alguém? Havia alguém no mundo, fosse um familiar, amigo ou Lester, que realmente ficaria ao lado dela quando a situação apertasse?
— Querida Meg — falei. — Não tenho como ter certeza sobre Litierses. Mas acho que temos que tentar. Só existe a possibilidade de fracassar quando paramos de tentar.
Ela observou um calo no dedo indicador.
— Mesmo depois que alguém tenta nos matar?
Dei de ombros.
— Se eu desistisse de todo mundo que já tentou me matar, eu não teria aliados no Conselho Olimpiano.
Ela fez beicinho.
— Famílias são um saco.
— Nisso nós concordamos plenamente — falei.
Josephine olhou para o lado e me viu.
— Ele está aqui!
Ela se aproximou correndo, segurou meu punho e me arrastou na direção do sofá.
— Nós estávamos esperando! Por que você demorou tanto? Temos que usar o trono!
Engoli um comentário mordaz.
Seria legal ouvir Obrigada, Apolo, por libertar todos esses prisioneiros! Obrigada por trazer nossa filha de volta! Ela poderia ao menos ter decorado o salão com algumas faixas dizendo APOLO É O MÁXIMO ou oferecido tirar o grilhão de ferro desconfortável do meu tornozelo.
— Vocês não precisavam ter me esperado — reclamei.
— Precisávamos, sim — disse Josephine. — Todas as vezes que tentamos colocar Georgie no trono, ela se debateu e gritou seu nome.
A cabeça de Georgie se virou para mim.
— Apolo! Morte, morte, morte.
Fiz uma careta.
— Eu queria muito que ela parasse de fazer essa associação.
Emmie e Josephine a levantaram delicadamente e a colocaram no Trono de Mnemosine. Dessa vez, a menina não resistiu.
Caçadoras curiosas e prisioneiros libertados se reuniram, embora eu tenha reparado que Meg ficou no fundo da sala, bem longe de Georgina.
— O bloquinho na bancada! — Emmie apontou para a cozinha. — Alguém pegue, por favor!
Calipso fez as honras. Voltou correndo com um pequeno bloco de folhas amarelas e uma caneta.
O corpo de Georgina oscilou. De repente, todos os músculos dela pareceram derreter. Ela teria caído da cadeira se as mães não a tivessem segurado.
Então, ela se sentou ereta. Ofegou. Os olhos se abriram, as pupilas do tamanho de moedas. Fumaça preta saiu pela boca. O cheiro rançoso, uma mistura de piche fervendo e ovos podres, fez todo mundo recuar, exceto a dracaena, Sssssarah, que farejou com fome.
Georgina inclinou a cabeça. Saiu fumaça por entre os tufos castanhos de cabelo, como se ela fosse um autômato ou uma blemmyae com a cabeça defeituosa.
— Pai!
A voz dela perfurou meu coração, tão estridente e dolorosa que achei que minha bandoleira de bisturis tivesse se virado para dentro. Era a mesma voz, o mesmo grito que ouvi milhares de anos atrás, quando Trofônio orou em sofrimento, pedindo que eu salvasse Agamedes do túnel desabado sobre o irmão.
A boca de Georgina se contorceu em um sorriso cruel.
— Então você finalmente ouviu minha oração?
A voz dela ainda era a de Trofônio. Todo mundo no salão olhou para mim. Até Agamedes, que não tinha olhos, pareceu me dirigir um olhar fulminante.
Emmie tentou tocar no ombro de Georgina, mas puxou a mão de volta, como se a pele da garotinha estivesse fervendo.
— Apolo, o que é isso? — perguntou Emmie. — Não é uma profecia. Isso nunca aconteceu...
— Você mandou minha irmãzinha resolver suas pendências por você, é? — Georgina bateu no próprio peito, os olhos arregalados e escuros, ainda me encarando. — Você é tão ruim quanto o imperador.
Senti como se um elefante com cota de malha estivesse de pé no meu peito. Minha irmãzinha? Se ele estivesse falando literalmente, então...
— Trofônio. — Eu mal conseguia falar. — Eu... eu não mandei Georgina. Ela não é minha...
— Amanhã de manhã — disse Trofônio. — A caverna só vai estar acessível na primeira luz da manhã. Sua profecia vai virar realidade... ou a do imperador. Seja como for, não vai poder se esconder no seu pequeno refúgio. Venha você, em pessoa. Traga a garota, sua senhora. Vocês dois vão entrar na minha caverna sagrada.
Uma gargalhada horrível saiu da boca de Georgina.
— Talvez vocês dois sobrevivam. Ou será que terão o mesmo destino que meu irmão e eu? Eu me pergunto, Pai, para quem você vai orar.
Com um último arroto de fumaça preta, Georgina caiu para o lado. Josephine a segurou antes que ela batesse no chão.
Emmie correu para ajudar. Juntas, elas colocaram Georgie no sofá com delicadeza, em meio a cobertores e travesseiros.
Calipso se virou para mim com o bloco em branco nas mãos.
— Me corrija se eu estiver errada — disse ela —, mas aquilo não foi uma profecia. Foi um recado para você.
Todos me olharam, o que fez meu rosto coçar. Era a mesma sensação que eu tinha quando um vilarejo grego inteiro olhava para o céu e clamava meu nome, pedindo chuva, e eu ficava constrangido demais para explicar que aquilo era, na verdade, departamento de Zeus. O máximo que eu podia fazer era oferecer a eles uma música nova, daquelas bem chiclete.
— Você está certa — falei, embora me doesse concordar com a feiticeira. — Trofônio não deu uma profecia à garota. Deu a ela uma... uma mensagem me dando um oi.
Emmie andou na minha direção, os punhos fechados.
