22 de maio de 2017

Capítulo 28 - Ladrões no castelo

Eragon acordou de sua soneca e viu um pôr-do-sol dourado. Raios vermelhos e alaranjados invadiam o quarto e caíam em cima da cama. Aqueciam as suas costas de modo prazeroso, fazendo-o relutar em se mover. Cochilou, mas os raios saíram de cima dele, e ficou com frio. O sol se escondeu atrás do horizonte, colorindo o mar e o céu. Está quase na hora!
Ele jogou o arco e sua aljava nas costas, mas deixou Zar’roc no quarto, a espada só o deixaria mais lento, além de não sentir vontade de usá-la. Se ele tivesse de deter alguém, o faria usando magia ou uma flecha. Jogou um casaco curto em cima da camisa e amarrou-o firmemente.
Esperou nervosamente em seu quarto até que a luz desaparecesse. Entrou no corredor e levantou os ombros, para que a aljava se assentasse confortavelmente em suas costas. Brom juntou-se a ele, carregando sua espada e seu cajado.
Jeod, vestindo um gibão preto e um meião, esperava por eles do lado de fora. De sua cintura pendia um elegante espadim e uma bolsa de couro. Brom olhou para o espadim e disse:
— Esse graveto é fino demais para uma briga de verdade. O que você fará se alguém for atrás de você empunhando uma espada de folha larga ou um espadão?
— Seja realista — disse Jeod. — Nenhum dos guardas usa espadão. Além disso, este graveto é muito mais rápido do que uma espada de folha larga.
Brom deu de ombros.
— A vida é sua.
Andaram de modo casual pela rua, evitando vigias e soldados.
Eragon estava tenso e seu coração batia forte. Quando passaram pela loja de Angela, um movimento rápido no telhado chamou a atenção dele, mas não viu ninguém. A palma de sua mão formigava. Olhou para o telhado de novo, mas não havia nada por lá.
Brom guiou-os junto à muralha de Teirm. Quando chegaram ao castelo, o céu estava negro. Os muros fechados da fortaleza fizeram Eragon tremer. Odiaria ter de ficar preso lá. Jeod tomou a dianteira silenciosamente e andou até os portões, tentando parecer relaxado. Bateu no portão e esperou.
Uma portinhola abriu-se, e um guarda mal-encarado olhou para fora.
— Quem é? — rosnou. Eragon podia sentir o cheiro da bebida no hálito dele.
— Nós precisamos entrar — disse Jeod.
O guarda examinou Jeod mais atentamente.
— Para fazer o quê?
— O rapaz esqueceu algo muito valioso na minha sala. Precisamos pegá-lo imediatamente. — Eragon baixou a cabeça, envergonhado.
O guarda fez uma cara feia, claramente impaciente para voltar à sua garrafa.
— Ah, não importa — disse ele balançando o braço. — Basta dar uma boa sova no moleque por mim.
— Farei isso — afirmou Jeod quando o guarda destrancou a pequena porta que havia no portão. Entraram no pátio, e Brom deu algumas moedas ao guarda.
— Obrigado — resmungou o homem, afastando-se cambaleante. Assim que ele estava longe, Eragon pegou seu arco e esticou-o. Jeod levou-os rapidamente até a parte principal do castelo. Correram até o seu destino, prestando atenção nos guardas que poderiam estar fazendo patrulha. Na sala dos registros, Brom tentou abrir a porta. Estava trancada. Encostou a mão nela e balbuciou uma palavra que Eragon não reconheceu.
Ela abriu-se com um clique fraco. Brom pegou uma tocha da parede e eles entraram correndo, fechando a porta silenciosamente.
O cômodo apertado estava repleto de estantes de madeira cheias de pergaminhos. Havia uma janela fechada por barras na parede oposta. Jeod costurou seu caminho por entre as estantes, passando os olhos nos pergaminhos. Parou nos fundos do cômodo.
— Aqui — disse ele. — Estes são os registros de embarque dos últimos cinco anos. Posso ver isso pela data impressa na cera do lacre.
— E o que faremos agora? — perguntou Eragon satisfeito por terem avançado tanto sem terem sido descobertos até agora.
— Comecem de cima para baixo — disse Jeod. — Alguns pergaminhos falam apenas de impostos. Podemos ignorá-los. Procurem qualquer coisa que fale de óleo de Seithr. — Ele pegou um pedaço de pergaminho em sua bolsa e esticou-o no chão. Depois, pôs uma pena e um pote de tinta do lado dele. — Assim, não perderemos de vista o que descobrirmos — explicou.
