8 de maio de 2017

Capítulo 27

Destrua o telhado
Traga umas gatas com guinchos
Vamos dar o fora

BOM, NÃO EXATAMENTE EXPLODIU. Na verdade, o telhado desmoronou, como tetos costumam fazer quando um dragão de bronze mergulha neles. Vigas se envergaram. Rebites soltaram. Folhas de metal corrugado grunhiram e se dobraram com um estrondo.
Festus mergulhou pela abertura, abrindo as asas para diminuir a velocidade da descida. Ele não parecia muito traumatizado pelo tempo como mala, mas, a julgar pela forma como cuspiu fogo na arquibancada, achei que estava meio mal-humorado.
Centauros selvagens saíram correndo, pisoteando os mercenários mortais e os germânicos. Os blemmyae aplaudiram educadamente, talvez achando que o dragão fizesse parte do show, até uma onda de chamas os reduzir a pó. Festus deu sua volta da vitória flamejante pela pista, aproveitando para queimar uns carros, enquanto mais de dez Caçadoras de Ártemis desciam para a arena como aranhas em uma teia.
(Eu sempre achei aranhas criaturas fascinantes, apesar de Atena não ir com a cara delas. A grande verdade é que ela morre de inveja daqueles rostinhos bonitos. AHÁ!)
Algumas Caçadoras permaneceram no telhado com os arcos preparados, esperando as outras irmãs chegarem ao campo. Assim que isso aconteceu, elas puxaram os arcos, espadas e facas e se juntaram à batalha.
Alaric, junto com a maioria dos germânicos do imperador, partiu para cima delas. Enquanto isso, Meg McCaffrey tentava desesperadamente libertar Pêssego das cordas. Duas Caçadoras se aproximaram dela, e rolou uma conversa frenética, algo como: Oi, estamos do seu lado. Você vai morrer. Venha conosco.
Atordoada, Meg olhou para mim.
— VÁ! — gritei.
As Caçadoras então seguraram Meg e Pêssego e em seguida acionaram um mecanismo na lateral do cinto que as fez subir pelas cordas, como se as leis da gravidade não fossem nada de mais.
Molinetes motorizados, pensei, que acessórios legais. Se eu sobrevivesse àquele dia, ia recomendar que as Caçadoras fizessem camisetas com os dizeres GATAS COM GUINCHOS. Tenho certeza de que elas amariam a ideia.
O grupo mais próximo de Caçadoras correu em minha direção, não sem antes enfrentar alguns germânicos. Uma das Caçadoras me pareceu familiar, com cabelo preto curto e olhos azuis impressionantes. Em vez da roupa cinza habitual das seguidoras de Ártemis, ela usava calça jeans e uma jaqueta de couro preta cheia de alfinetes e patches dos Ramones e dos Dead Kennedys. Uma tiara prateada cintilava na testa. Ela brandia um escudo com o rosto horrendo da Medusa, não o real, eu desconfiava, pois esse teria me transformado em pedra, mas uma réplica boa o bastante para fazer até os germânicos se encolherem e recuarem.
O nome da garota me ocorreu: Thalia Grace. A tenente de Ártemis, líder das Caçadoras, foi me salvar pessoalmente.
— Salvem Apolo! — gritou ela.
Meu ânimo foi às alturas.
Sim, obrigado!, eu queria gritar. FINALMENTE estão me dando o devido valor!
Senti por um momento como se o mundo estivesse de volta à ordem normal.
Cômodo suspirou, irritado.
Nada disso estava programado para acontecer nos meus jogos. — Ele olhou ao redor, aparentemente se dando conta de que suas ordens só seriam seguidas por Litierses e dois guardas. O restante já estava no meio da batalha. — Litierses, vá para lá! — mandou ele. — Segure as Caçadoras enquanto eu me troco. Não posso lutar com roupa de corrida. Seria ridículo!
O olhar de Lit vacilou.
— Sire... você tinha me dispensado e ia... me matar?
— Ah, é. Bom, então vá se sacrificar! Mostre que é mais útil do que aquele seu pai idiota! Sinceramente, Midas tinha o toque de ouro, mas mesmo assim não conseguia fazer nada certo. E você não é melhor do que ele!
A pele ao redor do hematoma de avestruz de Litierses ficou vermelha, como se a ave ainda estivesse de pé na cara dele.
— Sire, com todo o respeito...
A mão de Cômodo atacou com a rapidez de uma cobra e segurou o pescoço do espadachim.
Respeito? — sibilou o imperador. — Você quer falar comigo sobre respeito?