— Ela vai ficar boa? Quando uma profecia é expelida no Trono da Memória, o requerente normalmente volta ao normal em alguns dias. Georgie... — A voz dela falhou. — Ela vai voltar a ficar bem?
Eu queria dizer que sim. Antigamente, a taxa de requerentes de Trofônio que se recuperavam era em torno de setenta e cinco por cento. E isso quando eles eram devidamente preparados pelos sacerdotes, os rituais eram respeitados e a profecia era interpretada no trono logo após a visita à caverna do terror. Georgina procurou a caverna sozinha com pouca ou nenhuma preparação. Ficou presa com aquela loucura e aquelas trevas por semanas.
— Eu... eu não sei — admiti. — Temos que torcer para...
— Temos que torcer? — perguntou Emmie.
Josephine segurou a mão dela.
— Georgie vai melhorar. Tenha fé. É melhor do que esperança.
Mas os olhos dela se fixaram em mim por tempo demais, me acusando, me questionando. Rezei para ela não pegar a submetralhadora.
Leo pigarreou. O rosto dele estava perdido na sombra da máscara de solda levantada, o sorriso aparecendo e sumindo como o gato da Alice.
— Hã... e aquele irmãzinha? Se Georgie é irmã de Trofônio, isso quer dizer...? — Ele apontou para mim.
Nunca na vida desejei tanto ser um blemmyae. Tudo que eu queria era esconder o rosto na camisa. Queria arrancar a cabeça e jogar do outro lado da sala.
— Eu não sei!
— Explicaria muita coisa — arriscou Calipso. — Por que Georgina se sentiu tão sintonizada com o Oráculo, por que conseguiu sobreviver à experiência. Se você... quer dizer... não Lester, mas Apolo é o pai dela...
— Ela tem pais. — Josephine passou o braço pela cintura de Emmie. — Nós estamos bem aqui.
Calipso levantou as mãos, pedindo desculpas.
— Claro. Eu só quis dizer...
— Sete anos — interrompeu Emmie, acariciando a testa da filha. — Nós a criamos pelos últimos sete anos. Em momento algum fez diferença para nós de onde ela veio, nem quem eram os pais biológicos. Quando Agamedes a trouxe... nós procuramos anúncios nos jornais. Verificamos os casos na polícia. Mandamos mensagens de Íris para todos os nossos contatos. Ninguém tinha dado como desaparecida uma bebê com as descrições dela. Os pais biológicos não a queriam, ou não podiam criá-la... — Ela fez cara feia para mim. — Ou talvez nem soubessem que ela existia.
Tentei me lembrar. Fiz de tudo. Mas se o deus Apolo teve um breve romance com uma moradora, ou até morador, do Meio-Oeste oito anos antes, eu não tinha recordação alguma. Pensei em Wolfgang Amadeus Mozart, que também chamou minha atenção quando tinha sete anos. Todo mundo dizia Ele só pode ser filho de Apolo! Os outros deuses me procuraram querendo confirmação, e eu queria tanto dizer sim, a genialidade daquele garoto é toda minha!, mas não conseguia me lembrar de ter conhecido a mãe de Wolfgang. Nem o pai.
— Georgina tem ótimas mães — falei. — Se ela é filha de... de Apolo... Me desculpem, eu não tenho como saber.
— Você não tem como saber — repetiu Josephine secamente.
— M-mas eu acho mesmo que ela vai se curar. A mente dela é forte. Ela arriscou a vida e a sanidade para nos transmitir aquela mensagem. O melhor que podemos fazer agora é seguir as instruções do oráculo.
Josephine e Emmie trocaram olhares que diziam Ele é um canalha, mas tem coisa demais acontecendo nas nossas vidas agora. Vamos deixar para matá-lo depois.
Meg McCaffrey cruzou os braços. Até ela pareceu sentir a sabedoria na mudança de assunto.
— Então vamos ao amanhecer?
Com dificuldade, Josephine se concentrou nela, provavelmente se perguntando de onde Meg tinha aparecido de repente. (Eu tinha esse pensamento com frequência.)
— Sim, querida. É a única hora em que dá para entrar na Caverna das Profecias.
Suspirei por dentro. Primeiro, foi o zoológico ao amanhecer. Depois, o Canal Walk ao amanhecer. Agora, a caverna. Eu queria muito que as missões perigosas pudessem começar em um horário mais razoável, tipo às três da tarde.
Um silêncio desconfortável se espalhou pela sala. Georgina dormia, a respiração irregular. Nos ninhos, os grifos eriçaram as penas. Jamie estalou os dedos, pensativo.
Finalmente, Thalia Grace deu um passo à frente.
— E o resto da mensagem: “Sua profecia vai virar realidade... ou a do imperador. Não vai poder se esconder no seu pequeno refúgio”?
— Não sei — admiti.
Leo levantou os braços.
— Um viva para o deus das profecias!
— Ah, cala a boca — resmunguei. — Ainda não tenho informações suficientes. Se sobrevivermos à caverna...
— Eu sei interpretar essa parte — disse Litierses da cadeira no canto.
O filho de Midas se virou para encarar as pessoas, as bochechas um mapa de cicatrizes e hematomas, os olhos vazios e desolados.
— Graças aos dispositivos de rastreamento que coloquei nos seus grifos, Cômodo sabe onde vocês estão. Vai estar aqui amanhã bem cedo. E vai apagar este lugar do mapa.

3 comentários:

  1. Carlos Daniel Souza10 de maio de 2017 19:07

    Que filho adorável!

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  2. Mas geeeeeente, Apolo cheio de surpresas. Não confio no fantasma.

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Boa leitura :)