Brom abraçou o máximo de pergaminhos que podia do topo da pilha e colocou-os no chão. Sentou-se e desenrolou o primeiro. Eragon juntou-se a ele, posicionando-se de modo que pudesse ver a porta.
Aquele trabalho entediante era particularmente difícil para ele, pois as letras apertadas dos pergaminhos eram bem diferentes das que Brom ensinou a ele.
Só de olhar os nomes dos navios que foram para as regiões ao norte, descartaram muitos pergaminhos. Mesmo assim, desciam lentamente a pilha da estante, acompanhando cada carregamento de óleo de Seithr que achavam.
Estava tudo calmo do lado de fora do cômodo, exceto por um vigia que passava ocasionalmente. De repente, os pelos na nuca de Eragon ficaram em pé. Tentou continuar trabalhando, mas aquela sensação perturbadora continuou. Irritado, ele olhou para cima e jogou-se para trás, surpreso, pois havia um menininho agachado no peitoril da janela. Seus olhos eram um pouco vesgos e um ramo de azevinho estava trançado em seus cabelos pretos despenteados.
Você precisa de ajuda? Uma voz perguntou na cabeça de Eragon. Seus olhos arregalaram-se, chocados. Parecia Solembum.
É você?, perguntou ele, incrédulo.
Quem mais poderia ser?
Eragon engoliu em seco e concentrou-se no pergaminho.
Se meus olhos não me enganam, é você mesmo.
O garoto sorriu levemente, revelando seus dentes pontudos.
A minha aparência não muda quem eu sou. Você não acha que eu me chamo menino-gato à toa, não é?
O que você está fazendo aqui?
O menino-gato jogou a cabeça para a frente, pensando se aquela pergunta merecia uma resposta.
Vai depender do que você estiver fazendo aqui. Se estiver lendo esses pergaminhos por pura distração, não vejo nenhum motivo para a minha visita. Mas se o que você está fazendo for ilegal e se não quiser ser descoberto, eu poderia muito bem avisá-lo de que o guarda que vocês subornaram acabou de falar sobre vocês ao superior dele e que esse outro guarda do Império mandou alguns soldados procurarem vocês.
Muito obrigado por me contar, disse Eragon.
Eu contei alguma coisa a você? Suponho que tenha contado. E sugiro que faça uso disso.
O garoto ficou em pé e jogou para trás seus cabelos rebeldes. Eragon perguntou rapidamente:
O que você quis dizer da última vez com uma árvore e um cofre?
Exatamente aquilo que eu disse.
Eragon tentou perguntar mais, no entanto o menino-gato desapareceu na janela. Ele afirmou de repente:
— Os guardas estão nos procurando.
— Como sabe disso? — perguntou Brom agressivamente.
— Ouvi o guarda. A rendição dele mandou soldados nos procurarem. Precisamos sair daqui. Eles já devem ter descoberto que a sala de Jeod está vazia.
— Tem certeza? — perguntou Jeod.
— Tenho! — disse Eragon impaciente. — Eles estão vindo.
Brom pegou outro pergaminho da estante.
— Não importa. Precisamos terminar isso agora! — Eles trabalharam intensamente no minuto seguinte, examinando os registros o mais rápido que podiam. Quando o último pergaminho foi visto, Brom voltou a jogá-lo na pilha, e Jeod enfiou seu pergaminho, sua tinta e sua pena na bolsa. Eragon pegou a tocha.
Saíram correndo da sala e fecharam a porta, mas assim que fizeram isso, ouviram as pisadas fortes das botas dos soldados no final do corredor. Viraram-se para sair, mas Brom sussurrou furiosamente:
— Maldição! Não está trancada. — Ele encostou a mão na porta. A fechadura fez um clique no mesmo instante em que os soldados ficaram à vista deles.
— Ei! Afaste-se dessa porta! — um deles gritou. Brom deu um passo atrás, fazendo uma expressão de surpresa. Três homens marcharam até eles. O mais alto deles ordenou:
— Por que estão tentando entrar na sala dos registros? — Eragon agarrou seu arco com força e preparou-se para correr.
— Temo que estejamos perdidos. — A tensão estava evidente na voz de Jeod. Uma gota de suor correu pelo seu pescoço.
O soldado olhou para eles desconfiados.
— Vejam dentro da sala — ordenou ele para um de seus homens. Eragon prendeu a respiração quando o soldado se aproximou da porta, tentou abri-la e bateu nela com seu punho protegido por uma armadura.