Flechas voaram na direção dos guardas restantes. Os dois germânicos caíram com lindos piercings nasais novos feitos de penas prateadas.
Um terceiro disparo voou na direção de Cômodo. O imperador usou Litierses como escudo, a ponta da flecha atravessando a coxa direita do homem.
O espadachim gritou.
Cômodo o largou com repugnância.
— Eu mesmo vou ter que matar você? Sério? — Ele levantou a faca.
Alguma coisa dentro de mim, sem dúvida uma falha de personalidade, me fez sentir pena do capanga.
— Lívia — falei.
A elefanta entendeu, dando uma trombada na parte de trás da cabeça de Cômodo, que caiu de cara no chão. Litierses pegou sua espada e enfiou a ponta no pescoço do imperador.
Cômodo berrou e apertou o ferimento. Pela quantidade de sangue, deduzi que o corte infelizmente não tinha acertado a jugular.
Os olhos de Cômodo arderam de ódio.
— Ah, Litierses, seu traidor. Vou matar você lentamente por causa disso.
Mas não era para ser.
O germânico mais próximo, vendo o imperador sangrando no chão, correu para ajudá-lo. Lívia pegou Litierses e nos levou para longe enquanto os bárbaros se posicionaram ao redor de Cômodo, formando um escudo humano, as lanças apontadas para nós. Estavam prontos para fazer picadinho da gente, mas uma chama zuniu entre os dois grupos, e Festus pousou ao lado de Lívia. Os germânicos recuaram rapidamente enquanto Cômodo gritava:
— Me coloquem no chão! Preciso matar aquelas pessoas!
— E aí, Lesteropoulos? — disse Leo, montado em Festus. — Jo recebeu seu alerta de emergência e mandou a gente voltar na mesma hora.
Thalia Grace e duas Caçadoras se aproximaram.
— Precisamos sair daqui imediatamente, ou vamos ser derrotados. — Ela apontou para um dos extremos do gramado, onde os sobreviventes da volta da vitória incandescente de Festus estavam começando a se organizar para o ataque: uma centena de centauros variados, cinocéfalos e semideuses do Lar Imperial.
Olhei para as laterais. Havia uma rampa larga que levava à arquibancada mais baixa, e talvez desse para um elefante passar por ali.
— Não vou deixar Lívia para trás. Levem Litierses. E peguem o Trono da Memória. — Tirei a cadeira das costas, dando graças aos deuses por ela ser tão leve, e a joguei para Leo. — Esse trono precisa ser levado até Georgie. Vou montado em Lívia por uma das saídas dos mortais.
A elefanta colocou Litierses na grama. Ele grunhiu e apertou a pele em torno da flecha na perna.
Leo franziu a testa.
— Hã, Apolo...
— Leo, já falei que não vou deixar esta nobre elefanta para trás para ser torturada! — insisti.
— Não, isso eu saquei. — Leo apontou para Lit. — Mas por que vamos levar este idiota com a gente? Ele tentou me matar em Omaha. Ameaçou Calipso no zoológico. Não posso só deixar Festus pisar nele?
— Não! — Eu não entendia por que fazia tanta questão de ajudar Litierses. Ver Cômodo trair seu capanga me deixou quase tão furioso quanto ver Nero manipulando Meg, ou... Bom, sim, Zeus me abandonando no mundo mortal pela terceira vez. — Ele precisa ser curado. Você vai se comportar, não vai, Lit?
O homem fez uma careta de dor, o sangue encharcando a calça jeans destruída, mas conseguiu assentir de leve.
Leo suspirou.
— Tudo bem, cara. Festus, o idiota sangrento vai com a gente, tá? Mas se ele der uma de espertinho durante o caminho, fique à vontade para jogá-lo em um arranha-céu.
Festus estalou em concordância.
— Eu vou com Apolo. — Thalia Grace subiu atrás de mim na elefanta, realizando uma fantasia minha com a bela Caçadora, embora eu não tivesse imaginado que aconteceria daquela forma. Ela assentiu para uma das colegas. — Ifigênia, tire as outras Caçadoras daqui. Vá!
Leo sorriu e prendeu o Trono de Mnemosine nas costas.
— Vejo vocês em casa. E não se esqueçam de comprar molho!
Festus bateu as asas metálicas, pegou Litierses e levantou voo. As Caçadoras ativaram os guinchos e subiram bem quando a primeira onda de espectadores furiosos chegava ao campo, jogando lanças e vuvuzelas, que caíram com estalos no chão.
Quando as Caçadoras se foram, a multidão se voltou para mim e minha amiga elefanta.
— Lívia — falei. — Você é rápida?