— Está trancada, senhor.
O líder coçou o queixo.
— Tudo bem. Não sei o que vocês tramavam, mas já que a porta está fechada, vocês podem ir. Venham. — Os soldados os cercaram e marcharam de volta até o pátio.
Não acredito nisso, pensou Eragon. Eles estão nos ajudando a sair!
No portão principal, o soldado apontou e disse:
— Agora, podem sair e não tentem fazer mais nada assim. Estaremos vigiando. Se tiverem que voltar, esperem até amanhecer.
— Claro — prometeu Jeod.
Eragon podia sentir os olhos dos soldados perfurando suas costas ao saírem depressa do castelo. Assim que os portões se fecharam atrás deles, um sorriso triunfante tomou conta de seu rosto e ele deu um pulo no ar.
Brom lançou-lhe um olhar de reprovação e fechou o rosto.
— Volte andando para casa normalmente. Poderá comemorar lá.
Censurado, Eragon adotou uma conduta mais sossegada, mas borbulhava de energia por dentro. Assim que eles entraram correndo em casa e na sala de leitura, Eragon exclamou:
— Nós conseguimos!
— De fato, mas agora temos de ver se o risco valeu a pena — disse Brom. Jeod pegou um mapa da Alagaësia da prateleira e o esticou na mesa.
No lado esquerdo do mapa, o oceano se alastrava até o oeste desconhecido. Junto com a costa, estendia-se a Espinha, uma imensa extensão de montanhas. O deserto Hadarac enchia o centro do mapa, a parte leste estava em branco. Em algum lugar naquele vazio, os Varden escondiam-se. Ao sul ficava Surda, uma pequena região que cortou relações com o Império depois da queda dos Cavaleiros. Disseram a Eragon que Surda apoiava os Varden secretamente.
Perto da fronteira leste de Surda havia uma cordilheira chamada montanhas Beor. Eragon ouviu falar delas em muitas histórias, deviam ser dez vezes mais altas do que as da Espinha, embora ele achasse que isso era um exagero. O mapa estava vazio ao leste das montanhas Beor.
Cinco ilhas ficavam perto da costa de Surda: Nía, Parlim, Uden, Illium e Beirland. Nía não era nada mais do que um pedaço de formação rochosa, mas Beirland, a maior ilha de todas, tinha vilarejo. Mais para cima, perto de Teirm, havia uma ilha irregular chamada Dente de Tubarão. E para o alto, ao norte, havia mais uma ilha, imensa, que tinha a forma de uma mão nodosa. Eragon sabia o nome dela de cor: Vroengard, o lar ancestral dos Cavaleiros, que já foi um local de glórias, mas que agora não era mais do que uma casca vazia e saqueada, assombrada por feras estranhas. No centro de Vroengard, ficava a cidade abandonada de Dorú Areaba.
Carvahall era um pequeno ponto no topo do vale Palancar. No mesmo nível dela, mas além das planícies, ficava a floresta Du Weldenvarden. Como as montanhas Beor, suas fronteiras ao leste não eram mapeadas. Partes da fronteira oeste de Du Weldenvarden contavam com alguns povoados, mas seu centro continuava misterioso e inexplorado. A floresta era mais selvagem do que a Espinha. Os poucos que ousavam entrar em suas entranhas quase sempre voltavam loucos ou, simplesmente, não voltavam mais.
Eragon tremeu ao ver Uru’baen no centro do Império. O rei Galbatorix reinava de lá com o dragão negro, Shruikan, a seu lado. Eragon pôs o dedo em cima de Uru’baen.
— Os Ra’zac, com certeza, devem ter um esconderijo aqui.
— É melhor torcer para que esse não seja o único refúgio deles — disse Brom sem rodeios. — Caso contrário, nunca mais chegará perto deles. — Esticou o mapa com suas mãos enrugadas. Jeod tirou o pergaminho de sua bolsa e disse:
— Pelo que vi nos registros, houve envio de óleo de Seithr para todas as cidades principais do Império nos últimos cinco anos. Pelo que me consta, os pedidos devem ter sido feitos por ricos joalheiros. Não sei como podemos restringir a lista sem mais informações.
Brom correu a mão por cima do mapa.