* * *

A resposta: rápida o bastante para fugir de uma multidão armada, principalmente com Thalia Grace nas costas, disparando flechas e exibindo o escudo de terror para qualquer um que chegasse perto demais.
Lívia parecia conhecer todos os corredores e rampas do estádio. Tinham sido feitos para comportar multidões, o que os tornava igualmente convenientes para elefantes. Contornamos alguns quiosques, disparamos por um túnel de serviço e finalmente saímos em uma plataforma de carga e descarga na Rua South Missouri.
Eu tinha esquecido como a luz do sol era maravilhosa! O ar fresco e limpo de um dia de inverno!
Claro que não era tão revigorante quanto pilotar a carruagem do Sol, mas era uma visão bem melhor do que os esgotos infestados de cobras do Palácio Cômodo.
Lívia desceu pela Rua Missouri, virou no primeiro beco que encontrou, parou e se sacudiu. Eu entendi perfeitamente a mensagem dela: Tirem essa cota de malha idiota de mim.
Eu traduzi para Thalia, que botou o arco nas costas.
— Eu não a culpo. Pobre elefanta. Mulheres guerreiras têm que viajar com pouca bagagem.
Lívia levantou a tromba como quem diz “obrigada”.
Passamos os dez minutos seguintes tirando a armadura da elefanta.
Quando terminamos, Lívia usou a tromba para nos dar um abraço.
Minha onda de adrenalina estava passando, fazendo com que eu me sentisse um balão murcho. Sentei apoiado na parede de tijolos, tremendo de frio e com as roupas úmidas.
Thalia tirou um cantil do cinto. Em vez de oferecer primeiro para mim, como teria sido apropriado, ela virou o líquido na mão em concha e deixou Lívia beber. A elefanta tomou cinco mãos cheias, não muito para um animal grande, mas piscou e grunhiu, satisfeita. Thalia tomou um gole e passou o cantil para mim.
— Obrigado — murmurei.
Bebi, e minha visão ficou clara na mesma hora. Parecia que eu tinha dormido seis horas e feito uma refeição deliciosa.
Olhei impressionado para o cantil.
— O que é isso? Não é néctar...
— Não — concordou Thalia. — É água da lua.
Eu trabalhava com as Caçadoras de Ártemis havia milênios, mas nunca tinha ouvido falar de água da lua. Eu me lembrei da história de Josephine sobre bares clandestinos nos anos 1920.
— Nunca ouvi falar. É uma bebida alcoólica?
Thalia riu.
— Não. Não é alcoólico, mas é mágico. Lady Ártemis nunca contou para você sobre isso, é? É tipo um energético para Caçadoras. Os homens raramente experimentam.
Virei um pouquinho na palma da mão. Parecia água normal, talvez um pouco mais prateada, como se tivesse alguns traços de mercúrio líquido.
Pensei em tomar outro gole, mas fiquei com medo de fazer meu cérebro vibrar a ponto de se liquefazer. Devolvi o cantil.
— Você... Você falou com a minha irmã?
A expressão de Thalia ficou séria.
— Em um sonho, algumas semanas atrás. Lady Ártemis disse que Zeus a proibiu de ver você. Ela não pode nem mandar as Caçadoras ajudarem você.
Eu já desconfiava disso, mas confirmar meus medos teria me deixado transtornado se não fosse a água da lua. A energia da bebida mágica conseguiu abafar qualquer emoção mais profunda. Meus sentimentos eram bolas de feno vagando pelo deserto.
— Você não pode me ajudar — falei. — Mas ainda assim está aqui. Por quê?
Thalia deu um sorriso tímido que deixaria Britomártis orgulhosa.
— Nós estávamos aqui perto. Ninguém nos mandou ajudar. Nós estamos procurando um monstro específico há semanas, e... — Ela hesitou. — Bom, isso é outra história. A questão é que nós estávamos de passagem. Ajudamos você da mesma forma que ajudaríamos qualquer semideus em perigo.
Ela não mencionou nada sobre Britomártis ter procurado as Caçadoras e pedido que viessem para cá. Eu decidi fazer o joguinho dela de vamos-fingir-que-nada-disso-aconteceu.
— Posso adivinhar outro motivo? — perguntei. — Acho que você me ajudou porque gosta de mim.
O canto da boca de Thalia tremeu.
— E por que você acha isso?
— Ah, por favor. Quando nos vimos pela primeira vez, você disse que eu era lindo. Não pense que não ouvi aquele comentário.
O rosto dela ficou vermelho, o que me deixou orgulhoso.
— Eu era mais nova na época — disse ela. — Era uma pessoa diferente. Tinha acabado de passar vários anos como um pinheiro. Minha visão e meu raciocínio estavam danificados pela seiva.
— Nossa — reclamei. — Que cruel.
Thalia deu um soco no meu braço.
— Você precisa de uma dose de humildade de vez em quando. Ártemis diz isso o tempo todo.
— Minha irmã é uma mulherzinha falsa, traiço...
— Cuidado — avisou Thalia. — Eu sou tenente dela, não esqueça.
Cruzei os braços, petulante, o tipo de coisa que Meg faria.
— Ártemis nunca me falou sobre a água da lua. Nunca me contou sobre a Estação Intermediária. Fico pensando que outros segredos ela está escondendo de mim.
— Talvez alguns. — O tom de Thalia foi cuidadosamente distraído. — Mas só nesta semana você viu mais do que qualquer um fora as Caçadoras verá. Você teve muita sorte.
Eu observei o beco e me lembrei de quando caí em Nova York como Lester Papadopoulos. Tanta coisa tinha mudado, mas eu não estava mais perto de voltar a ser um deus. Na verdade, a lembrança de ser um deus parecia mais distante do que nunca.
— Sim — resmunguei. — Muita sorte mesmo.
— Venha. — Thalia estendeu a mão. — Cômodo não vai demorar muito para organizar uma represália. Vamos levar nossa amiga elefanta para a Estação Intermediária.

22 comentários:

  1. Carlos Daniel Souza10 de maio de 2017 18:45

    "Thalia deu um sorriso tímido que deixaria Britomártis orgulhosa.
    — Nós estávamos aqui perto. Ninguém nos mandou ajudar. Nós estamos procurando um monstro específico há semanas, e... — Ela hesitou. — Bom, isso é outra história."

    Só eu vi um espaço pra uma nova história?

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  2. Sabe Thalia, ninguém nunca vai esquecer aquele seu comentário kkkkkkkk

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    1. Kkk comentário marcante kkkk "Uau, Apolo é quente" kkk

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    2. Uau – Thalia murmurou. – Apolo é quente.
      – Ele é o deus do sol – eu disse.
      – Não foi o que eu quis dizer.
      Percy Jackson e a maldição do Titã

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    3. Apolo é quentee!! <3

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  3. AAAAAAAAAAAHHHH!! CAÇADORAS!! A GRACE QUE NÃO DESMAIA! Thalia!! Acho que quando voltar a ser deus, Apolo deveria fazer do elefante um de seus animais sagrados. Rsrsrs. Quando ele falou dos cintos com gancho e tals, só eu imaginei elas subindo igaul as Três Espiãs Demais, com aquele cinto mto loko?! Tava com saudade do Festus!

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    1. "A Grace que não desmaia" KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

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    2. Igual as três espiãs demais 😍❤ Tbm achei rsrsrs ❤

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  4. queria saber se o alabaster poderia estar entre os semideuses do lar imperial, porque seria legal ele aparecer em um dos livros regulares

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  5. Apolo é quente não será esquecido srta.Thalia

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  6. Eu acho que Apolo não vai voltar a ser um deus.

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    1. Nossa que negatividade, mas do jeito que Zeus é eu não duvido nada

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  7. As vezes o Cômodo me lembra o Negan da série The Walking Dead kk

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  8. Thalia grace😍 Tio Rick e demais

    ~MIRELLE

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  9. É errado shippar esses dois.Por zeuza que momento mais cutcut💘💖

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    1. Bem, eles são meio irmãos então sim! se bem que mitologia grega é cheia de incesto...

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    2. Nossa já tava shippando 😢 kkk Ai eu lembrei q eles são meio irmãos 😔😔😔 Porqueeee? Sério shippei pakas ❤

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  10. Mila Filha do Apolo11 de julho de 2017 15:55

    Thalia Grace, nós nunca nos esqueceremos do "Apolo é quente" kkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  11. PQ ELA VIROU CAÇADORA, AGR Q O LUKE MORREU EU POSSO SHIPPAR ELA CM APOLO

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Boa leitura :)