— Acho que podemos eliminar algumas cidades. Os Ra’zac têm de viajar para onde o rei queira, e sei que ele os mantêm ocupados. Se precisam estar prontos para partirem para qualquer lugar, a qualquer momento, o único local razoável onde deviam ficar seria em um ponto central onde poderiam ir facilmente para qualquer parte do país. — Ele agora estava animado e andava pelo cômodo. — Esse ponto central tem de ser grande o bastante para que os Ra’zac não levantem suspeitas. E também deve fazer bastante comércio, para que pedidos incomuns, como o alimento especial para as suas montarias, por exemplo, passem despercebidos.
— Isso faz sentido — disse Jeod, concordando com a cabeça. — Seguindo esse raciocínio, podemos eliminar a maioria das cidades ao norte. As únicas grandes são Teirm, Gil’ead e Ceunon. Sei que não estão em Teirm e duvido que o óleo tenha sido enviado costa acima até Narda, pois é pequena demais. Ceunon é muito isolada... Assim resta apenas Gil’ead.
— Os Ra’zac devem estar lá — admitiu Brom. — Seria uma certa ironia.
— Seria, sim — aquiesceu Jeod baixinho.
— E quanto às cidades ao sul? — perguntou Eragon.
— Bem — começou Jeod —, claro, há Uru’baen, mas não é um destino provável. Se alguém morresse por causa de óleo de Seithr na corte do rei Galbatorix, seria fácil demais para um conde, ou outro nobre, descobrir que o Império estava comprando grandes quantidades disso. Ainda assim há muitas outras, qualquer uma pode ser a que queremos.
— É — disse Eragon —, mas o óleo não foi enviado para todas elas. O pergaminho lista apenas Kuasta, Dras-Leona, Aroughs e Belatona. Kuasta não seria boa para os Ra’zac, pois fica na costa e é cercada por montanhas. Aroughs é isolada como Ceunon, embora seja um centro de comércio. Assim restam Belatona e Dras-Leona, que são bem próximas. Das duas, acho que a mais provável seria Dras-Leona. É maior e está melhor situada.
— E é por onde quase todos os bens do Império passaram em um momento ou outro, incluindo os de Teirm — disse Jeod. — Seria um bom lugar para os Ra’zac se esconderem.
— Então... Dras-Leona — disse Brom, ao se sentar e acender o cachimbo. — O que os registros mostram?
Jeod consultou o pergaminho.
— Aqui está. No começo do ano, três carregamentos de óleo de Seithr foram enviados para Dras-Leona. Foram feitos em um espaço de apenas duas semanas um do outro, e os registros mostram que foram transportados pelo mesmo comerciante. O mesmo aconteceu no ano passado e no ano retrasado. Duvido que qualquer joalheiro, ou até mesmo um grupo deles, teria dinheiro bastante para comprar tanto óleo.
— E quanto a Gil’ead? — perguntou Brom, levantando uma sobrancelha.
— A cidade não tem o mesmo acesso ao resto do Império. E — Jeod bateu no pergaminho — eles só receberam o óleo duas vezes nesses últimos anos. — Pensou por um instante e disse: — Além disso, acho que esquecemos uma coisa: Helgrind.
Brom concordou com a cabeça.
— Ah, sim, os Portões Negros. Faz muito tempo desde que ouvi falar deles. Você tem razão, isso faria de Dras-Leona o lugar perfeito para os Ra’zac. Então, acho que está decidido: é para lá que nós vamos.
Eragon sentou-se de repente, desanimado demais para até perguntar o que era Helgrind. Achei que ficaria feliz em recomeçar a caçada, mas, em vez disso, parece que um abismo se abriu à minha frente. Dras-Leona! Fica tão longe...
O pergaminho estalava enquanto Jeod enrolava lentamente o mapa. Ele o passou para Brom e disse:
— Temo que você precisará disto. Suas expedições frequentemente levam-no a regiões obscuras. — Concordando com a cabeça, Brom aceitou o mapa. Jeod bateu no ombro dele. — Não é certo você partir sem mim. Meu coração deseja ir junto, mas o resto do meu corpo me lembra da minha idade e das minhas responsabilidades.
— Eu sei — disse Brom. — Mas você tem uma vida em Teirm. Chegou a hora da próxima geração começar a agir. Você já fez a sua parte, seja feliz.
— E quanto a você? — perguntou Jeod. — A estrada nunca terá um fim?
Uma risada vazia escapou dos lábios de Brom.
— Estou vendo o fim chegar, mas ainda não. — Ele apagou o cachimbo, e cada um foi para o seu quarto, exaustos.
Antes de dormir, Eragon contatou Saphira para relatar as aventuras da noite.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)